A Auriculoterapia na Redução da Ansiedade
INTRODUÇÃO EM AURICULOTERAPIA
1 ANSIEDADE:
Os conceitos de medo e ansiedade encontram-se frequentemente associados por partilharem características subjetivas, comportamentais, psicológicas e neurológicas, embora haja diferenças fundamentais que os separam. O medo corresponde a uma resposta de alarme, manifestando-se por um comportamento de fuga ou luta, a um perigo presente ou eminente (real ou percebido). É acompanhado por uma ativação intensa a uma ameaça imediata e identificada. A ansiedade é um estado de espírito orientado para o futuro, manifestando-se por um estado mais prolongado de tensão, preocupação e apreensão acerca de eventos futuros incertos e eventualmente negativos.
Pode existir uma sobreposição destes dois estados, com o medo mais associado à ativação autonómica de fuga ou luta, pensamentos ou raiva imediata, e a ansiedade manifestando-se por tensão muscular e vigilância, em preparação para um perigo futuro e precauções ou comportamentos evitantes. Estas manifestações são comuns às que se observam nos animais. A ansiedade corresponde ao estado do animal durante um potencial ataque predatório, e o medo reflete o estado do animal durante o contato ou o contato iminente com o predador. O medo permite-nos combater ou evitar ameaças imediatas ou perigos, enquanto a ansiedade aumenta a vigilância e melhora a nossa habilidade para identificar ameaças potenciais ou incertas, sendo ambos mecanismos evolucionários que nos ajudam a manter em segurança.
Os modelos teóricos atuais de ansiedade têm origem e baseiam-se nalguns autores do século XIX. Em 1813, Landré-Beauvais definiu a ansiedade como um “certo mal-estar, inquietude, agitação excessiva”. No final do século XIX, Freud distinguiu dois tipos de ansiedade, a ansiedade objetiva, relacionada com o meio ambiente e a ansiedade neurótica, com origem exclusiva intrapsíquica, relacionada muitas vezes com um conflito sexual reprimido e ou não resolvido. Os modelos atuais seguem duas hipóteses: a da ansiedade vista como resposta a um estímulo específico (situações, pensamentos, emoções) e a da ansiedade como resposta emocional em si, independente do estímulo. Neste âmbito, integram-se o modelo de ansiedade de Goldstein, o modelo de ansiedade traço/estado e o modelo transacional do stress de Lazarus.
2 PERTURBAÇÃO DE ANSIEDADE GENERALIZADA:
Tanto na Europa como nos Estados Unidos, as perturbações de ansiedade representam o grupo de doenças mentais mais prevalente, com uma prevalência anual de 12% e 18,1%, respetivamente, na população adulta. As perturbações de ansiedade estão relacionados com o aumento de 3 a 4 vezes do risco de desenvolver doenças cardiovasculares, independentemente do sexo, do estilo de vida, e da depressão, e o risco de mortalidade cardíaca é o dobro. Segundo o Diagnostic and Statistical Manual Of Mental Disorders 5 (DSM-5), a prevalência da Perturbação de Ansiedade Generalizada (PAG) durante 12 meses a nível mundial varia entre 0,4 a 3,6 %.
É duas vezes mais comum no sexo feminino e é a perturbação de ansiedade mais prevalente nos idosos. Na Europa, a prevalência ao longo da vida desta perturbação é de 2,8% e nos Estados Unidos é 5,1%, sendo provavelmente a que apresenta uma maior comorbilidade com outra doença mental, como a depressão, fobia específica e fobia social, perturbação de pânico e perturbações relacionadas com o consumo de substâncias. Num estudo americano, 66% dos indivíduos com PAG tinham pelo menos outra comorbilidade. A preocupação excessiva e incontrolável na maior parte dos dias durante pelo menos 6 meses é o sintoma cardinal da doença. A ambiguidade e diversidade de fontes de stress e ansiedade distinguem-na de outras perturbações de ansiedade.
Estes doentes apresentam uma distorção na sua percepção dos riscos e das ameaças, particularmente aqueles que se relacionam com a sua saúde, segurança e bem estar individual e dos seus familiares mais próximos. Habitualmente, os componentes mais frequentes da sua preocupação são as relações familiares e interpessoais, trabalho, escola, economia e saúde. A componente cognitiva pode manifestar-se através de estratégias de coping pobres, ansiedade de performance, irritabilidade, hipersensibilidade ao criticismo, dificuldade de concentração e uma autoimagem negativa. São observadas, frequentemente, manifestações somáticas sem uma base fisiológica como mudanças de apetite, náuseas, vómitos, tremores, mãos suadas, rubores, hiperventilação, tensão muscular, cefaleias, frequência cardíaca rápida ou irregular, boca seca, tontura e agitação.
Os fatores de risco para o desenvolvimento da PAG incluem o sexo feminino, estratégias de coping pobres, história familiar de perturbações do humor ou ansiosas, eventos de vida geradores de stress, suporte social fraco, status socioeconómico baixo, autoestima baixa e ser viúvo, separado ou divorciado. Indivíduos com outras doenças mentais ou certas condições médicas também apresentam um risco maior, bem como aqueles que sofreram traumatismos crânio-encefálicos, cujo risco aumenta para o dobro. Os sintomas surgem, em média, por volta dos 30 anos, embora o início seja variável e a prevalência do diagnóstico aumente proporcionalmente com a idade, diminuindo após os 60 anos. A comorbilidade com a depressão major ou outras perturbações ansiosas foi observada em diversos estudos.
Num estudo norte-americano realizado em indivíduos adultos com PAG, verificou-se que 66% tinham pelo menos outra perturbação incluindo a fobia social (23,2 a 34,4%), fobia específica (24,5 a 35,1%) e a perturbação de pânico (22,6 a 23,5%). A PAG também pode estar associada ao aumento do consumo de substâncias de abuso, perturbação de stress pós-traumático e perturbação obsessivo-compulsiva. De acordo com vários estudos, a prevalência da PAG entre doentes com alcoolismo variou entre 8,3 a 52,6%. Nos dados do National Comorbidity Study realizado nos Estados Unidos em indivíduos adultos encontrou-se uma associação entre a PAG e o uso de estimulantes (probabilidade de 2,07), cocaína (probabilidade de 2,39), alucinogénios (probabilidade de 5,09) e heroína (probabilidade de 4,27).
Num estudo norte-americano realizado em indivíduos adultos com PAG, verificou-se que 66% tinham pelo menos outra perturbação incluindo a fobia social (23,2 a 34,4%), fobia específica (24,5 a 35,1%) e a perturbação de pânico (22,6 a 23,5%). A PAG também pode estar associada ao aumento do consumo de substâncias de abuso, perturbação de stress pós-traumático e perturbação obsessivo-compulsiva. De acordo com vários estudos, a prevalência da PAG entre doentes com alcoolismo variou entre 8,3 a 52,6%. Nos dados do National Comorbidity Study realizado nos Estados Unidos em indivíduos adultos encontrou-se uma associação entre a PAG e o uso de estimulantes (probabilidade de 2,07), cocaína (probabilidade de 2,39), alucinogénios (probabilidade de 5,09) e heroína (probabilidade de 4,27).
Em três estudos internacionais observou-se que a depressão está significativamente associada a cada perturbação de ansiedade, constatando-se a maior associação com a PAG. Os doentes com depressão major e PAG tendem a ter um curso mais longo e severo da doença, com maior grau de incapacidade, associando-se a um prognóstico pior da PAG. Os doentes com PAG referem mais perturbações do sono do que os indivíduos saudáveis. Relatam uma variedade de distúrbios do sono, incluindo disfunção diurna elevada, pesadelos frequentes, bruxismo, mais sonolência diurna, maior dificuldade em levantar depois de acordar, maior percepção da necessidade de dormir mais, sono menos eficaz, qualidade subjetiva do sono reduzida e diminuição da duração do sono. As dificuldades na regulação das emoções estão relacionadas com as perturbações do sono nos doentes com PAG, assim como estas contribuem para uma maior desregulação emocional durante o dia.
Patogênese:
A etiologia da PAG ainda não se encontra bem esclarecida, mas o seu desenvolvimento parece associado a fatores biológicos, incluindo a hereditariedade, alterações nos circuitos cerebrais, fatores de desenvolvimento e características da personalidade. Kendler, numa amostra de 1033 pares de gémeos femininos, verificou que a tendência para a PAG cursar nas famílias está mais associada à partilha de fatores genéticos entre parentes do que ao ambiente familiar, cuja hereditariedade observada foi modesta, 30%. Noutro estudo efetuado em gémeos femininos e masculinos o valor foi 37,2%.
O polimorfismo do promotor de alongamento do transportador de serotonina, ou 5-HTTLPR, é a variante mais utilizada em estudos genéticos das perturbações de ansiedade e do humor, cuja presença está associada ao aumento do risco de desenvolver PAG. Foi encontrada uma associação entre o 5-HTTLPR e os traços de personalidade relacionados com a ansiedade, como o neuroticismo e o evitamento do perigo, em duas amostras onde os indivíduos com uma ou duas cópias do alelo de forma curta apresentaram mais traços de personalidade ansiosa do que os homozigóticos para o alelo de forma longa. As investigações sugerem que vários neurotransmissores implicados na modulação e regulação dos comportamentos defensivos estão na génese da PAG nomeadamente as aminas biogénicas (noradrenalina, serotonina e dopamina), aminoácidos (Ácido Gama- Aminobutírico - GABA, glicina), peptídeos (fator de libertação de corticotropina, corticotropina, colecistocinina) e esteróides (corticosterona).
Sevy verificou que a atividade noradrenérgica parece aumentada nos doentes com PAG, cujos elevados níveis de catecolaminas podem levar a uma desregulação dos adrenorecetores alph2 pré-sinápticos. Neuroimagens de doentes com PAG revelaram alterações na amígdala e no córtex pré-frontal dorsomedial. Muitas regiões cerebrais correspondentes ao circuito do medo também estão associadas à ansiedade, como o tálamo, a amígdala e o córtex cingulado anterior dorsal. Múltiplas áreas do córtex pré-frontal medial e orbital desempenham um papel na modulação da ansiedade e noutros comportamentos emocionais. Estas estruturas partilham extensas e recíprocas projeções com a amígdala.
Áreas no córtex orbital e no córtex prefrontal medial e na insula anterior participam na modulação das respostas periféricas ao stress, incluindo a frequência cardíaca, pressão arterial e secreção glucocorticoide. As atividades neuronais nestas áreas são, por sua vez, moduladas por vários sistemas de neurotransmissores que são ativados em resposta ao stress ou ameaças. Há algumas inconsistências nos estudos neurobiológicos. O volume da amígdala parece aumentado, mas surgem dúvidas quanto à sua ativação, assim como à ativação do hipocampo. Parece existir uma hipoativação do córtex prefrontal medial e do córtex cingulado anterior rostral/ subgenual.
Etkin et al encontraram evidência de uma anormalidade intra-amigdalar e o seu envolvimento numa rede de controlo executiva compensatória frontoparietal, consistente com as teorias cognitivas da PAG . Num estudo recente verificou-se um volume reduzido no giro cingulado ventricular anterior e no giro frontal inferior esquerdo, comum nas perturbações de ansiedade, independentemente da comorbilidade com a depressão, da medicação e da idade. Estes resultados corroboram os modelos neuroanatómicos das respostas fisiológicas da preocupação e do medo, e a importância do córtex cingulado anterior/ córtex prefrontal medial na mediação dos sintomas de ansiedade. Existem vários modelos cognitivos propostos para entender o desenvolvimento e manutenção da PAG.
O Modelo da Desregulação Emocional é um dos mais conhecidos e sugere que os indivíduos com PAG sentem uma excitação emocional aplicada aos eventos, particularmente os negativos, e um mau entendimento das suas emoções e atitudes mais negativas em relação a estas. Regulam mal as emoções e fazem tentativas de as diminuir ou controlar. Neste modelo, a preocupação surge como uma estratégia desajustada para lidar com as emoções.
O Modelo do Evitamento da Preocupação sugere que a preocupação inibe imagens mentais e ativações somáticas e emocionais associadas. Segundo este modelo, os indivíduos apresentam uma regulação das emoções disfuncional, mas centrada na preocupação como tentativa cognitiva de remover uma ameaça percebida, evitando simultaneamente as experiências aversivas somáticas e emocionais que ocorrem durante o processo de confrontação com o medo. No Modelo de Intolerância da Incerteza defende-se que as pessoas com PAG não toleram a incerteza nem situações ambíguas e vivem uma preocupação crónica em resposta a isso.
Os estímulos ambíguos são interpretados como ameaçadores e a preocupação serve para lidar com o medo ou evitar que esses acontecimentos ocorram. Existe, ainda, referência aos menos conhecidos Modelo Metacognitivo e Modelo Baseado na Aceitação de PAG. Szkodny et al corroboram a ideia de que os indivíduos com PAG tendem a percepcionar ameaças em estímulos neutros ou ambíguos e envolvem-se na preocupação para lidar com a ocorrência de eventos negativos e alterações na reatividade emocional. Na revisão elaborada por Moschcovich, concluiu-se que a PAG é, essencialmente, uma patologia frontal que inclui um défice na conectividade funcional entre as áreas corticais (córtex pré-frontal e córtex cingulado anterior) e a amígdala. A desregulação emocional e preocupação excessiva como estratégia de evitamento parecem ter um papel importante nas disfunções cognitivas destes doentes.
Avaliação e Diagnóstico:
Para uma avaliação completa do doente é necessário conhecer a sua história individual e familiar, incluindo doenças mentais, ideação suicida e nível de ameaça para si mesmo e para os outros. Na suspeita de uma condição médica, podem solicitar-se análises laboratoriais à urina e sangue (nível de glucose, toxicologia de substâncias de abuso, hemograma, bioquímica e função tiroideia). Para avaliar a severidade dos sintomas, existem instrumentos de medida específicos para a PAG como o Penn State Worry Questionnaire (PSWQ) e o Generalized Anxiety Disorder 7 (GAD 7). A Perturbação de Ansiedade Generalizada (PAG) foi incluída no Diagnostic and Statistical Manual Of Mental Disorders (DSM) pela primeira vez em 1980, na sua terceira edição.
Desde então, a sua definição e critérios de diagnóstico sofreram algumas alterações nas versões subsequentes – DSM III – R, DSM –IV e DSM IV TR. Na versão mais atual, DSM-5, os critérios de diagnóstico mantêm-se e incluem ansiedade e preocupação excessivas (expectativa apreensiva) relativas a diversos acontecimentos ou atividades durante a maioria dos dias de forma persistente (6 meses ou mais). Deve haver uma manifesta dificuldade no controlo dessas preocupações e a ansiedade deve estar associada à presença de três ou mais dos seguintes sintomas físicos e psicológicos: agitação; ficar facilmente fatigado; tensão muscular; irritabilidade; dificuldade de concentração; perturbação do sono. O foco da ansiedade e da preocupação não está confinado a traços de outra Perturbação da Ansiedade.
Tratamento:
O tratamento convencional da PAG é realizado com psicofármacos e psicoterapia.
Tratamento Farmacológico:
Até aos anos 80, o tratamento farmacológico da PAG consistia essencialmente nas benzodiazepinas. Devido ao abuso do seu potencial, começaram a ser exploradas outras opções terapêuticas, relegando as benzodiazepinas para terapia de curto prazo, e a buspirona e os novos antidepressivos tornaram-se os eleitos para tratamentos prolongados. No entanto, a excitação inicial em torno da buspirona diminuiu devido à sua eficácia moderada e início de ação lento.
As guidelines recentes recomendam os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS) – escitalopram, paroxetina, sertralina- ou os inibidores da recaptação da serotonina-noradrenalina (IRSN) - venlafaxina - como fármacos de primeira linha no tratamento da PAG, devido à sua eficácia e tolerabilidade demonstrada em diversos estudos randomizados e controlados. Davidson, num ensaio clínico duplo cego com o tratamento com escitalopram, verificou uma resposta de 68% após 8 semanas, comparativamente com 41% do placebo, observando boa tolerância e uma incidência de descontinuação devido a efeitos secundários semelhante ao placebo.
Os doentes que não respondem a estes fármacos podem beneficiar da utilização de antidepressivos tricíclicos, buspirona ou pregabalina. Num ensaio clínico duplo cego onde os doentes foram distribuídos aleatoriamente para receber pregabalina, lorazepam ou placebo, verificou-se que a pregabalina reduziu significativamente a pontuação da Escala de Ansiedade de Hamilton, comparada com o placebo. Foram reportados alguns efeitos secundários como sonolência e tonturas, mas não se verificou nenhum sintoma de privação após o término do tratamento, revelando que a pregabalina é efetiva, atua rapidamente e não parece evidenciar sintomas de privação como as benzodiazepinas. Atualmente, encontram-se em estudo novas formas de tratamento farmacológico.
Buoli, enfatizam a quetiapina como o fármaco com maior evidência de eficácia no tratamento da PAG, embora o seu uso a longo termo possa originar efeitos secundários metabólicos. O ácido valproico e a agomelatina também parecem ser eficazes nos doentes com PAG, mas ainda são necessários mais estudos para comprovar a sua eficácia.
Psicoterapia:
Numa meta-análise efetuada por Zhu et al, foram analisados doze estudos onde se avaliou a eficácia da psicoterapia no tratamento da PAG e verificou-se que a terapia comportamental cognitiva foi mais eficaz do que o grupo de controlo (placebo ou lista de espera), embora nalguns estudos fosse evidente o alto risco de bias, classificandose a evidência como moderada, sugerindo ser necessária mais investigação. Com efeito, apenas se encontra evidência da eficácia da psicoterapia no tratamento da PAG relativamente à terapia cognitiva-comportamental, pois a evidência demonstrada nos ensaios clínicos sobre as outras formas de psicoterapia é insuficiente para as recomendar como ferramenta terapêutica. A terapia psicodinâmica, a terapia de regulação emocional, o mindfulness e a terapia de aceitação e cometimento estão descritas na literatura, mas ainda não há evidência consistente acerca da sua eficácia.
Numa análise de treze estudos com bons desenhos e metodologias, concluiu-se que a terapia cognitivo-comportamental melhora os sintomas a curto e longo prazo nos doentes com ansiedade, verificando-se que, num deles, após a manutenção do tratamento por doze meses, foi observada uma redução drástica da comorbilidade. A resistência ao tratamento farmacológico (resposta ausente ou insuficiente) atinge aproximadamente um em cada três pacientes com perturbações de ansiedade. Na PAG, cuja sintomatologia é crónica e persistente, há poucos estudos onde se avaliem estratégias alternativas para lidar com a resistência ao tratamento.
A farmacoterapia é o tratamento de primeira linha oferecido aos doentes e, embora haja evidência da sua eficácia em diversos ensaios clínicos, incluindo sobre a sua combinação, continua a ter as suas limitações, e os seus efeitos secundários e custos elevados contribuem para diminuir a adesão terapêutica. As terapias complementares surgem, assim, como uma alternativa mais natural e económica, com efeitos secundários reduzidos e com a vantagem de se encontrarem disponíveis sem prescrição médica. Incluem exercício físico, yoga, terapia através da luz, acupunctura, fitoterapia e suplementos nutricionais (ácidos gordos ómega 3, triptofano, etc.).
O exercício físico, segundo Ravindran e Silva, é o único tratamento com evidência de nível 3 para a PAG, podendo ser considerado uma alternativa de terceira linha. Após a análise de vinte e quatro estudos, Lakhan e Vieira encontraram evidência de que os suplementos alimentares contendo extratos de flor de maracujá (passiflora) ou kava (piper methysticum) e combinações de L-lisina e l-arginina podem ser considerados tratamentos complementares das patologias ansiosas. No entanto, a metodologia destes estudos é discutível e alguns não são controlados, pondo em causa o nível de evidência encontrado.
3 MEDICINA TRADICIONAL CHINESA:
MODELO DE HEIDELBERG:
O Modelo de Medicina Tradicional Chinesa de Heidelberg ou Modelo de Heidelberg (MH), proposto por Greten, consiste numa abordagem racional da teoria subjacente a esta medicina, integrando conceitos atuais da medicina ocidental para estabelecer um modelo conceptual que consiste num sistema regulador de funções vegetativas. Este modelo usa a terminologia usada por Manfred Porkert, sinologista francês que se dedicou ao estudo da medicina chinesa e, por isso, os termos técnicos estão escritos em latim. Os movimentos circulares destas funções vegetativas são um elemento essencial desta teoria, que parte da análise de Leibniz ao livro I Ching, onde este descobriu um significado matemático, para além do filosófico, nos símbolos aí representados.
O sistema binário é análogo aos traços brancos e pretos dos símbolos do I Ching, que correspondem ao yang e yin, respetivamente. Esta linguagem era utilizada nas ciências naturais e na filosofia chinesas para descrever movimentos circulares, que pode ser transcrita para descrever outros processos circulares, como as estações do ano ou o comportamento funcional humano. A linguagem binária yin-yang também pode ser utilizada em sistemas de coordenadas, considerando o yang como positivo e o yin negativo. O símbolo chinês monad simboliza o postulado mais importante para descrever o mundo baseado no yin e yang, mostrando que um círculo pode demonstrar um movimento circular, com direções ascendentes e descendentes, assim como uma curva sinusoidal, em simultâneo.
Transpondo estas observações para a medicina, pode-se descrever a atividade vegetativa no Homem. A atividade elevada corresponde ao yang e a baixa atividade será o yin, cujos valores de yang estão acima da linha basal e os de yin abaixo. Efetuando um paralelismo com a medicina ocidental, nas fazes yang predominam as funções simpáticas e nas yin as parassimpáticas. Num contexto regulatório, yang encontra-se acima do valor alvo, com movimentos ascendentes e problemas funcionais, de regulação primária. Corresponde a mais qi (repletion), mais calor, ao exterior. Yin, por sua vez, corresponde aos valores abaixo do alvo, aos movimentos descendentes e à falta de substrato, causando uma regulação instável.
Associa-se a menos qi (depletion), ao frio, ao interior e à estrutura. Nas fases de regulação descendentes, como na fase Fogo ou Metal, o sistema nervoso entérico está mais ativo para restaurar os níveis energéticos. Também se pode fazer uma descrição baseada no tónus muscular e nas funções do sistema reninaangiotensina-aldosterona.
Surge, então, o conceito de fase. Na figura acima verifica-que que à esquerda se encontram as fases Madeira e Fogo e do lado direito as fases Metal e Água. Para entender o conceito de fase retorna-se ao sistema binário onde o monograma 1 e 0 correspondem aos algarismos 1-0, correspondentes a duas partes do círculo, metade yang e metade yin. Os bigramas corresponderão às fases e aos números 1 a 4 e os trigramas às orbes, cujos movimentos regulatórios são expressos em sinais clínicos.
Os movimentos das fases, as suas direções, são as suas funções internas e os movimentos de qi. Posteriormente, foram adicionados mais dois grupos na fase fogo. Concluindo, uma fase é parte de um processo circular, um elemento cibernético, que quando aplicado ao Homem se traduz numa tendência funcional vegetativa cujas manifestações clínicas são um conjunto de sinais de diagnóstico relevantes (orb).
As fases podem ser descritas como:
- Madeira: criação de potencial;
- Fogo: transformação do potencial em ação;
- Metal: função de relaxamento associada a relativa diminuição de energia e distribuição rítmica da energia;
- Água: regeneração;
- Terra: assimilação.
A fase Terra ocupa um lugar central, regulador, a partir da qual se verificam movimentos de regulação superior (Madeira e Fogo) ou movimentos de regulação inferior (Metal e Água). Quanto maior for a distância ao centro, Terra, maior será a ativação dos mecanismos de autoregulação. Baseado nestes postulados, Greten define a medicina chinesa como um sistema de observações e sensações designadas para estabelecer o estado vegetativo funcional do organismo. As manifestações clínicas das fases são identificados mediante a zona do corpo onde surgem e constituem um grupo de sinais relevantes para o diagnóstico, indicando o estado funcional duma região do organismo que se correlaciona com as propriedades funcionais de um conduto (mais conhecido por meridiano). Esta descrição corresponde à definição de orb.
Um dos conceitos mais populares da MTC é o qi, que no MH é descrito como a capacidade vegetativa funcional de um órgão ou tecido, que pode causar a sensação de pressão, dilaceração ou fluxo. Encontram-se descritos três tipos de qi: o qi originale (com origem no yin e na orb renal), o qi defensivum (localizado fora dos condutos, à superfície, conferindo proteção contra os agentes patogénicos) e o qi nutritivum (originado através da comida ingerida). Esta capacidade pode ficar diminuída devido à exaustão, mas através de uma boa respiração, alimentação saudável, sono adequado e a prática de Qi Gong, pode ser regenerada. Qi pertence ao grupo dos chamados três tesouros da Medicina Chinesa, que correspondem a conceitos fundamentais para perceber o funcionamento do organismo e a origem das patologias.
O segundo tesouro é o xue, traduzido muitas vezes por sangue, que no MH é considerado uma capacidade funcional (“energia”) relacionada com os fluidos corporais, com funções como aquecer, humedecer, gerar qi e nutrir um tecido. Xue é ainda a base yin do shen. É comparável aos efeitos da microcirculação na medicina ocidental. Shen, o terceiro tesouro, é a capacidade funcional de ordenar as associações mentais e as emoções, criando a chamada “presença mental”. Avalia-se através da observação de vários sinais como a coerência do discurso, o brilho dos olhos e os movimentos de motricidade fina. Corresponde à capacidade de desempenhar funções mentais superiores, na medicina ocidental.
O diagnóstico das doenças em MTC elabora-se após uma cuidadosa inspeção do shen, cor da pele, morfologia e movimentos corporais, compleição, olhos, nariz, boca e lábios, língua, dentes e gengivas, cabelo, unhas, saliva, mucos, fezes e urina. As características da transpiração, da respiração, da dor, do apetite, da apetência por ambientes frios ou quentes, menstruação e pulso são outros parâmetros essenciais para a elaboração de um diagnóstico correto. De acordo com o Modelo de Heidelberg, o diagnóstico é constituído por quatro elementos: a constituição, o agente patogénico, a orb afetada e os critérios de diagnóstico.
A Constituição é a expressão física da natureza interna do doente, o seu fenótipo, uma vez que, segundo a medicina chinesa, as estruturas físicas alteram o comportamento funcional do Homem, nomeadamente os seus sentimentos, funções e probabilidade de desenvolver certas doenças. O Agente, ou fator patogénico, vai afetar a constituição do indivíduo e torná-lo doente. Os agentes podem ser internos ou externos, ou ainda neutros. Os agentes externos são padrões funcionais que se assemelham aos efeitos do algor (frio), humor (humidade) ventus (vento), aestus (calor), ardor (inflamação) e aridity (secura).
Os agentes internos são as emoções: ira (raiva), voluptas (volúpia), maeror (tristeza), solicitudo (preocupação), timor (medo) e cogitatio (excesso de pensamento). O excesso de trabalho, a má nutrição e os traumas são considerados agentes neutros. A orb, como já foi referido, corresponde ao grupo de sinais e sintomas relevantes localizados numa zona do corpo.
Os critérios de diagnóstico são oito e refletem a regulação do organismo:
1) Repletion: corresponde à força excessiva relativa da heteropatia
2) Depletio: depleção ou exaustão da ortopatia individual, da capacidade de manter a homeostase
3) Extima: penetração do agente/doença no exterior do organismo, correspondendo a afecções mais agudas
4) Intima: penetração do agente/doença no interior do organismo quando há diminuição ou ausência das defesas
5) Calor: aumento da microcirculação
6) Algor: diminuição da microcirculação
7) Yang: função e atividade das estruturas
8) Yin: populações celulares
Os sinais de repletio/depletio são neurovegetativos, enquanto que os sinais de calor/algor representam sinais humoro-vegetativos relacionados com a dinâmica da microcirculação. O terceiro critério de diagnóstico, extima/intima está associado à ideia de que o organismo é vítima de ataques de agentes que vão penetrando no seu interior e os seus sintomas são neuro-imunológicos. Neste contexto, a teoria do Algor-Laedens ilustra os danos da penetração do algor no organismo até às suas estruturas mais íntimas, que explica muitas patologias correntes, nomeadamente as infecções respiratórias. No último critério de diagnóstico, yang/yin, os sintomas apresentados revelam uma deficiência regulatória ou estrutural, respetivamente.
Segundo Greten, existem quatro mecanismos implicados na doença, nomeadamente os problemas na transição de uma fase para outra, o excesso de um agente, o desequilíbrio entre as fases antagonistas e a deficiência de yin. Yin corresponde à parte estrutural do organismo e divide-se nos seguintes componentes:
- yin: células
- jin-ye: fluidos que envolvem o conceito de hidratação e a homeostase entre os tecidos e o espaço intersticial
- xue: constituintes do sangue
- jing: análogo aos constituintes dos núcleos celulares
Os métodos terapêuticos utilizados na Medicina Tradicional Chinesa incluem a acupunctura, a fitoterapia, as técnicas manuais (tui na), o Qi Kung (técnica de biofeedback) e a dietética.
Perturbações emocionais na MTC:
Para compreender as perturbações emocionais em MTC, é necessário recordar as emoções descritas e o conceito de constituição do indivíduo. No MH, o sistema de fases também se aplica às emoções, que são compreendidas como movimentos do estado emocional acima e abaixo do centro, onde reside o equilíbrio. Assim, as emoções são sempre um misto de estados de espírito e, por vezes, contraditórias.
No MH encontram-se descritas as seguintes emoções:
1) Ira (raiva): é a emoção da fase Madeira. A tradução literal significa raiva, embora neste caso o significado de ira esteja associado à iniciativa, à energia emocional. Está alocada à orb hepática. Quando em excesso, torna-se um agente patogénico interno, demonstrado através de comportamentos de irritabilidade, irascibilidade, autoritarismo e sintomas de espasmos, parésias, tonturas e apoplexia;
2) Voluptas (volúpia): pertence à fase Fogo, corresponde a um excesso de estímulos a nível emocional e está alocada à orb cardial. No sentido positivo é vista como a emoção alegria. Em excesso, traduz-se numa necessidade de sentir intensamente as emoções, reais ou imaginárias, manifestando-se por um comportamento histriónico. A ligação entre a orb cardial e a renal permitem percepcionar as emoções e o conhecimento de si mesmo. Neste caso, há um défice da autopercepção e a pessoa compensa através de outros sentimentos, de uma expressividade exagerada. Este excesso de voluptas pode tornar-se um agente patogénico interno e levar a uma exaustão do qi da orb cardial;
3) Maeror (tristeza): é a emoção da fase Metal. É semelhante ao sentimento de perda vivenciado no luto, pois trata-se de uma dor íntima e melancólica, como a sentida num desgosto de amor, em que se perdeu um laço simbiótico. Tal como as outras emoções, maeror também pode ser positiva mediante o seu movimento. Um pouco desta emoção torna as pessoas mais receptivas aos outros, melhores ouvintes, mais generosas com a família e amigos. Em excesso, leva à introversão e à perda da capacidade de autodefesa, à dependência relacional. Uma forma de contrariar esta tendência é através de uma respiração adequada;
4) Solicitudo (Preocupação): a preocupação pode originar problemas alocados à orb pulmonar, assim como as pessoas com uma constituição pulmonar são tendencialmente mais preocupadas. Tem repercussão nas orbs pulmonar e crassintestinal, podendo manifestar-se por perda de tónus muscular, tosse, diarreia, etc. Como no sistema de fases o Metal dá origem à Água, esta preocupação pode dar origem a ansiedade;
5) Timor (Medo): é a emoção da fase Água e da orb renal, que regenera e representa o yin no modelo das fases. Quando existe uma deficiência constitucional da orb renal pode haver tendência para a timidez e apreensão crónica. Se existir menos yin, menos reservas físicas, haverá menos segurança. Quando a orb renal está íntegra, compensa e cria segurança. Se este mecanismo estiver perturbado, pode surgir insegurança e ocorrer ansiedade. No sistema de fases, esta ansiedade vai levar o indivíduo a agir, tornando-se um mecanismo de sobrevivência vantajoso, ou seja, passa-se da fase Água para a fase Madeira. A ansiedade excessiva pode originar comportamentos excessivamente racionais ou não emocionais para a suprimir;
6) Cogitatio (excesso de pensamento): é o excesso de pensamentos, de reflexão, alocado à fase Terra, que resulta da desregulação da função integrativa e das orbs do baço e estômago. Quando as fases se encontram compensadas, as influências no pensamento estão equilibradas, refletindo-se no centro através de um pensamento positivo, intuição, criatividade e confiança de que as coisas mudam para melhor. Se surgir um bloqueio, o pensamento também bloqueia e o indivíduo reflete exageradamente, sem efeito produtivo, rumina. Surgem as dúvidas e a perda de confiança na vida e, por isso, a resolução deste distúrbio é muito importante para restabelecer o equilíbrio das fases
A Constituição do indivíduo, a sua natureza, expressa-se em sinais predominantemente de uma orb, associados ao seu fenótipo. As crenças individuais e os sistemas psicossociais (família, amigos, emprego) influenciam as manifestações da constituição do indivíduo e contribuem para as suas perturbações emocionais. As principais constituições são a Hepática e Pulmonar num eixo, e a Cardíaca e Renal noutro eixo, influenciando-se mutuamente. Na prática clínica, a constituição felleal, pericardial e tenuintestinal também são importantes e relativamente frequentes. O hepático é extrovertido, mas menos emocional e expressivo do que o cardíaco. Determinado, procura alcançar os seus objetivos com pragmatismo. Costuma ser um líder natural. Quando o seu yin é fraco, tem tendência para ser colérico e autoritário, humilhando os pulmonares, gerando ansiedade nos renais e excitando os cardíacos.
Durante o desenvolvimento da criança, os bloqueios à sua iniciativa e vontade própria, por serem comportamentos supostamente inadequados, podem originar sentimentos de desvalorização, surgindo adultos educados, mas ambivalentes e indecisos por reagirem aos seus impulsos internos questionando-os, levando-os, muitas vezes, a perder oportunidades. Este comportamento denominase felleal. A constituição pulmonar revela-se nas pessoas introvertidas e sensíveis às influências, opiniões e sentimentos, devido à sua fragilidade externa, como se o mundo as invadisse. São facilmente humilháveis e sentem que dão mais do que recebem, o que lhes gera uma sensação de nunca obterem o que desejam, como uma criança a chorar por não ter o amor desejado.
São empáticos e estabelecem relações simbióticas, que tentam muitas vezes a controlar. No eixo Madeira - Metal, é comum encontrar uma constituição pulmonarfelleal. Consiste numa ambivalência do sentimento de nunca se ter o que se deseja com a indecisão que leva a que realmente se percam oportunidades, gerando frustração e contribuindo para sentir que não se tem o que se deseja. Resulta numa constante frustração e ira bloqueada que está na origem de sintomas maioritariamente da orb felleal, como a gastrite, zumbidos e lombalgia do tipo felleal. De forma a atingir o equilíbrio, a ira surge após a tristeza, como se verifica nalguns casos de depressão, em que surge raiva quando há melhoria.
No eixo Fogo - Água, a constituição cardial refere-se a pessoas extrovertidas, muito expressivas, com emoções intensas e criatividade. Não gostam de hierarquias e têm dificuldade em respeitar os limites. Quando o seu yin é débil, estão sujeitos a mudanças de humor e comportamento histriónico para compensar a sua falta de autopercepção. Próximo da constituição cardial, temos a pericardial, cujas pessoas são incansáveis, hiperativas. Em muitos casos são cardíacos com deficiência de yin que foram humilhados e se tornaram ansiosos. A atividade constante é uma forma de combater a ansiedade e a falta de paz que sentem.
Podem ter carreiras de sucesso, mas também são mais propensos a burnout. Ainda na fase Fogo, temos a constituição tenuintestinal, na qual os indivíduos se caracterizam por saberem o que querem, mas não agem em conformidade, não atuam. Contrariamente ao tipo felleal, não são ambivalentes. Se não houver ação inerente aos sentimentos, há um bloqueio na transição da fase Fogo para a fase Terra, surgindo sintomas como cervicalgia e cefaleias. Do lado oposto do eixo temos a constituição renal, com tendência para a deficiência de yin, que leva a que estas pessoas economizem os seus movimentos, as suas emoções e o seu dinheiro, para obter segurança. Precisam de organização e planeamento, sem os quais se tornam ansiosos. Costumam ser racionais, introvertidos e formais. Ao exagerar no planeamento e no rigor, podem ser teimosos e inflexíveis.
A Ansiedade na MTC:
Segundo Greten, a ansiedade em MTC e segundo o MH, pode ser primária ou secundária. A ansiedade primária tem origem na deficiência de yin ou numa orb renal fraca. As pessoas nestas circunstâncias ajustam o seu estilo de vida à sua ansiedade, evitando riscos, recorrendo a um planeamento cuidadoso da sua vida. As outras causas de ansiedade são secundárias. Quando se sente maeror (tristeza), pode surgir insegurança e ansiedade. Algumas regiões cerebrais reconhecem a situação como potencialmente ameaçadora, como a de uma criança deixada sozinha indefesa, ou alguém que se perdeu e está prestes a ser atacado por um predador.
Quando a ansiedade se transforma em ira (fase Água para fase Madeira), estamos perante um processo natural, onde a ansiedade dá lugar à iniciativa. Se esta transição for bloqueada pela desvalorização, surge o comportamento felleal, no qual a ira é suprimida. Surge este tipo de ansiedade secundária a um problema de transformação. Um dos mecanismos de patogénese no MH é o desequilíbrio entre os antagonistas, que também se aplica a uma forma secundária de ansiedade. No eixo Fogo-Água, quando há excesso de emoções, excesso de atividade, pode gerar-se um sentimento de perda de estabilidade e de raízes, que origina ansiedade. Compreendendo a origem da ansiedade, pode-se atuar na sua etiologia e não apenas nos sintomas, contribuindo para um maior sucesso da terapia.
4 ACUPUNCTURA AURICULAR:
A auriculoterapia é um método de diagnóstico e de terapêutica que utiliza a estimulação dos pontos do pavilhão auricular através de estímulos mecânicos, eletromagnéticos, térmicos ou outros. Esta técnica é conhecida e utilizada na China desde a Antiguidade, assim como no Egito e na Grécia. No clássico de MTC Huang Di Nei Jing, compilado cerca de 500 anos antes de Cristo, encontrava-se descrita uma correlação direta entre a aurícula e os meridianos yang e indireta dos meridianos yin através do seu correspondente yang. O egiptólogo Alexandre Varille (1909-1951) documentou que as mulheres do antigo Egito que não desejavam ter mais filhos picavam a extremidade da orelha com uma agulha ou cauterizavam-na.
Há também relatos de marinheiros do Mediterrâneo que usavam brincos de ouro, não como adornos, mas para melhor a visão. Hipócrates introduziu a técnica de cauterização do pavilhão auricular para o tratamento da dor ciática na Europa, que tinha aprendido no Egito. A companhia holandesa do este da índia estabeleceu relações comerciais dinâmicas com a China entre os séculos 16 e 18, contribuindo para que os mercadores trouxessem práticas de acupunctura chinesa de volta para a Europa. Em 1637, o médico português Zacuto Lusitano, fez a primeira descrição na Europa da cauterização da orelha para o tratamento da dor ciática depois de ter tomado conhecimento desta técnica na Rússia, onde trabalhara como médico do czar. No entanto, foi o médico francês Paul Nogier (1908-1996) que em 1951 interpretou o pavilhão auricular como um microssistema e zona reflexa e realizou a primeira cartografia auricular sistematizada, concebendo a projeção da orelha do corpo humano como um feto invertido.
O início do desenvolvimento da sua teoria ocorreu após ter observado alguns doentes com uma cicatriz de queimadura na orelha devido a cauterização realizada para o tratamento da dor ciática, com efeito positivo. Nogier considerava que existia uma organização somatotópica da orelha com relação direta com o corpo que funcionava através de ligações aos pares cranianos que a inervavam. Assim, a estimulação auricular poderia gerar efeitos em zonas específicas do corpo. Em 1966, Nogier descobriu que o pulso da artéria radial apresentava uma reação ao estímulo da aurícula e assumiu que esta resposta envolvia o coração e a aurícula, chamando a esta resposta “reflexo auriculocardíaco”.
Posteriormente, compreendeu que esta resposta era causada pelo sistema nervoso autónomo e mudou o seu nome para sinal autonómico vascular. Descontente com a falta de aceitação dos seus trabalhos pelos seus pares europeus, Nogier permitiu a tradução e publicação dos seus estudos na China, numa época em que o país atravessava uma revolução comunista e cultural e em que o governo necessitava de políticas de saúde para a sua população. Os profissionais e estudiosos chineses aproveitaram os conhecimentos de Nogier e criaram mapas de auriculoterapia, divulgando esta técnica vista como de fácil aprendizagem e aplicação, adequada para um treino rápido dos profissionais.
Os princípios de Paul Nogier e os princípios de reflexologia baseados em mapas somatotópicos não reconhecem a estimulação energética, mas apenas a evocação de um reflexo decorrente do estímulo de determinados pontos da orelha. A prática da auriculoterapia atual é influenciada pela escola francesa, que segue os estudos de Nogier, e pela escola chinesa, que baseia a sua prática clínica nas teorias da medicina tradicional chinesa. A Organização Mundial de Saúde constituiu grupos de trabalho com o objetivo de investigar a acupunctura auricular (AA) de modo a facilitar o seu ensino e aplicação clínica que vieram a standardizar 39 pontos de AA baseados em três critérios: a existência de um nome internacional comum, um valor terapêutico comprovado e uma localização na aurícula aceite.
Pontos de Acupunctura Auricular:
O tecido conjuntivo da orelha encontra-se modificado, é menos denso e a sua estrutura principal, denominada complexo neurovascular, é formada por uma combinação de fibras nervosas mielinizadas e desmielinizadas, pequenos capilares arteriais e venosos e um pequeno vaso linfático. No pavilhão auricular encontram-se fibras colinérgicas desmielinizadas na concha, relacionadas com o sistema parassimpático. Muitas das diferenças entre os acupontos corporais e os auriculares são causadas principalmente pela estrutura da pele, que no pavilhão auricular é muito fina e com muitos corpúsculos sensoriais.
O médico americano Oleson, em 1980, elaborou um estudo onde participaram quarenta doentes com dor muscular no qual o clínico que conduzia o diagnóstico auricular desconhecia a condição médica do doente, apenas limitando-se a procurar áreas do pavilhão auricular com elevada condutibilidade elétrica ou sensibilidade. A concordância entre o diagnóstico médico estabelecido e o diagnóstico auricular foi de 75,2%. Estes resultados suportaram a hipótese de que há uma organização somatotópica do corpo representada no pavilhão auricular com áreas definidas. Tendo como objetivo verificar a especificidade de dois pontos auriculares distintos, Romoli et al realizaram ressonâncias magnéticas funcionais a seis doentes, encontrando padrões de ativação em estruturas cerebrais diferentes após a respetiva colocação das agulhas. Além disto, as regiões envolvidas estavam de acordo com as indicações terapêuticas dos pontos, mostrando uma evidência preliminar da sua especificidade.
Inervação do Pavilhão Auricular:
Os músculos do pavilhão auricular são inervados pelo nervo facial. A inervação sensitiva, por sua vez, é bastante rica e complexa, na qual não existem corpúsculos sensitivos, mas terminações nervosas livres, que são capazes de receber sensações de frio, calor ou dor em função dos limiares de excitabilidade. O pavilhão auricular é inervado pelo plexo cervical superficial (C1-C3), pelo nervo auriculotemporal (ramo do V par craniano (trigémio)), e pelos nervos facial (VII par craniano), nervo intermediário de Wrisberg (VII bis) e vago (X par craniano). O ramo auricular do plexo cervical superficial inerva a parte posteroinferior do pavilhão auricular, enquanto o nervo auriculotemporal inerva as áreas anterosuperior e anteromedial.
O ramo auricular do nervo vago, que é o único ramo periférico deste nervo, inerva a zona da concha e a maior parte do meato auditivo. O nervo intermediário de Wrisber inerva a zona da concha e o início do canal auditivo – Zona de Ramsay Hunt. Os nervos facial, intermediário de Wrisberg e Vago terminam numa zona de ligação entre as sensibilidades somáticas do intermediário de Wrisberg, das raízes cervicais (C1-C3) e das sensibilidades viscerais especiais dos pares cranianos IX e X e visceral geral, denominada feixe solitário. A inervação auricular descrita por He et al assemelha-se à de Ferreira, como se pode verificar na figura seguinte.
Peuker e Filler citados por Round, consideram que o nervo occipital menor não integra a inervação do pavilhão auricular e que o ramo auricular do nervo vago inerva apenas uma parte da concha, a cimba e a antihélix.
Mecanismo de Ação da Acupunctura Auricular:
Na formação reticular do tronco cerebral vão-se reunir as somestesias espinais e cranianas, entre as vias espinais e as do nervo trigémio e vago, embora com fraca especificidade, o que vai permitir que estímulos de origem e natureza diferentes possam desencadear potenciais passiveis de serem recebidos no mesmo ponto periférico. Seguindo este raciocínio, a estimulação do pavilhão auricular estimula, por sua vez, o tálamo, o hipotálamo e o córtex, onde são emitidas respostas viscerais e somáticas através das vias nervosas córtico-espinal, tálamo-espinal, retículo-espinal e reações hormonais. O nervo vago é responsável pela inervação parassimpática do pulmão, do coração, do estômago e do intestino delgado, assim como dos músculos da faringe e laringe e envia informação para regiões cerebrais importantes na regulação da ansiedade (locus coeruleus, córtex orbitofrontal, hipocampo e amígdala).
O núcleo do trato solitário recebe e transporta sinais aferentes de vários órgãos e vísceras. Os neurónios com que sinapsa participam nos reflexos autonómicos, contribuindo para a regulação autonómica. Os outputs que saem do núcleo do trato solitário são transferidos para várias regiões cerebrais, incluindo o núcleo paraventricular do hipotálamo e o núcleo central da amígdala, bem como para outros núcleos de redes viscerais motoras ou respiratórias. É possível que ligações entre o núcleo do trato solitário com órgãos e vísceras e outras estruturas cerebrais possam ser um mecanismo de ação da acupunctura auricular. Desta forma, ambos os sistemas nervosos, central e autónomo, podiam ser modificados pela estimulação auricular vagal através das projeções do ramo auricular do nervo vago para o núcleo do trato solitário.
Vários autores orientais e ocidentais encontraram uma relação entre o pavilhão auricular e a regulação vagal. Em 1982, Friedrich Arnold demonstrou que o estímulo físico do meato acústico externo, inervado pelo ramo auricular do nervo vago, induz a tosse. Este reflexo é somato-parassimpático e denomina-se reflexo de Arnold. Gao conduziram um estudo que avaliou a influência da auriculoterapia e da acupunctura sistémica em 10 ratos previamente anestesiados, verificando que a frequência cardíaca dos ratos sujeitos a acupunctura auricular se manteve praticamente inalterável, mas a variabilidade da frequência cardíaca aumentou significativamente, melhorando o seu estado neurovegetativo.
Zhao et al, em quatro grupos constituídos por doze ratos cada, induziram endotoxemia através da injeção intradérmica de lipopolissacarídeo, e, após a realização de acupunctura auricular num grupo, estimulação do nervo vago através de estimulação elétrica do nervo vago cervical esquerdo noutro, e acupunctura sistémica no ponto S36 no terceiro grupo, verificaram que, comparativamente com o grupo controlo, tanto no grupo que realizou acupunctura auricular na concha, como no grupo que recebeu a estimulação do nervo vago, houve um aumento do fator de necrose tumoral (TNF- alpha) e de IL-6) e diminuição do nível do fator de transcrição nuclear pulmonar fator–kappaB associado à endotoxemia , com um efeito similar ao reflexo anti-inflamatório colinérgico.
A Acupunctura Auricular na Ansiedade:
Até à data, não existem estudos sobre o efeito da auriculoterapia na PAG, embora haja investigação sobre o seu efeito nos sintomas de ansiedade nalguns contextos. No âmbito do tratamento complementar dos abusos de substâncias foi elaborado um protocolo de acupunctura auricular em 1985 pela National Acupuncture Detoxification Association, nos Estados Unidos, utilizado em muitas instituições que tratam doentes com dependências de substâncias, cuja origem remonta ao estudo de Wen e Cheung em 1973, no qual se verificou alívio dos sintomas dos doentes consumidores de opióides após tratamento com electroacupunctura. Embora o mecanismo de ação da AA ainda não esteja bem esclarecido, e haja falta de evidência científica, este protocolo é utilizado em cerca de 30 países.
A ansiedade antes dos procedimentos cirúrgicos está bem documentada e faz parte da rotina pré-anestésica a administração de fármacos com efeito sedativo. Mora et al realizaram um estudo randomizado, controlado e duplo-cego constituído por 100 indivíduos com cálculos renais que, durante o transporte para a clínica onde iriam ser sujeitos a cirurgia, receberam acupunctura auricular. Através da Escala Visual de Ansiedade e de um Questionário de Antecipação, verificaram que no grupo que recebeu o tratamento verdadeiro houve uma redução significativa dos sintomas de ansiedade, além dos doentes se demonstrarem mais optimistas e com menos receio da dor.
Wang e Khain, utilizaram um protocolo de auriculoterapia num grupo de voluntários saudáveis, num estudo randomizado, controlado e cego, no qual verificaram que os níveis de ansiedade avaliados através do inventário de ansiedade traço-estado (IDATE), pressão arterial e frequência cardíaca e atividade eletrodérmica, diminuíram, mas apenas aqueles relativos à ansiedade estado, sem correlação com os dados fisiológicos. Vieira, elaborou um estudo prospectivo, randomizado, controlado e cego, onde aplicou um protocolo de auriculoterapia em estudantes ansiosos antes da época de exames. Numa amostra de 69 estudantes distribuídos por dois grupos, cujos níveis de ansiedade foram avaliados através da IDATE, Escala Visual da Ansiedade (EVA), pressão arterial e frequência cardíaca, antes do procedimento e 48h após, observou-se uma redução significativa dos níveis de ansiedade (p=0,031) na escala IDATE forma Y1 e EVA (p=<0,01).
Com a intenção de estudar o efeito da acupressão auricular na ansiedade de mulheres na menopausa, Kao et al distribuíram aleatoriamente 50 mulheres por um grupo que recebeu acupressão auricular bilateral nos pontos shenmen e subcórtex por 3 minutos, depois das 3 refeições principais e antes de dormir diariamente, durante 4 semanas e pelo grupo de controlo, que recebeu o tratamento sham. Todas as mulheres estavam sob farmacoterapia e verificou-se que no grupo que recebeu acupressão verdadeira (p0,5), que recebeu acupressão auricular sham, não se verificou redução na dose de alprazolam e a redução do zolpidem foi menor (de 2,4 mg/dia para 1,9 mg/dia).
A ansiedade que antecede os tratamentos dentários é muito comum, existindo investigação sobre o potencial da auriculoterapia no controlo deste sintoma. Num estudo dirigido por Karst et al, foi comparada a eficácia da acupunctura auricular com a administração de midazolam intranasal com o intuito de reduzir a ansiedade antes do tratamento dentário. Uma amostra de 67 doentes que iriam realizar extrações dentárias, foi dividida em quatro grupos: o primeiro grupo recebeu acupunctura auricular, o segundo acupunctura placebo, aos doentes do terceiro grupo foi administrado midazolam intranasal e no último grupo não houve intervenção.
O nível de ansiedade foi avaliado através do IDATE antes das intervenções, aos trinta minutos e após a extração dentária. Comparativamente com o grupo de controlo, os indivíduos do grupo da acupunctura auricular e do midazolam intranasal apresentavam-se significativamente menos ansiosos do que os indivíduos do grupo da acupunctura sham (IDATE Y1 p= 0,012 e p=0,001, respectivamente), demonstrando que tanto a auriculoterapia como a administração de midazolam intranasal são tratamentos eficazes na redução da ansiedade antes de tratamentos dentários. Ao pesquisar artigos sobre a eficácia da auriculoterapia, há limitações evidentes na grande maioria dos estudos e a principal é o número reduzido de elementos da amostra. Outro problema detectado, que dificulta a comparação dos estudos é a existência de diferenças nos critérios de seleção dos pontos de acupunctura no pavilhão auricular, bem como a terminologia usada, que ainda não é unânime.