O olhar do idoso frente ao envelhecimento

Básico de Cuidador de Idosos

1 O olhar do idoso frente ao envelhecimento

Introdução

O envelhecimento da população é considerado um fenômeno mundial, sendo possível observar uma transformação demográfica sem precedentes na história da humanidade.

O envelhecimento é um fenômeno biológico, psicológico e social que atinge o ser humano na plenitude de sua existência, modificando sua relação com o tempo, seu relacionamento com o mundo e com sua própria história (MESQUITA e PORTELLA, 2004).

O processo de envelhecimento tem sido alvo do interesse de estudiosos e pesquisadores. No entanto, é possível perceber a dificuldade em discorrer a respeito da finitude, em especial com os idosos, mesmo compreendendo que a cada dia que passa o ser humano está continuamente envelhecendo e morrendo. A morte traz consigo diferentes repercussões psicológicas associadas com a visão de transcendência (BENINCÁ, 2003).

Nesse sentido, entende-se que essa temática deva ser abordada com naturalidade, pois, à medida que as pessoas tomam consciência de sua finitude, passam a compreender a vida em sua complexidade e tendem a rever seus valores.

Assim, esta reflexão crítica oportuniza contextualizar o processo de envelhecimento e a morte em suas dimensões sociais, culturais, psicológicas e espirituais, bem como possibilitar ao idoso um espaço para expressar seus sentimentos e o seu modo de ser e ver o mundo. Portanto, este estudo teve como objetivo desvelar o significado do envelhecer e da morte para o idoso.

2 Caminho metodológico

a) Tipo de estudo

O estudo orientou-se pela pesquisa qualitativa, com uma abordagem fenomenológica. A pesquisa qualitativa preocupa-se com o universo dos significados, motivos, aspirações, atitudes, crenças e valores, correspondendo a um espaço profundo das relações, dos processos e dos fenômenos vivenciados pelo ser humano (MINAYO et al., 1994). A pesquisa fenomenológica visa ao estudo do homem em sua totalidade existencial (LOPES, RODRIGUES e DAMASCENO, 1995) e tem como objetivo compreender a essência do ser e o significado que este atribui às experiências vivenciadas cotidianamente (BUÓGO, 2000); auxilia na compreensão do próprio comportamento e do mundo exterior, tal como é percebido (MOTTA,1997).

b) Campo do estudo

Foi realizado num grupo de convivência da terceira idade, localizado numa cidade de pequeno porte do interior do estado do Rio Grande do Sul, na região do Alto Uruguai. O município possui uma população estimada em 6 430 habitantes, dos quais 834 pessoas são idosos com idade acima de sessenta anos. Conta com uma unidade básica de saúde, a qual promove interação social aos idosos por meio do grupo de terceira idade.

c) Participantes do estudo

A escolha dos participantes ocorreu de maneira intencional e os critérios para a inclusão compreenderam: não possuírem problemas neurológicos que dificultassem o entendimento das questões abordadas na entrevista e terem no mínimo sessenta anos de idade. Foram cinco idosos que participam de um grupo de convivência da terceira idade. Após receberem todas as informações quanto ao objetivo e à metodologia, assinaram o “termo de consentimento livre e esclarecido”, no qual ficou assegurado o anonimato das informações contidas nas gravações. Para a identificação dos participantes foram utilizadas expressões de sentimentos escolhidas por eles.

d) Coleta das informações

O instrumento utilizado para coleta dos dados constituiu-se de uma entrevista semiestruturada, por oferecer ao pesquisador um amplo campo de ação, oportunizando a presença consciente e atuante deste, dando liberdade gradual e intencional do que busca investigar, permitindo a visualização de várias possibilidades de se introduzir no mundo do fenômeno a ser descoberto (TRIVINOS, 1995). Procurou-se, dessa forma, seguir as questões norteadoras que serviram de guia no processo de coleta das informações. As questões formuladas para a pesquisa foram:
• Qual o sentido da velhice para o senhor(a)?
• Como o senhor(a) se percebe na sociedade?
• Qual foi o seu maior medo ao envelhecer?
• No seu ponto de vista o que é morte?
• Qual o significado da morte para o senhor(a)?

e) Análise das informações

Para a análise e interpretação dos dados utilizou-se como referencial a hermenêutica de Ricoeur (1976), seguindo os passos propostos por Crossetti (1997) e Motta (1997), descritos a seguir: leitura inicial do texto, distanciamento, análise estrutural, identificação da metáfora e apropriação. Esses passos permitem compreender além da perspectiva da análise do texto em sua estrutura, pois possibilitam um aprofundamento da semântica, objetivando a busca do sentido oculto nos discursos, a emergência dos significados e a compreensão da linguagem. Dessa forma, não se avalia somente a linguagem utilizada nas respostas, mas o que está oculto dentro dela.

f) Aspectos éticos

É por meio da ética que se resgata o respeito do homem diante de outras pessoas e do mundo, assegurando que sua identidade e seus direitos sejam preservados no decorrer da pesquisa (GOLDIM, 2000; CELICH, 2003).
Em atenção à resolução 196/96 (BRASIL, 1996) do Conselho Nacional de Saúde, que estabelece diretrizes e normas regulamentares sobre pesquisas que implicam a obtenção de informações a respeito de seres humanos, todos os procedimentos éticos foram respeitados.

3 Desvelando o significado do envelhecer e da morte

Os temas e subtemas que emergiram através da essência fenomenológica evidenciada e manifestada nas entrelinhas dos discursos foram os seguintes: sentido do envelhecer e sentido da morte.

Sentido do envelhecer

Este tema apresenta o significado do envelhecer para o idoso, o qual acontece num mundo compartilhado de experiências e saberes que se configuram pela interação do ser humano com o ambiente que o rodeia. Sendo o idoso um ser de relação, apresenta-se em constante construção de seu saber e do conhecimento que adquiriu durante sua caminhada, revelando-se dinâmico, identificando-se e cada vez mais conquistando espaço na sociedade. Envelhecer possibilita um amadurecimento em relação ao ser interior, às crenças e valores espirituais, concretizando esta etapa da vida para uma vivência mais serena. Assim, com base na interpretação dos discursos, foi possível desvelar os seguintes subtemas: o idoso no mundo; idoso: ser de relação; lembranças do vivido; envelhecer: bênção divina e o vir-a-ser do idoso.

a) O idoso no mundo

Este subtema revela como o idoso se vê no mundo, o modo como se percebe como ser humano-idoso diante da sociedade, possibilitando-lhe que expresse seus sentimentos relacionados com seu eu interior. Afloram, dessa forma, os princípios e experiências colhidas e transformadas para a construção do seu próprio eu, um ser que busca, com a autenticidade de seus discursos, vislumbrar sua situação e a maneira como se insere no mundo. Essa percepção se apresenta nas seguintes falas:

[...] a gente precisa aceitar que é idoso, procuro viver no presente, pois considero o único momento que tenho [...] apreciando e aprendendo, deixando as coisas acontecerem. (Confiança)

A velhice me deu independência, vou onde quero, faço o que quero [...]. Hoje tenho mais tempo para o descanso, para o lazer e para minha família. (Certeza)

Não via a velhice chegar, eu ainda sou jovem. Mesmo que minha aparência física seja velha, meu espírito ainda brilha como de um jovem. (Perseverança)

Ao aceitar e perceber que o envelhecimento é um processo natural do clico vital do homem e de qualquer outro ser vivo, o idoso adquire melhor consciência do que está vivenciando. Os idosos adaptam-se melhor ao processo do envelhecer quando seu espírito encontra-se saudável e otimista; ficam, então, mais propensos a ver a velhice como uma fase de experiências acumuladas, de maturidade e liberdade para se assumirem, bem como para se libertar de certas responsabilidades (ZIMERMAN, 2000).

b) Idoso: ser de relação

Neste subtema emergiu a compreensão de que o idoso é um ser social e necessita relacionar-se com outras pessoas. Dessa forma, vem, ao longo dos anos, conquistando seu espaço e valor na sociedade. É o que demonstram as narrativas a seguir:

[...] a gente sai, conversa, dá risada. Hoje as pessoas respeitam os idosos, principalmente a família, escutam, dão atenção e cuidam mais. (Certeza)

[...] a pessoa que participa e envolve-se com a sociedade não se sente velha. Eu me orgulho muito da participação que exerço na comunidade, pois é uma forma que encontro de me manter com este espírito jovem. (Perseverança)

As possibilidades de relacionar-se com diversos tipos de grupos garante ao idoso um sentimento de estar sempre ativo e de ter seus direitos respeitados, para que consiga obter uma convivência harmônica. A manutenção das relações interpessoais revela um ser saudável, ao contrário das pessoas sós, que apresentam uma certa dificuldade de relacionar-se e manter um vínculo afetivo com alguém (VICINI, 2002).

c) Lembranças do vivido

Este subtema desvela que o idoso mantém em seu mundo interior a memória viva das coisas que ficaram para trás. O envelhecer faz com que essas lembranças do passado voltem a emergir em seus pensamentos, revelando a importância da sua história de vida e as experiências adquiridas. É o que se pode constatar nos discursos que seguem:

A velhice traz a saudade do que ficou para trás, das coisas que podia fazer sozinha e não precisava da ajuda dos outros [...]. (Confiança)

O envelhecer é tempo de recordar e reviver os bons tempos de lutas vencidas, de caminhos percorridos e de graças alcançadas. O envelhecimento é uma graça que nem todos chegam a alcançar. (Serenidade)

O envelhecer revela-se carregado de lembranças e recordações do que passaram e dos momentos bons ou ruins que viveram. Esses acontecimentos se perpetuam em seu existir, fortalecendo o vínculo do passado com o presente, promovendo muitos sentimentos em sua existencialidade. A vida só tem sentido quando no ser desperta a sensação de plenitude. A realização que o idoso adquiriu durante seu desenvolvimento foi resultante de uma postura que ele seguiu em determinados momentos de sua vida (MEISTER, 2002).

d) Envelhecer: bênção divina

Este subtema demonstra que os idosos percebem que o envelhecer é uma graça divina; a fé e espiritualidade tornam-se algo que nutre e supre o ser. É como se o idoso identificasse que em seu ser há algo inacabado; valorizando o crescimento espiritual, busca ajuda para seguir seu caminho. Esse encontro espiritual reveste-se de um singular significado na etapa madura da existência do ser, o que se torna evidente nas assertivas a seguir:

[...] A velhice é uma coisa natural, as pessoas que chegam nesta idade têm que dar graças a Deus, porque existem muitas pessoas que morrem novas [...]. (Certeza)

A velhice é a expressão da bênção divina. (Confiança)

Chegar à “terceira idade” é um privilégio, que Deus criador concede, na qual modalidades novas de vida podem e devem ser assumidas [...] o envelhecer jamais será motivo de medo, pois envelhecer é um privilégio de poder viver mais. (Serenidade)

O idoso percebe-se neste mundo como um ser privilegiado em razão da longevidade com que é agraciado. A certeza da presença de Deus ajuda os idosos a prosseguirem sua vida com mais perseverança. A pessoa idosa capaz de dar testemunho da vida é possuidora de sabedoria, pois não vê somente o que é superficial e transitório, mas também percebe o que se eterniza. O idoso adquire sua espiritualidade numa longa vida de serviços e trabalhos, de sacrifício e sofrimentos (SARMIENTO; LIMA-FILHO, 2000).

e) O vir-a-ser do idoso

Este subtema se caracteriza pelo fato de que o envelhecer é um processo vivencial que, permeado pelas ações do homem, está alicerçado nas suas experiências. Nessa condição, o idoso está continuamente construindo sua identidade, alicerçado no passado e direcionando-se para o futuro dentro de suas possibilidades, como se pode observar nos discursos, que seguem:

[...] eu me sinto sempre pronta para aprender e sempre quero e procuro compartilhar meus saberes, numa troca mútua de informações, [...]. (Perseverança)

[...] é saber escutar, apoiar as gerações presentes, [...] é jamais deixar de renovar-se [...]. (Serenidade)

O idoso se vê como um ser de possibilidades, que está em constante crescimento pessoal. No percurso de sua jornada de vida, vai construindo e aperfeiçoando sua existência, baseando-se nas experiências vivenciadas. É um ser que sob a ação do tempo se aprimora. Somente o homem possui o privilégio de experienciar a verdade, isto é, de sair de si mesmo na busca de uma possibilidade de crescimento do ser; é o ser sendo, acontecendo ao existir no mundo (HEIDEGGER, 1993).

Sentido da morte

Desde o início de sua vida o ser humano está sujeito à supressão de sua existência. De fato, isso significa que o homem é um ser destinado a morrer. Essa situação desperta diversas formas de enfrentamento, que variam de um ser para outro, da mesma forma que o idoso, no desenrolar de tais reflexões acerca de sua existência, lapida em seu ser o significado da morte, condição que desvelou os seguintes subtemas: o estar para a morte, crenças e valores em relação à morte.

a) O estar para a morte

Este subtema revela a autenticidade com que o ser idoso percebe e admite a morte como uma certeza. A morte é o término da vida, o último momento do ser humano nesta existência, e pode acontecer com qualquer um, tendo em vista que o homem traz em si a sua finitude. A morte é um acontecimento singular e deve ser vista e entendida como tal, o que pode ser evidenciado nas seguintes falas:

O dia que a morte vir me buscar quero ir bem contente, porque consegui cumprir minha missão aqui na terra, que é de ensinar as experiências de vida que tenho. Aceito a morte como algo natural, uma seqüência da vida [...]. (Confiança)

É algo que ainda não levei em consideração, se pensar pelos outros sinto falta e saudades, mas não estou pensando nisto. É algo normal, que ninguém escapa, temos que encarar como natural, não tem jeito, se fugirmos desta realidade estaremos negando algo que é irremediável. (Angústia)

Não gostamos de pensar na morte, especialmente em nossa própria morte.[...] A morte é dura e fria [...]. Morte é o fim de nossa vida natural, para a vida espiritual. (Serenidade)

4 Desvelando o significado do envelhecer e da morte

Sendo a morte uma dimensão integrante da vida, o viver plenamente implica a aceitação e o convívio com ela, muito embora o ser humano crie dispositivos de segurança, negando, assim, essa realidade. Os mecanismos de defesa apresentados pelos indivíduos possibilitam que se ignore a morte e se dificulte a percepção da finitude do ser no mundo (LUNARDI, 2004). O homem admite a morte como um fato, porém apresenta grande dificuldade em assumi-la como um modo de ser da natureza humana. Adotar uma postura de autodefesa diante da morte garante ao ser o simples ato de pensar e agir, dissimulando seu verdadeiro significado (CROSSETTI, 1997).

b) Crenças e valores espirituais

Este subtema revela que o idoso procura auxílio e coragem em seu mais profundo eu, apoiando-se e desenvolvendo sua espiritualidade. Essas dimensões possibilitam a compreensão de sua existência e da morte. A confiança em uma vida após a morte, abençoada e plena, acalenta sua alma, como constatado nos discursos a seguir:

Quando a gente morre, vai a nossa alma vai para o céu [...]. O céu é o paraíso, onde viveremos na felicidade, ao lado de Deus. No céu minha alma viverá eternamente, nenhuma alegria e felicidade poderá ser comparada, [...]. A morte é uma passagem, é o fim da vida carnal para a vida espiritual. (Confiança)

É o encontro com Deus [...]. O corpo é a única coisa que morre, a alma, nosso espírito continua a vivência eterna, acredito que a vida não termina com a morte (Perseverança)

Morte é para mim a passagem desta vida para a presença eterna com Deus [...]. Não é o fim de tudo, é apenas o nascer para uma nova maneira de estar com Deus. (Serenidade)

O idoso visualiza a morte como uma passagem para a continuidade espiritual.“Pela espiritualidade nos preparamos para o encontro, face a face, com o Pai e Mãe de infinita bondade e misericórdia, criador de todas as coisas e fonte de nosso ser” (BOFF, 2001, p.73).

5 Considerações finais

A construção deste estudo permitiu um olhar reflexivo ao processo de envelhecimento e da morte e a compreensão de seus significados para um grupo de idosos. Desvelou-se que o envelhecer e a morte se constituem num processo natural da existência humana, porém nem sempre aceito pelos seres que o vivenciam.
Quando o saber e a história de vida do idoso são valorizados, entendidos e respeitados, este ser percebe que sua existência tem um significado. Essas atitudes de consideração, respeito e amor acolhem o idoso, pois existe o reconhecimento de sua singularidade, promovendo um sentido no envelhecer e possibilitando o enfrentamento da morte.
Este trabalho demonstra uma necessidade de que, ao abordar a morte e o envelhecer, seja realizada uma quebra do que se revela proibido, voltando a uma reflexão temática, discutindo-o em diversas áreas de conhecimento. Isso leva a crer que a sociedade possa (re)aprender que a morte é essencial para que a vida concretize seu percurso e a livre discussão do envelhecer e da perda possam levar a uma melhor qualidade de vida.
A consciência crítica e reflexiva acerca dessa temática deve ser despertada porque representa novas possibilidades e realidades de se interagir com este ser e com a vida. Dessa forma, dialogar sobre o processo de envelhecimento e a morte possibilita uma compreensão do ser e suas dimensões sociais, culturais, psicológicas e espirituais.