Discutir questões ligadas aos conceitos, à compreensão e à elaboração de modos de encarar a saúde, a doença e os cuidados, ao longo do contexto histórico, coloca em evidência “a questão da evolução histórica da [própria] prática médica como instituição que detém a legitimidade hegemônica do domínio desse cuidado e dos saberes relativos à doença e à saúde” (Ornellas, 1999, p. 20). Assim, seguindo os trâmites da história em seus principais momentos, é necessário começar a falar sobre saúde e doença retomando reflexões e conhecimentos que foram produzidos na Antiguidade.
Segundo Sevalho (1993), as primeiras representações de saúde e doença estavam ligadas a uma questão mágica, como no caso das concepções dos antigos povos da Mesopotâmia, uma vez que para eles as doenças eram provocadas por influências de entidades sobrenaturais, com as quais o ser humano não podia competir. Posteriormente, a doença passou a ser explicada no âmbito das crenças religiosas, sendo, portanto, determinação dos deuses. Essa visão começou a mudar a partir dos conhecimentos desenvolvidos pelos egípcios, os quais evidenciaram uma naturalização das doenças, aliada às crenças sobrenaturais, religiosas e mágicas que os mesmos possuíam.
Os gregos, um povo considerado avançado para seu momento histórico e que apresentava uma característica particular, a preocupação em compreender a natureza do homem, produziram um rico conhecimento mitológico e filosófico, os quais embasaram as explicações sobre saúde e doença nessa época. Assim, em um primeiro momento, as explicações para as doenças entre os gregos tinham uma fundamentação religiosa.
Nesse período, existia no ideário popular a concepção de que o sobrenatural (no caso, os deuses) era responsável pela manifestação das doenças, ou seja, existia a ideia de sacralização das doenças, uma vez que o homem tinha por costume curvar-se às divindades e se submeter aos mais diversos tipos de sacrifícios com a finalidade de livrar-se de alguma enfermidade, do castigo e das impurezas (Toscano Jr., 2001). Essa visão sofreu mudanças a partir das ideias de Hipócrates, o qual foi o primeiro a formular um conceito de causas naturais para os eventos presentes em nosso mundo (Sevalho, 1993).
Segundo sua concepção, o homem era constituído de quatro humores corporais sendo estes o sangue, a bílis amarela, a bílis negra e a fleuma, os quais eram oriundos de quatro qualidades específicas da natureza: calor, frio, umidade e aridez. Dentro dessa visão, a saúde resultaria da harmonia, do equilíbrio entre esses quatro humores e, por outro lado, a doença teria origem no excesso ou na escassez de um deles ou na falta de mistura dos mesmos no organismo, sendo a cura ligada à busca do equilíbrio (Cairus & Ribeiro, 2005). Assim, a medicina de Hipócrates apresentava uma preocupação clara com a doença individual e com a forma de curá-la, bem como com a manutenção da saúde.
Além disso, a emergência da escola hipocrática, considerando a doença e a cura como resultados de processos naturais (MacRae, 2001; Toscano Jr., 2001), levou a nova medicina a receitar o pharmakón (palavra que significa remédio ou veneno) para o tratamento das enfermidades em busca da cura (Toscano Jr., 2001). Assim, para os gregos, que empregavam vários tipos de drogas, a ação dessas era vista de maneira relativa, pois uma determinada substância poderia ser utilizada, simultaneamente, como remédio ou veneno, dependendo de sua dosagem. Isso porque era essa dosagem que determinava o efeito curativo de uma determinada substância utilizada e o envenenamento provocado pela mesma (MacRae, 2001; Toscano Jr., 2001).
Os romanos, que sofreram grandes influências dos gregos, também compartilhavam dessa posição, encarando as drogas como basicamente neutras, isto é, seus efeitos, sejam estes positivos ou negativos, dependiam da dosagem e da maneira de uso das mesmas (MacRae, 2001; Toscano Jr., 2001). No final da Antiguidade e durante toda a Idade Média (século V ao XV) retoma-se a concepção de doença como algo sagrado, provocado pelo sobrenatural, embora a mesma também continuasse sendo encarada como a manifestação de alterações globais do organismo na sua relação com o meio físico e social (Queiroz, 1986). Pode-se dizer, assim, que até esse momento, de uma forma ou de outra, a maioria dos terapeutas levava em consideração a interação corpo e alma, buscando tratar seus pacientes a partir do meio social e espiritual no qual os mesmos se encontravam (Capra, 1982).
Nesse período, os hospitais criados no Ocidente eram caracterizados como casas de assistências e abrigos, bem como funcionavam como instrumentos de exclusão ao isolar os doentes do restante da população (Sevalho, 1993). Em relação ao uso de drogas, durante a Idade Média, é necessário pontuar que a Igreja Católica, que possuía um grande poder nesse período, tanto em termos religiosos quanto em termos econômicos e sociais, passou a condenar o uso das plantas consideradas como “diabólicas”, as quais eram vistas como sinônimo de feitiçaria (Toscano Jr., 2001).
Essas plantas passaram a ser estigmatizadas, gerando perseguições tão intensas que, no século X, o emprego de drogas para fins terapêuticos tornou-se sinônimo de heresia, uma vez que o sofrimento era concebido como uma maneira de aproximação a Deus (MacRae, 2001). É importante esclarecer que durante a Idade Média a única droga permitida pelo Cristianismo era o álcool, mais precisamente o vinho, o qual até hoje é considerado um elemento relevante dentro dessa religião, uma vez que simboliza o sangue de Jesus Cristo (Toscano Jr., 2001).
O uso de qualquer outro tipo de droga, como unguentos e poções, era condenado pela Igreja Católica e os indivíduos que os utilizavam eram punidos com torturas e morte pelos tribunais da Inquisição (MacRae, 2001). Apesar dessas restrições e das perseguições constantes realizadas pela Igreja Católica, a Idade Média conseguiu acumular “todo um saber herbário, alquímico e secreto, bem como de uma prática popular sobre as plantas” (Toscano Jr., 2001).
No final da Idade Média, a Europa é assolada pela peste negra peste bubônica, que provocou uma grande mudança na realidade da época, evidenciando o medo do sofrimento e da morte. Nesse período, o pensamento da morte tornou-se evidente. Os princípios da medicina galênica não conseguiram dar conta dessa nova vivência, o que levou Sydenhan a apoiar-se nas obras dos empiristas, “especialmente Bacon e Locke, e [iniciar] um novo modo de conceber a doença, através de dois elementos importantes: o empirismo clínico, que se apóia na observação, e uma nova classificação das doenças, agudas e crônicas, ainda hoje utilizada” (Ornellas, 1999, p. 20).
A partir desse momento, essa nova forma de conceber a doença, associada a um conjunto de outros fatores da época, levou à emergência de um novo olhar sobre a questão da saúde e doença e da relação entre as mesmas, bem como no que diz respeito ao uso de drogas. Desta forma, com o Renascimento final do século XV ao início do XVI, que levou à queda gradativa do poder e da influência exercidos pela Igreja Católica em todos os âmbitos da sociedade, é possível notar grandes transformações na realidade da época.
Por exemplo, a possibilidade de um contato mais íntimo com as culturas orientais, em que antigos conhecimentos farmacológicos haviam sobrevivido melhor, possibilitou uma retomada gradual do uso de drogas (MacRae, 2001). Por outro lado, nesse período ocorreu um grande avanço científico, evidenciando-se a necessidade de laicização do saber, o que levou ao nascimento da ciência moderna. A ciência, que durante toda a Idade Média, sofreu um processo de estagnação, retomou aqui seu papel, com uma nova roupagem. A ciência moderna passou a exigir a sistematização do conhecimento, seguindo para isso normas e regras específicas para a produção do mesmo, o que fez com que a observação, a descrição e a classificação delimitassem o paradigma da mesma. Com isso, as ideias da experiência e da intervenção incorporaram-se ao pensamento moderno (Ornellas, 1999).
Frente a esse contexto, a partir do século XVII, a evolução da medicina acompanhou de perto o desenvolvimento ocorrido na ciência, principalmente na biologia, a qual apresentava uma concepção mecanicista da vida, concepção esta que passou a dominar, consequentemente, a atuação dos médicos em relação à saúde e à doença (Capra, 1982). Tomando como base esse paradigma, Descartes (século XVII) desenvolveu o conceito de dualismo mente e corpo, passando a encarar o corpo como uma máquina, o qual poderia ser explorado e estudado (paradigma mecanicista).
Essa visão quebrou a concepção predominante na Idade Média, do corpo como algo sagrado e inviolável, por ser considerado o “depósito” da alma. Consequentemente, essa visão criou uma concepção de doença como um mau funcionamento das “peças” da máquina humana, o qual poderia ser reparado por meio de uma intervenção específica da medicina, desde que esta desenvolvesse conhecimentos pontuais das leis que regem o funcionamento dessa máquina (Ornellas, 1999; Sevalho, 1993), e uma concepção de morte como a paralisação total da mesma (Capra, 1982).
A função do médico, a partir de então, seria a de intervir “física ou quimicamente, para consertar o defeito no funcionamento de um mecanismo enguiçado” (Capra, 1982, p. 116), ou seja, como um bom mecânico, devendo, portanto, reparar o que não estava adequado. Nota-se, assim, uma mudança epistemológica na medicina, a qual passou de uma arte de curar os indivíduos, portanto, uma prática, para uma disciplina das doenças (o saber componente da prática é organizado e sistematizado segundo determinados padrões) (Ornellas, 1999).
Além disso, a divisão entre corpo e mente, proposta por Descartes, levou os médicos a direcionarem sua atenção para a máquina corporal, para o biológico, deixando de lado aspectos psicológicos, sociais e ambientais da doença (Capra, 1982), o que demonstra uma visão reducionista da doença. Teve início, assim, o modelo biomédico, que se constituiu no alicerce conceitual da moderna medicina científica, permanecendo na área da saúde aproximadamente quatro séculos após Descartes. No âmbito dessa nova concepção, ganha força a interpretação do sinal físico, ou seja, do sintoma, sendo desenvolvido todo um sistema de classificação das doenças de uma forma ordenada e sistematizada.
A doença passou a ser identificada a partir de uma realidade concreta e começou a ser localizada no corpo, sendo evidenciada a partir da lesão anatômica. Buscava-se, portanto, a relação entre lesão e sintomas dentro de uma perspectiva anatomopatológica (Capra, 1982; Ornellas, 1999). Procurava-se, no doente ou no laboratório, evidências que apontassem para uma patologia específica, ocorrendo uma objetivação do corpo, o qual se tornou interessante por ser a sede das doenças, e por outro lado, uma objetivação das próprias doenças, que se transformaram em entidades patológicas a serem exploradas e compreendidas (Ornellas, 1999).
Dentro desse contexto, a teoria da medicina assumiu a concepção biológica da doença, passando a ser a teoria das doenças. A saúde, a partir desse foco, passou a ser encarada como a ausência de doenças e o processo de cura, como a eliminação dos sintomas evidenciados. Assim, o médico, em sua atuação, era dotado de cada vez mais poder e controle sobre a questão da doença e o seu tratamento, uma vez que passou a ter um saber e uma prática socialmente valorizados. Segundo Queiroz (1986) a partir da Revolução Industrial (século XVIII), identificou-se uma “ruptura fundamental entre saúde e medicina, com uma hegemonia flagrante desta última.
Esta ruptura veio acompanhada da [cisão] entre corpo e mente, eu e outro, pessoa e contexto, relações econômicas e comunitárias dentro de um mundo em intenso processo de burocratização e desencanto” (p.311). Destaca-se, ainda, que nas discussões sobre essa questão, os graves problemas sociais do início do capitalismo industrial (jornada de trabalho, urbanização, pobreza etc) em nenhum momento eram relacionados aos problemas de saúde vivenciados na época (Sevalho, 1993). No que diz respeito ao uso de drogas, no decorrer do século XVIII, ocorreu uma diminuição na perseguição aos indivíduos considerados hereges, fato que propiciou uma volta do uso médico e lúdico das drogas (MacRae, 2001), ou seja, os próprios avanços científicos começaram a apontar a necessidade de se explorar a questão medicamentosa quando se discute a questão da doença dentro dos parâmetros em voga.
No início do século XIX desenvolveu-se a filosofia positiva, a qual teve um impacto direto no que diz respeito ao método científico ao ressaltar que todo e qualquer fenômeno deve ser explicado de uma forma objetiva, experimental. Nesse sentido, segundo Ornellas (1999), todo conhecimento produzido deve ser submetido ao que o Positivismo denominava de princípio da neutralidade do sujeito. Esse princípio levou a uma nova concepção de saúde e doença, uma vez que a medicina incorporou o conceito de função, desenvolvendo, a partir desse, a visão de saúde como um processo.
Também no início desse mesmo século, cientistas conseguiram isolar os princípios psicoativos de inúmeras plantas, passando a produzir determinados fármacos como a morfina, a codeína, a cafeína, a cocaína, os barbitúricos entre outros (MacRae, 2001; Toscano Jr., 2001). MacRae acrescenta, ainda, que foi desenvolvido também nesse período, o uso anestésico do éter, do clorofórmio e do óxido nitroso. Destaca-se, ainda, que no século XIX houve o surgimento da Psiquiatria, a qual foi considerada como um ramo secundário no âmbito da medicina.
A Psiquiatria incorporou o modelo biomédico vigente, procurando discutir a questão dos problemas mentais a partir da descoberta de causas orgânicas, ou seja, da busca da lesão, no caso, da lesão cerebral (Capra, 1982). O tratamento oferecido, na primeira metade do século XX, era advindo desse modelo com ênfase no biológico. Como a Psiquiatria seguiu a visão positivista predominante na época, a mesma contribuiu para encobrir valores e poderes presentes nesse cenário, como o caso da exclusão e morte social, uma vez que o paciente era retirado do convívio social e encarcerado, perdendo muitas vezes seus vínculos e sua própria identidade. Houve uma eclosão de hospitais psiquiátricos nesse período.
Os mesmos atendiam os mais diversos tipos de problemática relacionados ao campo da saúde mental ou de pessoas que deveriam ser retiradas do convívio social, segundo os interesses vigentes na época (mendigos, leprosos, tuberculosos, portadores de sífilis, usuários de drogas etc). Assim, a partir do século XIX a moderna medicina científica passou a apresentar um grande avanço, que teve início a partir dos grandes progressos efetuados na biologia. Dentre esses, pode-se mencionar o rápido desenvolvimento na compreensão dos processos fisiológicos, levando médicos e biólogos a se preocuparem com entidades cada vez menores, como por exemplo, aquelas de interesse da biologia celular e da teoria microbiana da doença (Capra, 1982).
Esses conhecimentos deram à medicina um status diferenciado, conferindo-lhe um poder específico para controlar as doenças e uma visão individualista em relação ao objeto da saúde, ou seja, o foco de interesse passou a ser cada vez mais o indivíduo e não a população (Queiroz, 1986). Segundo Capra (1982), os grandes avanços da biologia durante o século XIX foram acompanhados pela grande evolução na tecnologia médica. Por outro lado, os conhecimentos produzidos no século XIX foram aplicados de maneira diferenciada no século XX, gerando o desenvolvimento de uma série de medicamentos e vacinas para o combate de doenças infecciosas, e descobertas importantes como a penicilina em 1928 e a produção de medicamentos psicoativos a partir da década de 50.
Esse desenvolvimento tecnológico e científico embasado no modo de produção capitalista vigente no final do século XIX pode ser caracterizado como um dos pontos que contribuíram para a tendência à especialização médica, que teve seu apogeu no século XX. Nesse século, a visão reducionista permaneceu na ciência biomédica, atingindo direta ou indiretamente todas as profissões da área de saúde e orientando a formação e atuação das mesmas.