Existem mais de 250 estudos que, direta ou indiretamente, avaliaram a ingestão de nutrientes em indivíduos vegetarianos, comparada ou não à ingestão dos onívoros. De todos os nutrientes, apenas a vitamina B12 não será encontrada na dieta vegetariana estrita. Os demais podem ser obtidos com abundância e boa biodisponibilidade em todas as dietas vegetarianas, inclusive a estrita. As dietas ovolacto, lacto e ovovegetariana fornecem todos os nutrientes necessários ao organismo em todos os ciclos da vida.
Macronutrientes
A substituição de alimentos de origem animal pelos de origem vegetal costuma alterar a proporção de macronutrientes da dieta, mas ela se mantém dentro das proporções sugeridas pelas DRIs (Dietary Reference Intakes) nos estudos populacionais que quantificaram essa ingestão. O profissional nutricionista, com o conhecimento do teor de macronutrientes dos alimentos, deve auxiliar o paciente a escolhê-los e a fazer modificações para ajustar as necessidades diante de condições clínicas específicas. A recomendação das DRIs [92] para o percentual de ingestão dos macronutrientes está na Tabela 5:
A proteína costuma ser utilizada na quantidade de 10% a 15% do volume calórico total (VCT) e, em alguns casos, chega a 20%. O valor máximo de 35% estabelecido pelas DRIs foi o que sobrou para completar os 100% após o cálculo de carboidratos e lipídios para diferentes grupos e idades.
Carboidratos
A adoção da dieta vegetariana não leva à ingestão excessiva de carboidratos. Apesar de alguns estudos demonstrarem que os vegetarianos ingerem mais carboidratos do que os onívoros, a quantidade ingerida por vegetarianos não ultrapassa a recomendação de até 65% do VCT. A forma de elaborar a dieta vegetariana permite aumentar ou reduzir a ingestão de carboidratos. Os estudos populacionais demonstram que a dieta vegetariana comumente adotada (sem alterações terapêuticas específicas) costuma contemplar 51% a 62,7% do VCT como carboidrato. Nos mesmos estudos comparativos, os onívoros ingeriam 43,5% a 58% do VCT como carboidrato [18,19,93-96]. Um estudo que avaliou pacientes dislipidêmicos, com alterações no percentual de carboidratos ingeridos, chegou à prescrição da dieta com 26% do VCT para indivíduos ovolactovegetarianos. Essa dieta foi chamada de Eco-Atkins . Observamos então que o teor de carboidratos, assim como dos demais macronutrientes, pode ser alterado conforme a escolha alimentar e objetivos clínicos da prescrição nutricional.
Gorduras
A adoção da dieta vegetariana tende a modificar a quantidade e o tipo de lipídio ingerido. Em estudos populacionais, os vegetarianos demonstram ingestão de gordura entre 23% a 34% do VCT. Segundo esses mesmos estudos, os onívoros ingerem gorduras entre 30,7% a 36% do VCT. Na dieta Eco-Atkins, esse percentual chega a 43% do VCT para os ovolactovegetarianos . Quanto ao tipo de lipídio ingerido, os estudos demonstram que a principal diferença encontrada entre onívoros e vegetarianos é a ingestão menor de gordura saturada e maior de gordura poliinsaturada pelos vegetarianos . Vale ressaltar que, como são inúmeras as escolhas alimentares, é possível prescrever de várias formas a quantidade e qualidade dos lipídios. Cabe ao profissional nutricionista conduzir essa prescrição.
Ômega-3
A ingestão de ômega-3 (Ω-3) na dieta vegetariana não costuma ser problema, mas quando a ingestão de ômega-6 (Ω-6) é excessiva, a conversão do Ω-3 nas formas ativas (EPA – ácido eicosapentaenoico e DHA –ácido docosahexaenoico) pode ficar comprometida. A alteração encontrada na literatura em relação a baixos níveis de Ω-3 na dieta vegetariana é a redução do tempo de coagulação, corrigida com ajustes alimentares. Pelo fato de o Ω-3 ter de se converter em EPA e DHA (fatores já encontrados nos peixes e em alguns poucos alimentos de origem animal), as DRIs determinam que, na dieta vegetariana, deve-se prescrever o dobro do que se prescreve para onívoros, conforme visto na Tabela 6:
No entanto, como a dieta habitual do brasileiro não inclui boas fontes de ômega-3, a adequação nutricional de onívoros e vegetarianos é similar. Estudo realizado com homens e mulheres com cerca de 60 anos e sobrepeso, comparando 12.210 indivíduos que comiam peixe, 1.934 que comiam carnes (exceto peixe), 250 ovolactovegetarianos e 28 vegetarianos estritos, demonstrou que a ingestão de ômega-3 era maior nos que comiam peixe, seguido pelos ovolactovegetarianos, os que comiam carne (exceto peixe) e os vegetarianos estritos. No grupo masculino, a ingestão diária média de ômega-3 era de 1,57 g para os comedores de peixe, 1,27 g para os ovolactovegetarianos, 1,15 g para os comedores das demais carnes e 1,04 g para os vegetarianos estritos. No grupo feminino, a ingestão encontrada foi de 1,27 g para as comedoras de peixe, 0,98 g para as ovolactovegetarianas, 0,91 g para as vegetarianas estritas e 0,89 g para as comedoras das demais carnes. Na avaliação do nível plasmático, encontramos a seguinte variação nos homens:
Esse estudo demonstrou que a ingestão de ômega-3 e seu nível sérico dosado não são proporcionais. Uma das hipóteses é que a conversão de ômega-3 em EPA e DHA é maior nos que não comem peixe, na tentativa de manter a homeostase corporal. A discussão desse estudo também leva em conta não apenas a proporção de três partes de Ω-6 para 1 parte de Ω-3 como forma de manter a enzima Δ-6- dessaturase voltada para a conversão de Ω-3 em EPA e DHA, como também a quantidade total de Ω-6 e Ω-3 na dieta como fator relevante para a elongação da cadeia carbônica do Ω-3. O estudo ainda conclui que as fontes vegetais de ômega-3 podem ser adequadamente convertidas em EPA e DHA . As fontes mais ricas de ômega-3 estão na Tabela 7:
Proteínas e Aminoácidos
Em diversos estudos, a ingestão de proteínas fica entre 12% a 13,8% do VCT em ovolactovegetarianos e vegetarianos estritos. Nos mesmos estudos, a população onívora ingeria 14,8% a 16,3% do VCT . Dessa forma, apesar de ingerir menos proteína do que a onívora, a população vegetariana ingere mais do que o necessário e não corre risco de desnutrição proteica. Como a elaboração do cardápio saudável inclui proteínas na quantidade de 10 a 15% dos VCT, nos estudos populacionais a dieta vegetariana tende a ser mais apropriada do que a onívora para manter as proporções sugeridas pelas DRI. Na dieta Eco-Atkins, a ingestão de proteínas por lactovegetarianos chegou a 31% do VCT, o que nos mostra as inúmeras possibilidades de ajuste nutricional na dieta vegetariana . Devido ao tema “proteínas” levantar dúvidas quanto à adequação da dieta vegetariana, resumimos abaixo algumas questões que merecem revisão e atualização (Tabela 8):
Os estudos de avaliação de necessidades proteicas não confirmam a recomendação de ingestão diferente de proteínas entre vegetarianos e não vegetarianos . Segundo uma metanálise, no organismo humano a incorporação da proteína vegetal não é
diferente da animal . Frente aos frequentes equívocos de conceitos sobre a proteína animal, chamamos a atenção do profissional nutricionista para que se mantenha atualizado a respeito dos 8 mitos da proteína vegetal (Tabela 9):
Uma forma de avaliar a segurança da dieta vegetariana em termos do teor de proteínas dos alimentos vegetais é comparar o valor calórico das proteínas em relação ao valor calórico total do alimento. Por exemplo, 100 gramas de aveia crua contêm 17 gramas de proteína, ou seja, em 395 kcal (100 g de aveia) há 68 kcal de proteína (17 g x 4 kcal). Isso corresponde a 17% do valor calórico total. Assim, se ingerir somente aveia durante o dia inteiro até atingir a recomendação energética, o indivíduo terá ingerido 17% do VCT como proteína, o que o deixa bem acima da necessidade proteica (10% do VCT). Veja a Tabela 10, que apresenta o cálculo relativo aos diversos grupos alimentares :
Avaliando a tabela acima, fica fácil entender porque é muito difícil cumprir a recomendação diária de energia sem atender às recomendações proteicas. Em estado natural, apenas amiláceos e frutas não atingem 10% do valor energético como proteína. Os dois alimentos modificados pelo ser humano (óleos e açúcar) não têm proteína na composição. Com relação aos aminoácidos, a metionina não é aminoácido limitante para a síntese de proteínas . O único aminoácido que exige atenção em alguns casos é a lisina, por ser o aminoácido encontrado em menor teor nos cereais, que costumam ser à base da dieta da maioria da população mundial. No entanto, mesmo em dietas baseadas em cereais, a lisina não constitui limitação para a síntese proteica. A necessidade de aminoácidos em seres humanos é vista na Tabela 11:
No cálculo abaixo, utilizamos o valor calórico de porções adotado pelo Ministério da Saúde, em que o grupo dos cereais tem 150 kcal e o dos feijões, 55 kcal [91]. Se contiver exclusivamente o grupo dos cereais integrais (que possui o menor teor de lisina) num total de 14 porções, uma dieta com 2.100 kcal planejada para um homem de 70 kg fornecerá 72,21 gramas de proteína, o que corresponde a 1,03 g/kg/d. Nessa dieta, o teor de lisina necessário será de 2.660 mg (RDA), e ele receberá 2.646 mg Observe que, mesmo utilizando apenas o grupo de alimentos com menor teor de lisina, a diferença para atingir a RDA é de apenas 14 mg. Como medida de segurança, quando a dieta vegetariana estrita não apresenta muita variação de grupos alimentares, convém sempre planejar a inclusão de 2 porções de feijões (4 colheres de sopa de grãos cozidos), que fornecem maior teor de lisina. Assim, se esse mesmo indivíduo ingerir 2.100 kcal com 2 porções de feijão (4 colheres de sopa ao dia, ou 110 kcal) e com 13,26 porções de cereais (1.990 kcal), o teor de lisina necessário seria de 2.660 mg por dia e ele teria 2.506 mg proveniente dos cereais e 498 mg proveniente dos feijões, num total de 3.004 mg de lisina.
Assim, na dieta vegetariana estrita, sugerimos a inclusão de duas porções de feijão (110 kcal), ou 4 colheres de sopa de grãos de feijão cozido, como medida de segurança para ultrapassar, com margem de segurança, a RDA de lisina.
A Tabela 12 demonstra o teor médio de lisina encontrado nos grupos alimentares:
*Fonte: Departamento de Agricultura dos EUA – SR23 [105] Cereais integrais: aveia, arroz integral, centeio, quinua, trigo, cevada. Cereais refinados: arroz, farinha de arroz, amido de milho, farinha de trigo, macarrão. Feijões: azuki, preto, branco, vermelho, lentilha, rajado, ervilha verde partida, grão de bico. Oleaginosas:amêndoas, noz pecã, amendoim, avelã, castanha de caju, castanha do Pará, coco seco, gergelim tostado, linhaça, semente de abóbora, semente de girassol, semente de melancia, nozes, pistache, pinhão, macadâmia. Verduras cruas: alga wakame, aipo, espinafre, agrião, alface, brócolis, folha de brócolis, chicória, repolho, couve-flor, mostarda, couve. Legumes: alcachofra, berinjela, cebola, cogumelo branco e shitake, abóbora, abobrinha, beterraba, cenoura, chuchu, pimentão vermelho e verde, quiabo, rabanete, tomate, pepino. Amiláceos: aipim, batata doce, inhame. Frutas: abacaxi, abacate, ameixa, banana, caqui, carambola, figo, goiaba, jaca, kiwi, laranja, maçã com e sem casca, mamão, manga, melancia, melão, morango, pera, pêssego, tangerina, uva branca e vermelha. Queijos: cheddar, cottage, cream cheese com e sem gordura, mussarela, parmesão duro, provolone, ricota, prato, brie, camembert, roquefort, suíço. Carnes: bife de boi em fatias, camarão cru, peixe tilápia cozido, peito de frango cru (porção considerada como bife de boi em fatias e peito de frango cru).
A soja não é um alimento necessário na dieta vegetariana. Apesar de ter elevado teor proteico, seu uso é opcional para os indivíduos que apreciam seu consumo.
Ferro
O ferro heme, pela presença do anel porfirínico, preserva a absorção constante do mineral no trato gastrointestinal humano, que varia de 15% a 35% . O ferro não heme preserva absorção entre 2 e 20%. O único fator de inibição de absorção do ferro heme é o cálcio. A vitamina C, os ácidos orgânicos e os demais fatores estimulantes da absorção do ferro não-heme não potencializam a absorção do ferro heme . Como o consumo de carne considerado saudável pelas diretrizes atuais é minimizado, a ingestão preconizada do mineral não pode ser atingida com a ingestão de carne pelos que a consomem. A tabela abaixo mostra o teor de ferro em 100 gramas dos alimentos (quantidade máxima de ingestão diária preconizada para onívoros, segundo o Ministério da Saúde ), o que seria absorvido (considerando-se que a biodisponibilidade de ferro dos alimentos cárneos é de 18%) e a necessidade de absorção humana (1 a 2 mg/dia) para a manutenção do nível orgânico do mineral em situação de equilíbrio metabólico.
Dessa forma, é importante que o nutricionista procure sempre adequar a dieta com base nos fatores que otimizam e inibem a absorção do ferro não heme, pois serão sempre fundamentais para atingir a necessidade diária na dieta saudável de quem come ou não carne. As DRIs sugerem prescrição de ferro diferente para vegetarianos e não vegetarianos, com base em estudos populacionais que indicam que a biodisponibilidade média de ferro na dieta vegetariana é de 5 a 12%, contra 14 a 18% na dieta onívora . Sendo assim, para absorvermos 1 a 2 mg de ferro, considerando a absorção máxima das dietas, seria importante a ingestão de 5,5 a 11,1 mg de ferro na dieta onívora e 8,3 a 16,6 mg na dieta vegetariana. As DRI estipulam uma margem de segurança exagerada, pois se a mulher vegetariana necessita absorver 2 mg de ferro, ela necessitaria ingerir 16,6 mg de ferro. As DRIs sugerem que o profissional de saúde prescreva para o vegetariano o dobro do que prescreveria para o onívoro (Tabela 14).
A atenção ao ferro dietético é idêntica para onívoros e vegetarianos.
Dificilmente se atingirá a recomendação de ferro das DRIs para mulheres vegetarianas, mas isso não é problema, já que um conjunto de 15 estudos demonstrou prevalência idêntica de anemia ferropriva em mulheres onívoras e vegetarianas. Outro estudo demonstrou que a prevalência de deficiência de ferro em mulheres que comiam carne vermelha foi de 60% contra 40% da mesma deficiência em ovolatovegetarianas . Isso é justificável pela perda sanguínea menstrual, que pode diferir de uma mulher para outra. No item “RECOMENDAÇÃO DE INGESTÃO PARA GRUPOS ALIMENTARES”, observe como substituir a carne pelos feijões para obter a mesma absorção final de ferro, mesmo sem o uso de vitamina C. Os principais fatores que estimulam ou inibem a absorção de ferro não-heme estão na tabela 15:
O uso de fibras purificadas em doses muito elevadas tem interferência mínima na absorção de minerais da dieta. O efeito inibitório da absorção de ferro em alimentos ricos em fibra não se deve a elas mas ao ácido fítico, efeito que pode ser minimizado com métodos culinários . A vitamina C é um dos estimuladores mais potentes de absorção do ferro, se contrapondo com o efeito inibitório dos polifenóis, fitato, cálcio e caseino-fosfatopeptídeos, sendo, por isso, importante estar presente sempre que houver ou não houver esses compostos na dieta . O uso de panela de ferro aumenta o teor de mineral nos alimentos, mas sua quantidade é incerta. A prática de utilizar panela de ferro pode ter efeito preventivo, mas não servirá de tratamento da deficiência . Na maioria dos estudos, os indivíduos que adotam a dieta vegetariana têm ingestão igual ou superior à observada em onívoros . Isso é justificável pelo elevado teor de ferro dos alimentos que formam a base da dieta vegetariana, conforme a Tabela 16.
Estudos com grupos de vegetarianos mostram ingestão de vitamina C muito superior à encontrada em onívoros. Nos vegetarianos, o valor sérico de vitamina C também é maior do que em onívoros . Os alimentos mais ricos em vitamina C estão na Tabela 17: