Saúde, nutrição e alimentação
Básico de Nutrição e Dietética
1 Fatores Ambientais e biológicos que interferem no processo de crescimento Infantil:
Relações com a aprendizagem e desenvolvimento da criança:
Para compreender a relação do ambiente com aprendizagem e desenvolvimento infantil, bem como diagnosticar a influência dos fatores ambientais nesse processo, faz-se necessário antes de qualquer coisa, a conceitualização da palavra ambiente. Ambiente, segundo o Dicionário Aurélio (1999, p.117) é uma palavra de origem latina, que significa “aquilo que cerca ou envolve os seres vivos ou as coisas; por todos os lados; é o conjunto de condições materiais e morais que envolvem alguém.
” Para Molden, (1998, p.172), o ambiente consiste no conjunto das substâncias ou condições em que existe determinado objeto ou em que ocorre determinada ação. Já para Foulquié (1976, p.25) em seu “Dicionário de Pedagogia”, ambiente também é a atmosfera moral (alegre, animada ou triste, séria ou frívola, etc.) resultando em uma agrupação humana (ponto de vista social). Segundo o autor, por muitos é dada a educação o nome de ambiente de autoeducação. Nesse viés, o material autoeducativo constitui para Montessori o meio primordial para estabelecer o ambiente.
No dicionário de ambiente encontra-se a seguinte definição: “Conjunto dos sistemas físicos, ecológicos, econômicos e socioculturais com efeito direto ou indireto sobre a qualidade de vida do homem”. Observando esses conceitos e definições trazidos por diferentes autores de diferentes áreas, é notório a semelhança que ambos apresentam.
A palavra ambiente é quase sempre conceitualização por um conjunto (de condições, de substâncias, de sistemas...) no qual o ser humano faz parte e é parte integrante. E o bom ou mau andamento desse conjunto é o que determina a qualidade de vida do homem, ou seja, os fatores que influenciam a sua vida social, psicológica, cultural, moral, escolar, que constituem, por sua vez, diferentes ambientes.
2 RELAÇÕES CRIANÇA-AMBIENTE
Partindo da conceitualização de ambiente como um conjunto de condições que influenciam a vida social, cultural, moral e até mesmo escolar do homem, é possível perceber como ele é um agente continuamente presente na vivência humana. De fato, grande parte do comportamento do indivíduo envolve a interação com o espaço e no espaço, desde atividades simples, como alimentar-se e vestir-se, até atividades complexas, como definir um percurso na cidade.
Diante disso, percebe-se a grande importância do ambiente para o desenvolvimento infantil, pois é nele que a criança estabelece a relação com o mundo e com as pessoas e é ele que vai garantir a sua formação e a sua qualidade de vida social, moral, psicológica e cultural. Nesse viés, o papel do ambiente no desenvolvimento infantil, é uma questão fundamental para o desenvolvimento humano. Rousseau em sua obra “Emílio ou Da Educação” traz a concepção de uma educação natural. A criança precisa ser criada livremente, ou seja, deve-se respeitar a liberdade e a natureza da criança, educando-a em um ambiente livre e natural. Afirma que a criança criada livremente, no campo, terá mais facilidade para falar e aprender (por si mesmas elas aprendem).
“Não deveis deixar que a criança seja metida em outros invólucros que a apertem ainda mais. Nada de testeiras e nada de faixas; fraldas soltas e largas que deixem todos os seus membros em liberdade e não sejam nem muito pesadas para atrapalhar seus movimentos, nem quentes demais para impedir que sinta as impressões do ar. Colocai-a num grande berço, onde ela possa movimentar-se à vontade e sem perigo. Quando começar a ficar mais forte, deixai-a engatinhar pelo quarto; deixai que a criança se desenvolva e estique as perninhas e os bracinhos e vereis que ela se fortalecerá a cada dia. Comparai-a com outra criança bem enfaixada, da mesma idade, e ficareis admirados com a diferença de seus progressos.”(ROUSSEAU, 1999, p. 42 e 43).
A infância para Rousseau é caracterizada como a Idade da Natureza. A educação não vem de fora, é a expressão livre da criança no seu contato com a natureza.
A criança precisa ser criada livremente. Precisa correr e cair cem vezes por dia, assim aprenderá mais cedo a se levantar. Ela pode e deve sentir dor. Sofrer é a primeira coisa que deverá aprender, para que quando seja adulto não acredite morrer a primeira picada e desmaie ao ver a primeira gota de sangue. [...] É na infância, onde as dores são menos sensíveis, que devemos multiplicá-las, para poupá-las na idade da razão. (ROUSSEAU, 1999, p. 236)
Já Froebel (1985), defendendo o jogo, a psicomotricidade e a jardinagem como atividades a serem incentivadas e praticadas nas escolas, alertou para a integração escola natureza e, portanto, para as necessidades desta conter espaços livres utilizáveis pelos estudantes.
Nessa perspectiva, para Makarenko (1981), não é o educador que educa, mas sim o ambiente, por isso é necessário que o ambiente seja acolhedor, propício e favorável ao aprendizado e desenvolvimento da criança, não só o ambiente escolar como também o familiar.
Nesse sentido, a liberdade individual, a autodeterminação infantil e o uso de material didático concreto e lúdico defendidos por Montessori (1980) pediam salas de aula grandes, acomodando móveis não fixos, a fim de possibilitar uma disposição dos materiais que facilitasse as escolhas infantis; a ocorrência simultânea e sem interferência mútua de diversas atividades individuais e grupais; e a prática de exercícios coletivos em círculos.
Explicitando que o contato da criança com a dinâmica da natureza a estimulava em diversos sentidos, Decroly (1980) valorizava o espaço exterior como fonte de saúde e elemento gerador de curiosidade, conhecimento e aprendizado. Para facilitar tal processo a escola deveria dispor de área verde e animais, de modo a possibilitar o acompanhamento da variação das estações do ano e da evolução natural.
Expandindo o conceito de aula para além dos muros da escola, Freinet alterou o conceito tradicional de classe (sala). Além disso, ao incentivar o trabalho em grupos e promover a prática de produção de material didático como atividade discente, ele colocou em evidência as mesas de trabalho maiores e os equipamentos para reprodução de textos (na época, pelo processo tipográfico).
Piaget e Vygotsky (2002) falam da questão do ambiente social para a aprendizagem, porém os dois divergem nas opiniões.
Piaget, embora reconheça a presença de fatores externos, fatores sociais nos processos cognitivos, ainda está longe se reconhecer sua importância na determinação das operações intelectuais (Concepção construtivista interno perspectiva evolucionista de conhecimento-interação com o meio).
Já Vygotsky, com seus pressupostos sócios interacionistas, aponta uma direção oposta à Piaget. Seus esforços teóricos se canalizaram na procura de explicações sobre os meios através dos quais as relações atuais do indivíduo com o meio social tomam parte na construção do conhecimento.
Portanto, enquanto Piaget busca compreender as estruturas do pensamento através do mecanismo interno que as produz, Vygotsky procura compreender de que maneira se dá a interferência do mundo externo no mundo interno, ou como a natureza sociocultural se torna a natureza psicológica.
Educar é adaptar o indivíduo ao meio social ambiente. Desta forma, aprendizagem para:
Piaget – De dentro para fora
Vygotsky – De fora para dentro
Para Vygotsky a aprendizagem se dá pela interação com o outro. O sujeito não é ativo, nem passivo, mas interativo. Sua atividade passa a ser considerada, não no isolamento das relações do sujeito com o mundo físico, mas nas interações mediadas pelos signos culturalmente construídos nas interações sociais. Sob esse prisma, não só o conhecimento, mas também a subjetividade são processos que se constituem e serão constituídas através das interações sociais ou mediadas.
Charlot (2000, p.138) traz a relação com o saber e o ambiente social. Afirma que não há relação com o saber senão a de um sujeito. Não há sujeito senão em um mundo e em uma relação com o outro.
Assim:
“MUNDO” – Aquele em que a criança vive um mundo desigual, estruturado por relações sociais.
“EU” – Sujeito. É um aluno que ocupa uma posição, social e escolar, que tem uma história, marcada por encontros, eventos, rupturas, esperanças, a aspiração, a tornar-se alguém, etc.
“O OUTRO” – São os pais que atribuem missões ao filho, professores que “explicam” de maneira mais ou menos correta, que estimulam ou às vezes proferem insuportáveis “palavras de fatalidade”.
Diante destas ideias, dar maior atenção às características sócio-físicas-culturais dos ambientes e às relações entre estes e a criança, garantindo a ela oportunidades de contato com espaços variados, tanto construídos pelo homem quanto naturais, é uma maneira de proporcionar à infância condições plenas de desenvolvimento, gerando consciência de si e do entorno que são provenientes da riqueza experiencial.
3 NÍVEIS DE REPRESENTAÇÕES SOBRE AMBIENTE
Sendo ambiente o conjunto de condições materiais e morais que envolvem alguém, que age direto ou indiretamente sobre a vida do ser humano, entende-se que existem vários tipos ou níveis de representações sobre ambiente.
Dessa forma, dividem-se os diferentes ambientes em três grupos:
ONDE VIVE:
Ambiente familiar
Historicamente, a família tem sido considerada o ambiente ideal para o desenvolvimento e a educação de crianças pequenas. Essa é a posição de alguns sistemas educacionais, que sustentam que a responsabilidade da educação dos filhos, particularmente quando pequenos, é da família, e assumem um papel de meros substitutos dela, repetindo as metas embutidas nas práticas familiares. (OLIVEIRA,2005, p.175)
Muitas instituições de educação infantil veem o lar, a casa de seus alunos, como uma área livre de tensões, como refúgio onde reina a paz, a harmonia, o carinho, a compreensão e onde todos os membros da família partilham dos mesmos interesses.
No entanto, é preciso lembrar que hoje existem diversas formas de arranjo familiar, bem diferente da imagem que ainda se mantém como o ambiente correto para o bom desenvolvimento infantil: uma família onde o pai trabalha para prover os recursos necessários à sobrevivência física e a mãe é a grande responsável pelos cuidados da casa, dos filhos e da educação dos mesmos.
Grande parte das crianças brasileiras vive em famílias totalmente diferentes desta idealizada. Convivem com separações de pais, uniões informais, famílias monoparentais, etc., fatores esses que são considerados perigosos para o bom desenvolvimento das crianças em todos os seus aspectos. Além disso, a cultura da violência está presente em muitas famílias (agressões, ameaças, espancamentos), assim como os abusos sexuais, o abandono por parte dos pais, a falta de tempo que os pais têm para ficarem junto com os filhos. Todos esses fatores que dizem respeito ao ambiente familiar, além de arranharem a imagem da família podem interferir no desenvolvimento dessa criança.
Um ambiente desestruturado, foco de tensões, brigas ou mesmo onde há apenas indiferença, esquecimento, pode ser um fator ambiental que influencie no desenvolvimento infantil, e isso deve ser levado em conta pelos professores de educação infantil. A imagem de uma família nuclear, vivendo em harmonia não pode ser desprezada, mas não deve ser vista como única e presente na sociedade de hoje.
4 Ambiente físico:
O ambiente físico caracteriza-se pelo conjunto das qualidades exteriores e materiais do homem, abrangendo desta maneira todos os espaços em que o indivíduo vive. Assim sendo, existem diferentes tipos de ambientes físicos, determinados pela distinção socioeconômica e cultural existente. Considerando os ambientes físicos em que uma criança possa interagir, destacam-se o lar/a casa e a escola.
Sem dúvida alguma, o ambiente físico da escola tem grande importância no desenvolvimento infantil, mas neste momento dar-se-á ênfase no espaço físico onde a criança vive com a família, ou seja, o lar, a casa.
O ambiente físico onde a criança vive, exerce grande influência sobre seu desenvolvimento, isso se observa principalmente nas realidades mais precárias. Geralmente, nas regiões periféricas, os espaços físicos são precários e pouco favoráveis ao bom crescimento das crianças. Casas pequenas, sem infraestrutura, famílias grandes, muitas vezes desarmoniosas, formam o ambiente físico de muitas crianças brasileiras.
Juntamente com o ambiente familiar, o espaço físico, quando acolhedor e propício, contribui para o bom desenvolvimento infantil, e é preciso que os professores estejam atentos a esses aspectos diariamente, no momento de avaliar a evolução da criança. É necessário conhecer o aluno não somente no ambiente-escola, mas sim em todos os ambientes em que vive, na sua totalidade, para então entender suas lacunas e suprir suas necessidades.
5 ONDE SE SITUA:
Ambiente social:
O ambiente social da criança caracteriza-se pelo conjunto de espaços onde ela interage, cujo apego e apropriação são facilitados pela familiaridade: a casa, o bairro, a escola... Assim como o ambiente familiar, o ambiente social varia muito de criança para criança. Isso é determinado pelos indicadores socioeconômicos.
Crianças que vivem em famílias de boa renda situam-se em um ambiente social diferente do que aquele em que vive uma criança de família de baixa renda. As realidades são diferentes, consequentemente, os espaços ocupados por elas são diferentes e os processos de socialização diferem também.
Nesse sentido, a desvantagem socioeconômica tem sido apontada como fator de risco ao desenvolvimento, isso porque, a criança que vive em um ambiente social de pobreza aliada a violência, a más condutas, a vizinhança de risco, a instabilidade familiar tende a apresentar problemas de comportamento, de socialização, prejudicando sua aprendizagem e seu desenvolvimento.
É claro e importante ressaltar que essa constatação não é regra, mas é um ponto que deve ser observado com atenção nas escolas de educação infantil.
6 Ambiente cultural:
O ambiente cultural diz respeito a cultura. Por sua vez, cultura, segundo o Dicionário Aurélio (1999, p.256) “é o complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições, das manifestações artísticas, intelectuais, etc., transmitidos coletivamente e típicos de uma sociedade; o conjunto dos conhecimentos adquiridos por determinado grupo. A cultura é um fator que influencia muito na escola.
Cada escola abrange uma cultura diferente, de acordo com o lugar que em está inserido, com as pessoas que fazem parte da comunidade escolar e com a realidade que abrange. Desta forma, é possível notar que o ambiente cultural é formado pelo ambiente familiar, físico e principalmente pelo social. A integração desses três níveis de representação de ambiente é que formam o ambiente cultural. O ambiente cultural em que a criança se situa, deve ser respeitado pela escola na medida em que venha a contribuir com o seu crescimento e que não venha a comprometer o seu desenvolvimento.
Muitos comportamentos e ações realizadas pelas crianças e até mesmo pelos pais, são frutos desse ambiente cultural em que vivem. Nesse sentido, a escola precisa ser um espaço mediador entre o lado positivo e o lado negativo dessa cultura, buscando entendê-la e respeitá-la da maneira que é, mas interferindo de modo positivo quando necessário, visando não só o crescimento das crianças como também a realização do papel social da escola.
A cultura tem influência na escola, contudo, a escola possui ferramentas para exercer influência positiva sobre a cultura, podendo assim, modificar o ambiente cultural de seus alunos de uma maneira saudável e educativa.
7 AMBIENTE ESCOLAR:
O ambiente escolar refere-se ao espaço da escola, assim, ele se divide em ambiente físico e ambiente educativo. É incontestável a grande importância do ambiente físico para o desenvolvimento das potencialidades da criança. O espaço físico da escola deve contemplar todos os aspectos necessários para o processo de crescimento e desenvolvimento da criança da educação infantil.
Esta é uma questão que precisa ser muito bem observada e levada a sério pelas escolas. Uma boa infraestrutura e ambientes diversificados, amplos e prazerosos propiciam o aprendizado. Aliado a um bom e acolhedor ambiente físico, encontra-se o ambiente educativo.
Este ambiente inclui o material didático-pedagógico da escola. De nada adianta a escola ter uma ótima infraestrutura, com grande espaço disponível, se não tem bons materiais didático pedagógicos que venham a propiciar o desenvolvimento integral da criança. Partindo do conhecimento de onde vivem (ambiente familiar e físico) e onde se situam (ambiente social e cultural) as crianças, a escola define o seu ambiente educativo, de forma a contemplar todos os aspectos necessários a boa formação de seus alunos.
A união de um ambiente físico adequado a um ótimo material didático-pedagógico formam as condições ambientais favoráveis ao ambiente escolar educativo, que será abordado a seguir.