Técnicas de tradução inglês para português
Tradutor de Inglês
1 Aclimatação:
A aclimatação não faz parte dos procedimentos fundamentais de tradução descritos por Vinay e Darbelnet. É uma variante do empréstimo, em que a ortografia é ajustada de acordo com as regras da língua de chegada. Por exemplo, futebol é a aclimatação de football; Ótava é a aclimatação de Ottawa. Algumas aclimatações pegam; outras, não pegam. Futebol pegou; Ótava não pegou. Por que umas pegam e as outras não, é assunto para muito papo de mesa de boteco, mas não existe explicação. Quando se trata de uma aclimatação ao português, às vezes falamos em aportuguesamento Ȯ mas aportuguesamento pode se referir também a outros processos.
A aclimatação pode ser proposital, obra de alguém irritado com os anglicismos do texto, como lay-out, que alguns aportuguesam como leiaute. Também pode ser acidental: quem não sabe inglês, tem dificuldade para escrever LAN house e, depois de mil vacilações, acaba escrevendo lã rause, como já se vê por aí. Quem conhece a grafia original, ri do disparate, lamenta a ignorância geral do nosso povo, fala mal do ensino e, depois, liga a TV para assistir a um joguinho de futebol.
- Procedimentos fundamentais de tradução
- Empréstimo
A aclimatação, muitas vezes, reflete uma situação temporária. Começamos com um empréstimo puro back, para o jogador defensivo de futebol, que foi aclimatado para beque, que sofre concorrência de zagueiro um termo considerado mais português, mas que é uma importação do espanhol platino e do árabe.
Adaptação:
A adaptação faz parte do elenco dos procedimentos fundamentais de tradução descritos por Vinay e Darbelnet. Por ficar num dos extremos da gama (o outro extremo é o empréstimo), está escarranchado em cima do muro, com uma perna na tradução propriamente dita e outra na criação de uma obra nova. Nem sempre é fácil saber em que lado estamos nós.
Na prática, adaptação se refere a uma gama enorme de procedimentos, que inclui, num extremo, decisões quase inocentes, como traduzir:
They stopped at a drugstore for a soda.
Deram uma parada numa lanchonete, para tomar um refrigerante.
Transposição:
…em vez de
They stopped at a drugstore for a soda.
Deram uma parada num(a) drugstore, para tomar um refrigerante.
…onde drugstore vira lanchonete, porque não há nada na cultura brasileira que se compare com uma drugstore americana da primeira metade do século vinte e, no caso, presume-se que a diferença não tinha relevância.
Relevância:
… até o outro extremo, encontram-se tarefas mais heroicas, como a adaptação de Lady Chatterley’s Lover para o público infantil, que ficam fora de nosso escopo. Aqui, vamos nos limitar a falar de adaptação do lado de cá do muro.
Prós e contras:
Os partidários da adaptação afirmam, não sem razão, que, com esse procedimento, substituímos informações irrelevantes, que só prejudicam o entendimento, por informações que, por serem mais conhecidas do leitor, não desviam sua atenção do foco do texto. Os adversários da adaptação afirmam, não sem razão, que essa exclusão impede o leitor de se aproximar da cultura do original, que consideram uma das funções principais da tradução e que, lá pelas tantas, o texto do autor vira o texto do adaptador. Em outras palavras, o que quer que você faça, vai haver quem critique. Faz parte.
A gente sabe onde começa, não sabe aonde vai parar:
Num texto bem urdido, as palavras se enlaçam e entrelaçam em uma teia infinita e de imensa complexidade. Como resultado, quando mexemos em alguma coisa, afetamos o equilíbrio dessa delicada trama e colocamos em risco o texto todo, criando a necessidade de mexer em mais mil coisas, correndo o risco de ficar perdidos em incoerências. Esse é o maior perigo da adaptação. Além disso, a gente sabe onde começa, mas não sabe onde termina. Você começa com alguma coisa simples como trocar New York por São Paulo e aos poucos se vê em palpos de aranha, porque as adaptações se tornam cada vez mais difíceis, trabalhosas e indispensáveis. Lá pelas tantas, Chicago virou Rio de Janeiro, mas a Mary, que tinha virado Maria, continua reclamando do frio, da neve e da ventania.
O pior:
E, ainda por cima o cliente geralmente quer pagar o trabalho ao preço normal de tradução, a despeito do trabalhão que dá.
- Procedimentos fundamentais de tradução
- Empréstimo
2 Adições do tradutor:
O leitor está interessado no que o autor disse, não no que o tradutor pensa que ele deveria ter dito. Por isso, limite as adições ao essencial para ajudar o leitor entender o texto. Há três níveis de adição: expansão, explicitação e nota do tradutor.
- Expansão
- Explicitação
- Nota do tradutor
As adições devem ser tão discretas e objetivas quanto possível, para não desviar a atenção do leitor do seu foco principal. Por isso, não se faz uma nota quando a explicitação basta, não se explicita quando expandir é suficiente.
Adjetivos em sequência:
A tradução fica mais natural se as sequências de dois adjetivos em inglês forem traduzidas por dois adjetivos separados (ou unidos, sei lá) pela conjunção "e":
He was riding his shiny new motorbike.
Estava pilotando sua moto nova e brilhante.
Adjuntos adverbiais introdutórios:
Estes são os introductory adverbials, que costumam exigir, além da transposição do advérbio, a criação de um entorno adequado:
- Transposição
- Transposição do advérbio para substantivo
Perhaps most importantly, the consumer sector is doing considerably better…
Talvez o mais importante seja lembrar que o setor de consumo está se saindo consideravelmente melhor.
Oddly enough, he has not said anything about it.
Por (mais) estranho que pareça/possa parecer, (ele) não disse nada a esse respeito.
Note que o pronome é opcional em português e, no mais das vezes, desnecessário. Sempre pense duas vezes antes de reproduzir no português os pronomes de terceira pessoa ingleses.
Termo vicário:
Luckily, for Herbert, the gun was not loaded.
Para a sorte de Herbert, a arma não estava carregada.
Gun pode ser qualquer arma de fogo, não só um revólver. O contexto pode deixar claro se é um revólver, uma pistola ou uma arma longa. Mesmo que o contexto explique ser um revólver, arma pode ser usada aqui ou lá para dar variedade, porque o inglês weapon, é bem menos usual.
Annoyingly for Jack, his brother was late arriving.
O que irritou Jack foi o atraso do irmão.
- Advérbios terminados em -ly
- Transposição
Advérbios terminados em –ly:
O problema dos advérbios em -ly é que temos uma certa birra dos advérbios portugueses homólogos terminados em -mente. Essa aversão, entretanto, é um problema de estilo: não há regra de gramática proibindo o uso de advérbios em -mente, nem sequer de três ou mais advérbios terminados em -mente em sequência.
- Estilo
- Gramática e norma culta
- Homólogo
Muitas vezes, a repetição desses advérbios é até proposital e um recurso de retórica:
Falou claramente, lentamente, pausadamente, como se estivesse tentando deixar uma marca indelével em nossas mentes.
Costumamos evitar esses advérbios, entretanto, mesmo quando não vêm aos magotes, porque mesmo dois ou três espalhados num parágrafo podem causar um eco desagradável, e tornar o texto pesado e arrastado. O -ly parece mais aceitável que o -mente, talvez por ser monossilábico. Qualquer que seja a razão, é mais frequente do que o - mente seria desejável em português.
Vício de frequência:
Como não há regras aplicáveis a problemas de estilo, cada um resolve conforme lhe dá na veneta e nem sempre a solução dada por um vai agradar ao seguinte. Aqui, apresento alguns métodos para você escolher o que mais se adapta a seu contexto e seu gosto particular. Seu revisor e seu leitor podem discordar, mas isso faz parte da vida. Começo com os dois mais comuns, mas apresento outros que me parecem muito úteis e produtivos. Todas as soluções aqui propostas são casos de transposição.
Transposição:
Fatoramento/fatoração:
O método mais simples e trivial que todos nós aprendemos no colégio para reduzir o número de advérbios terminados em -mente é transformar todos os membros de uma série, menos o último, no seu adjetivo feminino homólogo, procedimento às vezes chamado fatoramento ou fatoração, por analogia a um processo usado em matemática.
Homólogo:
Answer the following questions clearly, concisely, and completely.
Responda as perguntas abaixo clara, concisa e completamente
Funciona, sem dúvida, e é muito recomendável, quase uma praxe. Tem a limitação de que só funciona em séries e não nos ajuda em nada quando se trata de um advérbio isolado. Mesmo quando funciona, nem sempre melhora as coisas:
Sometimes, instead of showing an object clearly, try deliberately photographing it vaguely, obscurely, or unclearly.
Algumas vezes, em vez de mostrar um objeto claramente, tente fotografá-lo vaga, obscura ou não claramente.
O exemplo em inglês é canhestro, não há como negar. Mas é autêntico: tirei da Internet. Lembre-se de que traduzimos textos mal escritos a toda hora, mesmo nos melhores autores, e temos de aprender a lidar com eles. Neste caso, o método do fatoramento deixa de funcionar, porque repetir o não torna a frase ainda mais pesada. Felizmente, há outras soluções.
Desdobramento em "de forma", "de modo", "de maneira" + adjetivo:
É muito comum, também, substituir o advérbio por de + [substantivo muleta] + adjetivo. Assim: em vez de falou claramente, falou de modo claro. Chamo a esse substantivo de "muleta" porque só serve de apoio ao adjetivo, o qual, sem ser o núcleo sintático da expressão, é seu núcleo semântico. Trata-se de um caso de transposição.
- Muleta
- Transposição
Answer the following questions clearly, concisely, and completely.
Responda as perguntas abaixo de modo claro, conciso e completo.
É um método muito querido, mas tem um inconveniente: poucos substantivos podem servir de muleta. Quantos você conhece? De modo, de forma, de maneira… quantos mais? Aí, então, a tradução salta da frigideira para o fogo: sai dos istomente, issomente, aquilomente, para cair nos de modo isto, de forma isso, de maneira aquilo… Não resolve muito.
3 Troca do advérbio por adjetivo:
Em vez do advérbio, use um adjetivo. Assim:
The teacher spoke very clearly.
O professor falou muito claro.
Se alguém reclamar, convide para tomar aquela cerveja que desce redondo, que tudo se resolve.
Troca do verbo por substantivo:
Também podemos fazer a transposição do verbo em substantivo. Essa é uma das operações mais frequentes e úteis para quem traduz do inglês para o português. Funciona assim: procure um substantivo português que seja homólogo do verbo inglês.
Por exemplo:
With my glasses on, I can see perfectly.
Com os óculos, tenho visão perfeita.
... onde o verbo see é substituído por seu substantivo homólogo visão. Essa troca tem duas consequências. Em primeiro lugar, como os substantivos são modificados por adjetivos, não por advérbios, o perfectly vai ser traduzido por perfeita. A segunda é que ficamos sem verbo na frase, o que nos obriga a achar um verbo-muleta, o que pode ser fácil ou não.
- Colocação
- Homólogo
- Muleta
- Transposição
Podemos dar um passo adiante e formar locuções adverbiais com as preposições com ou sem somadas a um substantivo homólogo do advérbio, num processo de transposição:
- Homólogo
- Transposição
He speaks very clearly.
Ele fala com grande clareza.
The importance of clearly and precisely defining biblical truth.
A importância de definir a verdade bíblica com clareza e precisão.
Elocution is the art of speaking clearly and precisely.
Elocução é a arte de falar com clareza e precisão.
He folded the letter carefully.
(Ele) dobrou a carta com cuidado.
She drove extremely slowly.
(Ela) dirigia com extrema lentidão
Nos dois últimos exemplos, e melhor omitir o pronome da terceira pessoa na tradução. O inglês precisa muito de pronomes, dada a pobreza de sua morfologia verbal. Em português, entretanto, elipse de pronome é sempre algo a considerar,
My intent is to sleep carelessly with a smile on my lips and nothing on my mind.
Minha intenção é dormir sem preocupações, com um sorriso nos lábios e nada na cabeça.
…bem melhor que de modo despreocupado, concorda? Além disso, é uma solução especialmente útil quando temos um advérbio modificando outro, porque, ao transpormos um advérbio para substantivo, o anterior tem que ser transposto para um adjetivo:
He folded the letter very carefully.
(Ele) dobrou a carta com muito cuidado.
He talks exceptionally loudly.
Ele fala numa altura excepcional.
The Chinese vase was packed more carefully.
O vaso chinês foi embalado com mais cuidado.
The Chinese vase was packed a little more carefully.
O vaso chinês foi embalado com um pouco mais de cuidado.
A solução com em é menos comum, mas igualmente útil:
They had breakfast silently.
Tomaram café em silêncio.
On the Reeperbahnstrasse of Hamburg, Germans drink excessively and act incredibly stupidly.
Na Reeperbahnstrasse de Hamburgo, os alemães bebem em excesso e se comportam com incrível estupidez.
Outro exemplo, talvez um tanto mais difícil:
They acted strongly.
Tomaram medidas enérgicas.
Johnson & Johnson is uniquely positioned…
A Johnson & Johnson ocupa uma posição ímpar…
Sujeitos impessoais:
O português faz largo uso de sujeitos impessoais que, muitas vezes, podem ser a melhor tradução para um advérbio inglês.
Mary Jones reportedly turned down the job offer.
Ao que se diz, Mary Jones rejeitou a oferta de emprego.
Sadly, when the rising chorus of cries …
É lamentável que, …
É triste dizer que…
4 Agentes ocultos:
O português aceita, com bem mais naturalidade do que o inglês, as construções em que o agente não fica claro.
Vício de frequência:
Coisas como
They gave us cookies.
…onde o agente é o mesmo que o sujeito they, e podem muito bem ser traduzidas por
Eles nos deram biscoitinhos.
… mas ficam muito melhor se traduzidas
A gente ganhou biscoitinho(s).
Ganhamos biscoitinhos.
… onde o deslocamento do objeto para sujeito acaba ocultando o agente. (Espero que você tenha entendido bem essa explicação não sou muito bom nessas coisas e, para resumir, pior ainda. Se não entendeu bem, escreva para mim e reclame).
Uma transformação dessas envolve modulação, ou seja uma mudança de perspectiva: em inglês o sujeito é quem deu os biscoitinhos, em português.
Modulação
…e tem mais uma vantagem: livra o tradutor da praga do pronome do caso oblíquo
Pronome oblíquo
Artigos:
"Meu filho é um médico", disse a mãe orgulhosa de seu rebentinho. Até aí, nada de especial: muita gente tem filhos médicos. De especial seria se o filho fosse dois médicos, em vez de um só. De interessante há o fato de muitas vezes usarmos na tradução artigos que são desnecessários ou não existem em português, ou deixarmos de adicionar artigos quando não existem em inglês, mas são necessários ou talvez recomendáveis em português.
O português não usa artigos:
…entre o verbo e o nome de profissões:
Her other son is a doctor.
O outro filho dela é médico.
…credos, religiões, ideologias, posturas filosóficas:
She’s become a vegetarian.
Ela virou vegetariana.
…instrumentos musicais:
Jane played the piano just for herself.
Jane tocava piano só para si própria
…doenças:
On and off she suffers from a stomachache.
Volta e meia ela tem dor de estômago.
Equivalência
She has the flu.
Ela está com gripe.
I have a fever, so I’m staying in bed today.
Estou com febre, então vou ficar de cama hoje.
O português exige artigos:
Antes de tarefas ou papéis únicos:
Maureen is captain of the team.
Maureen é a capitã do time.
FBI chief J. Edgar Hoover…
O chefe do FBI, Edgar Hoover…
Chelsea centre-forward Milton Smith…
O centroavante Milton Smith, do Chelsea …
…e em lugar do possessivo com órgãos e partes do corpo:
Close your eyes.
Feche os olhos.
Have you broken your arm?
Você quebrou o braço?
Ever since my teeth were pulled out I can’t eat anything solid.
Desde que arranquei/extraí os dentes, não consigo comer nada sólido.
Note que, em português, a gente extrai os dentes, ao passo que em inglês a gente tem os dentes extraídos. Essa mudança de ponto de vista é um caso de modulação.
- Possessivos
- Modulação
She’s become a vegetarian.
(Ela) virou vegetariana.
- He/she
O pronome da terceira pessoa, como tantas vezes, pode ser omitido sem perda.
- Vício de frequência
Although his father was an Anglican Bishop, he is a Roman Catholic.
Embora seu pai tenha sido bispo da igreja anglicana, (ele) é católico.
…com nacionalidades
Germans are good musicians.
Os alemães são bons músicos.
…e antes de adjetivos
Her other son is a great doctor.
O outro filho dela é um grande médico.
He is a good auto mechanic.
(Ele) é um bom mecânico (de automóveis)
He is a very good auto mechanic.
Ele é um mecânico (de automóveis) muito bom.
Ele é um ótimo mecânico (de automóveis).
She has a bad flu.
Ela está com uma gripe forte.
O artigo pode ser opcional em português, mas inexistente em inglês. Está se tornando cada vez mais comum em português usar artigos antes de nomes próprios:
Mary wanted more coffee.
(A) Maria queria mais café.
5 Atenuação:
A atenuação, também chamada de adoçamento e mitigação, é a prática de traduzir palavras ou expressões consideradas ofensivas ou duras demais por termos mais amenos ou mesmo omitir o que possa ser considerado ofensivo Muitas vezes, o tradutor recebe ordem para atenuar, e faz coisas como traduzir
Fuck you!
Vá para o inferno!
... para que o filme escape das restrições da censura por faixa etária. Acho lamentável e gostaria de viver num mundo em que o tradutor traduzisse o que encontrava no original e pronto.
Outras vezes, ninguém manda, mas o profissional sabe o que é bom para seu couro: não faz muito tempo, um intérprete adoçou umas frases que criticavam o país onde vivia, não por alguém ter mandado, mas por amor ao pescoço, seu e da família já que nunca falta quem queira decapitar o mensageiro e mesmo sua parentela. Atacado ferozmente pela imprensa, alegou que não podia traduzir mentiras. Que outra mentira podia alegar em sua defesa? Há, principalmente na interpretação, quem ache que deva adoçar para evitar brigas:
If you don’t deliver this fucking order before the end of the month we
will find a better provider.
Seria muito importante se sua empresa pudesse fazer a entrega antes do
fim do mês.
Se você não entregar essa porra desse pedido antes do fim do mês vamos
procurar um fornecedor melhor.
… o que, aliás, nos leva à dificuldade de traduzir literalmente xingamentos, palavrões, baixo calão, impropérios e quejandos.
Be able to:
Can, como todos os auxiliares modais é defectivo e os buracos na sua conjugação são preenchidos por torneios com be able to. Como o nosso verbo poder não tem nada de defectivo, pode tranquilamente ser usado onde em inglês é necessário usar uma forma de be able to:
Spending limits are part of a limits package and will be able to be configured…
Os limites para gastos fazem parte de um pacote de limites e vão poder ser configurados…
Soluções como:
…terão a possibilidade de serem configurados
… embora perfeitamente corretas, é bom evitar, porque transferem para o português um problema que nossa língua não tem.
Note que, em português, a colocação mais comum é fazer parte, ao passo que em inglês é are part.
- Can
- Colocação
Belles Infidèles:
Essa expressão francesa significa tanto "as belas que são infiéis" como "as infiéis que são belas". Esse fato, associado ao fato de que "tradução" e seus homólogos são do gênero feminino em todas as línguas românicas, deu origem a numerosas histórias de gosto duvidoso sobre a infidelidade de mulheres belas e sobre a beleza das mulheres infiéis. Tecnicamente, entretanto, o termo se aplica a publicações que passam por traduções, mas são adaptações de textos em língua estrangeira àquilo que seu redator julga ser o gosto de seu povo e sua época.
Dependendo da habilidade de quem faz, podem até ter mérito literário, mas como traduções não servem de parâmetro de qualidade pelo menos na minha opinião. Não deixam de ser uma forma de adaptação, mas como digo no verbete apropriado, a adaptação fica escarranchada em cima do muro, com uma perna na tradução e outra fora dela e, no meu entender, as belles infidèles estão na perna externa à tradução.
- Adaptação
Bíblia:
Como os originais da Bíblia estão em hebraico, aramaico e grego, toda citação bíblica em inglês é uma tradução mas aquele caso interessante em que a tradução se torna um novo original. Porém, tanto em inglês como em português, há várias traduções da Bíblia e as divergências entre elas queiramos ou não são muito significativas. Por isso, se topar com uma citação bíblica no seu texto, não adianta tentar procurar uma "boa tradução" em português, para copiar o que diz lá, porque a "boa tradução" pode dizer alguma coisa bem diferente do que disse o autor do original. O que você precisa é de uma tradução bem próxima da tradução usada no seu texto inglês. Isto significa que a melhor solução pode ser você traduzir o texto, preservando os atributos relevantes que o autor achou relevantes, sem se preocupar com qualquer tradução existente em português. Se for leitor da Bíblia, não se deixe levar pela sua tradução predileta: a do texto que você está traduzindo pode dizer algo bem diferente. Se não acredita, veja estes exemplos, todos de Juízes, 3:24:
Primeiro em inglês:
King James: Surely he covereth his feet in his summer chamber.
Douay-Rheims: Perhaps he is easing nature in his summer parlour.
God’s Word: "He must be using the toilet," they said.
New King James Version: He is probably attending to his needs in the cool chamber.
Bible in Basic English: It may be that he is in his summer-house for a private purpose.
… e agora em português:
João Ferreira de Almeida: Sem dúvida está cobrindo seus pés na recâmara da sala de verão.
J. F. Almeida atualizada: Sem dúvida ele está aliviando o ventre na privada do seu quarto.
A Bíblia na linguagem de hoje: Então pensaram que o rei tinha ido ao banheiro.
Bíblia de Jerusalém: Sem dúvida, ele cobre os pés no retiro da sala arejada.
Por mais que se aceite que covereth his feet seja um eufemismo para evacuando e por mais que a fé do tradutor leve a preferir "A Bíblia na linguagem de hoje", se o original disser Surely he covereth his feet in his summer chamber, não cabe traduzir a citação dele por Então pensaram que o rei tinha ido ao banheiro.
- Original
- Fidelidade
- Relevância
- Voz do tradutor
Bibliografia:
Este tópico fala sobre como tratar das bibliografias incluídas em uma tradução. Para saber quais livros consultamos para escrever este texto, veja Obras consultadas.
Obras consultadas:
Bibliografia é uma lista padronizada dos livros consultados pelo autor. Por isso, os nomes dos livros não devem ser traduzidos. Se o autor diz que consultou:
Karl Popper: The Logic of Scientific Discovery (Routledge Classics) 2nd Edition.
…não é correto dizer que ele tenha consultado
A lógica da pesquisa científica. Karl A. Popper. Tradução de Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. Editora Cultrix. São Paulo 1985.
…em primeiro lugar, porque não é esse o livro que ele consultou. Em segundo, porque a tradução em português talvez difira do original e, sabendo você como sabe, que Murphy reina, é bem possível que a diferença esteja exatamente naquele ponto que o autor está elaborando, como, aliás, se vê pelo título da obra de Popper citada.
Se houver tradução portuguesa e se o cliente pedir e pagar acho válido adicionar:
Publicado no Brasil como: A lógica da pesquisa científica. Karl A. Popper. Tradução de Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. Editora Cultrix. São Paulo 1985.
Mesmo que o livro seja originalmente brasileiro, se a edição consultada estava em inglês (ou qualquer outra língua), é essa a que deve ser constar da tradução brasileira:
Chapters of Brazil’s Colonial History 1500-1800 (Library of Latin America), by João Capistrano de Abreu (Author), Arthur Brakel (Translator), Stuart Schwartz (Introduction), Fernando A. Novais (Contributor)
… não diga que ele leu os
Capítulos de história colonial. Abreu, João Capistrano de. Itatiaia.
…embora possa adicionar esse dado à informação bibliográfica.
Caçar traduções brasileiras de livros estrangeiros, não é tarefa do tradutor, mas sim de bibliotecário. Caso o tradutor se julgar capacitado para a tarefa e resolver aceitar, deve contratar separadamente, com preço superior ao da tradução, porque, lauda por lauda, palavra por palavra, ficar atrás de traduções brasileiras de livros estrangeiros demora bem mais do que traduzir e, portanto, deve custar bem mais caro.
Cacófatos:
A cacofatomania, a mania de encontrar cacófatos em todo o canto, é uma patologia que afeta a tradutores, revisores, críticos e leitores igualmente. Para ela, o único remédio é o bom senso. Este livrinho não tem um verbete sobre "bom senso". No primeiro livro que traduzi, levei um puxão de orelhas por ter usado "por causa", sob a justificativa de que "por causa" ia ser lido como "porca usa". Desculpe, mas não acredito que qualquer pessoa com mentalidade normal fosse ler "por causa" como "porca usa". Continuo usando "por causa". Aliás, estou em boa companhia: encontrei exemplos em Machado e no Padre Vieira, que, ao que eu saiba, são melhores conselheiros que o revisor da editora.
Can/could:
Can é um verbo auxiliar modal. Como todos eles, é defectivo. Onde falta, muitas vezes é substituído por circunlóquios formados a partir de be able to. Mesmo assim, é carente de tempos progressivos.
- Verbos auxiliares
- Be able to
Sua tradução canônica é poder:
Can we start?
Podemos começar?
You can’t go swimming.
Você não pode ir nadar.
Entretanto, temos também conseguir e ser capaz, que refletem melhor a ideia de que é preciso fazer algum esforço, de que talvez seja impossível:
Can you lift this table?
Você consegue levantar esta mesa?
Você é capaz de levantar esta mesa?
Ser capaz e conseguir não são sempre intercambiáveis:
paz e conseguir não são sempre intercambiáveis:
Can’t find the specific download you want?
Não é capaz de encontrar o programa que quer baixar?
Não está conseguindo encontrar o programa que quer baixar?
… têm sentidos diferentes. A primeira é quase uma acusação de incompetência, ao passo que a segunda é mais genérica e inclui a possibilidade de que a pessoa não esteja conseguindo encontrar o programa por problema ou deficiência do sistema.
Note que, na segunda opção, estamos usando um tempo progressivo em português, opção que seria impossível em português. Cabe ao tradutor o dever de explorar esses recursos do português de que o inglês não dispõe em vez de ficar preso às construções paralelas. Num texto mais coloquial, dar pode ser a melhor tradução:
You can't swim in that beach.
Não dá para nadar naquela praia.
É proibido nadar naquela praia.
Não se pode nadar naquela praia.
You
Can you lift this table?
Dá para você levantar esta mesa?
Saber normalmente é a tradução mais correta quando se trata de habilidade ou capacidade intelectual, como, por exemplo, falar uma língua ou tocar um instrumento musical:
Few of the tourists could speak English.
Poucos dos turistas sabiam falar inglês.
Magda could speak three languages by the age of six.
(A) Magda sabia falar três línguas aos seis anos de idade.
She can play the piano very well.
Ela sabe tocar piano muito bem.
Entretanto, nesses casos, muitas vezes é mais idiomático simplesmente nem traduzir o can:
Few of the tourists could speak English.
Poucos dos turistas falavam inglês.
Poucos dos turistas sabiam falar inglês.
Magda could speak three languages by the age of six.
Magda falava três línguas aos seis anos de idade.
Magda sabia falar três línguas aos seis anos de idade.
She can play the piano very well.
Ela toca piano muito bem.
Ela sabe tocar piano muito bem.
É só o contexto que pode nos dizer quando can é poder e quando significa saber:
She can play the piano very well.
Ela sabe tocar piano muito bem.
Mas:
She can play the piano, but she will not be allowed to dance.
Ela pode tocar piano mas não vai poder dançar.
Note a diversidade de traduções no português:
He can’t ride a bike.
Ele não pode andar de bicicleta.
(Tem um problema físico que impede.)
Ele não sabe andar de bicicleta.
(Não aprendeu.)
Ele não pode andar de bicicleta.
(Não é permitido, não deixam.)
Ele não consegue andar de bicicleta
(Até se esforça, mas tem um problema físico que impede.)
É só uma leitura cuidadosa do contexto que pode dizer qual a alternativa correta e cabe a nós a escolha da tradução correta. Numa pergunta, é bem idiomático usar frases auxiliares, do tipo de será que, principalmente num registro informal:
Can he ride that bike? Seems too big for him.
Será que ele consegue andar naquela bicicleta? Acho que é grande
demais para ele.
Quando o verbo principal exprime uma sensação, tal como ver ou ouvir, é o verbo estar que traduz melhor:
Can you see the small boat?
Está vendo o barquinho?
Can you hear me clearly?
Está me ouvindo bem?
Can com verbo principal na passiva muitas vezes pode ser melhor traduzido por possível (ou sua negação) como parte de um predicado nominal:
That guard cannot be bribed.
Não é possível subornar aquele guarda.
É impossível subornar aquele guarda.
Não dá para subornar esse guarda.
Could:
Em teoria, could é só o passado de can. Na prática, é também uma forma mais atenuada e cortês:
Could you please help me?
…está longe de ser o passado de
Can you please help me?
… é muito mais uma forma mais suave e delicada de pedir ajuda. Às vezes, dependendo do contexto, e do registro
Será que você pode me ajudar?
…seria uma tradução adequada.
Os tempos progressivos:
Como todos os auxiliares, can não pode ser usado nos tempos progressivos, o que significa que temos uma escolha a fazer, uma decisão tradutória a tomar.
I cannot see the §§§
6 Chavões:
Um chavão, também chamado "clichê", é uma expressão, batida, fossilizada. Clichês devem ser traduzidos por clichês, até para manter o estilo. Às vezes é fácil:
He was drunk as a skunk.
Estava bêbedo como um gambá
Neste caso, a tradução é literal e até tenho uma leve impressão de que o português é um decalque do inglês, já enraizado na nossa fraseologia.
Tradução literal:
Nem sempre é tão fácil:
She avoided him like the plague.
Ela fugia dele como o diabo foge da cruz.
…, que é uma equivalência, exige um pouco de memória e um repertório um pouco maior do português.
Equivalência:
Às vezes, as diferenças de sentido podem parecer significativas, mas não são:
His bark is worse than his bite.
Cão que ladra não morde.
Quando o autor usa muitos chavões, mesmo que não consigamos traduzir todos eles por chavões portugueses, é um sinal de que a compensação pode se fazer necessária.
Compensação
Colocação:
Embora a Nomenclatura Gramatical Brasileira reserve colocação para a ordem das palavras na frase, o termo é cada vez mais usado como referência para o que se chama em inglês collocation, quer dizer, combinações vocabulares convencionais. Casaco, a gente veste; sapato, a gente calça. Ficaria muito estranho dizer "calça o casaco, veste o sapato". São chamadas convencionais por serem fruto da convenção, nada mais.
A gente calça (e não veste) sapato porque sapato se calça, não se veste. Ou seja, não há uma explicação mais lógica do que a famosa explicação da mamãe: porque é assim que se diz e pronto. No entanto, é comum ver jogar um papel em vez de desempenhar um papel, ou fazer uma decisão em vez de tomar uma decisão.
Contaminação:
Muitos erros bisonhos podem ser evitados lembrando destas três regras:
O objeto condiciona o verbo:
Make a box of tools.
Fazer uma caixa de ferramentas.
…mas…
Make a decision.
Tomar uma decisão.
O verbo determina a preposição:
Dream of…
Sonhar com
…mas…
Think of…
Pensar em…
…mas…
Like
Gostar de
O substantivo determina o adjetivo:
Grey suit
Terno cinza
…mas…
Grey hair
Cabelo grisalho
…mas…
Brown suit
Terno marrom
…mas…
Brown eyes
Olhos castanhos
Compensação:
A compensação não faz parte dos procedimentos fundamentais de tradução descritos por Vinay e Darbelnet. Seu objetivo é restaurar num ponto da tradução uma perda inevitável sofrida em outro. É uma espécie de revanche: a gente apanha lá, mas se vinga aqui.
Procedimentos fundamentais de tradução:
Um exemplo:
She ain’t no good!
Ela não vale nada.
O original, com sua dupla negativa e ain’t mostra uma violação da norma culta, que marca o locutor como pessoa pouco culta, uma característica que não é fácil reproduzir em português nesta frase. Há quem, nesses casos, use num em vez de não, o que, a meu ver, não resolve o problema. Frustrante. Mas, aí a gente se vinga na outra frase, onde diz:
Last week we went to the movies…
…que é gramaticalmente correto e estilisticamente mais neutro em inglês, e ataca de
Semana passada nós foi no cinema…
…provando que um dia é do caçador, mas o outro é da caça.
Contaminação:
Contaminação é a absorção indevida de características da língua de partida no texto de chegada. É o escrever português com "sotaque" inglês, embora o português seja nossa língua nativa. Um mal que aflige a maioria de nós e do qual muitos não se dão conta.
- Estilo
- Gramática e norma culta
Um bom modo de abordar a contaminação é lembrar do seu tempo de escola? Como era difícil entender que:
– Entendeu a pergunta?
– Entendi! Entendi muito bem!
…em inglês deveria ser…
"Did you understand the question?"
"Yes I did! I understood it very well."
… quando a nós parecia muito mais natural dizer…
"Understood the question?"
"Understood! Understood it very well."
Por que a professora sofria tanto (e nós com ela) para aprendermos a dizer essas coisas? Ensinar a todos nós que os pronomes do caso reto eram indispensáveis, quando, na aula anterior, o professor de português tinha puxado nossas orelhas pelo excesso de pronomes em nossas redações, deve ter custado muito aos professores, como também deve ter custado ensinar o uso apropriado dos auxiliares como termo vicário. Na ânsia de aprender inglês, muitas vezes nos esquecemos do nosso português e deixamos nosso texto ser contaminado pela montoeira de pronomes e outros termos vicários que no inglês são essenciais, por torneios e colocações que são diferentes nas duas línguas.
- Termos vicários
- Colocações
Para traduzir bem do inglês para o português, é bom lembrar das aulas de inglês do colégio e fazer tudo ao contrário, assim, a gente escreve português direito. Além disso, é necessário ler em português furiosamente para internalizar coisas a que muitos de nós deixaram na fúria de aprender inglês.
A contaminação cria o tradutorês.
Contexto:
Mais importante do que qualquer dicionário ou glossário, é o contexto, ou seja, o texto que está à volta da palavra ou expressão que você está traduzindo. Por isso, pedir ajuda a alguém para traduzir um termo sem dar contexto é errado. Também é errado, em vez de contexto, dizer o assunto de que trata o texto ou dar a definição do termo. Contexto é uma ou mais frases do texto. O contexto nos ajuda, também a identifica erros no original. É só o contexto que permite saber que:
Principle parts of the Greek verb
…são os
Tempos primitivos do verbo grego
e não
Partes do princípio do verbo grego
- Erros no original
- Relevância
Também é o contexto que nos ajuda a acertar o estilo da tradução quando é necessário usar o recurso de compensação.
- Compensação
Correção política:
As escolhas do autor refletem seus próprios vieses políticos e filosóficos, que fazem parte integrante da mensagem e, por isso, devem ser respeitadas, mesmo que não estejamos de acordo com elas.
A stinking jew
Um judeu fedido
Um judeuzinho fedido
Outras vezes, o termo politicamente incorreto reflete a idade do texto:
A cripple
Um aleijado
…pode indicar um texto anterior ao momento em que a palavra cripple se tornou socialmente inaceitável e traduzir
A poor cripple, unable to walk beyond the limits of her own garden.
Uma senhora com necessidades especiais, incapaz de caminhar além dos
limites de seu próprio jardim.
...é uma traição a Trollope, o autor da frase. Melhor traduzir por:
A poor cripple, unable to walk beyond the limits of her own garden.
Uma pobre aleijada, incapaz de caminhar (/ir/passar) além dos limites
de seu próprio jardim.
Se Trollope tivesse escrito nos tempos de hoje, talvez não tivesse usado a palavra cripple, mas sucede que ele não escreveu nos tempos de hoje e não usar o termo aleijado, seria uma adaptação, não uma tradução.
Adaptação:
Claro que, pelo andar da carruagem, vai chegar um tempo em que pouca gente ainda saiba o que é um aleijado e então, as novas traduções vão ter que fazer opções diferentes, mas toda tradução é passageira. Muitas vezes, o texto chega a ser revoltante:
A dirty nigger.
Um negrinho sujo.
Se não tiver estômago para traduzir, recuse o encargo. Mas se aceitar, traduza direito.
Cortes:
Eliminar partes do texto sob a alegação de que não interessariam ao leitor brasileiro ou ao leitor moderno é crime de lesa-original, salvo se ficar claramente indicado que se trata de um resumo ou adaptação. Se o cliente mandar, bom, paciência, mas, nesses casos, não gostaria de ver meu nome associado à tradução.
- Adaptação
- Belles infidèles
Decalque:
Este é um dos procedimentos fundamentais de tradução descritos por Vinay e Darbelnet. No decalque, os elementos constitutivos de um sintagma são traduzidos literalmente, criando algo de novo na língua de chegada. Foi por decalque que muitas palavras entraram na língua:
All he wanted was a Coke and a hot dog.
Tudo o que (ele) queria era uma Coca e um cachorro-quente.
Neste caso, em que cachorro-quente se refere ao sanduíche e não ao animal propriamente dito (espera-se), temos um decalque. Podíamos ter dito hot-dog, mas isso seria um empréstimo. Muitas vezes, o decalque compete com o empréstimo: há quem diga cachorro-quente, mas há quem diga hot dog e há quem diga ora um, ora outro. Parece que, neste caso, o empréstimo está vencendo.
Empréstimo:
Por outro lado, outras vezes vence o decalque. Os nomes das posições no jogo de futebol, que antigamente eram todos em inglês, hoje são todos em português e, em vários casos, são decalques, como centerforward que virou centroavante, antes tendo passado por um processo de aclimatação.
Aclimatação:
Os mais velhos vão se lembrar do tempo em que:
Give me a ring!
Telefona para mim!
Transposição:
… era a frase normal, até que surgiu
Give me a ring!
Me dá um toque!
…um decalque hoje plenamente aceito.
Alguns torneios de frase são tão bem-sucedidos que deixam de ser percebidos como decalque e se integram à língua de chegada. Por isso, nem sempre é fácil determinar o que seja decalque. O termo, em si, reflete um momento histórico, uma transição. Já ninguém precisa explicar o que é um cachorro-quente. Por outro lado, já ouvi mais de uma pessoa dizendo um sanduíche (ou: um lanche) de cachorro-quente, o que indica que até os decalques podem mudar de sentido com o tempo. Os decalques costumam ser mal recebidos e tachados de anglicismo, nefastas ameaças à sobrevivência da língua. Se vão ser absorvidos na estrutura geral do português, só o tempo pode dizer.
7 Delimitação em sintagmas nominais:
Nem sempre é fácil delimitar corretamente os sintagmas nominais. Veja este exemplo:
The instructor will present, model, and discuss presentation concepts
and techniques.
Não há recurso sintático que nos permita saber se o presentation se refere tanto a concepts como a techniques. O sentido nos faz crer que seja a ambos, então, podemos traduzir sem (muito) medo como
The instructor will present, model, and discuss presentation concepts
and techniques.
O instrutor vai apresentar, modelar e discutir conceitos e técnicas de
apresentação.
Às vezes, entretanto, a coisa complica:
International trading and liquidity
O adjetivo se refere a ambos os substantivos, ou só a trading? Na verdade, só a trading, mas é algo que só o conhecimento e o contexto nos ajudam a entender. Não há uma regra para definir a referência do adjetivo que eu conheça. Existe, sim, o cuidado de ir do primeiro adjetivo até o substantivo final, que constitui o núcleo sintagmático e analisar a situação.
Dicionários:
Por bons que sejam, todos os dicionários e glossários são incompletos e contêm erros. Por isso, devem ser usados sempre com uma pitada de bom senso. Este livrinho não tem um verbete sobre "bom senso". Além disso, nunca se esqueça que a tradução começa depois de você fechar o dicionário.
Do lado inglês:
É sempre bom lembrar que o seu texto pode estar usando uma palavra ou expressão numa acepção que não conste no dicionário, ou por ser um neologismo, ou por erro de revisão, ou por, simplesmente, erro do autor. Nesses casos, como sempre, manda mais o contexto que o dicionário.
Do lado português:
Não é por a palavra estar no dicionário que você pode usar. O dicionário, qualquer dicionário, tem uma quantidade enorme de palavras que existem, já foram usadas e tal, mas são absolutamente impróprias para o texto que você está escrevendo. Por outro lado, não é por que a palavra não está no dicionário que não pode ser usada: todo dicionário está, por natureza, desatualizado e o seu texto pode exigir o uso de um neologismo.
- Neologismo
- Gramática e norma culta
- Estilo
Dinheiro:
De modo geral, valores monetários não devem ser convertidos em moeda brasileira, principalmente na tradução literária e mesmo na tradução editorial em geral. Num livro,
…a fifty-dollar bill
…uma nota de cem cruzados
…é o tipo da tradução que eu não recomendo. Em primeiro lugar, não se tratava de uma nota de cem cruzados. Em segundo lugar, converter valores monetários abrevia a vida do texto: a taxa de câmbio muda, muda até o nome da moeda e a tradução envelhece com maior rapidez. Quem sabe hoje o que eram cem cruzados? Depois, porque muda, sem necessidade, o ambiente dos EUA para o Brasil e, ainda por cima, fixa um período (1986-1989) durante o qual essa moeda foi usada.
Vários países usam dólar como moeda e às vezes, o original marca de que tipo de dólar estamos falando:
She found a Canadian Dollar in her purse.
Encontrou um dólar canadense na bolsa.
Note, também a omissão do pronome e do possessivo, que são indispensáveis em inglês, mas peso morto em português.
- Relevância
- He/she
Em textos mais formais, como contratos ou tratados internacionais, prefiro dólares dos Estados Unidos da América a simplesmente dólares. Dólar é palavra aclimatada e dicionarizada, portanto se escreve de acordo com as regras ortográficas e morfológicas do português: acento agudo na primeira vogal, plural em -es e maiúscula só quando as regras de ortografia exigirem, o que significa, na maioria das vezes, só quando iniciar período. Em outras palavras, escrever dollar em português é simples erro de ortografia.
Aclimatação:
Em trabalho de ficção, é preferível escrever os nomes das moedas estrangeiras por extenso. Quando tiver de usar símbolos use US$ como símbolo do dólar dos EUA, em vez de só o cifrão, como fazem nos EUA. Se o original usar USD, use o USD também na tradução. Reserve o cifrão simples para símbolo de "qualquer moeda", como, por exemplo, se usa em textos de economia, contabilidade ou matemática financeira, onde…
Consider the hypothetical returns on $100 invested in Stock A and
Stock B.
Considere o retorno hipotético de $ 100 investidos na Ação A e na Ação
B.
…não significa um investimento de 100 dólares dos EUA. Trata-se do enunciado de um problema de matemática financeira e não faz diferença usarmos dólares, dracmas, dinares da Baixa Eslobóvia ou qualquer outra moeda. Deixe um espaço entre o cifrão e o primeiro algarismo (sim, sei que em inglês vai tudo junto). Para impedir que o cifrão fique numa linha e o algarismo em outra, use o espaço inseparável (Ctrl Shift Espaço no Windows, Option-Space no Mac).
Exceções:
Em textos jornalísticos, ou outros textos para os quais se espere vida breve, pode-se agregar um valor aproximado em moeda nacional, entre parênteses ou como aposto. Nesse caso, arredonde o valor em moeda nacional:
Lunch for two cost us less than $50.
Um almoço para dois custou menos de US$ 50 (cerca de R$ 200,00,
pelo câmbio de hoje).
Arredondamento:
Mesmo que pelo câmbio do dia US$ 50,00 correspondam mais exatamente a R$ 198,57, não faz sentido chegar a esse nível de precisão, não só porque as taxas variam de um dia para o outro, mas também porque o próprio less than indica que mesmo o inglês é uma aproximação.
Moeda britânica antiga:
Até 1971, a libra esterlina se dividia em 20 shillings e o shilling em 12 pence, que era o plural de penny, abreviados £, s, d. Em 1971, foram abolidos os schillings, mas ficaram os pence, com valor diferente, primeiro como new pence, mas o new foi abandonado em 1981. Em português, há quem prefira grafar pêni, como está no Houaiss, por ser a forma "correta". O Houaiss também diz que o plural de pêni é pênis, mas não pegou e, para evitar o pênis, havia até quem pudicamente escrevesse peniques, o que etimologicamente está até que bom, mas também não pegou. Também se recomendava escrever xelim, o que também não pegou. O uso é, realmente, manter os nomes originais.
Empréstimo:
Os ingleses tinham outras moedas, como a crown, que valia 5 shillings e normalmente se traduz por coroa e a half-crown, que se traduz por meia coroa. O guinea, normalmente traduzido como guinéu valia 21 shillings. Hoje, embora oficialmente não exista, entende-se que valha £ 1,05. Esses nomes ainda são usados eventualmente, mas as moedas não são mais cunhadas. Na tradução literária e em textos antigos, aparecem o tempo todo. O sovereign é uma moeda de uma libra e, muitas vezes, se traduz por soberano. Como nem todos os leitores sabem dessas coisas, pode ser útil traduzir por uma moeda de...
A box containing a shiny half-crown and three handkerchiefs….
Uma caixa com uma moeda brilhante de meia coroa e três lenços…
Explicitação:
Em todos esses casos, é desnecessário apor notas de tradutor longas e eruditas. Quanto menos, melhor.
Distorção:
Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma Ȯ ou ao menos era o que dizia Lavoisier. Em tradução, sempre alguma coisa se cria e sempre se perde alguma coisa, o que talvez prove que tradução não é uma atividade natural. O que ganha e o que se perde é o que chamo distorção. Quanto menor a distorção, melhor a tradução.
Mesmo numa frase simples como
They had breakfast silently.
Tomaram café em silêncio.
…estamos agregando um café, que os personagens talvez não tenham tomado. Seria mais preciso dizer:
They had breakfast silently.
Tomaram o de(s)jejum em silêncio.
…mas é uma palavra bem mais rara, que levaria a tradução a um registro que ela não tem em inglês.
Para minimizar a distorção, é essencial preservar o que é mais relevante. No caso, tomaram o café em silêncio, indica que, ao ver do tradutor, é mais relevante referir-se à refeição matinal pelo nome que ela normalmente traz em português do que não se referir a uma bebida que pode ter sido consumida ou não.
Do/did:
O uso do verbo pleno to do, não nos causa grandes problemas. Entretanto, seu uso como verbo vicário ou elemento de ênfase podem nos dar dores de cabeça.
Verbo vicário
Do/did são usados como verbos vicários para responder a perguntas feitas com o próprio do. Nestes casos, prefiro dar a resposta com o próprio verbo principal:
Did you read the book?
Yes, I did.
Você leu o livro?
Sim, eu o fiz!
Sim, li.
Essa construção me parece mais idiomática (ainda lembro quanto me custou para aprender a responder yes, I did em vez de yes, I read). Além disso, evita um pronome oblíquo, algo que, no meu entender, é sempre uma vantagem. Pronomes oblíquos trazem consigo os problemas de colocação que costumam ser complicados: aquilo que a gramática e o revisor exigem, nem sempre é o que a língua acha natural. Melhor evitar.
- Contaminação
- Termo vicário
- Pronomes oblíquos
She said she would write John, but she didn’t.
Disse que ia escrever para o John, mas não escreveu.
Will she come? She may do.
Será que ela vem? É (bem) capaz de vir.
Será que ela vem? Talvez venha.
Muitas vezes, o melhor é omitir:
You know as much as I do.
Você sabe tanto quanto eu.
Economia vocabular:
Também são usados como vicários nas tag guestions:
She spoke German at home, didn’t she?
Ela falava alemão em casa, não falava?
Nesses casos, sempre prefiro, reutilizar o verbo principal do que traduzir o do literalmente. A mim, parece mais idiomático repetir o verbo principal do que inçar meu texto de formas do verbo fazer o que é pular da frigideira para o fogo.
… warned the West to stay out, and threatened World War III if they
didn’t.
… avisou o Ocidente que devia manter distância e ameaçou começar a
Terceira Guerra mundial, caso não mantivesse
Enfatizador:
Do aparece muito em afirmativas no presente, só para dar ênfase:
Should you come to London, do come have lunch with me.
Se vier a Londres, não deixe de vir almoçar comigo.
Se vier a Londres não se esqueça de vir almoçar comigo.
Além do uso especial de should, temos o tratamento da ênfase como, digamos, a "negativa de privação", o que é um caso de modulação.
Economia vocabular:
O princípio da economia vocabular diz que, em igualdade de condições, a tradução mais breve é a melhor. Veja os exemplos:
A charming image of a peasant woman.
Uma imagem encantadora de uma mulher camponesa.
Uma imagem encantadora de uma camponesa.
A black man
Um homem negro
Um negro
To many people, the arguments presented…
Para muitas pessoas, os argumentos apresentados…
Para muitos, os argumentos apresentados…
Uma das principais ofensas a esta lei está no hábito de traduzir todos os pronomes e possessivos ingleses pelos seus homólogos portugueses:
I sold my house last year.
Eu vendi minha casa no ano passado.
…que podia ser facilmente substituído por
I sold my house last year.
Vendi minha casa no ano passado.
…aliás, em muitos contextos,
I sold my house last year.
Vendi a casa no ano passado.
…daria conta do recado, já que, em português, a explicação de qual casa foi vendida geralmente é necessária só quando não se trata da residência do locutor.
Possessivos:
Também temos os casos dos aumentativos e diminutivos, tão comuns em português e tão raros nas traduções
Can you see the small boat?
Está vendo o pequeno barco
Está vendo o barquinho?
Empréstimo:
O empréstimo é um dos procedimentos fundamentais de tradução descritos por Vinay e Darbelnet. Por estar num dos extremos da gama (o outro extremo é a adaptação), é um procedimento limítrofe entre a tradução propriamente dita e a não tradução. Consiste em usar, no texto de chegada, o mesmo termo encontrado no texto de partida.
The images provide a fascinating insight into the prejudices…
As imagens dão um insight fascinante sobre os preconceitos…
Um insight, na opinião de quem traduziu porque tradução é, entre outras coisas, uma questão de opinião é diferente de uma ideia, de compreensão ou entendimento ou de qualquer outra palavra portuguesa. Outros podem e vão divergir.
A rigor, não há palavra portuguesa que tenha exatamente o mesmo sentido que uma palavra inglesa, o que, em princípio, justificaria todo e qualquer empréstimo e já vi um tradutor atarantado com judge, que não queria traduzir por juiz, porque há diferenças enormes entre o cargo, funções e desempenho de e de outro. Por isso, a decisão entre usar ou não um empréstimo deve se basear não na existência de diferenças, mas sim na sua relevância no contexto.
Contexto:
Com o tempo, se a palavra ou expressão se tornarem comuns, a língua muitas vezes acaba por adotar uma solução mais portuguesa, talvez um decalque, ou ao menos, uma simples aclimatação.
All downloads are provided under the terms and conditions…
Todos os programas que você baixar estão sujeitos aos termos e condições…
Football is the most popular sport in Brazil.
O futebol é o esporte mais popular no Brasil.
Outras vezes, a importação se dá só por exotismo ou para manter o prestígio: usar palavras estrangeiras é e sempre foi considerado chique, não só em português, isso não é de hoje nem vai mudar nunca.
Tratamento dos empréstimos:
Teoricamente, todos os empréstimos deveriam ser grafados em itálico. Entretanto, em certas áreas, são tantos que, esse tratamento se torna impossível. Aqui, além das preferências do cliente, importa o bom senso. Este livrinho não tem um verbete sobre "bom senso". Quando o empréstimo é um verbo, vai automaticamente para a primeira conjugação, mas quando tomamos emprestado um substantivo, é necessário determinar seu gênero morfológico. O problema é que não existem regras infalíveis para determinar o gênero gramatical em português. Temos diversos exemplos de palavras que ainda causam confusão, nesse sentido: algumas pessoas dizem o cheesecake (pensando em cake, bolo, faz sentido), outras dizem a cheesecake (pensando que é muito mais uma torta que um bolo, o que também faz muito sentido).
Em informática, é comum dizermos a URL, apesar de ser um localizador. No mesmo caminho, pen drive, HD e outros termos também são usados como masculino por uns e feminino por outros. Qualquer escolha é um risco, neste e em outros casos. Havendo tempo, é bom perguntar a duas ou três pessoas que gênero acham que cabe bem mas nunca há tempo. Ouvir a opinião do cliente, aqui, é importante. Manter a uniformidade, quer dizer, usar sempre o masculino ou o feminino para um determinado termo emprestado é essencial.
O empréstimo é uma das portas de entrada lógicas para novidades na língua (o outro é o decalque). Por isso seu uso é muito comum nas traduções, principalmente nos gêneros menos literários. Saber quando usar um empréstimo ou uma aclimatação, quando cunhar um neologismo ou usar uma palavra já existente na língua é uma questão de bom senso. Este livrinho não tem um verbete sobre "bom senso".
Empréstimos são empréstimos?
Há quem prefira se referir a esses casos como importações, sob a justíssima alegação de que se presume que algo deva ser devolvido enquanto que ninguém supõe que uma língua vá devolver algum dia as palavras que tomou emprestadas das outras. Mas acho que, aí, estamos sendo mais realistas que o rei.
8 Equivalência:
Equivalência é um dos procedimentos fundamentais de tradução descritos por Vinay e Darbelnet. A equivalência reflete a mesma situação do original usando meios linguísticos e estilísticos totalmente distintos, como mostram os exemplos abaixo.
Procedimentos fundamentais de tradução:
Where there is a will, there is a way.
Querer é poder.
Birds of a feather flock together.
Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és.
Yours truly,
Atenciosamente,
He charged an arm and a leg.
Enfiou a faca até o cabo.
Nem sempre é fácil encontrar equivalências em dicionários.
Às vezes, é possível traduzir mais literalmente, às vezes até com resultados interessantes:
Where there is a will, there is a way.
Onde houver a vontade, haverá um caminho.
Ou, com modulação:
Where there is a will, there is a way.
Quem tem vontade, acha o caminho.
Modulação:
Entretanto, não é uma boa tradução, porque o original é uma forma fossilizada na língua inglesa, ao passo que a tradução não é uma forma usual no português. Em outras palavras, transformamos um chavão numa inovação, algo que não deixa de ser uma distorção.
Distorção:
Note que o termo tem sentido diferente na obra de outros autores. Aqui, uso estritamente no sentido usado por Vinay e Darbelnet.
Erros no original:
Uma tradução exige uma leitura tão atenta do texto de partida que muitas vezes notamos erros que o autor e os revisores deixaram passar. Poucas coisas alegram mais um tradutor do que encontrar um desses erros. Dá uma enorme vontade de pavonear-se numa nota, explicando com detalhes e não sem um tostãozinho de ironia, que, onde o autor deveria ter escrito X, escreveu Y. Esse costuma ser o pior modo de lidar com o erro. Muitos erros carecem de relevância e, nesses casos, é melhor traduzir o texto como se nem existissem.
Por outro lado, em alguns casos, manter o erro pode ser importante quando o for um elemento relevante do texto. Já traduzi um texto que tinha dado origem a uma reclamação judicial e, nesse caso, preservar os erros era essencial, para que o leitor percebesse em que encrenca sua empresa tinha se metido.
Relevância:
Os erros podem ser formais e materiais.
Erros formais:
A maioria dos erros encontrados são meramente formais, quer dizer, atentados contra a gramática e ortografia. Por exemplo,
The principle parts of a Greek verb are…
Os tempos primitivos de um verbo grego são…
…encontrado em uma gramática grega publicada pelo MIT, deveria ser:
The principal parts of a Greek verb are…
Os tempos primitivos de um verbo grego são…
Salvo se o objetivo da tradução for demonstrar que o livro continha erros de ortografia, o melhor é traduzir direito e deixar o erro para lá, algo que, vamos e venhamos, é bem mais fácil.
Erros materiais:
Os erros materiais, ou seja, os de conteúdo, são mais problemáticos. A gente encontra até nos melhores autores. Horácio, na Arte Poética, já dizia Quandoque bonus dormitat Homerus, o que significa "de vez em quando, o bom Homero cochila", porque, aparentemente, na Ilíada, há uma que outra incoerência. O sujeito que morre numa luta qualquer e depois vence alguém mais em outra, ou coisa parelha. Aqui, o problema é mais complexo e envolve inclusive questões de ética. As soluções vão desde consultar o cliente ou o autor até adicionar uma nota de tradutor ou, em casos extremos, recusar o encargo, uma decisão heroica que nem sempre nosso bolso permite.
Pontos com que você não concorda:
Nem sempre o tradutor concorda com o autor e é muito difícil resistir à tentação de "corrigir" certos "erros" do original, principalmente quando o tradutor tem formação técnica na área. Nunca se esqueça que o leitor quer saber o que o autor disse, não o que tradutor acha que o autor deveria ter dito. Nos meus tempos de editora, um revisor técnico alterou totalmente o sentido de um parágrafo de um livro de economia que eu tinha traduzido. Quando fui perguntar o que havia de errado com a minha tradução, ele respondeu "Nada! É que o autor é um imbecil e eu não posso permitir que um de nossos livros contenha uma besteira dessas." Sim, o autor talvez fosse um imbecil, mas era prêmio Nobel e professor na Universidade de Chicago e quem comprava o livro era para saber o que o homem tinha dito, não para saber o que um mestrando aqui da terra achava que devia ser dito.
Adições do tradutor:
Em casos extremos, cabe ao tradutor o direito de exigir que a tradução seja assinada com pseudônimo, ou até, quando o bolso permite, recusar o trabalho.
Responsabilidade do tradutor:
O tradutor não tem obrigação nem de notar nem muito menos de corrigir erros do original. Quando notar, quiser e puder corrigir, é melhor que faça correções discretas, até para não irritar egos inflados. Alguns autores são muito abertos a discussão e sabem que raramente o tradutor reclama sem alguma razão, outros, entretanto, consideram qualquer reparo ao seu trabalho um insulto. Outros, simplesmente, estão mortos e não podem ser consultados o que nem sempre é uma desvantagem.
Com os editores, a situação é semelhante: há quem aceite sugestões do tradutor, há quem rejeite. Convém dançar conforme a música. Entre uns e outros, todo tipo de gente. Cautela e canja de galinha nunca fizeram mal a ninguém. De qualquer forma, o tradutor jamais deve assumir perante o cliente a responsabilidade de identificar os erros no original. Na maioria dos casos, não temos os conhecimentos nem o material de consulta necessários para esse tipo de serviço. Se o autor faz uma citação, não cabe a você verificar se ele citou direito ou se como de vez em quando acontece usa um tantichinho de, digamos, imaginação criativa.
Quando temos conhecimento e material, não temos tempo, porque o serviço é urgente. E quando temos o conhecimento e o tempo, não querem nos remunerar pelo tempo gasto porque é só uma olhadinha. Uma olhadinha, sei. A remuneração e o prazo são sempre um problema.
Especificações:
Tradução é um serviço e para todo serviço há especificações. Boa parte das especificações é implícita. Por exemplo, salvo ordem em contrário, quem recebe um arquivo .docx para traduzir devolve um arquivo .docx traduzido. Outras vezes, as especificações são explícitas e transmitidas ao tradutor de maneira mais ou menos formal, em forma de mensagem ou num guia de estilo. Para alguns serviços, as especificações incluem um glossário. Muitos tradutores chegam a se ofender com essas especificações, sentidas como uma limitação à sua liberdade profissional o que não deixam de ser.
Às vezes, nem cumprem, sob a alegação de que já têm experiência suficiente para saber como se traduz, uma postura eivada de estrelismo que, quando se trata de trabalho de equipe, causa inúmeras dificuldades a quem tiver de uniformizar o texto. Mas o cliente tem todo o direito de impor especificações, assim como nós nos damos o direito de impor especificações a quem nos prestar serviços e, por exemplo, ficaríamos indignados se o pintor exercesse sua liberdade profissional pintando nosso escritório de cor de burro quando foge em vez de pintar de azul-neve com bolinhas cor de cenoura, como pedimos.
E, vamos e venhamos, é bem melhor o cliente nos dar especificações, por mais odientas que nos pareçam, do que reclamar que nosso serviço entregue não está da cor que ele queria. Essas especificações variam do perfeitamente aceitável, por exemplo, traduzir instruções sempre no infinitivo ou sempre no imperativo:
Check
Confira
Conferir
Até coisas indescritivelmente horríveis como traduzir
Public-address system
Sistema de endereçamento ao público
…como apareceu num glossário que recebi de um cliente há anos.
As especificações evitam uma grande quantidade de problemas de revisão e, quando se trabalha em grupo, como é cada vez mais comum atualmente, permitem oferecer ao leitor um texto mais homogêneo.
Muitas vezes, principalmente em trabalhos mais longos, as especificações vão se desenvolvendo ao longo do trabalho, para enfrentar problemas que não tinham sido previstos e cabe ao revisor ou ao coordenador de equipe voltar a arquivos já traduzidos, para fazer um ajuste às novas especificações. Cabe ao tradutor o direito quando não o dever de propor melhoras ao guia de estilo, apontando os eventuais desacertos ou pontos dúbios, mas cabe ao cliente a decisão final, quando o cliente é do tipo que aceita sugestões.
Surge, então, um problema quando as especificações são absolutamente inaceitáveis. O ideal, nesses casos, seria recusar o serviço. Mais fácil dizer do que fazer, porque quando a barriga ronca de fome, a boca não sabe dizer não. Nesses casos, se o serviço for anônimo, como são os serviços para agências, o sapo fica mais fácil de engolir.
Estilo:
O estilo é a fisionomia do texto. Alguns estilos são facilmente reconhecíveis; outros são menos característicos. Mas todo texto tem estilo. Você pode não gostar do estilo do autor, mas, como tradutor, tem de respeitar suas opções estilísticas. O problema é decidir que construção portuguesa melhor reflete o estilo do texto inglês. Algumas editoras têm um estilo da casa, que reduz as peculiaridades estilísticas de todos os autores a um texto claro e correto, porém muitas vezes chocho e insosso. Esse tipo de aplainamento estilístico pode ser aceitável e até desejável em certas obras coletivas, não autorais, principalmente em livros de consulta.
Nesses casos, normalmente, o estilo já chega aplainado às nossas mãos e não há nada que tenhamos a fazer salvo respeitar o que o original diz. Mas corre muito sangue quando o tradutor faz um baita dum esforço para reproduzir o estilo enviesado do autor e alguém na editora simplifica, para "ficar melhor". Por outro lado, há os tradutores que se julgam ourives da língua e optam por escrever num estilo barroco com agravantes em rococó "porque esse é o bom português". Se você estiver traduzindo um texto barroco, é a solução, mas, salvo isso, não tem motivo. Uma vez um tradutor argumentou que fazia parte de nossa missão ressuscitar belos recursos da língua como a mesóclise, por exemplo. Em primeiro lugar, acho que não é. Em segundo, mesóclise num daqueles romances de ler em aeroporto é besteira, salvo se o personagem for empolado pela própria natureza.
9 Ética:
Tradutores traduzem, essa é a verdade. E leitores leem traduções porque querem saber o que o autor disse, não o que o tradutor acha que o autor deveria ter dito. Então, exima-se de tentar "melhorar" o texto. Traduza bem o que o autor disse, que já é o suficiente. Cada minuto que você emprega tentando melhorar a forma ou o conteúdo do original, é um minuto que poderia ser mais bem usado melhorando sua tradução. Nunca mude um texto para se adequar aos seus próprios conceitos e ideologias.
Se achar que, por motivos éticos, não consegue fazer uma boa tradução, recuse o serviço. Se for obrigado a aceitar, engula o sapo e traduza direito, sabendo que este mundo não é justo. Lembre, também, que o problema ético está mais ligado ao uso que se vai fazer da tradução do que realmente ao que a tradução diz. Por exemplo, traduzir um texto sobre pedofilia para um site pedófilo é um horror, mas traduzir o mesmo texto (por nojo que nos possa dar) para uso do ministério público em uma ação judicial já não é.
Exotismo:
Algumas escolhas tradutórias são motivadas pelo desejo de manter o exotismo do original. Não estou me referindo, aqui, só aos casos em que o original, em si, contém vocabulário exótico, como, por exemplo, um romance ambientado na Mongólia cheio de palavras que tinham até correspondentes decentes em inglês mas são mantidas em mongol para dar "cor local" ao texto. Estou falando de palavras simples, do dia a dia inglês, como breakfast. Se você está traduzindo um guia turístico, talvez valha a pena manter breakfast para descrever a refeição matinal em um hotelzinho poético da Nova Inglaterra, em vez de traduzir por café da manhã.
Expansão:
Quando o autor usa uma abreviatura inglesa que talvez o leitor brasileiro não conheça, é melhor expandir a abreviação, com os ajustes necessários.
He used to work at a gas station in Tampa, Fla.
(Ele) trabalhava em um posto de gasolina em Tampa, na Flórida.
…mas essas intervenções devem ser reduzidas ao mínimo.
Explicação aposta:
Muitas vezes, em vez de uma nota do tradutor, é melhor usar uma explicação aposta, entre vírgulas, parênteses ou meias riscas. Meia risca é o nome técnico daquele sinal que se obtém digitando Alt 150 (-) e que muitas vezes é chamado de travessão, que é um pouco mais longo.
The humor of Laurel and Hardy, like that of many great comics, …
O humor de Laurel e Hardy, – ou "Gordo" e o "Magro" como são
conhecidos no Brasil – como o de muitos outros cômicos…
A Knesset committee recently approved a draft law…
Um comitê do Knesset, o parlamento de Israel, aprovou um projeto de lei…
…sem necessidade de informar que se trata de adição do tradutor.
Explicitação:
Explicitar é deixar evidente na tradução o que estava implícito no original. Muitas vezes, o autor deixa de explicitar algo que no seu entender, ao menos não precisa ser dito por ser óbvio para seus leitores.
Along CR Ř7 about 2.5 miles south of Stoneville the trees…
Ao longo da estrada CR-27, a uns 4 quilômetros de Stoneville, as árvores…
O autor achou desnecessário esclarecer que a CR 27 era uma estrada, mas o tradutor achou o esclarecimento indispensável para seu público. Veja outros exemplos:
The mighty Federal Reserve is being stretched to its limits...
O poderoso Federal Reserve, o banco central norte-americano, está sendo levado a seus limites...
David Wright believes in self-evaluation.
David Wright, um dos jogadores do Mets, acredita em autoavaliação...
Tiger Woods has now confirmed on his website that he is out for the year to have additional knee surgery.
Tiger Woods, considerado o melhor jogador de golfe do mundo, confirmou em seu website que está fora da temporada para mais uma cirurgia no joelho.
A box containing a shiny half-crown and three handkerchiefs….
Uma caixa com uma moeda brilhante de meia coroa e três lenços…
Falsos cognatos:
A maioria dos tradutores morre de medo dos falsos cognatos, como se fossem eles o bicho papão e o homem do saco juntos. A tal ponto se apavoraram, que não usam cognato nenhum, falso ou não, por medo de cair em pecado mortal. Vamos primeiro entender o que são os tais "falsos cognatos". Palavras cognatas são as que têm a mesma etimologia. Por exemplo, semear, semente, seminário, disseminar são palavras cognatas, todas elas derivadas do latim semen.
Muitas dessas palavras encontram cognatas em outras línguas: disseminate em inglês, por exemplo, ou seminário em espanhol e italiano, ou séminaire em francês, pertencem todas à mesma família do semear, semente, seminário, disseminar e, por isso, são todas cognatas. Para saber se duas palavras são cognatas, é necessário saber um bocado de linguística diacrônica ou, ao menos, consultar dicionários etimológicos. Ser parecida não basta. Por exemplo, haver e have são parecidíssimas, mas não são cognatas, porque, a despeito da semelhança, têm origens totalmente diferentes. O mesmo se aplica a ética e estética. Jamais se arrisque a dizer que duas palavras são cognatas sem uma boa pesquisa em dicionários.
Muitos dos pares de cognatos em inglês-português mantiveram o mesmo sentido ao menos na maioria das acepções: semen- sêmen. Mas outras foram divergindo de sentido. O exemplo clássico é o atual inglês, que não pode mais ser traduzido automaticamente pelo português atual, embora ambos tenham a mesma origem, o latim actualis.
…the actual number of victims may be a lot higher.
…o número real de vítimas pode ser muito mais alto.
Geralmente, esses casos são chamados "falsos cognatos". É um nome perigoso porque muitos entendem que esses casos não são cognatos de verdade, mas são, sim. Então, por que "falsos"? Porque nos enganam, porque sua similaridade formal nos dá a falsa impressão de terem o mesmo sentido. Por isso, há que os chame de "falsos amigos", um nome menos comum, porém ao que me pareça, mais adequado. Geralmente, entretanto, a falsidade é parcial: por exemplo, atual, como termo técnico de filosofia aristotélica, é atual mesmo.
…because it is related to matter as actuality to potentiality…
…por ter com a matéria a mesma relação que a atualidade tem com a potencialidade….
Dada a forte presença da cultura anglo-americana no Brasil, acoplada com o descuido de quem fala e escreve, muitos desses falsos cognatos vão aos poucos assumindo em português o mesmo sentido que têm em inglês. Nesses casos, temos três fases: na primeira, quem escreve com cuidado vê com horror o uso alienígena; na segunda, há longas e estéreis discussões sobre o assunto; na terceira, poucos ainda usam o termo no sentido mais antigo.
Por exemplo, quando meu pai me chamava de relaxado, estava me repreendendo, dizendo que era um desmazelado, negligente, relapso, sentido que está rapidamente caindo no esquecimento: hoje, chamar alguém de relaxado pode ser até um elogio: calmo, sereno, descontraído. De modo geral, o tradutor deve ser conservador e só usar termos em sentidos plenamente aceitos. Quer dizer, usar relaxado, hoje, como tradução para relaxed é perfeitamente aceitável. A situação do tradutor literário, entretanto, pode ser mais complicada. O OED mostra relax com o sentido de tornar-se menos formal já em Dickens, mas seria anacrônico fazer um personagem de Dickens usar relaxado nesse sentido. Em um caso assim, descontraído cai bem melhor:
He gradually relaxed…
Foi se descontraindo aos poucos…
Entretanto, daqui a dez anos, o uso de relaxado pode ter se tornado tão comum que descontraído tenha se tornado obsoleto e confira ao texto um tom indesejável.
Fidelidade:
Uma tradução é como um retrato. Você chega à casa de alguém, vê um belo quadro e o dono da casa pergunta o que você acha. "Sim, é lindo, belíssima mulher", você responde. O dono explica que a mulher era um horror de feia: o pintor é quem fez dela uma mulher bonita. O retrato é lindo mas não é fiel. Particularmente, dou muito valor à fidelidade, a repetir para ao leitor o que o autor disse no seu texto. Creio que, ao aceitar o encargo de traduzir um texto, o tradutor faz um pacto com o autor e o leitor, prometendo a ambos levar a palavra de um ao outro, e esse pacto tem de ser levado a sério.
O tradutor é um mensageiro. Resta a pergunta: fiel a quê? Ao que o autor escreveu, ao que pretendeu escrever, ao que teria escrito se tivesse escrito em português? Ou como dizem nos exames nenhuma das respostas acima? Tradução não tem regras fixas e a decisão sobre a que ser fiel é uma das primeiras, talvez a primeira, decisão do tradutor. De modo geral, a fidelidade deve ser ao que o autor escreveu, mas há que considerar que o original pode ter erros, ou o autor pode ter se expressado mal.
Por fim, fidelidade e literalidade são coisas distintas.
- Adaptação
- Erros no original
- Especificações
- Localização
- Tradução literal
Formas consagradas:
Consagradas são as formas que a maioria usa e a maioria usa porque são consagradas. Só isso. Londres é uma forma consagrada, então, chame a capital do Reino Unido de Londres, embora em inglês se diga London. Não tem nem precisa de outra justificação. É consagrada porque é consagrada e está acabado.
Aclimatação:
Há um número infinito de nomes próprios ingleses sem forma consagrada em português: Schenectady, Stoke-on-Trent, Leslie, Fern e não vale a pena ficar procurando aclimatar essas coisas. A tendência mundial é mesmo manter todos os nomes próprios no original e mesmo os ingleses, que durante anos falavam em Leghorn, agora estão começando a falar em Livorno, embora Leghorn ainda persista para a raça de galinhas. Não adianta procurar uma lista oficial, porque não existe. E, se houvesse, a maioria de nós, de nossos revisores, críticos ou leitores não ia concordar com ela. É necessário usar o bom senso. Lamentavelmente, o que pode parecer uma demonstração de bom senso para uns, pode parecer pura idiotice para outros. Este livrinho não tem um verbete sobre "bom senso".
Gerúndios:
É quase sempre possível traduzir um gerúndio inglês pelo seu correspondente português, mas muitas vezes parece antipático:
Cleaning your bathroom
Limpando o banheiro
Pareceria até bom caso fosse a legenda de uma foto de alguém limpando um banheiro, ou coisa que o valha. No caso, porém, em que se trata do título de um texto som sugestões de limpeza, parece que
Cleaning your bathroom
Como limpar seu banheiro
…ficaria bem melhor.
Outra opção é usar um substantivo abstrato:
Cleaning your bathroom
Limpeza do banheiro
Negativas:
Os gerúndios negativos são usados para proibições genéricas. Em português, a tradução costumeira é um daqueles períodos com predicado nominal:
No smoking
(É) proibido fumar
Gramática e norma culta:
A gramática e a norma culta são menos monolíticas do que se pensa e numerosas construções são consideradas corretas por uns e inaceitáveis por outros. Nas minhas traduções, pratico o que chamo "gramática defensiva", quer dizer, em vez de procurar saber o que é "o certo", procuro usar o que é incontestável. Essa postura me obriga a umas tantas cabriolas estilísticas o que, por sua vez me levou a repetir, incansavelmente, que a gente tem de estudar mais português que inglês.
He/she:
O inglês faz mais uso de pronomes que o português, e, por isso, traduzir todos os pronomes de um texto inglês por pronomes portugueses, embora possível, é vício de frequência.
- Contaminação
- Pronomes
- Termo vicário
- Vício de frequência
Traduzir literalmente:
A tradução literal é sempre possível, mesmo quando não recomendável:
He is our French teacher.
Ele é o nosso professor de francês.
Omitir:
Entretanto, omitir o pronome de terceira pessoa geralmente melhora o fluxo de texto sem causar prejuízo algum:
John Smith is our training coordinator. He studied law and engineering…
John Smith é nosso coordenador de treinamento. Ele estudou direito e engenharia…
John Smith é nosso coordenador de treinamento. Estudou direito e engenharia…
Fundir duas ou mais frases:
Estamos sempre reclamando do picadinho frasal do inglês e aqui há uma boa oportunidade para fundir duas frases em uma, sem grandes problemas. Neste primeiro exemplo, o complemento predicativo é traduzido como aposto:
John Smith is our training coordinator. He studied law and engineering…
John Smith é nosso coordenador de treinamento. Ele estudou direito e engenharia…
John Smith, nosso coordenador de treinamento, estudou direito e engenharia…
Também é possível fundir mais de duas frases, usando o mesmo recurso:
John Smith is our training coordinator. He studied law and engineering in Brazil. He also worked as a researcher in…
John Smith é nosso coordenador de treinamento. Ele estudou direito e engenharia. Ele também trabalhou como pesquisador em…
John Smith, nosso coordenador de treinamento, estudou direito e engenharia no Brasil e também trabalhou como pesquisador em…
Poderíamos também ter transformado o aposto em uma oração adjetiva:
John Smith is our training coordinator. He studied law and engineering in Brazil. He also worked as a researcher in…
John Smith é nosso coordenador de treinamento. Ele estudou direito e engenharia. Ele também trabalhou como pesquisador em…
John Smith, que é nosso coordenador de treinamento, estudou direito e engenharia no Brasil e também trabalhou como pesquisador em…
...mas essa construção deve ser evitada, porque obriga o uso de um que e as traduções do inglês tendem a usar um excesso de quês. Melhor dizer
John Smith is our training coordinator. He studied law and engineering in Brazil. He also worked as a researcher in…
John Smith, nosso coordenador de treinamento, estudou direito e engenharia no Brasil e também trabalhou como pesquisador em…
Homólogo:
Chamo homólogos aos termos que carregam a mesma carga semântica fundamental, mesmo que sejam morfologicamente diferentes (substituir, substituto, substituição) ou estejam em línguas diferentes (bread, pão). O uso de termos homólogos é fundamental para a transposição.
Transposição
Por exemplo:
Kiss me!
Dá um beijo!
Kiss é verbo, beijo é substantivo, mas os dois carregam a mesma carga semântica e são, portanto, homólogos.
How:
A tradução canônica para how é como:
How do you spell your name?
Como se escreve seu nome?
Como se soletra seu nome é um caso clássico de tradutorês.
Essa tradução muitas vezes não funciona bem:
How important is an oath?
Quão importante é um juramento?
…melhor traduzir o adjetivo important pelo seu substantivo abstrato homólogo, importância, o que nos obriga a traduzir o how por qual (é):
How important is an oath?
Qual (é) a importância de um juramento?
- Substantivo
- Transposição
How important is it that the ISCE be stabilized?
Qual (é) a importância da estabilização da ISCE?
Qual (é) a importância de estabilizar o ISCE?
…onde, ainda por cima, temos uma oportunidade de abreviar a frase, usando um verbo ativo no lugar da passiva inglesa.
Transposição
How would you stand?
Qual seria sua posição?
Aqui, temos uma mudança um pouco mais drástica, porque a tradução de stand pelo seu homólogo posição, obriga a incluir o verbo ser algo a que você se acostuma logo que começa a entender a vantagem de usar um substantivo abstrato como núcleo semântico de sua frase.
- Substantivo
- Transposição
Entretanto, o abstrato apropriado nem sempre é óbvio:
Giant dogs that have no idea how big they are
Cães gigantescos que não têm ideia de seu tamanho.
…embora, pensando bem, é óbvio que tamanho seja um abstrato apropriado para big.
I:
Como todos os pronomes, I é um termo vicário e, portanto, exige tratamento especial.
Traduzir literalmente:
A tradução literal é sempre possível, porém nem sempre recomendável:
I dont like war films.
Eu não gosto de filmes de guerra.
Entretanto, vale quando o pronome for usado como recurso de ênfase, ou quando se opuser a outro:
I give the orders here. You just have to do what I say!
Eu dou as ordens aqui. Você só tem que fazer o que mando!
Embora nos pareça mais idiomático dizer:
I give the orders here. You just have to do what I say!
Sou eu quem dá as ordens aqui. Você só tem que fazer o que mando!
Omitir:
Na maioria das vezes, entretanto, a melhor saída é omitir na tradução:
I don’t like war films.
Não gosto de filmes de guerra.
"When will you edit the text"? "I can edit it now."
– Quando você vai revisar o texto? – Posso revisar agora.
– Quando você vai fazer a revisão do texto? – Posso fazer agora.
Note que a omissão do I só parece vir naturalmente na segunda frase. Pelo menos para nós, uma frase como
"When will you edit the text? "I can edit it now."
– Quando vai revisar o texto? – Posso revisá-lo agora.…
… pareceria pouco idiomática. Esse tipo de construção às vezes aparece quando o locutor não sabe se deve tratar se interlocutor por você ou o senhor.
Imperativo
Um imperativo deveria ser um imperativo, mas na tradução, nem sempre é. Primeiro que em inglês é costume amenizar os imperativos com um please, costume que nos falta em português:
Please, answer the following questions:
Por favor, responda as perguntas abaixo:
Responda as perguntas abaixo:
Em texto mais formais, o please pode ser traduzido por queira:
Please, answer the following questions:
Queira responder as perguntas abaixo:
Muitas vezes, a melhor tradução para uma ordem em inglês é uma ordem negativa em português:
Keep away from me.
Não chegue perto de mim.
Ten videos you have to watch.
Dez vídeos que você não pode perder.
Localização:
A localização não está entre os procedimentos de tradução descritos por Vinay e Darbelnet, mas não deixa de ser uma forma especial e controlada de adaptação. Trata-se de uma série de procedimentos necessários para que o texto traduzido convenha ao local onde se fala a língua de chegada. Esses procedimentos variam desde tarefas que a maioria dos tradutores levam a cabo normalmente, como converter unidades de medida:
He was about six feet tall.
Tinha mais ou menos um metro e oitenta de altura.
Medidas:
…até a criação de módulos especiais sobre impostos brasileiros para inclusão em um programa de informatização de uma grande empresa, tarefa que, certamente, não faz parte das atribuições do profissional da tradução. Em alguns casos, localização e tradução propriamente dita chegam a se opor:
What is your Social Security number?
…pode ser traduzido como
Qual é seu número de registro na Previdência Social?
…o que seria perfeitamente correto quando o texto em português se destinar ao uso de brasileiros residentes nos EUA, os quais terão esse número de registro. Por outro lado, quando se tratar de um formulário a ser usado no Brasil por brasileiros que não disponham daquele documento, muito provavelmente deveria ser localizado como
What is your Social Security number?
Qual é seu CPF?
Pode parecer estranho, porque o CPF identifica os contribuintes do imposto de renda das pessoas físicas no Brasil, ao passo que o SSN identifica os inscritos no sistema previdenciário dos EUA. Entretanto, ambos os números são normalmente usados como forma de identificação, o que os torna homólogos em muitos casos de localização.
10 Manual de estilo:
Um manual de estilo, também chamado guia de estilo nada mais é que uma formalização das preferências de determinada empresa, instituição ou mesmo pessoa. Nenhum deles deve ser tomado com sagrado. É obrigatório obedecer um manual de estilo só quando trabalhamos para quem o produziu, ou quando o cliente exige. De resto, aprecie com moderação: manual de estilo não é autoridade para nada.
- Especificações
- Gramática e norma culta
- Preferências do cliente
May/might:
May e seu passado might costumam ser traduzidos por poder, o que normalmente funciona:
We may have some rain tomorrow.
Pode chover um pouco amanhã.
…mas há outras soluções igualmente corretas e até mais frequentes no português:
We may have some rain tomorrow.
Talvez chova um pouco amanhã.
É capaz de chover um pouco amanhã.
Quem sabe, amanhã chove.
A modulação é um dos sete procedimentos fundamentais descritos por Vinay e Darbelnet e, na minha opinião, um dos procedimentos básicos, juntamente com a tradução literal e a transposição. É a técnica de traduzir o mesmo sentido de um ponto de vista diferente:
The keyhole.
O buraco da fechadura.
Ambos se referem à mesma coisa, mas enquanto o inglês fala da função do orifício, o português fala do local onde o orifício se encontra. Ou
Walk-up building
Prédio sem elevador
…onde o inglês fala da necessidade de subir escadas, ao passo que o português fala da falta de elevador.
Um exemplo mais elaborado é
It takes two to tango.
Quando um não quer, dois não brigam.
Outros exemplos:
Be sure to
Não se esqueça de
Um truque muito bom, mas pouco usado: usar a negativa do oposto. O inglês, diz o que você tem de fazer, o português diz o que você não pode deixar de fazer. Muito útil quando a frase é enfática.
He had overgrown his clothes.
A roupa tinha ficado pequena para ele.
Muleta:
Chamo muleta àquela palavra cuja única função sintática e semântica é dar apoio a outra. Trocado em miúdo:
Kiss me!
Dá um beijo!
O verbo dá está aí só para servir de muleta para a frase não ficar sem verbo. Sua única função é servir de muleta para o substantivo beijo. A muleta tem muito uso nos procedimentos de transposição, que, a meu ver, são os mais importantes para o tradutor.
Transposição
Francisco da Silva Borba, no seu "Dicionário Gramatical de Verbos (UNESP, 1991) se refere a essas palavras como "verbalizadores". Nem vi o termo em outro lugar nem gostei dele. Vou continuar usando muleta até encontrar razão para mudar.
Must:
Must é um verbo auxiliar modal. A tradução, no piloto automático, é dever:
You must oil this machine at least once a week.
Você deve lubrificar esta máquina ao menos uma vez por semana.
Should
Nesses casos, prefiro aquelas construções tão clássicas do português, com um predicado nominal:
You must oil this machine once a week.
É obrigatório lubrificar esta máquina uma vez por semana.
…com o que, de quebra, ainda nos livramos de um you. É certo que a construção homóloga em inglês existe, porém é igualmente certa de que é bem menos usada.
- Transposição
- Vício de frequência
- You
A new contract must be selected for additional investments
É obrigatória a seleção de um novo contrato para fazer investimentos
adicionais
If rejected, a comment must be entered.
Em caso de rejeição, será preciso fazer um comentário.
Nomes de empresas:
Nomes de empresas, de modo geral, não se traduzem:
Johnson & Johnson is uniquely positioned…
A Johnson & Johnson ocupa uma posição ímpar…
- Transposição
- Advérbios terminados em –mente.
Quando o nome da empresa inclui uma descrição de seu objeto social, pode ser útil usar uma explicitação, já que o leitor brasileiro talvez não entenda o inglês:
Explicitação:
Bethune’s business activities were confined to the Central Life Insurance Company of Tampa, Fla.
As atividades comerciais da Bethune se restringiam à Central Life Insurance Company, uma seguradora de Tampa, no estado da Flórida.
A explicitação é só necessária na primeira vez que o termo aparece. Repetir uma seguradora, a cada vez que a Central Life Insurance Company aparece é desnecessário e cansativo.
Além disso, a explicitação é desnecessária quando o contexto for suficientemente esclarecedor.
Anyone who bought an insurance policy from Acme Insurance Co. or has a policy from East Dakota Insurance…
Quem tiver feito seguro com a Acme Insurance Co. ou tiver uma apólice da East Dakota Insurance…
Também é necessário reprimir a tendência de agregar à explicitação mais informações do que o necessário,
Bethune’s business activities were confined to the Central Life Insurance Company of Tampa, Fla.
As atividades comerciais da Bethune se restringiam à Central Life Insurance Company, uma pequena seguradora de Tampa, no estado sulista da Flórida.
Nomes de instituições públicas ou privadas podem ser traduzidos ou mantidos no original, com ou sem explicitação, conforme a audiência. Por exemplo, se a tradução for dirigida a gente da área de finanças, traduzir Fed, ou Federal Reserve Board é desnecessário e até desagradável. Entretanto, para um público leigo, é importante apor uma tradução:
The U.S Federal Reserve Board took urgent action…
O Federal Reserve Board, que opera como banco central dos EUA, tomou medidas urgentes…
- Adições do tradutor
- Empréstimo
- Explicitação
Nesse caso, o original fica como âncora semântica para o leitor, inclusive para o caso de encontrar o mesmo termo sem explicitação ou com explicitação diferente. Esses apostos, como todas as adições do tradutor, devem ser tão breves e concisos quanto possível: só o estritamente necessário para que o leitor entenda do que se está falando. Convém, nesses casos, usar termos genéricos em vez de o nome específico da instituição mais semelhante no Brasil:
The IRS has $53 million for Illinois residents.
O IRS, o Serviço de Rendas Internas dos EUA, tem US$ 53 milhões para residentes no Estado Illinois.
The IRS has $53 million for Illinois residents. O IRS, o Serviço de Rendas Internas dos EUA, tem US$ 53 milhões para residentes no Estado Illinois.
O mesmo processo se aplica a escolas, por exemplo:
At the Harvard Law School we have the benefit of having a group of international students.
Na Harvard Law School, a faculdade de direito da Universidade de Harvard, temos a vantagem de um grupo internacional de alunos.
A explicitação somente se usa na primeira vez que o termo aparece. Repetir a faculdade de direito da Universidade de Harvard a cada vez que Harvard Law School aparece, é cansativo. Além disso, é desnecessário quando o contexto for suficientemente esclarecedor:
She received her law degree from Harvard Law School.
Ela se formou em direito na Harvard Law School.
Ela se formou em direito em Harvard.
Dificilmente uma dessas traduções vai precisar de aposição e a segunda opção, além de mais breve, flui melhor.
Termos que não se referem ao mundo anglófono:
Termos em inglês que não se referem ao mundo anglófono devem ser traduzidos.
As a crown Prince, Hirohito attended the boy's department of the Peers School…
Na qualidade de príncipe real, Hirohito frequentou o departamento masculino da Peers School…
Na qualidade de príncipe real, Hirohito frequentou o departamento masculino da Escola para os Pares do Reino…
Se mantivermos o inglês do original, o leitor pode ser levado a pensar que Hirohito, posteriormente imperador do Japão foi estudar em uma escola num país anglófono, o que não é verdade. O então príncipe Hirohito estudou em uma escola japonesa de elite que, em inglês, é conhecida como Peers School.
The German Foreign Office
O Ministério das Relações exteriores da Alemanha
…é outro exemplo em que o uso do nome inglês causaria um nível de distorção desnecessário. Por outro lado, acho desnecessário ir caçar o nome oficial em alemão: se o autor achou o nome em inglês suficiente, para nós o nome em português há de servir.
Nomes de obras de arte:
Nomes de obras de arte, incluindo literatura, muitas vezes têm formas consagradas em português.
Shakespeare’s "Romeo and Juliet"
O "Romeu e Julieta", de Shakespeare
Não vale a pena deixar no original nem vale a pena inventar um outro nome para a "Romeu e Julieta" ou para qualquer outra obra com nome consagrado em português, salvo se o original ou o contexto exigirem. Com a Internet, descobrir se existe uma forma consagrada deixou de ser tarefa árdua.
- Contexto
- Formas consagradas
Ao contrário do recomendado para os nomes geográficos e de pessoas se a obra não tiver nome consagrado, acho correto traduzir, principalmente em um texto jornalístico ou literário:
Turner painted "The Shipwreck of the Minotaur"…
Turner pintou "O naufrágio do Minotauro"…
Num texto acadêmico, na falta de nome consagrado é preferível manter o nome original, com uma tradução proposta entre colchetes:
Turner painted "The Shipwreck of the Minotaur"…
Turner pintou "The Shipwreck of the Minotaur ["O naufrágio do Minotauro"]…
Termos que não se referem ao mundo anglófono:
É necessário prestar atenção especial aos nomes que, em inglês, já são traduzidos de outra língua:
Johannes Brahms’s "Lullaby"
A "Canção de ninar" de Brahms
O "Acalanto" de Brahms
Brahms escreveu uma peça, que recebeu o nome de Wiegenlied em alemão corretamente traduzido como Lullaby, em inglês. Em português, se diz Canção de ninar ou Acalanto. O gênero musical "canção de ninar" pode ser chamado "berceuse" em português. Chamar uma peça musical alemã em português por seu nome inglês é absurdo
11 Nomes de pessoas:
De modo geral, não se traduzem nomes personativos.
Michael looked at his watch…
Michael olhou o relógio…
Entretanto, não há regras estritas. O Reino Unido tem o príncipe William, que é filho do príncipe Charles, que é filho da rainha … Elizabete! Por que é costume chamar a rainha de Elizabete, em vez de Elizabeth, mas o filho é Charles, em vez de Carlos e o neto é William, em vez de Guilherme, sinceramente não sei. O fato de que, em Portugal, é conhecida como rainha Isabel é clara demonstração de que não podemos mais nos ater cegamente aos padrões lusos: no Brasil, chamar a rainha de Isabel, causaria, no mínimo, surpresa.
Livros para crianças de até cinco anos:
Há quem diga que os nomes personativos devem ser adaptados ao português no caso de livros para crianças muito pequenas, que poderiam ter dificuldades com os nomes estrangeiros.
Acho que essa recomendação deixou de ter importância no Brasil, dada a quantidade de nomes complicados e difíceis hoje comuns entre nós.
Adaptação
Personagens históricos:
Os nomes de muitos personagens históricos têm formas consagradas.
Henry VIII
Henrique VIII
William the Conqueror
Guilherme, o Conquistador
Como sempre, o problema é que aquilo que é forma consagrada para um pode não ser para outro e as discussões sobre o assunto não têm fim. Minha fonte, para essas coisas, costuma ser a Wikipedia. Mas, acima dela, está meu bom senso. Este livrinho não tem um verbete sobre "bom senso". Em trabalho acadêmico, pode valer a pena apor o original entre colchetes, talvez com uma breve explicação:
William the Conqueror invaded England in 1066.
Guilherme, o Conquistador, [William the Conqueror] invadiu a Inglaterra em 1066.
Quando não houver forma consagrada, use o original sem aclimatar.
Aclimatação
Winston Churchill was a great statesman, orator and strategist.
Winston Churchill foi um grande estadista, orador e estrategista.
Muitos nomes ingleses simplesmente não têm correspondentes em português e não vale a pena tentar encontrar.
Nomes não ingleses:
Quando o nome se refere a algo externo ao mundo anglófono, usa-se a forma consagrada em português:
Peter the Great was born in 1672 and he died in 1725.
Pedro, o Grande, nasceu em 1673 e morreu em 1725.
A brief discussion of the life and works of Aristotle.
Uma breve análise da vida e obras de Aristóteles.
Papas:
Os nomes de papas aparecem em suas formas portuguesas nunca se esquecendo que a forma oficial é em latim.
Pope Paul
O papa Paulo
Nomes geográficos:
Muitos nomes geográficos têm formas consagradas em português:
…effect upon the growth and development of London.
…efeito sobre o crescimento e desenvolvimento de Londres.
…que devem ser usadas nas traduções. Outros carecem dessas formas:
Winchester is a historic city in southern England.
Winchester é uma cidade histórica no sul da Inglaterra.
A tendência atual, tanto no Brasil como em vários outros países, é manter os nomes originais. Por isso, formas como Oxônia ou Brema foram desaparecendo em favor de Oxford e Bremen.
Nomes herdados:
Quando o topônimo se refere a um local que herdou o nome de outro mais importante, nem sempre é fácil decidir se devemos manter o original ou usar o topônimo consagrada português:
The City of London is located in the heart of southwestern Ontario.
A cidade de Londres fica no coração do sudoeste de Ontário.
A cidade de London fica no coração do sudoeste de Ontário.
Aqui, nos referimos a uma cidade canadense, não à capital da Inglaterra. Parece que Londres é exclusivamente o nome da capital da Inglaterra, mas não de todas as cidades chamadas London em inglês. Não creio que haja consenso, aqui.
Se o topônimo fizer parte integrante de um nome próprio, deve ser deixado no original:
London Online is a concise guide to the capital…
O "London Online" é um guia conciso da capital…
Casos controversos:
Caso mais complexo é o de New York, que, para alguns, deve ser Nova Iorque e, para outros, Nova York. Não há acordo. Há quem reclame que Nova York é um híbrido a ser evitado, há quem contradiga que o New aqui é um adjetivo comum que deve ser traduzido. Para eles, Nova Iorque não é a cidade dos EUA, mas sim um município no estado do Maranhão, o que não deixa de ter seu lado de verdade. Por outro lado, o estado americano de New Hampshire aparece sempre com seu nome original em inglês o que indica que coerência não é o ponto forte, aqui.
Nomes geográficos com viés político:
Alguns nomes geográficos têm forte viés político: Falkland/Malvinas, por exemplo. Dizer que um é inglês e outro é português é menos correto do que parece: uma busca na Internet vai mostrar que Malvinas aparece mais de 400.000 vezes em textos escritos em língua inglesa. Geralmente (o que significa "mas há exceções" (sempre há exceções e o demônio mora nas exceções), o uso de Falklands reflete a opinião de que o arquipélago, por direito, é britânico; o uso de Malvinas reflete a opinião de que o arquipélago, por direito, é argentino. O uso de Falklands/Malvinas reflete o desejo de não entrar no mérito da questão mas dificilmente funciona, porque sempre vai haver quem ache que Malvinas/Falklands seria mais apropriado.
É um posicionamento político e filosófico que faz parte integrante da mensagem e deve ser respeitado na tradução. Não cabe ao tradutor impor ao texto suas próprias convicções políticas.
…what happened in the ȃFalklandsȄ war when the Argentineans got all fired up about reclaiming the "Malvinas"…
…o que sucedeu durante a guerra das "Falklands", quando os argentinos ficaram todos nevosinhos com a exigência da devolução das "Malvinas"…
Note que o Malvinas vem entre aspas no original, para indicar que, na opinião do autor, o nome correto é Falklands e o próprio fired up, algo pejorativo, indica que o autor não era grande partidário das pretensões argentinas. Por mais que o tradutor tenha o seu coração com a Argentina, há que respeitar o original e manter os nomes.
Termos que não se referem ao mundo anglófono:
Quando o topônimo se refere a um local fora do mundo anglófono, use a forma consagrada em português ou, na falta desta, a forma original:
Copenhagen
Copenhague
O nome da cidade em dinamarquês é København, que iria parecer muito estranho em português. Copenhagen é o nome tradicional inglês.
Catalonia
Catalunha
Nomes próprios transformados em substantivos comuns:
Os topônimos podem se tornar substantivos comuns. Nesse caso o substantivo próprio e o comum podem ter tratamentos distintos:
The city of Leghorn
A cidade de Livorno
…quando nos referimos à cidade italiana, mas
Leghorn chickens
Galinhas legorne
…quando nos referimos à raça de galinhas poedeiras.
River Plate beat Cerro Largo 2-0
O River Plate ganhou do Cerro Largo por 2 a 0.
… embora
The Battle of the River Plate took place on December 13th, 1939.
A batalha do Rio da Prata ocorreu em 13 de dezembro de 1939.
Mudanças de nome:
Muitas vezes, o local muda de nome. Istambul já foi Bizâncio e Constantinopla e já teve vários outros nomes, cada um representando uma fase da história da cidade. Essas mudanças se tornaram mais frequentes nos últimos anos, por vários motivos políticos. Por exemplo, a cidade que os ingleses chamavam Bombay, e em português ganhou o nome de Bombaim bem antes de os ingleses chegarem lá, os indianos, agora, chamam Mumbai. Chamar a cidade, em português, de Mumbai, não é anglicismo, é acompanhar uma mudança feita pelo governo do país onde a cidade está situada.
Anglicismo é chamar de Bombay. A escolha do nome a usar na tradução é condicionada pelo original. Se o original usa Bombay, a tradução deve usar Bombaim, se o original usa Mumbai, a tradução deve usar Mumbai, da mesma forma que Constantinople é Constantinopla, Byzantium é Bizâncio, mas Istanbul é Istambul Ȯ mas note a troca de n por m na grafia. Para entender a recomendação, é importante analisar a razão de haver Bombay ou Mumbai no original. Bombay vai ser encontrado em textos mais antigos, textos atuais ambientados em épocas antigas ou quando o autor simplesmente se recusa a usar o nome moderno por razões políticas ou filosóficas.
Mumbai, por outro lado, se encontra em textos mais modernos e politicamente corretos. Quer dizer, a escolha do nome não é aleatória nem depende de gosto mas reflete fatores que devem ter sua contrapartida na nossa tradução. Aos poucos, esses nomes, que nos pareciam exóticos se tornam comuns e não vai demorar até encontramos algo como:
… Mumbai "antigamente conhecida como Bombai"…