Muitas pessoas após ter lido ou ouvido falar nas Escrituras Bíblicas, já questionaram e questionam a veracidade dos acontecimentos. A arqueologia bíblica, um precioso estudo que vem sendo explorado há poucos séculos, tem dado fima estes questionamentos que os cépticos opõem aos fatos históricos dos livros bíblicos. Você, leitor, encontrará nesta página muitos estudos arqueológicos, os quais provam a autenticidade histórica dos livros da Bíblia.
1.1. E a Bíblia tinha razão
O fato de um homem que não é teólogo escrever um livro sobre a Bíblia é bastante incomum para que se espere dele um esclarecimento sobre a razão por que se dedicou a essa matéria.
As inscrições cuneiformes encontradas em Mari, no médio Eufrates, continham nomes bíblicos que situaram subitamente num período histórico as narrativas sobre os patriarcas, até então tomadas por simples “histórias piedosas”. Em Ugarit, na costa do Mediterrâneo, foram descobertos pela primeira vez os testemunhos do culto cananeu de Baal. O acaso quis ainda que no mesmo ano se encontrasse numa caverna, próximo ao mar Morto, um rolo do livro do profeta Isaías (Manuscritos do Mar Morto), considerado de data anterior a Cristo. Essas notícias sensacionais – permita-nos o uso desta expressão em vista da importância desses achados para a cultura.
1.1.1. A Arqueologia Bíblica
A porta para o mundo histórico do Antigo Testamento foi aberta já em 1843 pelo francês Paul-Émile Botta. Em escavações efetuadas em Khursabad, na Mesopotâmia, ele se encontrou inesperadamente diante das imagens em relevo de Sargão II, o rei assírio que despovoou Israel e conduziu seu povo em longas colunas. Os relatos das campanhas desse soberano relaciona-se com a conquista de Samaria, igualmente descrita na Bíblia.
Há cerca de um século, estudiosos americanos, ingleses, franceses e alemães vêm fazendo escavações no Oriente Próximo, na Mesopotâmia, na Palestina e no Egito. As grandes nações fundaram institutos e escolas especializadas nesses trabalhos de pesquisa. Em 1869, foi criado o Palestine-Exploration Fund; em 1892, a École Biblique dos dominicanos de Saint-Étienne; seguindo-se, em 1898, a Deutsche Orientgesellschaft; em 1900, a American School of Oriental Research; e em 1901, o Deutscher Evangelischer Institut fur Altertumskunde.
Na Palestina, são descobertos lugares e cidades muitas vezes mencionados na Bíblia. Apresentam-se exatamente como a Bíblia os descreve e no lugar exato em que ela os situa. Em inscrições e monumentos arquitetônicos primitivos, os pesquisadores encontram cada vez mais personagens do Velho Testamento e do Novo Testamento. Relevos contemporâneos mostram imagens de povos de que só tínhamos conhecimento de nome. Seus traços fisionômicos, seus trajes, suas armas adquirem forma para a posteridade. Esculturas e imagens gigantescas mostram os hititas de grosso nariz, os altos e esbeltos filisteus, os elegantes príncipes cananeus, com seus “carros de ferro”, tão temidos por Israel, os pacíficos e sorridentes reis de Mari contemporâneos de Abraão. Através dos milênios, os reis assírios não perderam nada de seu semblante altivo e feroz: Teglath Phalasar III, famoso no Velho Testamento com o nome de Ful Senaquerib, que destruiu Lakish e sitiaram Jerusalém, Asaradão, que mandou pôr a ferros o Rei Manassés, e Assurbanipal, o “grande e famoso Asnafar” do livro de Esdras.
Como fizeram com Nínive e Nemrod - a antiga Cale -, como fizeram com Assur e Tebas, que os profetas chamavam No-Amon, os pesquisadores despertaram do sono do passado a famosa Babel da Bíblia, com sua torre fabulosa. Os arqueólogos encontraram no delta do Nilo as cidades de Pitom e Ramsés, onde Israel sofreu odiosa escravidão, descobriram as camadas de fogo e destruição que acompanharam a marcha dos filhos de Israel na conquista de Canaã, e em Gabaon a fortaleza de Saul, sobre cujos muros o jovem Davi cantou para ele ao som da harpa; em Megido descobriram uma cavalariça gigante sca do Rei Salomão, que tinha doze mil soldados a cavalo.
Do mundo do Novo Testamento ressurgiam as magníficas construções do Rei Herodes; no coração da antiga Jerusalém foi descoberta a plataforma (litostrotos), citada por João, o Evangelista, onde Jesus esteve diante de Pilatos; os assiriólogos decifraram em tábuas astronômicas da Babilônia os precisos dados de observação da estrela de Belém.
1.1.2. Os Resultados
Assombrosos e incalculáveis por sua profusão, esses dados e descobertas modificaram a maneira de considerar a Bíblia. Episódios que até agora muitos consideravam simples “histórias piedosas” adquirem de repente estatura histórica. Por vezes, os resultados da pesquisa coincidem com as narrativas bíblicas nos mínimos detalhes. Eles não só “confirmam”, mas esclarecem igualmente os acontecim entos históricos que originaram o Velho Testamento e os Evangelhos. As experiências e o destino do povo de Israel são assim apresentados, não só num cenário vivo e variegado, como num colorido painel da vida diária, mas também nas circunstâncias e lutas políticas, culturais e econômicas dos Estados e impérios da Mesopotâmia e do Nilo, das quais nunca puderam libertar-se inteiramente, durante mais de dois mil anos, os habitantes de estreita região intermédia da Palestina.
Na opinião geral, a Bíblia é exclusivamente história sagrada, testemunho de crença para os cristãos de todo o mundo. Na verdade, ela é ao mesmo tempo um livro de acontecimentos reais. É bem verdade que, sob esse ponto de vista, ela carece de integralidade, porque o povo judeu escreveu sua história somente em relação a Jeová e sob a ótica de seus pecados e sua expiação. Mas esses acontecimentos são historicamente genuínos e têm se revelado de uma exatidão verdadeiramente espantosa.
Com o auxílio dos resultados das explorações, diversas narrativas bíblicas podem ser agora muito mais bem compreendidas e interpretadas. É ver dade que existem correntes teológicas para as quais o que vale é a palavra e nada mais que a palavra. “Mas como se poderá compreendê-la”, questiona o Profº. André Parrot, arqueólogo francês mundialmente famoso, “se não se puder encaixá-la no seu preciso quadro cronológico, histórico e geográfico?”
Até agora o conhecimento dessas descobertas extraordinárias era privilégio de um pequeno círculo de peritos. Ainda há meio século, o Profº Friedrich Delitzsch perguntava-se, em Berlim: “Para que tantas fadigas em terras distantes, inóspitas e perigosas? Para que esse dispendioso revolver de escombros multimilenários, até atingir as águas subterrâneas, onde não se encontra ouro nem prata? Para que essa competição das nações no sentido de assegurarem para si o privilégio de escavar essas áridas colinas?” O sábio alemão Gustav Dalman deu-lhe, em Jerusalém, a resposta adequada, quando expressou a esperança de que, um dia, tudo o que as pesquisas “viram e comprovaram seria não só valorizado em trabalhos científicos, mas também utilizado praticamente na escola e na igreja”. Isso, porém, ainda não aconteceu.
1.1.3. A Bíblia
Nenhum livro da história da humanidade jamais produziu um efeito tão revolucionário, exerceu uma influência tão decisiva no desenvolvimento de todo o mundo ocidental e teve uma difusão tão universal como o “Livro dos Livros”, a Bíblia. Ela está hoje traduzida em mil cento e vinte línguas e dialetos e, após dois mil anos, ainda não dá qualquer sinal de que haja terminado a sua triunfal carreira.
1.2. Os informes históricos de fontes assírias
Os informes históricos de fontes assírias formam um complemento muito precioso aos relatos dos livros bíblicos e auxiliam-nos principalmente a controlar e corrigir a cronologia bíblica. Pela primeira vez, só vamos encontrar o nome de Israel nos textos assírios, lá pelo século nove antes da era cristã, por ocasião do encontro de Salmanassar III -nas imediações de Carcar, na Síria -com o exército aliado das potências sírio-palestinenses.
Dos monumentos assírios, que se relacionam com Israel, o mais importante é o famoso Obelisco Negro do rei Salmanassar III. Essa pedra, que mede uns dois metros de altura, acha-se no Museu Britânico, em Londres. Nela estão gravados, em três filas, as imagens dos povos vencidos por aquele monarca, levando tributo para o rei vencedor. A segunda fileira, no alto, representa israelitas levando tributo. Este obelisco é valioso por nos oferecer um quadro figurativo dos tipos e trajes israelitas, como os via o artista assírio.
Imagens de judeus da época bíblica também se encontram em outros monumentos assírios. Existe um baixo-relevo do rei assírio Sanaquerib, o qual foi descoberto no lugarejo de Quidjique, onde antigamente ficava a cidade de Nínive. Nesse baixo-relevo, que também se acha em Londres, representa-se a subjugação da cidade de Lachish em Judá (701 A.C.). No quadro também se vêem judeus conduzidos para a presnça do rei. São também de muita importância os informes assírios sobre as suas guerras com Israel e a queda de Samaria.
Do mesmo modo foram descobertos documentos relativamente detalhados, a respeito do sítio de Jerusalém na época de Ezequias, os quais completam os relatos da Escritura Sagrada. Não menos valiosas são as notícias descobertas nos materiais assírios sobre a época de Manassés. Por outro lado, ressentem-se as fontes bíblicas da falta de notícias a respeito das últimas guerras com Judá e a destruição de Jerusalém. Além dos monumentos que se relacionam diretamente com Israel e Judá, foram encontrados muitos materiais assírios, babilônicos, e mais tarde também hamíticos (textos religiosos, obras literárias, etc.), os quais indiretamente nos ajudam a melhor compreender o desenvolvimento econômico e a evolução do povo judeu na antiguidade, especialmente a sua conexão íntima com a cultura dos demais povos daquela época.
Requer-se naturalmente o maior cuidado quando se fazem deduções baseadas em cotejos literários. Semelhança de tema, idéias e até de expressão, são freqüentemente o resultado de análogas situações e semelhantes condições de vida.
Os influxos babilônicos percebem-se com clareza nos primeiros capítulos de Gênesis, nas narrativas sobre a criação do mundo e a história primitiva da humanidade. Neste particular é muito instrutiva a descrição babilônica do dilúvio, a qual se assemelha à história bíblica, não só em sua ideia central que, aliás, é difundida pelo mundo inteiro, mas também em alguns detalhes curiosos, como se verifica, adiante, pelo confronto do texto babilônico com o texto bíblico.
Na narrativa babilônica é o próprio personagem do dilúvio, Utnapishtim, quem conta as suas experiências, ao passo que em Gênesis fala-se de Noé na terceira pessoa. Há
também no fundo consideráveis diferenças. Na narrativa babilônica faltam principalmente as razões éticas da destruição do mundo, como as encontramos em Gênesis. Outra variação importante é introduzida pelo monoteísmo bíblico. Não obstante, ainda assim é bem evidente, como demonstra o confronto que segue, a dependência do utora de Gênesis da fonte babilônica mais antiga. Eis os dois textos comparados:
1.3. Texto Babilônico
“No monte Nissir parou o navio. O monte Nissir dete ve o navio, não o deixando balançar... Quando repontou o sétimo dia, soltei uma pomba, deixando-a voar. A pomba saiu e voltou; porque não achou repouso. Soltei uma andorinha, deixando-a voar. A andorinha saiu e voltou, porque não encontrou repouso. Soltei um corvo, deixando-o voar. O corvo saiu, viu que a água cessou... e não voltou mais. Então fui soltando (sempre) por todos os quatro ventos, e ofereci um sacrifício, ofereci um holocausto no cume do monte”.
1.4. Texto Bíblico
“E foram as águas indo e minguando... e apareceram os cumes dos montes. E aconteceu que ao cabo de quarenta dias, abriu Noé a janela da arca e soltou um corvo, que saiu indo e voltando até que as águas se secaram de sobre a terra. Depois soltou uma pomba, a ver se as águas tinham minguado sobre a face da terra. A pomba, porém não achou repouso para a planta do seu pé e voltou a ele para a arca; porque as águas estavam sobre a face de toda a terra... e esperou ainda outros sete dias, e tornou a enviar a pomba fora do arco, e a pomba voltou a ele sobre a tarde; e eis arrancada, uma folha de oliveira no seu bico, e conheceu Noé que as águas tinham minguado sobre a terra. Então esperou ainda outros sete dias, e enviou a pomba, mas não tornou mais a ele... E então Noé saiu e sua mulher e seus filhos... e tomou de todo o animal limpo e de toda a ave limpa e ofereceu holocaustos sobre o altar” Gn 8.5-20.
Nos outros paralelos babilônicos, a semelhança dá menos na vista, sendo até provável que, em casos isolados, se trate de analogias casuais. Mas seja como for, o certo é que tradições e concepções babilônicas eram também conhecidas em Judá e Israel e que certas idéias e motivos, de uma forma mais ou menos modificada, foram também incluídos na literatura bíblica. Monumento bem importante neste setor é o Código Hamurabi . A pedra em que o referido código está gravada, foi descoberta nas ruínas da cidade de Suse (Susan) na Pérsia, no inverno de 1901-1902. O texto do código foi pela primeira vez publicado, por V. Sheil, em 1902, causando logo uma grande sensação.
Muitos sábios pretendiam ver nas leis do Pentateucosimples imitação, ou cópia modificada do Código Hamurabi. A denominada escola “Pan-Babilônica” (H. Vinkler, A. Jeremias e outros) encontrava nisso especial confirmação de sua tese: que todos os povos da Ásia Menor -inclusive os judeus - hauriram toda a sua sabedoria na Babilônia. Mas, hoje em dia, rejeita-se este “babilonismo” exagerado, do fim do século deze nove e princípios do século vinte. Não há que negar as semelhanças e conexões, porém, numa pesquisa mais acurada também aparecem claramente a diferença e a originalidade do desenvolvimento espiritual em Israel.
Efetivamente, algumas leis avulsas do Pentateuco assemelham-se, segundo a sua formulação, às respectivas normas em códigos babilônicos, sendo até provável que o direito babilônico, e particularmente o Código Hamurabi, estivesse conhecido na Palestina também. Porém, de um modo geral, quando confrontamos o direito bíblico com o do Oriente antigo, ressalta mais a diversidade que a semelhança. O direito babilônico cuida em primeiro plano de proteger a vida e os bens do cidadão, determinando severos castigos não só por assassínio como também por roubo e furto. Ao passo que as leis bíblicas visam antes de qualquer coisa a proteção dos socialmente fracos, e defendem os assalariados, os servos, os estrangeiros, os órfãos e as viúvas. Enquanto, as outras leis do antigo Oriente, contêm, por exemplo, disposições para assegurar os direitos do credor, encontramos no Pentateuco, aos invés disso, uma série de leis que favorecem o devedor.
O mesmo se pode afirmar em relação ao direito escravista. Em Deuteronômio proíbese expressamente a entrega de um escravo, que fugisse de seu Senhor, ao passo que pelo Código Hamurabi aquele que esconde um escravo fugido merece pena de morte. Ainda em muitos outros detalhes se notam consideráveis diferenças entre as leis bíblicas e as da Babilônia, diferenças que se explicam principalmente pelas condições econômicas e político-sociais de Israel.
1.5. A localização da Palestina
Geograficamente, a Palestina é situada muito mais próximo do Egito que da Mesopotâmia, e não há dúvida de que as suas relações econômicas também eram mais intensas com o país do Nilo do que com as regiões do Tigre e Eufrates. Apesar disso, o que menos se sente na Bíblia é a influência espiritual do Egito. A antiga terra civilizada do Nilo, que já possuía atrás de si uma história de três mil anos, quando Israel ensaiara os primeiros passos, era geralmente mais retraída e revelava menos ambição para expansão política e espiritual dos que os universais impérios mesopotâmicos. Não obstante, era o Egito uma potência mundial com amplos interesses políticos e econômicos no mundo daquela época, e muitas vezes promovia guerras para conquistar a Palestina, que sempre fora importante ponto de contacto internacional. Durante os séculos 15-13 A.C., eram os egípcios quem dominavam a Palestina e, como se verifica pelas tradições bíblicas, tribos israelitas habitavam então as zonas limítrofes do Egito. Nas fontes egípcias não se encontrou até o presente nenhuma referência que confirmasse as narrativas da Bíblia sobre a permanência e êxodo dos judeus daquele país. Contudo, a maioria dos pesquisadores julga haver fundo de verdade nessas narrativas, e certa prova disso também vêem no número relativamente grande de nomes e expressões egípcias, que se encontram nos respectivos capítulos do Pentateuco. Até nomes judaicos tais como Moisés e Pinhas, são de origem egípcia. O nome “Israel” acha-se nas fontes egípcias, pela primeira e única vez na denominada Pedra-Mernepta - monumento triunfal do rei egípcio Mernaptac (pelos 1125-1215 A.C.). Israel é ali citado juntamente com Asquelon, Guezar e Yenoam. Pelo que parece, Israel então dominava uma pequena parte da Palestina. Trezentos anos depois o monarca egípcio Sisaque invadiria Israel e cobraria tributo de Roboão de Judá. Essa vitória é perpetuada numa gravação em alto-relevo, que se acha na parede norte do afamado templo de Carnaque.
Historicamente muito valiosos, são os cadastros urbanos da Palestina e Síria, os quais se acharam em maior número, entre os materiais egípcios na célebre parede de Tutmasis (pelos 1550 A.C.). Dos textos literários - que no Egito não eram escritos em tábuas de argila senão em papiro - merecem especial menção os provérbios do sábio Amanemope, cujo texto achado data de 1000 A.C. Encontra-se ali considerável número de paralelos aos Provérbios de Salomão. Parte dos provérbios da coleção egípcia repete-se literalmente nos capítulos 22-23 dos Provérbios da Bíblia. Há quem considere, por esse motivo, que o autor judaico tivesse à sua frente o texto egípcio. Em geral porém, era a cultura egípcia mal vista em Israel, e os círculos proféticos combatiam com veemência as tendências pró-egípciase, a par disso, as influências espirituais daquele país -“maassei mitzraim”.
É isso provavelmente uma das razões por que na literatura bíblica tão pouco se sente a influência egípcia.