Para melhor compreensão do que é uma escola de orientação confessional, temos primeiro que entender o termo “confissão”. Em seu livro, Inez Borges descreve sobre o que é confissão:
O termo “Confissão”, num contexto cristão tradicional ou mesmo no senso comum, pode remeter à compreensão simples da admissão de algo ou ao reconhecimento da veracidade de determinado fato ao qual se confessa. É possível ainda que o termo evoque a noção de reconhecimento e declaração de culpa, sinal de arrependimento e conversão, e assim por diante. Os gregos antigos já utilizavam o termo “confissão” como sinônimo de “compromisso”, “promessa” ou admissão de algo como sendo verdadeiro, sempre envolvendo um tribunal ou um contrato legal (2008, p. 30).
Da mesma maneira, é necessária uma definição mais aprofundada sobre “confessionalidade”. Para esse objetivo, encontramos a afirmação oferecida por Amós Nascimento:
A palavra “Confessionalidade” é neologismo que deriva de “confissão”, isto é, que tem qualidade religiosa, que está impregnado de crença, de convicção, de confissão positiva de fé (cristã). O que se confessa ou professa é aquilo em que se acredita ou se deve acreditar. Portanto, convicção é a base da qual se pode falar de uma educação confessional em sentido amplo (Apud BORGES, 2008, p. 32).
Assim podemos declarar que “confessionalidade” é a identidade de uma denominação religiosa, que mostra por meio da fé a sua maneira de ver o mundo, é
a sua “cosmovisão”. Essa confissão está relacionada a uma crença religiosa ou a uma declaração de fé ou, até mesmo, a conjuntos de princípios e valores. Contudo uma confessionalidade não se expressa somente pelo ensino das doutrinas religiosas, mas principalmente pelo testemunho e exemplo da instituição educacional confessional (VIEIRA, 2011, p. 57). Todas as escolas confessionais, sejam elas de qualquer ramo denominacional, possuem ditames de fé. Os capelães dessas escolas naturalmente fundamentam seu trabalho em conformidade com a confissão de fé, doutrinas e estrutura eclesiástica da denominação mantenedora da escola (VIEIRA, 2011, p. 56).
Mesmo em uma instituição de ensino confessional há limites que devem ser respeitados, conforme afirma Damy Ferreira: “Mesmo tendo essa liberdade, esse ensino deve ser calcado na Bíblia, sem tornar „proselitista‟, uma vez que haverá alunos de outras confissões evangélicas. De mente aberta para que haja um cerne de ensino bíblico, sem ferir convicções particulares de alguns dos alunos” (2008, p. 151). “Cada escola confessional deve adotar os princípios de fé e condutas preconizados por sua confissão. Ainda que vários alunos, pais, professores e funcionários não professem a mesma fé se espera que eles compreendam e respeitem esse direcionamento” (VIEIRA, 2011, p. 60). A esse respeito Walmir Vieira complementa: “É dito que o respeito (pelo menos, não se manifestar publicamente contrário) aos princípios de fé da instituição é esperado da parte dos colaboradores de qualquer instituição confessional” (2011, p. 60).
Dentro desses desafios de uma instituição com ensino confessional a capelania possui um destaque estratégico. Conforme afirma Inez Borges: “Entre os inúmeros dispositivos físicos e organizativos destinados a contribuir para o cumprimento das metas institucionais, a capelania é provavelmente um dos mais diretamente ligados à identidade confessional” (2008, p. 235). Ao falar sobre capelania Rev. Osvaldo Hack afirma: “É claro que a capelania só pode ser entendida e praticada no contexto das instituições que optaram por valores e princípios de orientação religiosa definida” (2003, p. 187). Dessa forma, Rev. Osvaldo Hack declara que uma capelania verdadeiramente efetiva só é possível em instituições de ensino confessional.
É por meio da adoção de uma confessionalidade que a capelania tem princípios fundamentados em uma confissão de fé e com isso pode definir, à luz dessa confissão, o que julga ser os seus valores, determinando sua ética diante de tantas cosmovisões de uma sociedade pós-moderna, repleta de valores relativos. Somente assim essa confessionalidade conduzirá a uma escola ética, cidadã, levando á valorização da espiritualidade saudável, que adota princípios de fé e esperança, sem doutrinação ou proselitismo (VIEIRA, 2011, p.58).
Sendo assim, cabe à capelania a responsabilidade maior pela preservação e reafirmação da confessionalidade na escola. E mesmo que haja preceitos legais para que não se faça proselitismo nas escolas confessionais, não se pode deixar de evangelizar os estudantes e todos que estão envolvidos no contexto escolar (VIEIRA, 2011, p. 64-65).
É sobre essa responsabilidade que Rubens Cordeiro, capelão do Sistema Batista Mineiro, declara: “É nesse sentido que um serviço de capelania deveria até ser motivo de um „santo orgulho‟, pois se trata de concretamente valer o que somos na vida cotidiana. Cada ação que a escola realiza deveria expressar a sua confessionalidade”. (Apud VIEIRA, 2011, p. 59). Ao entendemos a definição de “confessionalidade” e suas implicações em uma capelania escolar, partiremos para um estudo histórico de nosso objeto de estudo, o Instituto Presbiteriano Mackenzie.
AS PRIMEIRAS ATIVIDADES DA CAPELANIA DO MACKENZIE
Como foi dito na introdução deste artigo, encontramos um grande desafio ao pesquisar sobre o trabalho da capelania, devido essa atividade ser reconhecida com esse nome no Brasil oficialmente somente na década de 50 do século passado. Contudo, por meio de algumas atividades especificas da capelania, podemos reconhecer sua presença na gênese da criação da Instituição. Desde a fundação da Escola Americana até o Mackenzie College, o atendimento capelânico partia de uma ação voluntária e informal que acontecia em momentos especiais também para os alunos externos. As primeiras atividades de capelania não fugiram do padrão das primeiras escolas confessionais vindas para o Brasil. Nascida com a própria história institucional, era função dos “missionários pioneiros atender aos que residiam nos internatos, tendo o cuidado com a disciplina, exercícios físicos e os momentos devocionais fundamentados na Bíblia Sagrada” (HACK, 2003, p. 191-192).
No entanto, podemos observar que sua ação estará estritamente interligada com a proximidade da confessionalidade que a instituição desenvolveu durante toda sua história. Quanto mais à escola se aproximava da igreja mais a capelania aparecia; por outro lado, o contrário também produzia uma capelania apática e em muitos momentos apenas representativa ou meramente nominal.
Como não encontramos, no material atualmente publicado sobre a história do Mackenzie, descrição minuciosa sobre o trabalho da capelania, iremos destacar apenas os relatos que demonstram qualquer pista de uma atividade ativa de capelania descritos nos Prospectos Informativos e outros documentos históricos pesquisados por Marcel Mendes (2007), historiador do Mackenzie e orientador deste artigo. O Rev. George W. Chamberlain foi o primeiro capelão do Mackenzie, que mesmo não sendo conhecido como tal, desempenhava esta função juntamente com a de fundador da escolinha e pastor da Igreja Presbiteriana de São Paulo. Algumas atividades capelânicas eram bem claras neste período, segundo Marcel Mendes: “O dia de aulas se iniciava com a leitura de um Salmo, e uma oração. No curso, incluíam-se estudo da Bíblia e do Breve Catecismo Presbiteriano” (Apud MENDES, 2007, p. 79).
No entanto, essa capelania atuante era apenas o reflexo de uma administração comprometida com a confessionalidade. De 1870 a 1885: “Pode-se dizer que a confessionalidade da Escola Americana se mostrou explícita como jamais voltaria a se revelar” (MENDES, 2007, p. 79). “Todos os diretores eram pastores e o corpo docente, integrado por missionárias-professoras, e pessoas arroladas na Igreja Presbiteriana” (Apud MENDES, 2007, p. 79). Ao analisar o prospecto, publicado em 1885 como informativo institucional, podemos perceber não só um posicionamento confessional, como uma atividade de capelania ativa: “Os diretores têm dado desde o primeiro dia de abertura das suas aulas em 1870, lugar e honra a Palavra do „Mestre vindo da parte de Deus‟, e mais fácil seria fechar as aulas do que abandonar esta prática” (Apud MENDES, 2007, p. 80).
Reiterando suas intenções de fazer da Escola Americana uma base para a propagação da fé cristã reformada, o Rev. George W. Chamberlain procurou manter as atividades da capelania em plena atividade até a inauguração do primeiro prédio no campus de Higienópolis, em 1885. Contudo seu intuito não foi respeitado, como descreve Marcel Mendes: “Pode-se inferir que os esforços do fundador da Escola Americana em favor de feições confessionais mais explícitas não foram correspondidos” (2007, p. 82). Depois da transferência do colégio para o bairro de Higienópolis, sob a direção de Horace. M. Lane, cuja gestão se iniciou no segundo semestre de 1885 e se encerrou em 27 de outubro de 1912, data da sua morte, o Mackenzie abriu mão de sua confessionalidade explícita: “O Mackenzie College secularizou-se progressivamente. O ensino era de excelente qualidade e a escola gozava do mais alto prestígio, mas os propósitos originais dos seus fundadores, no sentido de que a instituição tivesse uma orientação nitidamente cristã e evangélica eram difíceis de ser mantidos” (Apud MENDES, 2007, p. 82). No entanto, a perda de sua confessionalidade explícita, se caracterizava mais perante o Mackenzie College, pois na Escola Americana e no Colégio Protestante, seu diretor Rev. Modesto P. de Barros Carvalhosa assumia de forma pratica um serviço de capelania, fato que merece ser mais pesquisado entre os arquivos do Centro Histórico do Mackenzie.
Em um texto escrito em 1902, ano de sua morte, o Rev. George W. Chamberlain demostra seu profundo desapontamento pelo diretor do Mackenzie College ter sido obrigado a recrutar professores não identificados com a confessionalidade da instituição: “Católicos romanos, agnósticos e descrentes têm servido como professores” (Apud MENDES, 2007, p. 83). No mesmo texto confessa que não parecia razoável ter buscado entre cristãos presbiterianos recursos votados à obra de Deus: “Para aumentar as construções de uma escola excelente, a melhor que o Brasil tem, cujo fim não é trazer seus discípulos a Cristo, mas formá-los bem como homens deste mundo, para cumprirem seus deveres de cidadãos em suas diversas profissões” (Apud MENDES, 2007, p. 83).
Com o passar dos anos, a ausência de relatos das atividades da capelania no Mackenzie College revelou seu afastamento dos princípios de seus fundadores. A confessionalidade nos tempos de Horace. M. Lane vai se transformando: “de explícita ao tempo dos fundadores, passou a se apresentar, sucessivamente, mais discreta, para não se dizer que revelou a marca da ambiguidade” (MENDES, 2007, p. 85). Apesar de um afastamento confessional nítido, o prospecto publicado pela Escola Americana no final de 1885 assegurava que: “O ensino moral e religioso continua a ser francamente Evangélico” (p. 84). Contudo em 1897, a perspectiva de Lane sobre confessionalidade revela uma visão mais secularista: “Nossa preocupação não se volta tanto para fazer protestantes de alguma denominação em particular, mas para produzir cristãos honestos, tanto homens como mulheres, e bons cidadãos”. (Apud MENDES, 2007, p. 87-88).
Em 1908, no seu relatório, Horace. M. Lane demostra seu desinteresse pelas manifestações que expressam uma confessionalidade explicada e revela não se importar muito com o trabalho da capelania: “Não há nada inovador ou notável em nosso trabalho religioso. Mas constitui uma luta constante apresentar a verdade cristã, sempre com algum risco de fazer os exercícios da Capela caírem em uma rotina estéril para aqueles cujas mentes estão ocupadas com outros assuntos”. (Apud MENDES, 2007, p. 91). No meio dessas transformações na confessionalidade do Mackenzie, a capelania ficou por seis anos aos cuidados do Rev. Erasmo Braga, entre 1901 e 1906. Contudo, aparentemente, os relatos de sua atuação como capelão, não estão em nenhum material publicado, a não ser pelo fato de ter sido mencionado como professor e capelão do Mackenzie, como descreve Rev. Alderi Matos em seu livro Erasmo Braga. O Protestantismo e a Sociedade Brasileira:
No mesmo dia das núpcias, o jovem casal seguia para São Paulo, onde Erasmo iria exercer funções de grande responsabilidade. Tendo apenas 24 anos, o talentoso ministro havia sido convidado para lecionar tanto no Mackenzie College como também no Seminário Presbiteriano, que desde 1899 ocupara as suas novas instalações nas proximidades da escola missionária. Provavelmente a maior parte do seu sustento vinha do Mackenzie, onde ele também serviu como capelão e deu assistência aos candidatos ao ministério que ainda estavam fazendo os seus estudos secundários (2008, p. 166).
Considerado uma figura de destaque tanto dentro quanto fora dos círculos eclesiásticos, o Rev. Erasmo Braga era mais conhecido como um educador, sendo referido mais como professor do que como reverendo. Este fato não foge dos da antiga ênfase reformada na educação, harmonizando aos princípios de João Calvino e da Academia de Genebra (MATOS, 2008, p.243). E muito além de sua função de capelão se posicionou como educador em favor da permanência de uma educação confessional no Mackenzie. Para o Rev. Erasmo Braga a evangelização e a educação cristã deveriam caminhar de mãos dadas em virtude de se complementarem, conforme ele afirma: “A evangelização precisava ser seguida de educação e educação cristã era um instrumento de evangelização” (MATOS, 2008, p. 253). “Erasmo, entendia que „as escolas haviam prestado um verdadeiro serviço à
evangelização do Brasil‟, mas que, segregadas das igrejas, essas instituições não levariam a lugar algum”. (MATOS, 2008, p. 252). Dessa forma, ele sempre se posicionou contra os caminhos que a instituição estava traçando em seu tempo de capelania. Como descreve em seu desabafo: “Esse processo de secularização geralmente resulta de concessões a parceiros amistosos que, todavia, no seu íntimo, são opostos a Cristo” (Apud MENDES, 2007, p. 110). Seguindo neste raciocínio o Rev. Erasmo Braga proferia algumas críticas: “Nem todos os que trabalhavam em tais instituições eram „cristãos genuínos‟, a ênfase espiritual muitas vezes era relegada a um lugar secundário e havia uma forte tendência para a secularização” (Apud MATOS, 2008, p. 252).
Apesar de sua importância com educador cristão, e de podermos encontrar material publicado sobre sua vida e obra, como o livro do Rev. Aderi Matos (2008), cabe uma investigação mais apurada nos arquivos do Centro Histórico do Mackenzie para tentar desvendar sua atuação como Capelão, revelando maiores detalhes sobre a atuação do primeiro capelão mencionado como tal, nesses tempos tão ambíguos do Mackenzie Com a morte de Horace M. Lane, em 1912, a direção da Escola Americana e do Mackenzie College passou a ser exercida em caráter interino por Rufus K. Lane, filho do antigo diretor. Em uma carta-circular, como diretor, ele confirma os termos da orientação confessional que vinha sendo dado ao estabelecimento presbiteriano de São Paulo: “Nas Escrituras Sagradas, lidas todos os dias, sem comentários e sem preocupação de seitas, procurando inculcar os ensinamentos do Meigo Nazareno, e infundir, nos espíritos dos que aprendem os princípios simples e puros do Cristianismo” (Apud MENDES, 2007, p. 98). Tal carta revela que apesar das práticas devocionais diárias permanecerem presentes no dia a dia da escola, a interferência da capelania, no estudo e na orientação de seus alunos, era desestimulada ou até mesmo restringida.
De 1914 a 1927, na gestão de Willian A. Waddell, as manifestações da confessionalidade do complexo educacional Mackenzie transcenderam os limites institucionais e eclesiásticos, suscitando questionamentos que partiram da imprensa, das tribunas legislativas e de outras fontes. Como descreve Willian Waddell: “Quando [a instituição] passou aos cuidados do Mackenzie [College], os seus programas sofreram uma modificação, pelo que o ensino da religião foi retirado, sendo conservados os atos de culto que consideramos inseparáveis do bom funcionamento de trabalhos escolares” (Apud MENDES, 2007, p. 100). Tal atitude era justificada pelo medo de demostrar proselitismo ao público externo, que posteriormente ao surgimento do Mackenzie College, passou a ver qualquer manifestação religiosa de forma negativa. Procurando defender-se da informação de que a instituição era proselitista, Willian Waddell encontra-se obrigado a reduzir a confessionalidade presbiteriana ao ensino de princípios éticos, desaparecendo, em definitivo, os vestígios de orientação religiosa. Nos anos que se seguiram, os contornos da confessionalidade do Mackenzie foram mantidos dentro desses limites (MENDES, 2007, p. 101). Conforme vemos nas próprias palavras de Willian Waddell: “Se no Mackenzie se lê a Bíblia e se faz oração é questão de regime interno. No Mackenzie não se obriga ninguém a ser evangélico, como não se trata de saber se o aluno segue este ou aquele culto” (Apud MENDES, 2007, p. 102). Ao discorrer sobre este período da história do Mackenzie, Marcel Mendes afirma:
As expressões de confessionalidade do Mackenzie tornaram-se, nas décadas seguintes, bastante discretas. Simultaneamente, aprofundou-se a distância institucional-eclesiástica, situando, de um lado, o Mackenzie como entidade de confissão presbiteriana, mas vinculada a matrizes norte-americanas e, de outro a Igreja Presbiteriana do Brasil, que nenhuma tutela exercia sobre a crescente instituição fundada e conduzida por respeitáveis missionários presbiterianos (2007, p. 103).
Em 1932, o então presidente do Mackenzie College, Charles T. Stewart, em busca de minimizar as pressões externas e ao mesmo tempo não perder as características históricas da instituição, reiterou os conceitos confessionais formados pelos fundadores, porém traçando os limites da presença e atuação religiosa na instituição: “O conceito protestante de uma escola exclui o elemento de propaganda religiosa e limita a função da escola às questões de moralidade e ética, baseadas nos ensinos de Cristo” (Apud MENDES, 2007, p. 103). Mais uma vez, os ensinamentos bíblicos seriam reduzidos a conceitos morais, prejudicando direta e indiretamente uma atividade de capelania mais abrangente e eficiente. De 1934 a 1952, o então dirigente da instituição Benjamin H. Hunnicutt incluiu parágrafos alusivos à identidade confessional do Mackenzie, referindo-se a um contributo religioso e cultural que deveria ser preservado, sem ânimo sectário: “O Mackenzie é um instituto de fundamentos e ideais evangélicos, e, como tal deveria fazer contribuições definidas para melhor as relações culturais entre os Estados Unidos e o Brasil, e deveria também empreender esforços definidos em favor da causa evangélica” (Apud MENDES, 2007, p. 104). Estava assim estabelecida a fronteira que separaria a capelania de uma ação influenciadora no meio da instituição por várias décadas.
Este distanciamento das autoridades eclesiásticas ficou patente em 16 de abril de 1952, na ocasião em que a Universidade Mackenzie é organizada, seguida da posse do primeiro reitor: não havia nenhum representante da Igreja Presbiteriana do Brasil presente na cerimônia, contudo o Arcebispo de São Paulo estava representado. É
claro que se houvesse uma capelania ativa nesses dias, não só a presença do capelão seria notada, como de várias autoridades eclesiásticas representando a Igreja Presbiteriana do Brasil nessa cerimônia tão importante para todos (MENDES, 2007, p. 134). Contudo, de 1952 a 1960, na presidência de Peter G. Baker, a confessionalidade do Mackenzie procurou retomar sua importância na instituição, mediante a ampliação de atividades de assistência espiritual e de orientação religiosa prestadas pela capelania. No esforço de ir além dos bons exemplos, foi cumprida uma pauta intensiva de serviços, embora algumas ficassem sob a identificação genérica de “atividades culturais”, como veremos mais adiante. Um prospecto informativo da época, que continha parágrafo alusivo à identidade confessional da instituição, revela que essa confessionalidade era expressa nos seguintes termos:
Mackenzie é mantido com o propósito principal de oferecer aos seus alunos oportunidade de se educarem. Foi fundado e é mantido por evangélicos que crêem ser a religião cristã uma parte integral da boa educação. É seu proposito manter um ambiente onde o exemplo cristão de desprendimento, de tolerância e de operosidade levará os homens a adorar e a seguir a Cristo, que inspira tais qualidades. Apresentao pelo exemplo e pela doutrina, porém mais pelo exemplo, deverá o ensino cristão do Mackenzie ser considerado mais como um privilégio do que como uma obrigação (Apud MENDES, 2007, p. 105).
Nesse período tão importante de transição, o Rev. Jorge César Mota aparece como figura de realce no Mackenzie. Acumulando o cargo de Secretário Geral da União Cristã de Estudantes do Brasil, o Rev. Jorge César Mota vinha insistindo, desde a época da presidência de Benjamim Hunnicutt (1934-1952), por um protagonismo confessional mais expressivo entre os alunos, como descreve o próprio Rev. Jorge César Mota, em seu relatório de 1959, na condição de Diretor do Departamento Cultural do Instituto Mackenzie:
Desde esse tempo, vai isso para dez anos, vinha eu insistindo com vários elementos ligados ao Mackenzie, particularmente o seu Presidente Dr. Benjamim Hunnicutt, sobre a necessidade de se desenvolverem as atividades espirituais dentro do Instituto, mencionando muitas vezes a urgência da criação de uma capelania e a consagração de um local adequado para os serviços religiosos. Dessa forma se restabeleceria dentro do Mackenzie o „centro‟ objetivo, concreto, que, como antigamente, falasse do caráter evangélico do grande estabelecimento de ensino de São Paulo (1959, p. 200). Depois desta constante defesa das atividades capelânicas, Rev. Jorge Mota consegue na gestão de Peter G. Backer (1952-1960) a criação de um Departamento Cultural, comportando de forma prática uma capelania, que veio a ficar por poucos anos sob a sua responsabilidade (até 1960). É através desta função administrativa que Mota consegue colocar várias atividades culturais, espirituais e sociais. E ainda em seu relatório descreve sua gratidão ao Dr. Peter Backer sobre o apoio recebido para seu trabalho:
Depois desse período, seguem-se constantes batalhas da Igreja liderada pelo Rev. Boanerges Ribeiro para manter a Igreja como mantenedora e proprietária do Instituto Mackenzie, tendo como em toda guerra seu herói, Benedito Novais Garcez, neste momento crucial para a Igreja, sendo aplaudida a sua contribuição como ato heroico, conforme descreve Marcel Mendes (2007, p. 436) em seu livro Tempos de Transição. Contudo, em 20 de novembro de 1961, a escritura de doação a Igreja Presbiteriana do Brasil, foi assinada tornando-se proprietária de todos os bens móveis e imóveis do Instituto Mackenzie (BORGES, 2008, p. 98). Renasce a esperança da retomada da confessionalidade no instituto, assim com a reativação de uma capelania confessional ativa e com liberdade de atuação. Todas as ações descritas a partir de 1961 são reflexos de uma confessionalidade retomada, mesmo que em alguns momentos aparentemente de forma lenta. Somente agora, depois de décadas, a capelania pode reconquistar seus territórios tomados pelo secularismo que impregnava toda a instituição.