Ordem nacional de Capelania Cristã
Capelania Cristã
1 APRESENTAÇÃO
Os estudos teológicos classicamente estão subdivididos em Teologia Bíblica, Teologia Sistemática e Teologia Prática. O primeiro volta-se para os fundamentos e os rudimentos dos textos bíblicos do Antigo testamento (AT) e Novo Testamento (NT); o segundo aborda as elaborações filosófico-teológicas enquanto sistema de interpretação e compreensão de doutrinas cristãs sistematicamente construídas, bem como dialoga com outros saberes como é o caso da Filosofia, Sociologia, Antropologia, Psicologia dentre outros e, por fim, a Teologia Prática, que tem como objetivo fundamentar construções teóricas e práticas da ação evangélica. Nesse particular, em nossos dias, há uma significativa demanda para a Teologia Prática, haja vista que vivemos tempos de novos paradigmas, por que não dizer, os quais exigem maior rigor e necessidades de atuação da Teologia.
A disciplina “Teologia, Aconselhamento e Capelania Cristã” é uma disciplina que se coloca no eixo da Teologia Prática. É importante ressaltar que Teologia Prática, conforme Silva (2010), designaria a reflexão crítica sobre a ação eclesial. No contexto da Teologia Prática, todas as ações implicam no agir da Igreja como liturgia, ensino, diaconia, aconselhamento e capelania dentre outras. Para Szenmártony (1999), deve-se compreender a Teologia Prática como uma reflexão teológica sobre o conjunto das atividades nas quais a Igreja se encarna, tendo presente a natureza da Igreja e a situação atual desta no mundo.
Os referenciais teóricos utilizados foram de literatura, devidamente sustentados na visão clássica da Teologia, sem nunca perder o tom crítico; assim como, também, nos estudos sobre aconselhamento e capelania. Faz-se necessário sublinhar que as fontes bibliográficas publicadas sobre capelania são deveras escassas, diferentemente das sobre aconselhamento. A lógica desta disciplina prima pelo diálogo e respeito entre os conhecimentos que fazem interface com a Teologia Prática, o qual não poderia ser diferente, contudo, foi opção respeitar as especificidades dos conhecimentos para a constituição do estudo desta disciplina, ou seja, referente ao aconselhamento cristão, primou-se em estudá-lo de forma muito peculiar junto com os conhecimentos de aconselhamento advindo do universo psicológico. Tal opção não tira em nada o brilho e a riqueza das elaborações e contribuições da Teologia Prática para a ação evangélica nessa área. Acredita-se sim que esse procedimento, na verdade, marca de forma indelével o respeito e o entendimento que os conhecimentos devem realmente exercitar, no contexto acadêmico, para a melhor compreensão do objeto de estudo em comum entre esses dois saberes.
Quanto aos objetivos a serem alcançados nesta disciplina, procurou-se atender as três áreas enfatizadas pela didática, a saber: cognitiva, afetiva e motora. Nesta sequência e sentido, foram sendo elaborados os estudos tema a tema para que o aluno ou a aluna, ao final desta disciplina, tenha condições de conhecer e de refletir sobre os conhecimentos necessários para o exercício da Teologia, em especial, nas áreas do Aconselhamento e Capelania Cristã.
Por fim, a disciplina “Teologia, Aconselhamento e Capelania Cristã” está divida em 5 unidades: UNIDADE I – Aconselhamento e Capelania Cristã: Marco Bíblico-Teológico; UNIDADE II – Os Fundamentos do Aconselhamento e da Capelania Cristã; UNIDADE III – Teologia e Práticas em Aconselhamento Cristão; UNIDADE IV – O Perfil e Papel do Conselheiro e do Capelão Cristão e UNIDADE V – Temas e Procedimentos em Aconselhamento e Capelania Cristã.
INTRODUÇÃO
A boa tradição cristã, de corte Protestante, ressalta a Bíblia como uma das fontes necessárias para o desenvolvimento da Fé Cristã. Nesse sentido, a presente unidade busca evidenciar os fundamentos para a prática do aconselhamento e da capelania cristã que assinalem, por um lado, uma genuína tradição cristã e, por outro, dialogue com as necessidades de nosso tempo. Por isso, nos voltamos para os fundamentos bíblicos e teológicos do próprio ministério cristão em que se destacaram os seguintes temas: diaconia, ministério, poimênica e cuidado. Nossa fundamentação teórica parte do latino Gattinoni (apud CASTRO, 1973) sobre “As bases do ministério pastoral no Novo Testamento” e do americano Clinebell (2000) sobre “O aconselhamento pastoral modelo centrado em libertação e crescimento no universo bíblico” dentre outros. Em ambos os autores citados, bem como nos outros, temos o objetivo maior de fundamentar biblicamente o aconselhamento e capelania cristã, como expressão mesma da ação cristã, ou seja, do próprio Cristo hoje.
Como se observou na apresentação, os estudos teológicos classicamente estão subdivididos em Teologia Bíblica, Teologia Sistemática e Teologia Prática. Esta última, a Teologia Prática, tem como objetivo fundamentar construções teóricas e práticas da ação evangélica. Nesse particular, em nossos dias, há uma significativa demanda para a Teologia Prática haja vista as necessidades do nosso tempo, as quais diferem de outros; há a necessidades de novos paradigmas, por que não dizer os quais exigem maiores, novas elaborações e ações da Teologia na sua modalidade prática.
Nesse sentido, nota-se uma demanda significativa para dois ministérios em especial da igreja hoje: aconselhamento e capelania cristã. Eles apontam para as necessidades individuais, grupais, comunitárias, familiares, conjugais, sociais dentre outras. Essas necessidades cobram respostas da igreja. Contudo, essas repostas precisam de fundamentação também Teológica, para que esses ministérios, ações e vocações da igreja estejam em consonância com a Palavra de Deus e, assim, sejam eficazes, do ponto de vista bíblico, teológico e prático.
DIACONIA, MINISTÉRIO, ACONSELHAMENTO E CAPELANIA CRISTÃ.
O exercício do aconselhamento e da capelania cristã está na mesma perspectiva do ministério cristão, uma vez que o ato de servir e o diaconato é o ponto de partida e de chegada de toda e qualquer ação cristã. Isso pode ser evidenciado quando voltamos nosso olhar para o universo neotestamentário, o qual ressalta como fundamento essencial do ministério cristão, o serviço. Portanto, servir se constitui fundamentalmente no próprio ser e agir do ministério cristão, que tem no ato de cuidar, uma de suas facetas indeléveis.
Inicialmente, Gattinoni (apud CASTRO, 1973) informa que o sentido etimológico do termo “diákonos” indica uma tarefa de condutor de camelos no pó (poeira): diá = através kónos = pó, portanto diácono é um servente, um servidor. Exemplo maior é o próprio Jesus quando lava os pés dos discípulos (Jo. 13:1-17); o serviço é a definição própria da missão de Jesus, portanto ele veio para servir, pois é um servo (Lc. 22:27 e Mc. 10:45).
Compreende Gattinoni (apud CASTRO, 1973) que o ministério pastoral não pode deixar de evidenciar essa atitude serviçal. Tal atitude é imprescindível, conforme Mt. 20:25-28; 25:31-46; 10:24. Nesse perspectivo, tanto o aconselhamento quanto a capelania devem estar inseridos nessa visão bíblica: servir Gattinoni (apud CASTRO, 1973) apresenta outro significado para a palavra diaconia, a palavra grega “doulos”, no sentido “escravo”, que serve. A ideia fundamental desse vocábulo é ressaltar o espírito serviçal como sendo inerente ao ministério e a todo e qualquer cristão (intra e extracomunidade). O próprio Jesus Cristo recebeu esse título como sendo “O servo por excelência” (Fil. 2:5-11; Atos 3:13,26; 4:27). Esse título é também conferido aos autores dos livros bíblicos: João 1:1, Atos 16:17, 2Cor. 4:5; 9:19; em II Ti. 2:24, o ministro como sendo servo; todos os cristãos assim o são: servos (Atos 2:18 e 4:29). Esse significado é designado universalmente e válido a todo o corpo de Cristo (I Cor. 7:22 e I Pedro 2:16).
Portanto, os cristãos são chamados a servir a Cristo e ao seu Reino (Ro. 7:6; Col. 3:24; I Ts. 1:9; 1:1; 2:20;7;3); nesse sentido, o serviço aos homens é entendido como servir ao Senhor Jesus Cristo (Ro. 14:18; Gá. 5:13; Ef. 9:9); a ideia de servir dos seres humanos como parte do serviço a Cristo (I Cor 16:15; II Cor. 6, 8:4; 9:1, 12; Atos 20:28, 34, 35; II Ti. 1:18; Fim. 13) ou ainda, o servir às pessoas como sendo uma ação ao próprio Cristo (Mat. 25:31-46). Diaconia, nesse sentido, por fim, evoca de forma categórica que todo e qualquer ministério da Igreja, com destaque para o aconselhamento e capelania cristã, é um ato de serviço ao próximo no mundo. Uma ação missionária que nasce do ministério de Jesus Cristo como identidade da Igreja, Por fim, outro sentido para “diaconia” é uma expressão, conforme Gattinoni (apud CASTRO, 1973), “Diaconia como um ministério da Igreja, a serviço da obra de Deus, nomundo”. Diaconia comoministério de toda a Igreja e de toda a comunidade cristã, bemcomo de cada comunidade em particular – Ef. 4:12; Ap. 2:19; I Co.12 e Ro. 12:1-8; ou seja, toda e qualquer comunidade que se diz cristã tem uma identidade em comum: ser sinal de Deus por meio do serviço da igreja às pessoas. Essa expressão coroa e assinala a riqueza dos sentidos para “diaconia” já observados acima.
Compreende-se, semdúvida, que os sentidos de “diaconia” abordados até o presente ressaltam biblicamente o serviço como fundamento para o exercício do ministério cristão, ou os mais diversos ministérios da igreja, com destaque para o aconselhamento e a capelania cristã.
POIMÊNICA, ACONSELHAMENTO E CAPELANIA CRISTÃ
Do ponto de vista bíblico-teológico, uma das imagens mais marcantes é o testemunho do cuidado de Deus pela humanidade.
Assim, no Antigo Testamento, surge a imagem e a memória do Deus-Pastor como Aquele que conduz o povo, como faz um bom pastor ao conduzir suas ovelhas. Tal tradição faz parte da própria experiência existencial e de subsistência de todo um povo. A vida do povo hebreu dependia do cultivo do rebanho de ovelhas. Este animal era a principal fonte de subsistência. Nesse sentido, a experiência pastoril e a subsistência humana que girava ao redor do rebanho não eram exclusivas de Israel, mas contemplavam todos os povos do mundo bíblico; assim como, também, para os povos mesopotâmicos. Por sinal, foram estes os primeiros a metaforizar a imagem do “pastor”.
Javé, portanto, é compreendido como o único e verdadeiro Pastor de Israel. Essa alegoria é celebrada no AT, especificamente, no Sl 23.1: “O Senhor é meu pastor, nada me faltará”. Ao lado Dele não há outro! Este Salmo revela a poimênica, pois ele refere-se ao centro vital do ser humano, que é sua relação com Deus. Uma relação concretizada a partir da fé humana em Deus, enquanto Criador e Pastor da vida. Então, a poimênica, nesse contexto, remete para aquilo que permite e ajuda o ser humano a continuar a respirar, a manter a sua vida saudável, afinal a morte para o semita é a falta da relação com Deus. Nesse sentido, Hoepfner (2008), comenta:
Assim a poimênica, no mundo semita, está muito próxima da luta constante do ser humano para manter ou resgatar a sua relação com Deus por meio das diferentes articulações da vida em comunidade, como o culto e o sacrifício a Deus. Entretanto, compreende igualmente a busca por uma plena e justa integração social do indivíduo que cai no abismo do isolamento, que negligencia a sua relação com Deus e, conseqüentemente, não mais se considera parte integrante do povo de Deus. Ali onde o ser humano petrifica o seu coração, onde vive exclusivamente a partir do seu próprio ar, da sua exclusiva respiração, - isto é, vive ao redor do seu próprio ser -, a nefesh sucumbe, já não encontrará fôlego de vida e, por fim, clamará: “Como suspira a corça pelas correntes de água, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma” (Sl 42.1). A tradução de Lutero é mais enfática, pois translada “suspira” por “gritar” (schreit). Quer dizer, em meio ao abandono de Deus, o ser humano grita, geme, se desespera, pois enxerga com profundidade e dor o abismo em que sua aparente auto-suficiência o levou. “No culto se articulavam o grito, a lamentação e a prece por ajuda da pessoa que se encontrava fora da relação com Deus, que não conseguia mais enxergar o seu rosto” (p.55).
Nessa perspectiva, a poimênica tem a ver com o clamor e o louvor da criatura perante o seu Criador. O ser humano clama pelo hálito de vida que provém de Deus e o louva por este hálito que o mantém, como afirma o último salmo: “Todo ser que respira louve ao Senhor. Aleluia!”
(Sl 150.6).
Hoepfner (2008) afirma ainda que:
Os principais agentes da poimênica eram, sobretudo, os Sacerdotes (Lv 12ss.; 1 Sm 1.9ss.), os anciãos e juízes que tomam decisões em casos de conflito (Rt 4), os profetas que desenvolvem na sua prática a admoestação e a consolação individual e coletiva (2 Sm 12; Is 40.1ss.) e, em primeiro lugar, os sábios, homens do povo que transmitiam como pais de família os conselhos da sabedoria popular para os filhos (Pv 4ss.) (p.56). Nota-se que a poimênica está no coração do Antigo Testamento, pois ressalta e afirma categoricamente que tudo aquilo que torna plena a vida é concedida pelo Bom Pastor, Javé, o Deus que cuida de suas ovelhas, conforme o Salmo 23: “O Senhor é o meu Pastor e nada me faltará”
Hoepfner (2008) observa que no Novo Testamento a poimênica tem nas ações e atitudes libertadoras de Jesus Cristo a expressão perfeita do que significa pastorear. Ele sim é o verdadeiro Pastor que dá a sua vida por suas ovelhas, ressalta o Novo Testamento de forma vigorosa. Nesse sentido, tem-se nas ações e atitudes de Jesus Cristo a prática da poimênica como um modelo de ação Hoepfner (2008), nesse sentido, faz a seguinte observação sobre esse termo “poimênica” à luz do Novo Testamento:
A poimênica neotestamentária encontra no termo grego “paraclein”, “paraclesis”, o seu conceito-chave que aponta para a oferta de salvação e de vida em abundância oferecida por Cristo em sua vida e cruz. A “paraclesis” remete ao consolo da salvação que Cristo oferece por meio de sua graça (2 Ts 2.16); entretanto, igualmente admoesta às pessoas a transformarem suas vidas cotidianas, desafiando-as a realizar uma identificação com Jesus Cristo também no decurso de um sofrimento (2 Co 1.5-7). Após a reflexão acima, acerca do ministério de Cristo, viu-se que Ele guiou, vigiou, providenciou a vida e sentiu profunda afetividade pelo povo do seu Pai. (p.65)
Por fim, Hoepfner (2008) define poimênica a partir de quatro funções pastorais a partir do ministério de Jesus Cristo:
• Poimênica é vigiar, em um sentido de observar atentamente o outro em uma relação de cuidado constante em que a solidariedade se dá vivenciando as dores do seu irmão e irmã. Um bom exemplo é de Zaquel em Lc 19.1-10, Jesus demonstra o amor que sente por Zaquel ao visitá-lo.
• A poimênica consiste em constituir relacionamentos afetivos entre iguais. Nesse sentido Jesus foi um grande mestre que ensinou, pois apesar de ser o filho de Deus sempre se relacionou como sendo igual. Ele não agia com desdém, mas acolhia e ouvia pacientemente.
• Poimênica é guiar. Mas não no sentido de se colocar como maioral ou superior; Jesus se colocou com um irmão, em conjunto pelos novos caminhos que podem surgir, novas trilhas diante da adversidade, pois Ele é a própria esperança viva. Conforme Hoepfner (2008), Ele é o novo caminho que possibilita a vida; Ele é o guia que leva a novas esperanças, a um novo caminho.
• Não por último, poimênica é a afirmação de uma vida cheia de dignidade. Ali, onde a vida corre perigo com suas contradições sociais, por exemplo, essa vida se faz presente. É impossível desassociar a ajuda psicológica e espiritual da ação social. Nesse sentido, a poimênica em Cristo é anúncio de um evangelho integral. (p.p 65-66)
Portanto, podemos concluir por ora, que tanto a teoria quanto a prática da poimênica está sustentada na tradição do Bom Pastor que dá a sua vida por suas ovelhas, como o Bom Pastor do Antigo Testamento, Javé. Jesus Cristo, sem dúvida, testemunhou de maneira viva ao fazer poimênica como porta voz do Evangelho de Deus. Hoepfner (2008) nesse particular afirma: “É o Evangelho o esteio da poimênica cristã e Cristo o seu paradigma” (p.66)
2 Ainda sobre os fundamentos bíblico-teológicos da poimênica, Clinebell (2000) afirma reiteradamente as notáveis potencialidades dos seres humanos:
a) O ser humano é um pouco menor que Deus (Sl 8.5).
b) O ser humano foi criado a imagem e semelhança de Deus, imago Dei, (Gn 1:17).
c) Jesus veio para conceder vida e vida, em abundância (Jo. 10:10), O ser humano tem condições de desenvolver seus potenciais de sabedoria e de vida, segundo a parábola dos talentos (Mt. 25:14-30) e as admoestações de Paulo a Timóteo, para “acender a chama do dom de Deus que há em ti(...), pois o espírito que Deus deu é (...) para inspirar poder, amor e autodisciplina” (2 Tm. 1:6).
É importante ressaltar, por fim, que a concepção bíblica nessa perspectiva deixa claro que os seres humanos, apesar de terem potencialidades, não são onipotentes. Somos seres finitos, limitados e marcados pelas condições efêmeras da nossa humanidade.
Outra ideia bíblica que Clinebell (2000) observa é a compreensão hebraica das pessoas. Era essencialmente não dualista, ou seja, a Bíblia assinala que a vida humana deve ser entendida de forma integral, em unidade de dimensões, dentro de uma visão holística, em uma visão comunitária:
a) É assim que a Bíblia reafirma o sentido de glorificar a Deus no corpo (1Cor. 6:19), e não fora dele ou desconsiderando-o.
b) Que se deve amar a Deus com todas as dimensões humanas (Mc. 12:30).
c) Que se deve viver a vida alimentando os relacionamentos em paz, shalom, do Antigo Testamento, ou em comunhão, koinonia, na perspectiva do Novo Testamento.
d) O respeito à Criação (ecologia) como ato único da vida. “E viu Deus que tudo era bom”.
e) A libertação é tanto pessoal quanto social. Tanto o pecado quanto a salvação são comunitários e sociais, assim como individuais, onde o Novo Testamento afirma “Conheceres a liberdade e a verdade vos libertará” (Jo. 8:32).
Nota-se que o ser humano é compreendido pelas escrituras em uma dimensão holística e integral para o crescimento, conforme Clinebell (2000). Essa visão deve demonstrar positivamente o fazer do aconselhamento e da capelania cristã, pois ressalta tanto as condições existenciais da humanidade, suas potencialidade advindas do Criador, quanto os propósitos cristãos para essa humanidade, ou seja, em Cristo, essa humanidade tem vida, e vida em abundância! Pode-se concluir, por enquanto, que o marco bíblico-teológico aponta tanto o termo “diaconia” quanto “poimênica” como palavras-chave da ação cristã da própria Igreja no mundo, ou seja, como expressão própria do mistério cristão. Podemos assinalar, portanto, que todo e qualquer ministério da igreja, como o aconselhamento e a capelania, é ação da Missão de anúncio da Boa Nova, do cuidado que Deus tem pelo ser humano e, por outro lado, evidencia também as potencialidades do ser humano, criadas pelo próprio Deus, as quais revelam as suas possibilidades para um desenvolvimento de forma integral em Cristo.
CUIDADO, ACONSELHAMENTO E CAPELANIA CRISTÃ
Inicialmente, a palavra que melhor expressa bíblica e teologicamente tanto aconselhamento quanto capelania é o termo “cuidado”, ou o verbo “cuidar”. A seguir, vejamos o trabalho realizado por Hoepfner (2008) sobre a análise do termo “cuidar”, em que o referido autor faz um estudo sobre o termo em seu sentido etimológico e bíblico; bem como o trabalho de Oliveira (2004). Para Hoepfner (2008), o termo cuidar provém do latim cura, que assinala uma relação de amor e amizade, uma atitude de cuidado, de desvelo, de preocupação e de inquietação em relação a alguém ou a algo estimado. Portanto, o sentido aqui deve ressaltar, conforme observa Hoepfner (2008), uma relação pessoal, existencial, e, por consequência, estabelecer uma preocupação frente à vida de outra pessoa ou de algo, como o cuidado com os enfermos ou com o meio ambiente.
Hoepfner (2008), baseado em Boff, faz a seguinte observação sobre o cuidado:
[...]é mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro, pois uma atitude perfaz uma fonte, pela qual descendem muitos atos. (p.14-15): Nesse sentido ainda, Hoepfner (2008) exemplifica e comenta da seguinte maneira essa questão:
Quando uma mãe afirma: “Estou cuidando do meu filho adoentado!”, subentendemse, nesta afirmação, múltiplos atos. Atos como: estar preocupado com seu filho; levá-
lo ao médico; dar a ele, não apenas remédios, mas, igualmente carinho; orar com e por ele, enfim, estar próximo dele por meio de ações diversas que compreendem uma atitude de cuidado. Nesse sentido, pode-se afirmar que uma atitude de cuidado abarca o ser humano em sua totalidade de vida. No que tange ao relacionamento humano, tanto a pessoa que toma uma atitude de cuidar de alguém, quanto o indivíduo para o qual é dirigida tal atitude, há um contato não meramente físico, mas também afetivoemocional, concretizando uma relação de sujeito para sujeito e não de sujeito para sujeito-objeto, ou seja, o cuidado possibilita a dignidade, pois abre mão do poder dominador e afirma uma comunhão entre seres reais. “A relação não é de domínio sobre, mas de com-vicia. Não é pura intervenção, mas interação” Por conseguinte, pode-se reiterar que só recebemos zelo se cuidarmos de outras pessoas; portanto, nessa dimensão, apenas nos tornamos pessoa no encontro com outra. Percebe-se, então, que a categoria cuidado tem conotações que superam as noções comuns que lhe são aplicadas. (p.15)
Nota-se que o sentido ora ressaltado assinala vigorosamente uma atitude de cuidado total, não com o que é particular ou pontual, mas sim com o ser humano em sua integralidade, em suas mais diversas áreas e dimensões: física, afetivo-emocional, social, ecológica, cultural e espiritual. Outra questão importantíssima ressaltada ainda por Hoepfner (2008) é a relação entre os seres humanos que deve ser pautada não pelo domínio sobre, mas pela convivência. Pode-se compreender nessa perspectiva que só recebemos cuidado se cuidarmos também de outras pessoas; portanto, nessa dimensão ou relação, apenas nos tornamos pessoa efetivamente quando estamos no encontro com outra, ou seja, nos relacionamos respeitosamente como iguais.
Diante do exposto, Hoepfner (2008) conclui as seguintes considerações:
Explicitando, o cuidado vê os contornos concretos dos problemas, da realidade, enxerga e abraça o ser em sua integralidade vital e, portanto, não se resume a apenas fidelidade, a princípios profissionais e a deveres morais impostos por uma sociedade deveras injusta. Perceptivelmente esclarecedor é o vocábulo alemão Sorge, comumente traduzido ao vernáculo pátrio como “cuidado”, “preocupação”, “aflição”. Se por um lado, a Sorge remete para o cuidado de si, por alguém ou por algo (Fürsorge), por outro, remete, igualmente, para uma situação existencial de aflição, ou seja, o de estar preocupado consigo mesmo, por alguém ou com algo (sich sorgen um). O termo inglês care, da mesma forma, traz consigo a idéia de um cuidar solícito, bem como o de um cuidar ansioso e aflito junto a alguém ou a algo. Conclui-se que, uma atitude de cuidado frente a pessoas, requer envolvimento, pois “o cuidado é aquela relação que se preocupa e se responsabiliza pelo outro, que se envolve e se deixa envolver com a vida e o destino do outro, que mostra solidariedade e compaixão”. Tal atitude é a condição prévia para o eclodir da amorosidade humana, afinal, quem cuida, ama e, quem ama, cuida (p.16)
Hoepfner (2008) faz ainda um estudo sobre expressões correlatas ao termo “cuidar” no Antigo Testamento e Novo Testamento:
O principal correlato do termo cuidar no Antigo Testamento (AT) é o verbete shãmar. Ao longo do testamento hebraico ele aparece 420 vezes. A ideia básica da raiz deste termo, conforme o Dicionário Internacional do Antigo Testamento, é a de “exercer grande poder sobre”, significado que permeia as várias alterações semânticas sofridas pelo verbo. Combinado com outros verbos, o sentido expresso é o de “fazer com cuidado”, “fazer diligentemente”, por exemplo, como aparece em Nm 23.12: “(...) Porventura, não terei cuidado de falar o que o Senhor pôs na minha boca”.O verbo pode vir a exprimir também a atenção cuidadosa que se deve ter com as obrigações contidas em leis e na própria aliança de Deus com o seu povo, como expresso em Gn 18.19 ou Êx 20.6. Frequentemente, o verbo ainda é utilizado para designar a necessidade de ser cuidadoso frente às próprias ações; frente à própria vida (Sl 39.1; Pv 13.3), ou ainda, designar a atitude de alguém de dar atenção ou reverenciar Deus, outras pessoas ou ídolos (Os 4.10; Sl 31.6). O verbo shãmar abrange ainda os sentidos de “preservar”, “armazenar” e “acumular” a ira (Am 1.11), o conhecimento (Ml 2.7),o alimento (Gn 41.35)ou qualquer coisa de valor(Êx 22.7).Umúltimo desdobramento da raiz exprime a ideia de “tomar conta de” ou “guardar”, ou seja, envolve manter ou cuidar de um jardim (Gn 2.15), de um rebanho (Gn 30.31) ou de uma casa (2 Sm 15.16).
É nessa ótica que Davi admoesta Joabe a cuidar de Absalão: “Guardai-me o jovem Absalão” (2 Sm 18.12), ou quando Davi, nos Salmos 34.20; 86.2; 121.3-4 e 7, utiliza o termo para falar do cuidado e da proteção divina. No que tange ao Novo Testamento, o principal correlato de cuidar é o verbete grego merimna. Assim como o termo alemão sorge e o inglês care, merimna pode remeter a dois significados. Num sentido negativo, é traduzido por “preocupação” ou “ansiedade” do ser humano. É nesse parâmetro que merimna é empregado no Sermão do Monte (Mt 6.25-34). Jesus, nessa homilia, critica a demasiada preocupação do ser humano em torno de questões materiais que o afastam de Deus. Paralelamente, a passagem de Lc 21.34, adverte para as fúteis preocupações concernentes à vida diária. Já o sentido positivo de merimna, remete ao “ter cuidado de” ou “preocupar-se com” alguém ou algo. Em 2 Co 11.28, o apóstolo Paulo se vê como aquele que deve preocupar-se com as igrejas. Já em 1 Co 12.25, a Igreja é vista como “corpo de Cristo”, no qual todos os membros cuidem e cooperem uns a favor dos outros. Em 1 Pd 5.7, o ser humano é chamado a lançar toda a sua ansiedade aos cuidados de Deus. Outras tantas passagens bíblicas poderiam ser aqui arroladas. Perícopes, que dependendo do testamento, utilizam os termos shãmar ou merimna, para expressarem a ampla ideia do cuidado humano ou de Deus por sua criação. Entretanto, ressalta-se, a partir dessa breve investigação acerca dos correlatos bíblicos do termo cuidar, que em muitas passagens nas quais os termos shãmar e merimna são empregados, eles compreendem, ao menos indiretamente, uma atitude que lida com a própria condição de vida do ser humano. Atitude esta, profundamente arraigada na fé dos inspirados escritores bíblicos em Deus. (p.p 17-18)
Ainda nessa direção, Oliveira (2004) afirma, a partir das elaborações teológicas de Leonardo Boff sobre o cuidado com o ser humano no contexto maior que é o cuidado com a natureza, o seguinte: “cuidar da alma implica cuidados sentimentos dos sonhos, dos desejos, das paixões contraditórias, do imaginário, das visões e utopias que guardamos dentro do coração” (p.17). Tal elaboração aponta o cuidar como um ato integral da existência humana. Oliveira (2004), tomando afirmação de Brakemeier, destaca que o cuidado com o ser humano está justamente na afirmação doutrinaria da Imago Dei, ou seja, que o ser humano é imagem e semelhança de Deus. Portanto, há uma dignidade no ser humano que lhe é atribuída, concedida sem merecimento que provém de Deus e que se manifesta em si mesmo. Teologicamente, observa Oliveira (2004) que os atos de misericórdia e compaixão
testemunhados por Jesus Cristo, em sua prática, revelam o próprio amor de Deus dispensado ao ser humano. Enquanto os atos de poder coisificavam o ser humano, escravizando-o, Jesus testemunhava o amor de Deus que transforma a dor e a escravidão em amor, saúde e vida, vida em abundância. Oliveira (2004) assinala que a desesperança e o pessimismo podem ser revestidos pela ressurreição de Cristo, pois ela apresenta uma nova condição antropológica para a existência humana; bem como pela cruz que não nega o sofrimento, mas assinala que todos estão suscetíveis nesta condição humana, pois Jesus também recebeu cuidados quando de sua morte. Por fim, o aconselhamento e a capelania cristã também são experiências construídas e contextualizadas pela riqueza do serviço cristão que se explicita no ato de cuidar do ser humano numa perspectiva bíblica. E essa tradição bíblica temcomo eixo fundante e articulador o Cristo da Fé e o Jesus Histórico. No primeiro, se evidencia a celebração da Vida e no segundo se ressalta as contradições existenciais da Vida. Nessa dinâmica é que se encontram relacionadas fundamentalmente o aconselhamento e a capelania cristã
3 CONSIDERAçÕES FINAIS
Caro aluno (a), esta nossa primeira unidade nos lançou no universo bíblico-teológico. Nela visitamos e revisitamos textos clássicos e fundamentais da Fé Cristã que são imprescindíveis não só para os nossos intentos, como para todo e qualquer objetivo que queira fundamentar o testemunho cristão. Emnossocaso,olhamosfirmementeparaocampodaTeologiaPrática,oumaisespecificamente, para as áreas do Aconselhamento e da Capelania Cristã. Nesse sentido, quando estudamos a palavra “diaconia”, vimos como este termo é rico e diverso, bem como aponta indelevelmente para o ser próprio do Cristianismo: servir ao mundo. Destacou o nome e o sobrenome dessa essência diaconal: Jesus Cristo, o servo por excelência. Assim, ficou límpido que o ministério cristão, guarda-chuva maior que abarca o Aconselhamento e a Capelania Cristã, é um instrumento de serviço no mundo, quer intra ou extraigreja.
Vimos ainda, juntos, o termo poimênica. Termo que deve ser entendido como ponto de partida e de chegada do aconselhamento cristão, e por que não dizer da Capelania Cristã
também? Claro que sim. Esse termo alimenta essas duas atividades que, do ponto de vista bíblico-teológico, são instrumentos para possibilitar ajuda e crescimento a todo aquele que se encontra necessitado. Contudo, esse termo guarda também as potencialidades inerentes ao ser humano; isso não pode ser esquecido quando se faz Aconselhamento e Capelania nessa perspectiva, pois o aconselhando não é um objeto, mas um sujeito em crescimento. Isso deve ser compreendido como um mote da ética da ajuda cristã. Por fim, vimos cuidadosamente o verbo “cuidar”, ou o substantivo “cuidado”. Brincadeiras à
parte. “Cuidar” e “cuidado” são as palavras, sem dúvida, que melhor interpretam, em última instância, toda e qualquer ação cristã. Nesse sentido, o oxigênio afetivo do Aconselhamento e da Capelania Cristã é justamente a boa nova de Salvação a todo aquele que crê: “Porque Deus amou (cuidou) do mundo de tal maneira que enviou o seu Filho unigênito para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna” (João 3:16).
4 OS FUNDAMENTOS DO ACONSELHAMENTO E DA CAPELANIA CRISTÃ
Objetivos de Aprendizagem
• Conhecer as origens históricas do Aconselhamento e Capelania Cristã.
• Assinalar os aspectos fundamentais das teorias em aconselhamento e em Capelania Cristã.
• Apontar atitudes em aconselhamento e Capelania Cristã.
• Identificar os objetivos principais do Aconselhamento e Capelania Cristã.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
• Aconselhamento e Capelania Cristã: Apontamentos Históricos
• Fundamentos e Teorias em Aconselhamento Cristão
• Os Fundamentos da Capelania Cristã
• Capelania Hospitalar
INTRODUÇÃO
No contexto religioso de corte cristã, são duas as práticas, em especial, o Aconselhamento e a Capelania, que são marcadas pelo termo “ajuda”.Ambas se encontram no campo da Teologia Prática, bem como a liturgia, a educação, a pastoral e o cuidado (diaconia).
Especificamente, como bem ressalta Barrientos (1991), o tema do aconselhamento é bastante amplo e delicado, enquanto o tema da capelania ainda é pouco conhecido. Nessa área há questões polêmicas, como a utilização ou não de técnicas e procedimentos do aconselhamento psicológico para o aconselhamento ou a capelania cristã. Contudo, este livro tem o objetivo de ser didático, ou seja, ser uma introdução aos temas do aconselhamento e da capelania para a formação universitária em Teologia. Não obstante, o leitor atento e interessado deve buscar na literatura especializada seu aprofundamento. É verdade, até então, que há bem mais material disponível em aconselhamento do que em capelania.
Diante disso, esta unidade desenvolve estudos nos campos da história e das teorias puras, bem como das teorias sobre as práticas do Aconselhamento e da Capelania Cristã. É importante ressaltar que focamos na área Hospitalar em Capelania e, ainda, que os conceitos, a natureza, os objetivos, o intento, as dimensões, os procedimentos, as atitudes, os instrumentos e os comportamentos em Aconselhamento e Capelania Cristã foram observados e abordados à luz de diferentes autores, uns bem conhecidos e outros menos pelo público especializado.
ACONSELHAMENTO E CAPELANIA CRISTÃ: APONTAMENTOS HISTÓRICOS
Acompanhar, ajudar e fortalecer na fé sempre foi uma atividade própria da Igreja de Cristo. Flor (2010) observa três modelos básicos de aconselhamento cristão durante o período Antigo e Medieval:
a) “poimênica como instrumento a serviço da disciplina eclesiástica” (cuidado com a fé para que ninguém se afastasse do caminho reto);
b) “poimênica como caminho de aperfeiçoamento da vida monástica” (cuidado com a vida interior e experiência mística de união com Deus);
c) “poimênica como função terapêutica” (na visão de luta entre poderes, era comum a busca de cura de males atribuídos aos espíritos imundos).
Outras referências históricas dessa atividade podem ser encontradas logo nos primeiros cem anos da Igreja Cristã. A história registra textos cuidadosos como, por exemplo, a Carta a uma Jovem Viúva, escrita por João Crisóstomo em 380; o “Livro de Cuidado Pastoral”, de Gregório, o Grande, no final do século VI ou a carta “Catorze Consolos Para os Exaustos e Sobrecarregados”, escrita por Martinho Lutero em1520.Emcada umdestes há a demonstração de um tempo na Igreja Cristã em que o cuidado era parte integrante do ensino e da vivência pastoral (FLOR, 2010). Como é bom estar localizado ou contextualizado. Isso não é diferente quando estudamos o tema da capelania. Saber nossas origens, e, principalmente, os fundamentos da nossa forma de pensar, bem como os motivos que estão na base de uma determinada ação ou atitude é sempre importante. Conforme Gentil, Guia e Sanna (2011):
Historicamente o termo “capelania” foi criado na França, em 1700 porque, em tempos de guerra, o rei costumava mandar para os acampamentos militares, uma relíquia dentro de um oratório, que recebia o nome de “Capela”. Essa capela ficava sob a responsabilidade do sacerdote, conselheiro dos militares. Em tempos de paz, a capela voltava para o reino, ainda sob a responsabilidade do sacerdote, que continuava como líder espiritual do rei, e assim ficou conhecido por capelão. Com o tempo, o serviço de capelania se estendeu aos parlamentos, colégios, cemitérios e prisões (p.1).
Silva (2010), ao tratar sobre a conceituação de capelania, observa que o termo aponta para o cargo, a dignidade e o ofício de capelão. Tal atividade é exercida por um religioso, católico ou protestante, responsável em prestar assistência religiosa e/ou realizar culto ou missa nas instituições que serve. É comum ter um local denominado capela em repartições públicas ou privadas, escolas, hospitais, quartéis, presídios, universidades etc., onde o capelão atende às pessoas e essas podem também exercitar a sua fé. Observa ainda Silva (2010) que é comum haver instituições que só têm capelão católico ou protestante, mas há também instituições que comportam as duas ramificações do cristianismo, bem como fora do país há outras religiões que também têm exercido essa mesma função.
Silva (2010) destaca em seu texto a importância do papel do capelão enquanto facilitador. Ele observa que Jung atribuía ao capelão o papel de sujeito facilitador do encontro do homem com a sua dimensão espiritual; assim como o corpo precisa do médico, a vida espiritual da pessoa precisa do capelão, compreendia Jung, conforme Silva (2010).
A compreensão tradicional de aconselhamento cristão pode ser identificada nas palavras de Cunha (2004) ao tratar sobre o tema citando Mack: O aconselhamento para ser chamado cristão precisa possuir quatro características:
1. Ser realizado por um cristão; 2. Ser centrado em Cristo (Cristo não é um adendo ao aconselhamento, mas é a alma e o coração do aconselhamento, a solução para os problemas. Isto contrata com o caráter antropocêntrico das psicologias modernas); 3. Ser alicerçado na Igreja (a Igreja é meio principal pelo qual Deus trás às pessoas ao seu convívio e as conforma ao caráter de Cristo); 4. Ser centrado na Escritura Sagrada (a Bíblia ajuda a compreender os problemas das pessoas e prover solução para os mesmos)” (p.1).
Contudo, tomemos em termos o conceito advogado por Clinebell (2000), que vê o aconselhamento, o qual constitui uma dimensão da poimênica, como a “utilização de uma variedade de métodos de cura (terapêuticos) para ajudar as pessoas a lidar com seus problemas e crises de uma forma mais conducente ao crescimento e, assim, a experimentar a cura de seu quebrantamento” (p.25). Nesse sentido, o aconselhamento tem função reparadora quanto ao crescimento de uma pessoa.
É importante, inicialmente, nos localizarmos sobre qual modalidade de aconselhamento nós estamos nos referindo ou tratando aqui. Barrientos (1991) apresenta quatro tipos de aconselhamento:
1. Aconselhamento popular
É o que ocorre nos relacionamentos diários das pessoas que trocam problemas e conselhos entre si.
2. Aconselhamento comunitário
Em muitos grupos latino-americanos, especialmente os de cultura indígena, existe essa prática de aconselhamento em grupo. Se uma pessoa tem dificuldades em seu lar recorre aos líderes da tribo, então eles, em grupo, escutam e aconselham.
3. Aconselhamento pastoral
É uma prática exercida por um pastor junto a sua comunidade. Precisa de preparo e muita competência para tratar os mais diversos temas, como: problemas matrimoniais, relacionamentos entre pais e filhos, disputas entre irmãos na fé, dificuldades econômicas, dificuldades sobre a fé, falta de sentido na vida, homossexualidade, alcoolismo, vício de drogas, prostituição e problemas emocionais mais profundos
4. Aconselhamento profissional
Esse tipo de aconselhamento é exercido por conselheiros, psicólogos e psiquiatras. Esses são profissionais que o pastor pode e deve trabalhar junto, pois há problemas mais profundas na comunidade e por isso necessitam de um cuidado maior. Nossos estudos assinalamo aconselhamento pastoral primeiramente, bemcomo o profissional, com destaque para o aconselhamento psicológico. Nossa perspectiva é o diálogo. Esse diálogo está imbuído pelo respeito e consideração entre os conhecimentos da Teologia e da Psicologia. Avançando um pouco mais, Barrientos (1991) apresenta as cinco objetivos do aconselhamento, e ainda destaca que o mesmo não está indicado somente para os momentos de crise, mas é também um meio de ajuda, com isso corroborando com a ideia acima de Clinebell (2000). Vejamos os cinco objetivos:
1. Relatar a situação que está enfrentando
2. Obter uma visão global do problema, e não reparar apenas em detalhes