Desafios Contemporâneos acerca do Terceiro Setor e Serviço Social
Inicialização ao Serviço Social
1 Introdução ao Desafios Contemporâneos acerca do Terceiro Setor e Serviço Social
“Surgindo” em um contexto de desmonte dos direitos sociais, o pensamento neoliberal justifica – por meio do discurso da “solidariedade social” – a expansão do terceiro setor como resposta alternativa no trato da questão social. Perpassado por interesses classistas, o aumento de instituições que integram o rol desta suposta esfera, oscila entre o interesse de grandes capitalistas, que buscam através do desenvolvimento da filantropia empresarial, entre outras coisas, difundir uma boa imagem, na sociedade, de suas instituições, passando pelas ONGs que surgem atreladas aos movimentos sociais as quais possuem, por assim dizer, um espírito mais revolucionário, sendo mencionadas, inclusive, instituições como seitas religiosas. Essa primeira ideia do que engloba o terceiro setor na sociedade, mostra-nos uma complexidade no que se “esconde” por trás deste suposto “setor”.
Esse estudo acerca do terceiro setor como trato alternativo da questão social, não possui o desejo de enquadrar ou excluir instituição nesta suposta esfera social, o que se apresenta aqui é na verdade uma analise crítica sobre os interesses que perpassam a dialeticidade e as contradições de um recorte conjuntural que suscita nos indivíduos uma nova ideia de “solidariedade social”, sendo esta permeada pela negação da solidariedade de classe, em que os direitos sociais são transmutados – na orbita do terceiro setor – em filantropia (ações desenvolvidas pela sociedade civil) em que se perde o reconhecimento do pertencimento de classe.
Aqui buscamos enfatizar quais são os dilemas e contradições apresentadas ao(a) assistente social nas instituições que “integram” o terceiro setor, retratando de forma mais profunda o trato da questão social por meio da filantropia. Por fim, destacamos a construção do Projeto Ético-Político do Serviço Social (PEPSS), o qual deve ser vivenciado pelo(a) profissional no campo de trabalho, a fim de superar cotidianamente os desafios apresentados, e descortinar possibilidades para a intervenção profissional no terceiro setor.
2 Concepção Hegemônica acerca do Terceiro Setor e as configurações contemporâneas entre estado e sociedade
O termo “Terceiro Setor”, de origem norte-americana, surge como conceito consolidado nos Estados Unidos em 1978, tendo como idealizador John D. Rockefeller III. No Brasil, o termo surge através da Fundação Roberto Marinho, sendo apresentado ao mundo por meio de empresas e intelectuais ligados à burguesia, o que faz com que reflitamos o porquê deste empenho em desenvolver ações institucionais voltadas para a refilantropização no trato da questão social, assim como evidencia Montaño (2007, p.53) ao afirmar que “isso sinaliza clara ligação com os interesses de classe, nas transformações necessárias à alta burguesia”, há uma ideologia ligada à lógica capitalista que perpassa não apenas o conceito “Terceiro Setor”, mas todas as relações circunscritas no cerne do seu “surgimento” e expansão.
Embora possamos evidenciar uma data que marca a origem do uso do termo “Terceiro Setor”, compreendemos que o seu surgimento permanece ainda como “uma verdadeira escuridão nas análises dos seus teóricos”(Idem, p. 55), e muitos se perguntam de fato quando teria se dado a inserção de um “novo” setor na sociedade. Acerca de seu surgimento Montaño reflete:
Surgiu na década de 80, numa construção teórica, com a preocupação de certos intelectuais ligados a instituições do capital por superar a eventual dicotomia público/privado? Teria data anterior, nas décadas de 60 e 70, com o auge dos chamados “novos movimentos sociais” e das “organizações não-governamentais”? Seria uma categoria vinculada às instituições de beneficência, caridade e filantropia, dos séculos XV a XIX(ou no Brasil, com as Santas Casas de Misericórdia, Cruz Vermelha etc.)? Sua existência data da própria formação da sociedade, conforme os contratualistas analisam?(2007, p.55).
Dessa forma, aqui reafirmamos que embora o surgimento enquanto termo, ou o uso de tal nomenclatura – Terceiro Setor – possa ter sido utilizado a partir do final da década de 1970, ao estudarmos sobre essa temática percebemos que não se pode afirmar de forma categórica quando este “setor” se insere na sociedade, tendo em vista as várias análises e contradições – debilidades conceituais, entidades que o compõem, etc. – que perpassam o contexto histórico, político e ideológico do mesmo.
O terceiro setor – a partir da análise neoliberal – coexiste com outros dois setores, o primeiro setor, representado pelo Estado, cumprindo este uma função administrativa dos bens públicos – correspondendo assim, às ações públicas, tanto no âmbito Municipal, Estadual bem como Federal –, e o segundo setor, representado pelo mercado, ocupado pelas empresas privadas com fins lucrativos. Porém, nos alerta Montaño, que esta afirmação da coexistência desses setores – mais especificamente, primeiro e terceiro – se configura como uma “grande debilidade conceitual”(2007, p.54), posto que:
Quando os teóricos do “terceiro setor” entendem este conceito como superador da dicotomia público/privado, este é verdadeiramente o “terceiro” setor, após o Estado e o mercado, primeiro e segundo, respectivamente; o desenvolvimento de um “novo” setor que viria dar as respostas que supostamente o Estado já não pode dar e que o mercado não procura dar. Porém, ao considerar o “terceiro setor” como a sociedade civil, historicamente ele deveria aparecer como o “primeiro”. Esta falta de rigor só é desimportante para quem não tiver a história como parâmetro da teoria(MONTAÑO, 2007, p. 54-55).
Acerca desta debilidade relacionada ao conceito de “Terceiro Setor”, da realidade fragmentada dos setores na sociedade, e ainda sobre o conceito ideológico proposto numa perspectiva hegemônica para o que seria o denominado “terceiro setor”, Montaño(2007) diz que a “perspectiva hegemônica, em clara inspiração pluralista, estruturalista ou neopositivista, isola os supostos ‘setores’ um dos outros e concentra-se em estudar (de forma desarticulada da totalidade social) o que entende que constitui o chamado ‘terceiro setor’”(p.51), sendo denominados para essa suposta esfera da sociedade as fundações empresariais, Organizações não Governamentais(ONGs), Organizações Sem Fins Lucrativos(OSFL), Organizações da Sociedade Civil(OSC), entidades de direito privado, etc., entre outras instituições.
Dessa forma, o termo “terceiro setor” é formado a partir de recortes sociais, por meio de esferas, num âmbito neopositivista, funcionalista e estruturalista que isola os, já citados, setores, em que a existência dos mesmos na sociedade se dá de uma forma fragmentada e dicotomizada “Como se o político pertencesse à esfera estatal, o econômico ao âmbito do mercado e o social remetesse apenas à sociedade civil, num conceito reducionista”(MONTAÑO, 2007, p.53).
Acerca, ainda, do seu surgimento, vale destacar que o terceiro setor surge a partir de um contexto desenvolvido na sociedade: reestruturação produtiva no mundo do trabalho (mudança no modelo de produção); mundialização da economia quando o capital passa a ser rotativo devido à desterritorialização ou quebra das fronteiras geográficas; perda dos direitos trabalhistas, dentre tantos outros acontecimentos que abriram espaço para o neoliberalismo formular mais uma estratégia de reestruturação do sistema capitalista – o terceiro Setor, que surge como uma tática do governo e das entidades privadas, sendo uma forma de (re)filantropização no trato da questão social.
O terceiro setor é um fenômeno que envolve um número significativo de organizações e instituições, tais como organizações não-governamentais, organizações “sem fins lucrativos”, instituições filantrópicas, associações, empresas ditas “cidadãs”, entre outras, e ainda, sujeitos individuais, sejam eles voluntários ou não. Montaño aponta que não há um consenso entre os(as) teóricos(as) e pesquisadores(as) sobre a diversidade de instituições que fariam, ou não, parte deste setor:
Para alguns, apenas incluem-se as organizações formais (cf. Salamon, apud Fernandes, 1994: 19); para outros, contam até as atividades informais, individuais, ad hoc (Fernandes, 1994: 26 e 109); para alguns outros, as fundações empresariais seriam excluídas (Flacso, apud Acotto e Manzur, 2000); em outros casos, os sindicatos, movimentos políticos insurgentes, as seitas etc. ora são considerados pertencentes, ora são excluídos do conceito (MONTAÑO. 2007, p. 55).
Desta forma, constatamos que tal conceito se formula, na verdade, numa perspectiva ideológica, dada a amplitude e diversidade das instituições e organizações que teoricamente o compõem. Para Montaño “este conceito, mais do que uma ‘categoria’ ontologicamente constatável na realidade, representa um constructo ideal que, antes de esclarecer sobre um “setor” da sociedade, mescla diversos sujeitos com aparentes igualdades nas atividades” (2007, p.57), embora possuam diferentes interesses na sociedade, se configurando, por vezes, contraditórias as ações e o papel social de cada instituição no âmbito da sociedade.
Dessa forma, surgem várias inquietações no debate que permeia está temática, uma é o fato de serem desconsideradas as relações sociais que envolvem e articulam tais setores na sociedade, outra é a afirmação de que o Terceiro Setor seria formado pela “sociedade civil”.
Nesse sentido, verifica-se grande dificuldade em se compreender quais seriam os reais interesses dessa “sociedade civil”, posto que, de acordo com Nogueira(2005), ela se perfaz por um lado “De um espaço para explicitações de subjetividades políticas” e por outro “de um espaço para afirmação de interesses pouco comunicantes, egoístas e corporativos”(p.87), ou seja, ao mesmo tempo em que se encontram na sociedade civil movimentos sociais comprometidos com lutas políticas de interesse coletivo , verifica-se, por outro lado, o surgimento e grande expansão de entidades que, longe de defender causas coletivas, difundem a lógica da “solidariedade” numa perspectiva que visa apenas os benefícios individuais que lhes serão auferidos.
Isso posto, é relevante destacar que uma das contradições que encontramos no terceiro setor são as instituições denominadas de Organizações Não-governamentais(ONGs) ou as instituições sem fins lucrativos que atendem aos ideais e conceitos neoliberais, e acabam por receber financiamento do próprio Estado ou de grandes empresas capitalistas, utilizando em suas atividades, recursos provenientes de tais setores.
Nos perguntamos, então, quais são os reais interesses de se articular o surgimento de um “novo” setor na sociedade? E o que justificaria a expansão do chamado “terceiro setor” na mesma?
Em parte, a primeira pergunta já está respondida no início deste trabalho quando destacamos que o surgimento do terceiro setor se deu através dos donos de grandes empresas capitalistas e intelectuais ligados a classe burguesa, o que representa interesses classistas por trás desse “novo” setor. Por outro lado, compreendemos ser, ainda, muito difícil conseguir desmistificar a totalidade de interesses individuais e coletivos que (re)afirmam a existência de tal setor na sociedade. Porém, tentaremos clarear um pouco o debate ao discutirmos acerca da afirmação do terceiro setor na conjuntura neoliberal e como isso repercute na contemporaneidade.
Observamos que, a partir da crise do fisco vivenciada pelo Estado nos anos de 1970 e 1980, deu-se o processo de “reforma” do Estado em que passa-se a observar inúmeras mudanças no quadro estatal, estando entre elas, a reforma tributária tanto da previdência quanto das legislações trabalhistas, reajuste nos gastos estatais, privatização das empresas públicas e, principalmente, um grande recorte no financiamento do Estado na área social, “nesse ultimo aspecto, têm-se retirado da esfera estatal um conjunto de políticas e instituições sociais, nas áreas da assistência, previdência e da saúde e educação públicas”(MONTAÑO, 2007, p.218-219), sendo assim, complementa o autor:
Este processo de verdadeiro “recorte” dos recursos que financiam programas estatais na área social tem sido visto como um fenômeno natural e/ou necessário (de modernização estatal), dada a dita crise fiscal e a ineficiência(sic) do Estado, mas que tem sido acompanhada de um crescimento da intervenção da sociedade civil nessa área. Tem sido visto, portanto, como um processo de “passagem” da intervenção estatal para a intervenção comunitária na área social(p. 222).
Outrossim, compreendemos que, o que se chamou de “reforma” do Estado, seria na verdade um processo no qual a ideologia neoliberal se apropria para continuar reafirmando-se na sociedade, posto que é justamente a partir desse processo de “contrarreforma” que o Estado irá se tornar mínimo para o social e máximo para o capital.
É, portanto, nesse contexto da redução de gastos do Estado na área social que se vislumbra o crescimento do terceiro setor na sociedade. Dessa forma, compreendemos ser – a partir da lógica neoliberal – incutido na sociedade que as mazelas vivenciadas pela população mais carente, o que na verdade são as expressões da questão social, é de responsabilidade de todos. É aí que surgem e, consequentemente, irão se expandir entidades filantrópicas, grupos de apoio com finalidade de assistência especifica, ONGs, entre tantos outros grupos que integram ideologicamente o terceiro setor.
Mediante a desresponsabilização do Estado – de garantir políticas públicas para os(as) cidadãos(ãs), com enfoque para o(a) trabalhador(a) – e com a disseminação da ideologia que torna a sociedade civil responsável pela questão social, percebemos a fragmentação e o enfraquecimento das políticas sociais, através da privatização das organizações estatais, e do enxugamento dos gastos públicos, legitimando assim a lógica neoliberal. Corroborando com essa perspectiva Montaño vai dizer que:
Por outro lado, para cobrir os vácuos que, na previdência e serviços sociais e assistenciais, deixa este novo Estado minimizado, as respostas à “questão social” são privatizadas e transferidas à sociedade civil (empresarial – se lucrativas –, ou não – se deficitárias), que vende ou fornece gratuitamente os serviços sociais (MONTAÑO, 1999, p. 65).
Percebemos que o uso da suposta escassez de recursos – desencadeada pela crise do Estado – é apontado como justificativa para a retirada do Estado no que diz respeito a sua responsabilidade social, dessa forma tem-se por um lado, a ampliação da comercialização dos serviços prestados a população, e por outro a expansão de entidades do terceiro setor. Mediante essa ideologia, formula-se ainda a ideia do surgimento de uma “nova” questão social o que supostamente justificaria essa “nova forma” de responder as suas refrações. Porém a questão social “que expressa a contradição capital-trabalho, as lutas de classes, a desigual participação na distribuição de riqueza social”(MONTAÑO, 2007, p. 187) permanece inalterada, o que se observa na verdade são novas formas de expressão da mesma(idem).
Estando todo esse cenário preparado, supostamente estaria justificado a então “nova forma” de intervir. Se por um lado o Estado se coloca – respondendo as expressões da questão social – através da manutenção precária das políticas públicas sociais e assistenciais, fornecidas gratuitamente a população, por outro lado, observa-se a (re)mercantilização dos serviços sociais transformados em mercadoria, eles são vendidos ao consumidor, consolidando o fornecimento empresarial de serviços sociais à população que pode pagar pelos mesmos. Outra forma de responder à questão social – sendo essa direcionada ao terceiro setor – é a (re)filantropização, isso se dará na medida em que vários segmentos da população ficarão, de um lado, sem assistência do Estado e, de outro, não poderão ter acesso aos mesmos pela via privada. Dessa forma, essa responsabilidade é repassada para a “sociedade civil” que irá responder a essas demandas da sociedade por meio de filantropia e através de práticas caritativas. Nesse sentido Alencar(2009) corrobora com essa afirmação ao dizer que:
Nesse ponto, aponta-se a transferência dos serviços sociais para a sociedade civil, sob o discurso ideológico da ”autonomia”, “solidariedade”, “parceria” e “democracia”, enquanto elemento que aglutinam sujeitos diferenciados. No entanto, vem se operando a despolitização das demandas sociais, ao mesmo tempo em que desresponsabiliza o Estado e responsabiliza os sujeitos sociais pelas respostas às suas necessidades. [...]Nesse contexto, observa-se um profundo deslocamento quanto aos direitos sociais agora transmutados em “direito moral”, sob os princípios abstratos da “ajuda mútua” e“solidariedade” (ALENCAR, 2009, p.455-456).
É no contexto de hegemonia neoliberal, em que é repassada para a “sociedade civil” a responsabilidade de responder as expressões da questão social que os direitos sociais são transformados, por um lado em mercadoria - sendo ofertados para aqueles(as) que por eles podem pagar-, e por outro lado em “ajuda mútua”. Dessa forma, o trabalho desenvolvido por algumas entidades do terceiro setor acontece, por vezes, numa perspectiva despolitizada, tendo em vista que os direitos sociais são repassados para a população sobre o prisma da ajuda e solidariedade humana, o que vai de encontro à perspectiva da conquista e consolidação de direitos. Nesse sentido, acerca da materialização das políticas sociais – as quais são planejadas e implementadas para responder as refrações da questão social – nesse novo processo histórico “a retração do Estado quanto à responsabilidade no enfrentamento da questão social, mediante a transferência de responsabilidade do Estado para o “terceiro setor”, identificado erroneamente como a sociedade civil, altera substantivamente a orientação e a funcionalidade das políticas sociais[...]”(ALENCAR, 2009, p.458).
Outro aspecto que devemos destacar nesse estudo, é o fato de que, por vezes, essas organizações do terceiro setor são financiadas pelo próprio Estado, o que se configura como a chamada “parceira” entre setores - legitimando o esvaziamento dos direitos sociais bem como o recorte das políticas sociais. De acordo com Montaño o “Estado fornece a essas organizações crédito fácil, isenção fiscal, facilidades legais, destina recursos financeiros, materiais e humanos”(2007, p. 225), porém a grande crítica que se faz aqui se fundamenta na lógica de que o Estado deixa de investir nas políticas sociais públicas – o que faz com que elas sejam ofertadas à população, tanto em instância governamental como não-governamental, de forma seletiva e focalizada –, o que leva ao desenvolvimento de políticas precarizadas na área da saúde, assistência, educação entre outras.
Vale salientar que nos anos de 1970 e 1980 as ONGs da América Latina obtiveram um crescimento quantitativo, isso se deu devido ao fato do financiamento dessas instituições ser realizado por meio de entidades internacionais, porém a partir dos anos de 1990 – quando essas entidades internacionais passaram a direcionar os seus recursos para outros continentes – essas instituições passam a expandir-se devido à grande lacuna deixada pelo Estado na área social, sendo que nesse segundo momento o que se configura no contexto social, é o financiamento estatal voltado para essas organizações da “sociedade civil”(MONTAÑO, 2007). Lacuna deixada estrategicamente para através do apelo a solidariedade social, surjam na sociedade instituições diversas para desenvolverem serviços que supram – embora de forma paliativa – a ausência do Estado no tocante as políticas públicas.