Processamento e uso da mandioca
Auxiliar em Agropecuária
1 Introdução
O cultivo da mandioca ocorre em todo território nacional, representando uma das culturas de maior importância socioeconômica no Brasil. Ocupa posição de destaque no Estado da Bahia, onde é explorada principalmente por agricultores familiares, que tem nessa atividade sua principal fonte de renda.
A cultura da mandioca na região do Território do Semiárido Nordeste II apresenta produtividade média baixa, em função da não adoção de um sistema de produção adequado, e das condições edafoclimáticas.
O baixo índice de oferta e de adoção das tecnologias disponíveis, principalmente fertilizantes, corretivos e variedades adaptadas, somado às épocas de plantio e de colheita inadequadas, além de uma base genética estreita, resultam em baixo rendimento para a cultura. Como exemplo da estreita base genética, evidencia-se o uso predominante de apenas duas variedades: Alagoana e Cria menino.
As áreas plantadas com mandioca vêm sendo reduzidas gradativamente. Além de estruturas de processamento inadequadas, que existem em número reduzido, fazendo com que a matéria prima percorra grandes distâncias até ser processada, ocasionando perda de qualidade em seu principal produto, a farinha, que perde espaço junto aos consumidores, culminando com baixa agregação de valor. Sem os ganhos proporcionados pela industrialização, o cultivo da mandioca pode tornar-se atividade de baixa rentabilidade.
Escolha da área para plantio
As raízes são o principal produto do cultivo de mandioca. Por isso, ao escolher a área deve-se dar preferência aos terrenos profundos, planos ou pouco inclinados. As terras arenosas ou areno argilosas (mistas) são as mais apropriadas porque facilitam a passagem da água, favorecem o engrossamento das raízes e permitem que se gaste menos com a colheita, pois é mais fácil arrancar.
Evite plantar nas seguintes condições:
- ladeira abaixo ou morro abaixo;
- em terrenos com muito barro (argilosos);
- em áreas sujeitas ao encharcamento (mal drenadas);
- em terras fracas ou esgotadas por outros cultivos.
Preparo da área de plantio
A limpeza da área consiste na eliminação da cobertura vegetal. Se for necessário desmatamento e destoca, quando feitos mecanicamente, deve-se ter o cuidado de evitar muita movimentação da camada superficial do solo. Na forma manual, a destoca pode ser realizada gradualmente, ano a ano, como medida de redução dos custos, fazendo se o plantio inicialmente no “toco”.
O preparo do solo poderá ser realizado manualmente, com tração animal, ou mecanicamente, com uso de trator. As operações de preparo do solo devem ser as mínimas possíveis, apenas o suficiente para a implantação da cultura e para o bom desenvolvimento do sistema radicular.
De maneira geral, o preparo do solo visa melhorar as condições físicas do solo para brotação das manivas e crescimento das raízes, mediante aumento da aeração, da infiltração de água e da redução da resistência do solo à penetração das raízes.
Um bom preparo do solo permite o uso mais eficiente dos corretivos, dos fertilizantes e de outras práticas agrícolas.
Cuidados quando do preparo do solo
- alternar os tipos de implementos e a profundidade de trabalho;
- revolver o solo o mínimo possível;
- trabalhar o solo com umidade adequada;
- deixar o máximo de resíduo vegetal sobre a superfície do solo.
Conservação do solo no plantio da mandioca
Dois aspectos importantes devem ser considerados na cultura da mandioca, com relação à conservação do solo.
1 – é uma cultura que favorece a erosão. Em terrenos com alguma inclinação, devem sempre ser utilizadas práticas de conservação do solo:
• realizar plantio em nível ou cortando o sentido das águas;
• construir terraços;
• plantar cordões de contorno;
• fazer capinas em linhas alternadas de mandioca.
2 – é uma cultura esgotante de solo, sendo recomendado:
• o semeio de leguminosas para incorporação ao solo;
• proceder a rotação da mandioca com outras culturas;
• adubar o solo por ocasião de novos cultivos, conforme recomendação de análise química.
Adubação e correção do solo
Faça a calagem:A cultura da mandioca é tolerante à acidez dos solos. As doses recomendadas dependem dos resultados da análise química do solo e não devem ultrapassar uma tonelada de calcário por hectare. A aplicação do calcário deve ser feita a lanço, em qualquer época do ano, de preferência com antecedência de 30 a 60 dias antes do plantio.Adube de acordo com a análise química do solo, pelo menos dois meses antes do plantio. A adubação correta faz aumentar a produção. Investir em adubação sem conhecer a fertilidade do solo é um erro econômico.
Use adubo orgânico:A mandioca é uma planta que responde à adubação orgânica; o uso de adubos orgânicos, em torno de 8,0 toneladas por hectare, é importante para aumentar a produção de raízes pelo fornecimento de nitrogênio e outros nutrientes e, principalmente, melhorar as características físicas, químicas e biológicas do solo.
Vários materiais de origem orgânica são usados na adubação da mandioca, a exemplo de estercos, tortas, compostos orgânicos, leguminosas e restos de culturas, podendo ser aplicados a lanço em toda a área, na cova ou no sulco, por ocasião do plantio
Adube com minerais
A mandioca não requer muito adubo, em geral 300 kg de superfosfato simples por hectare fazem a produção aumentar de 4 a 6 toneladas de raízes. Os adubos minerais, principalmente fosfatos, têm sido indispensáveis para a maioria dos solos cultivados com mandioca, sendo os efeitos mais marcantes quando na presença do nitrogênio e do potássio.
Dentre as fontes disponíveis no comércio, as mais comuns são: ureia e sulfato de amônio (nitrogenados); superfosfato simples e superfosfato triplo (fosfatados); e cloreto de potássio e sulfato de potássio (potássicos).
Faça a adubação em cobertura
Os adubos nitrogenados devem ser aplicados em cobertura, 45 a 60 dias após a brotação das plantas, desde que o solo apresente umidade suficiente.
Os adubos potássicos podem ser aplicados em mistura com os fosfatados, por ocasião do plantio; em caso de solos extremamente arenosos, devem ser aplicados em cobertura, juntamente com o nitrogênio.
Observe bem! Áreas cultivadas por muito tempo (cansadas) requerem pousio (descanso), rotação de culturas e correção da fertilidade.
Seleção do material de plantio
Na seleção do material de plantio, devem-se observar aspectos de ordem agronômica (variedade, idade da planta matriz, parte adequada da planta, relação diâmetro da maniva / medula, viabilidade das gemas), e de ordem sanitária, devendo estar livre de pragas e doenças. Hastes com sintomas da ocorrência de pragas e/ou doenças devem ser eliminadas.
Use manivas maduras (de plantas com idade de 10 a 14 meses) e elimine as extremidades (pés e pontas), pois a parte do meio brota melhor e produz mais. Antes de cortar, em pedaços de 15 a 20 cm de comprimento, verifique se o material está sadio. Para saber se as manivas estão com umidade adequada, dê algumas picadas com uma ferramenta cortante (faca ou facão) e observe se o leite (látex) sai rápido e se o miolo (medula) está úmido.
Para retirar manivas para os novos plantios, reserve parte da melhor área do mandiocal.
Conservação de manivas
A armazenagem das ramas, quando necessária, deve ser feita em um local arejado, na lavoura ou ao abrigo de árvores. Em caso de grande escassez de material de plantio, faça a conservação por um periodo de até 60 dias antes do plantio.
Procure um local próximo do novo plantio, revolva a terra, arrume o material no sentido vertical (em pé) com as pontas para cima, e enterre a base (5 a 10 cm).O local deve ser fresco e protegido de ventos frios e quentes e também do sol.
Bom mesmo é reservar uma pequena parte (20% da lavoura) do mandiocal ou realizar a colheita na época do novo plantio.
Espaçamento
Não plante de qualquer maneira. Plante em linhas e coloque as manivas com as gemas ou olho na mesma direção.
Para definir um espaçamento adequado no plantio da mandioca, devem-se considerar alguns fatores, tais como fertilidade do solo, práticas culturais, variedade utilizada e finalidade da lavoura, consideradas a seguir:
Fertilidade do solo
Nos solos férteis ou bem adubados, indica-se um espaçamento maior, variando de 1,00 m entre fileiras por 0,80 a 1,00m entre plantas, pois as mesmas apresentam-se mais desenvolvidas e necessitam de uma maior área de exploração.
Nos terrenos fracos (de baixa fertilidade) usar espaçamentos de 0,80 a 1,00m entre fileiras e de 0,60 a 0,80m entre plantas, proporcionando uma maior população, compensando com um maior número de plantas, a menor produção por planta naquela área.
Práticas culturais
O espaçamento apresenta variações de acordo com o tipo de prática cultural que será utilizada, permitindo a livre movimentação dos equipamentos sem danificar as plantas. Nas grandes lavouras as capinas são mecanizadas e nas pequenas lavouras, onde as capinas são executadas com o auxilio de enxada, podem ser estabelecidos espaçamentos mais reduzidos.
Variedade utilizada
O tipo de crescimento (porte alto ou baixo, sem ramificação ou ramificada) da variedade utilizada, altera o espaçamento. As variedades de porte alto e as que apresentam muita ramificação necessitam de um espaçamento maior.
Finalidade da lavoura
A finalidade da lavoura interfere na distância entre as plantas. Os cultivos destinados à produção para consumo humano (variedades de mesa), requerem um espaçamento menor, pois as raízes apresentam desenvolvimento mais uniforme, enquanto as lavouras destinadas à produção de raízes para as indústrias de transformação exigem espaçamentos maiores para proporcionar maior desenvolvimento das raízes.
Quando o objetivo principal for a produção de hastes e folhagem para uso forrageiro, os espaçamentos devem ser reduzidos, podendo chegar até 0,50 m entre as filas.
Época de plantio
Plante as manivas no início da estação chuvosa (abril), na mesma época do feijão e do milho. Bom mesmo é quando ocorrem chuvas pelo menos nos quatro meses depois do plantio.
Variedades
Qual o melhor tipo de mandioca para plantar?
No Brasil existem muitos tipos de mandioca, acima de 3.000 variedades. Na Região do Território do Semiárido Nordeste II são utilizadas poucas variedades, sendo as mais comuns a “Alagoana” e a “Cria Menino”.
A Embrapa Mandioca e Fruticultura, a Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola, a Secretaria de Desenvolvimento e Integração Regional – SEDIR, Grupos Comunitários, Associações e Sindicatos Rurais vêm introduzindo novas variedades de mandioca na região e realizando testes para verificar o comportamento das mesmas com relação à produção de raízes, farinha e goma, duração do ciclo e resistência à seca , para que se tenha a opção de novas variedades, que possam ser introduzidas nos sistemas de produção do território.
A demanda por novas variedades de mandioca vem crescendo à medida que surgem novas alternativas de uso do produto, bem como pela expansão de novas fronteiras agrícolas, em que se utiliza outros solos, varia a quantidade de chuvas e altera a altitude, entre outros.
Não plante uma só variedade ou tipo de mandioca, escolha as três ou quatro melhores e plante cada uma em talhões separados (sem mistura).
Plantio
As formas de plantio de mandioca variam de acordo com o tipo de solo, tamanho da lavoura, finalidade do cultivo, disponibilidade de máquinas e equipamentos, mão-de-obra e recursos financeiros.
O sistema mais recomendado consiste em fazer o plantio em sulcos de aproximadamente 10 cm de profundidade, em solo arado e gradeado com as manivas colocadas horizontalmente (deitadas, com “olho” para um mesmo lado).
Nas pequenas lavouras, o plantio é feito em “cova rasa” (buraco feito a enxada), ou ainda em covetas (montículos de terra afofados a enxada). Em solos muito úmidos ou sujeitos a encharcamentos, recomenda-se plantar em covas altas, camalhões e leirões.
A demanda por novas variedades de mandioca vem crescendo à medida que surgem novas alternativas de uso do produto, bem como pela expansão de novas fronteiras agrícolas, em que se utiliza outros solos, varia a quantidade de chuvas e altera a altitude, entre outros.
Não plante uma só variedade ou tipo de mandioca, escolha as três ou quatro melhores e plante cada uma em talhões separados (sem mistura).
2 Tratos Culturais
Os tratos culturais, quando bem executados e na época correta, criam condições para que a cultura se estabeleça o mais rápido possível, proporcionando maior produtividade e melhor qualidade do produto colhido.
Faça o controle das plantas invasoras
Um dos fatores que mais contribuem para a queda da produtividade de um mandiocal é a ocorrência de competição das invasoras por luz,água e nutrientes do solo. O mato interfere na lavoura e, dependendo do tempo de convivência, a produção poderá ser reduzida em até 90%.
Em condições normais, a mandioca é sensível à competição do mato, principalmente nos primeiros quatro a cinco meses após o plantio. Portanto, nos primeiros 100 dias do ciclo de vida, a lavoura deve estar livre da concorrência do mato.O método mecânico consiste na eliminação do mato através do arranquio manual, capina com enxada e a roçada.
O controle químico é feito com o uso de produtos químicos, denominados herbicidas. Nesse controle, deve-se seguir rigorosamente a recomendação dos técnicos e a bula dos agroquímicos. Deve ser utilizado quando estritamente necessário.
O controle integrado consiste na combinação dos métodos disponíveis, para a maximização dos resultados. Nesse sistema, prevê-se o uso de plantas de cobertura, como leguminosas, principalmente em plantios consorciados.
Faça a amontoa
A amontoa consiste em chegar terra para junto das plantas durante as capinas, com auxílio da enxada. Essa operação também pode ser realizada durante o repasse a enxada, quando a capina é realizada com o cultivador. É importante para não prejudicar a produtividade e manter a qualidade das raízes.
Faça a adubação em cobertura
Quando a análise química do solo indicar a necessidade do uso de adubos nitrogenados e / ou potássicos, fazer a aplicação dos mesmos dos 45 aos 60 dias após a brotação das plantas, quando o solo apresentar umidade adequada.
Pragas associadas ao cultivo da mandioca e seu controle
Existe um grande número de ácaros e insetos que atacam a cultura da mandioca, reduzindo a produção e a qualidade das raízes, e do material de propagação procedentes de plantas atacadas.
Os ácaros e insetos que atacam a cultura da mandioca são classificados em:
- localizados na superfície dos caules e folhas;
- localizados dentro do caule;
- localizados no solo.
As pragas que ocorrem comumente na cultura da mandioca são: mandarová, ácaros, percevejo de renda, mosca branca, mosca do broto, broca do caule, cupins e formigas.
O controle dos insetos e ácaros que atacam a mandioca pode ser feito mediante o uso de inimigos naturais, armadilhas luminosas, variedades resistentes ou tolerantes, controle biológico e cultural, destruição das plantas hospedeiras e dos restos de culturas, inspeções periódicas e por meio da seleção do material de plantio. Não é aconselhável o uso de produtos químicos, para evitar a eliminação dos inimigos naturais, além de seu uso contínuo ser dispendioso e oferecer risco para a saúde humana e ao ambiente.
O uso de inseticidas somente deve ser feito quando forem atingidas altas populações da praga.
Doenças associadas ao cultivo da mandioca e seu controle
A mandioca é atacada por vários patógenos (sistêmicos, localizados e do solo), que induzem podridões internas ou externas e/ou cancros corticais ou epidérmicos; outros invadem os tecidos lenhosos do caule sem, contudo, provocar sintomas visíveis.
Dentre as doenças presentes na cultura da mandioca, destacam-se como mais importantes: podridão radicular, bacteriose, antracnose, superalongamento, super brotamento e viroses, responsáveis por enormes prejuízos econômicos.
O controle das doenças pode ser feito adotando medidas preventivas, como evitar a introdução de material de plantio obtido em áreas afetadas, utilizar variedades tolerantes associadas a práticas culturais, como rotação de culturas, manejo físico e químico do solo, sistemas de cultivo, além da adequação da época de plantio e seleção rigorosa do material propagativo.
Colheita
A colheita da mandioca é primordialmente manual e/ou com o auxilio de ferramentas, embora já existam implementos mecanizados. É uma das operações mais caras do sistema de produção da mandioca.
Durante a colheita são consideradas as etapas: poda da parte aérea (dispensável em alguns casos) a uma altura de 20 cm acima do nível do terreno, seguida do arranquio e despencamento das raízes e, finalmente, o transporte das raízes para as unidades de beneficiamento.
Na Região do Território do Semiárido Nordeste II, a colheita ocorre normalmente quando as plantas já completaram o ciclo, entre 18 e 24 meses após o plantio.
Após o arranquio ou colheita, as raízes são amontoadas em pontos na área, a fim de facilitar o recolhimento, devendo-se evitar que permaneçam no campo por mais de 24 horas entre a colheita e o processamento, para evitar que estraguem.
A colheita deve ser planejada de acordo com o tamanho da área plantada e o destino da produção, a fim de evitar acúmulo e perdas de raízes.Por ocasião da colheita é importante deixar uma parte da lavoura (20%) para ser colhida ou podada por ocasião do novo plantio.
Pós-colheiita e processamento
A colheita das raízes é um ponto importante do processamento. As raízes devem ser cortadas junto ao pedúnculo, não devem sofrer machucaduras e, o mais importante, devem ser transportadas para o processamento o mais rápido possível, evitando a incidência direta do sol e do vento.
A grande maioria das unidades de processamento, em uso na Região do Território do Semiárido Nordeste II, não possui condições de competir com unidades mais tecnificadas, pois, além de inadequadas, existe em número reduzido, o que faz do cultivo da mandioca uma atividade de baixa rentabilidade. O processamento é quase totalmente dirigido para a produção de farinha de mesa, que é o produto tradicionalmente consumido. A extração de goma ocorre em escala inferior, utilizando processo rústico. A produção de beijus, biscoitos e outros produtos semelhantes é quase inexistente.