Educação Infantil e as Práticas de Cuidar e Educar no Contexto das Políticas Educacionais

Cuidador Infantil

1 A formação dos profissionais de educação infantil:

No Brasil a formação de professores para os primeiros anos da educação básica era realizada nos cursos de formação de nível médio, antigo curso normal que com a Lei 5.692/71 passa a ser chamado de habilitação para o magistério e no nível superior no curso de pedagogia. As primeiras iniciativas de formação de professora de criança pequena podem ser observadas nos pareceres de Rui Barbosa, em 1882. Nos anos 50 surgem seis cursos de pedagogia com formação para a educação pré-escolar.

A Lei 5.692/71 criou a Habilitação para o Magistério, entre elas magistério em pré-escolas, escolas maternais e jardins de infância.

As instituições de educação infantil durante a história, tiveram dupla trajetória: os jardins de infância, mais tarde chamados de pré-primário e pré-escolar, davam ênfase ao aspecto educacional, sendo destinado para as crianças ricas, com métodos e atividades pedagógicas, voltadas para o desenvolvimento social, cognitivo e outras habilidades, já as instituição denominadas como creches e escolas maternais era enfatizado a guarda, a alimentação, cuidados com a saúde, higiene e formação de hábitos de bom comportamento na sociedade, sendo destinada pra as crianças pobres e abandonadas.

Para as creches o profissional vinha das áreas da saúde e assistência, em geral eram dirigidas por médicos ou assistentes sociais (ou irmãs de caridade), contavam com educadoras leigas ou auxiliares das quais eram requeridos conhecimentos nas áreas de saúde, higiene e puericultura. E nos jardins de infância o profissional era o professor, destinado à tarefa de educar e socializar os pequenos.

Na Década de 80 retomou-se a discussão sobre creches e a elaboração de proposta pedagógicas que rompe-se com o assistencialismo e passa-se a enfatizar o desenvolvimento cognitivo das crianças. Ainda nos anos 80, os cursos de pedagogia passam a ter dentre suas habilitações a formação para a pré-escola.

Em MS, segundo pesquisas, realizadas por Silva, a formação de profissionais para a educação das crianças pequenas, era atendida por curso de formação em serviço, projetos de extensão universitária, cursos promovidos por instituições como pela Organização Mundial pra a Educação Pré-Escolar (OMEP), pela Legião Brasileira de Assistência (LBA) e por outras entidades, além dos manuais elaborados e divulgados pelo Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL) e por várias publicações do Fundo das Nações Unidas pra a Infância (UNICEF).

Nos anos 70 a Secretaria Estadual de Educação de Mato Grosso ofereceu cursos de formação para professoras que trabalham na casa Escola Infantil do Bom Senso, que foi a primeira iniciativa pública para as crianças de quatro a seis anos.

Um segundo tipo de formação foram os cursos do Programa de atendimento ao Pré-escolar (PROAPE), visando complementar uma proposta pedagógica para a pré-escola, baseado na teoria piagetiana. Outro tipo de formação oferecida foram os cursos da OMEP que capacitava as professoras para atuar na pré-escola até o início dos anos 90, com o reconhecimento da Legislação do Conselho Estadual de Educação de Mato Grosso do Sul.

Segundo a Política Nacional de Educação Infantil, o adulto que atua na área de educação deve ser reconhecido como profissional, requerendo a valorização no que respeita ás condições de trabalho, plano de carreira, remuneração e formação, sendo que “condições deverão ser criadas para que os profissionais de educação infantil que não possuam a qualificação mínima, de nível médio, obtenham-na no prazo máximo de 8 (oito) anos”

Após a LDB de 1996 alguns cursos de pedagogia passam a se ocupar da formação de profissionais para a educação infantil, incluindo as crianças de 0 a 6 anos, situando-a como primeira etapa da Educação Básica (Art.24). Ela caracteriza o professor, como docente, cuja formação se fará em nível superior, admitindo-se como formação mínima a oferecida em nível de ensino médio- modalidade Normal (Art.62).

Nas disposições transitórias determina que até o fim da década da Educação somente serão admitidos professores habilitados em nível superior ou formados por treinamento em serviço. 

Notamos que na Educação Infantil, em especial creche estão inseridas duas profissionais com formações distintas num mesmo espaço (sala de atendimento), para a atendente é exigida apenas que ela desenvolva ações de cuidados, nenhum curso a qualifica para as funções que ela terá que desempenhar, em relação ao grau de escolaridade destas notamos que diante dos dados apresentados algumas possuem nível fundamental incompleto. Para a professora é exigido formação em nível superior, no entanto não sabemos de que forma o cuidar e educar são contemplados em sua formação.

O professor de educação infantil ao adentrar no espaço da creche acaba entrando em conflito ou não com um profissional que já estava ali, um profissional cuja força de trabalho é muito mais barata. No entanto o que vemos é que ambas cuidam do seu próprio trabalho sem se preocupar em desenvolver uma ação conjunta, a própria hierarquia de funções impede que uma se interesse pelo trabalho que é desenvolvido pela outra.

2 As práticas de cuidar e educar diante dos documentos:

A LDB de 1996 trouxe um fato novo ao colocar a educação infantil (creche e pré-escola) como a primeira etapa da educação básica, começa a ficar visível nos documentos posteriores a ênfase na integração do cuidar e educar. A creche que antes estava sobre a responsabilidade da secretaria de Assistência passa para o setor educacional.

O Referencial Curricular Nacional para a educação infantil, criado em 1998, pelo Ministério da Educação, propõe a indissociabilidade das ações de cuidar e educar crianças de 0 a 6 anos idade, sem hierarquizar os profissionais ou a instituição que atuam com as crianças pequenas.

“(...) propiciar situações de cuidados, brincadeiras e aprendizagens orientadas de forma integrada e que possam contribuir para o desenvolvimento das capacidades infantis de relação interpessoal, de ser e estar com os outros em uma atitude básica de aceitação, respeito e confiança, e o acesso, a educação poderá auxiliar o desenvolvimento das capacidades de apropriação e conhecimento das potencialidades corporais, afetivas, emocionais, estéticas, na perspectiva de contribuir para a formação de crianças felizes e saudáveis.”

“(...) parte integrante da educação, embora exigir conhecimentos, habilidades e instrumentos que extrapolam a dimensão pedagógica, ou seja, cuidar de uma criança em um contexto educativo demanda integração de vários campos de conhecimentos e a cooperação de profissionais de diferentes áreas.”

O desenvolvimento integral depende tanto dos cuidados relacionais, que envolvem a dimensão afetiva e dos cuidados com os aspectos biológicos do corpo, como a qualidade da alimentação e dos cuidados com a saúde, quanto da forma como esses cuidados são oferecidos e das oportunidades de acesso a conhecimentos variados. “Para cuidar é preciso antes de tudo estar comprometido com o outro, com sua singularidade, ser solidário com suas necessidades, confiando em suas capacidades. Disso depende a construção de um vínculo entre quem cuida e quem é cuidado”.

Assim, o cuidar deixa de ter uma conotação assistencialista e pode adquirir um caráter educativo se for visto como um momento privilegiado de interação entre criança-criança e criança-adulto, ao mesmo tempo em que o ato de educar perde aquele caráter exclusivamente escolar, com a preocupação exacerbada com o intelecto.

Podemos também observar a questão do cuidar e educar nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil:

“As instituições de Educação Infantil devem definir em suas propostas pedagógicas, práticas de educação e cuidados, que possibilitem a integração entre os aspectos físicos, emocionais, afetivos, cognitivos/lingüísticos e sociais da criança, entendendo que ela é um ser completo, total e indivisível.”(Resolução nº022/98, artigo 3º inciso III).

Nesses documentos podemos notar a proposta de integração entre o cuidar e o educar na Educação Infantil, no entanto não é mencionado que as práticas dos dois profissionais devem caminhar juntas, ou que devam partir de uma mesma proposta educativa.

O cuidar e o educar de crianças de 0 a 6 anos envolve uma visão integrada de desenvolvimento da criança, dessa forma, os profissionais que trabalham com a criança pequena devem tomar precações para que suas práticas não se transformem em ações mecanizadas, guiadas por regras. O cuidar e o educar são duas práticas que devem caminhar de maneira indissociável, possibilitando que ambas as ações construam na totalidade, a identidade e autonomia da criança.

A ação conjunta dos educadores e demais membros da equipe da instituição é essencial para garantir que o cuidar e o educar aconteçam de forma integrada. Essa atitude deve ser contemplada desde o planejamento educacional até a realização das atividades em si. “A creche é o espaço do cuidado e da educação indissociados e indissociáveis. O cuidado e a educação, são na esfera pública, o direito à educação para as crianças de 0 a 6 anos.”