Modernização do artesanato

Artesanato

1 Introdução

A adequação do artesanato às mudanças tecnológicas, ou às expectativas de consumo, não são modos de descaracterizar o trabalho ou afasta-lo de sua pureza original, como pensam alguns. Embora estes argumentos tenham em sua essência uma boa intenção, são em grande medida fruto apenas de uma preocupação protetora com a cultura popular, porém ingênuos no sentido de acreditar ser possível preservar os artesãos e artistas populares das influências do mercado e de um meio em permanente e contínua mudança. Querer restringir o acesso do artesão às novas tecnologias (que são quaisquer ferramentas ou processos de produção e não apenas as de ponta, como se acredita erroneamente), não implica em acabar com o artesanato autêntico, pois a autenticidade está na forma singular que cada artista ou artesão vê o mundo ao seu redor e consegue representa-lo ou expressar suas sentimentos ou emoções.

 

Uma nova ferramenta pode, no máximo, melhorar o desempenho da atividade realizada, facilitar a execução de uma tarefa, porém nunca fazer com que o homem mude sua forma de pensar. Contudo, a incorporação de uma nova ferramenta, de um novo modo de produzir, ou de um novo material, deve vir precedida de uma reflexão sobre os ganhos que esta mudança poderá trazer, sobretudo na melhoria real do resultado econômico.

 

As pessoas e instituições que lidam com programas e projetos de apoio ao artesanato, colocam quase sempre, sob a mesma denominação, e conseqüentemente sob as mesmas estratégias, produtos tão dispares quanto podem ser peças exclusivas de arte popular com pequenos souvenires semi-industrializados. Este equívoco pode acarretar uma série de conseqüências dentre elas uma perda da visão da multiplicidade cultural e étnica do artesanato. Produtos de diferentes origens são transformados em “curiosidades”, sem que, ao menos, seja explicada sua origem ou sua função dentro da cultura da qual provêem. Sem a pretensão de esgotar as possibilidades de divisão analítica do artesanato propomos utilizando dois critérios apenas: importância cultural e escala de produção, agrupá-los em nove categorias, permitindo deste modo diferenciar as ações de promoção e apoio que forem projetadas.

Neste processo vamos observar que quanto menor é a escala de produção, tendendo às peças únicas ou exclusivas seu valor nominal econômico tende a ser maior, valor este que eleva-se ainda mais quanto maior for seu valor cultural. Deste modo, o direcionamento das políticas artesanais deve considerar as especificidades do produtos com a capacidade econômica dos consumidores visados.

Arte popular

Conceituar a arte popular não é uma tarefa fácil sobretudo em espaço tão reduzido, porém apenas com o intuito de diferenciá-la do artesanato propõe-se como sendo: ...”o conjunto de atividades poéticas, musicais, plásticas e expressivas, que configuram o modo de ser e de viver daquela parcela da população de menor grau de instrução formal e distanciada do acesso (tanto física quanto econômica) aos bens e serviços ofertados pela sociedade industrial e urbana “. A arte popular diferencia-se do artesanato a partir do propósito de ambas atividades. Enquanto o artista tem profundo compromisso com a originalidade, para o artesão esta é uma situação meramente eventual. O artista necessita dominar a matéria como o faz o artesão, mas está livre da ação repetitiva frente a um modelo ou protótipo escolhido, partindo sempre para fazer algo que seja de sua própria invenção.

Já o artesão quando encontra e elege um modelo que o satisfaz, enquanto solução e forma, inicia um processo de multiplicação fazendo cópias da matriz original, obedecendo um padrão de trabalho que é a afirmação de sua capacidade de expressão. A segunda diferença fundamental é a contemporaneidade da obra de arte, atributo este não exigido do artesanato, e mesmo ao contrário, muitas vezes rechaçado. A obra de arte é peça única, tomada como referência (arquétipo) a ser reproduzida como artesanato.

Artesanato indígena

O artesanato indígena, em sua maioria, é resultante de uma produção coletiva, incorporada ao cotidiano da vida tribal, que prescinde da figura do artista ou do autor. Em alguns casos este artesanato obedece a uma certa lógica e divisão de trabalho, onde as peças são feitas por duas ou mais pessoas, com clara separação das atribuições em função da experiência e habilidade individual. Este tipo de produção coletiva é que dá ao artesanato indígena uma característica bastante própria, eliminando a figura do “mestre-artesão” cuja existência interessa mais às exigências do marketing em nomear autorias e criar ícones. O artesanato indígena surge com fins muitos específicos sejam estes utilitários (instrumentos de caça e pesca, balaios, cestos e cerâmicas para preparação de alimentos) seja com fins ritualísticos (bancos, cocares, vestimentas, adornos) ou ainda com finalidade lúdica (animais), porém todos eles consoantes com um modo de vida social.

A transposição do artesanato indígena para uma finalidade decorativa de um grupo social e cultural totalmente estranho se justifica como curiosidade étnica e antropológica, (e como forma de ganhos econômicos para os índios) porém sem que esta sociedade de consumo exercite qualquer tipo de pressão para adequar este artesanato às suas exigências formais e estéticas.

Artesanato Tradicional

O artesanato popular tradicional é majoritariamente baseado na produção familiar ou de pequenos grupos vizinhos, o que possibilita e favorece a continuação de técnicas, processos e desenhos originais, expressivos da cultura local e representativos de suas tradições. Sua importância e valor cultural decorre do fato de ser depositária de um passado, de acompanhar histórias transmitidas de geração em geração, de fazer parte integrante e indissociável dos usos e costumes de um determinado grupo social. O fato de ser uma produção de pequenos grupos não restringe este tipo de artesanato somente ao âmbito da família, necessitando para que se viabilize, do trabalho de pessoas alheias ao círculo familiar, desde aqueles que se ocupam da obtenção da matéria prima aos que realizam a comercialização.

O artesanato tradicional geralmente pouco inova em termos formais ou nos processos de produção e refletem muitas vezes um certo tipo de organização social. Muitas vezes denominado artesanato étnico pois sintetiza traços de uma cultura particular, normalmente oriunda de outros países e regiões, que ao se estabelecerem no território preservaram seu usos e costumes mais típicos. Este artesanato é também considerado, por seu valor cultural, uma tecnologia patrimonial, ou seja faz parte da riqueza da nação.

Artesanato conceitual

A partir da década de sessenta, começam a florescer nos centros urbanos, junto ao movimento “hippie” um artesanato produzido por indivíduos com algum tipo de formação artística e de nível educacional e cultural mais elevado. Esta produção surge como forma de substituir produtos industrializados por produtos mais naturais, porém também como discurso de reafirmação de uma opção de vida, menos estressante e mais ligada à natureza. Configuram uma extensa gama de produtos que se utilizam de conhecimentos tradicionais e materiais diversos, mas que por não serem atividades tradicionais, não necessitam se limitar a formas e produtos já conhecidos, surgindo diversos artefatos interessantes e inovadores, que têm um caráter artesanal, pois são trabalhos feitos à mão, e preservam a “aura” de produto único, apesar de serem geralmente feitos em pequenas séries.

Atualmente este tipo de artesanato urbano e contemporâneo, encontra espaço nas lojas alternativas, esotéricas ou de decoração,. A maioria dos produtos são orientados ao consumo, obedecendo aos processos de sazonalidade e tangenciais aos fenômenos de moda e estilos dominantes.

Em geral são dotados de um discurso crítico, muitas vezes explícitos através dos sistemas de promoção utilizados, sobretudo aqueles ligados ao movimento ecológico.

Artesanato de Referência cultural

O artesanato de referência cultural é em geral aquele resultante de uma intervenção planejada de artistas e designers, em parceria com os artesãos, com o objetivo de diversificar os produtos porém preservando seus traços culturais mais representativos. São em geral produtos de forte personalidade formal, organizados em coleções ou famílias, atendendo demandas identificadas de mercado.

Utilizam-se de uma iconografia (símbolos e imagens) típicas da região onde são produzidos, assim como, das técnicas de elaboração tradicionais, quando muito, acrescidas de certas inovações tecnológicas apenas com o objetivo de dinamizar sua produção sem contudo descaracteriza-los.

Os produtos de referência cultural, são portadores de uma história singular, autêntica, que ao ser contada torna-se em seu maior valor agregado. Sua forma final, as cores que utiliza, os elementos gráficos e visuais que os distingue, nada é gratuito e desprovido de significado. Constituem-se, em sua maioria, de exemplos de intervenções bem sucedidas, geradoras de trabalho e renda, impulsionadoras de uma produção local comprometida com sua cultura e com suas origens.

2 Produtos típicos

Os produtos típicos, são em geral, os alimentos processados segundo métodos tradicionais, em pequena escala, muitas vezes a nível familiar por um determinado grupo social. Fazem parte das tradições culturais, principalmente dos imigrantes, que ao estabelecerem-se em solo brasileiro procuraram reproduzir, porém adaptando as condições locais, seus produtos mais demandados, cuja qualidade os diferenciam de possíveis similares locais.

Estes produtos transformaram-se assim em um modo eficaz de incremento da renda familiar, sendo explorados como autênticos representantes de uma determinada região, utilizando-se os canais de comercialização direcionados principalmente ao turismo.

Como exemplos temos os licores, vinhos, geléias, compotas, mel , chocolate, farinhas, cachaça, doces cristalizados, frutas desidratadas, entre tantos outros.

Para o artesanato estes produtos colaboram para compor um “Mix” de mercado, ou seja um conjunto de produtos que se complementam, um apoiando a divulgação do outro. Suas embalagens, rótulos e etiquetas, são por sua vez elementos de produção artesanal enraizados na cultura que representam, merecendo por si só, uma análise e apreciação específica.

Artesanato doméstico

O artesanato doméstico difere das demais categorias tendo em vista seu caráter de trabalho manual descomprometido com relação a prazos, volume de produção, ajuste à demanda, e outros requisitos que uma produção artesanal estabelecida deve considerar.

São em geral produtos resultantes da utilização de tempo ocioso, como atividade ocupacional, ou como complemento ocasional de renda familiar.

Seu valor enquanto mercadoria é a expectativa compensatória da habilidade e paciência de quem o executa, não estando relacionados a aspectos culturais relevantes. Ao contrário, são em geral produtos de uma estética ingênua, que utilizam-se de moldes e padrões veiculados por revistas dedicadas aos trabalhos manuais, aprendidos em cursos rápidos de vizinhança ou até mesmo oferecidos pelos fabricantes de linhas, tintas e insumos.

Constituem-se em geral de peças para enxoval de bebês ou de noivas, roupas de crianças, bonecas e brinquedos, pequenos objetos de decoração, entre outros. Algumas vezes este tipo de artesanato configura-se como uma produção terceirizada de grandes comerciantes de peças acabadas que se utilizam de rendas e bordados como elemento de diferenciação comercial.

Artesanato utilitário

Provavelmente o maior número de produtos artesanais encontra-se nesta categoria de utilitários, desconhecendo os limites impostos pela fronteiras regionais, culturais ou limitações dos materiais. O artesanato produzido para satisfazer as necessidades de “lavor” dos homens, seja no trabalho no campo, seja na atividade doméstica, constituem-se em sua essência na resposta de um meio carente à falta de acesso ao produto industrial.

Ferramentas, utensílios, “contenedores”, assim como incontáveis produtos desprovidos de qualquer preocupação estética, produzidos apenas para atender necessidades, conforma este universo material. Peças únicas em sua simplicidade formal, singulares em sua funcionalidade, cujo valor é determinado em função de sua importância social.

Estão presentes em todas as feiras de qualquer cidade do interior, de qualquer estado brasileiro. São tão familiares, corriqueiros, que somente despertam atenção daqueles que naquele momento deles necessitam.

Sua produção utiliza-se, em geral, de técnicas rudimentares, pré-capitalistas, porém dentro de uma escala de produção que a viabiliza economicamente.

Artesanato em grande escala

Coexistindo no mesmo espaço comercial do artesanato existem, nos mercados e lojas populares, uma infinidade de pequenos produtos, muitos fabricados por indústrias estabelecidas, que no entanto são comercializados e comprados como se fossem artesanato. São em geral lembranças destinadas aos turistas de baixo poder aquisitivo, recordações de viagens ou “souvenires” religiosos ou místicos, tais como imagens de santos e padroeiros, terços, velas, fitas,etc.

Um exemplo excepcional de um produto existente nesta tênue fronteira entre artesanato e indústria são os balangandãs utilizados pelas baianas tradicionais em ocasiões festivas, cuja riqueza de detalhes, a qualidade dos materiais utilizados, e o forte apelo simbólico o colocam com destaque no acervo da cultura material brasileira.

 

A característica predominante neste tipo de artesanato de grande escala, diferentemente do exemplo acima, apresentado como uma exceção à regra, é seu baixo custo de produção e de venda e a saturação de mercado.

Os fatores de equilíbrio, clareza e harmonia, constituem para todos os seres humanos uma necessidade, embora na maioria das vezes as pessoas não se dêem conta. Este fatores devem estar presentes tanto em um ambiente quanto em uma obra de arte ou em uma peça de artesanato.

Deste modo qualquer indivíduo que se encarregue de conceber, projetar ou realizar um objeto que venha de encontro às necessidades de seus semelhantes deverá estabelecer uma “ordem” nas formas, imagens, cores e demais elementos que utilize, respeitando, evidentemente, os padrões culturais, estilos e demais elementos que relacionem este objeto a seu contexto de produção e de uso.

Estas regras ou normas, são resultantes de inúmeras pesquisas desenvolvidas, desde o final do século dezenove, pela Escola de Psicologia Experimental que estuda o fenômeno da percepção nos seres humanos.

Com o intuito de evidenciar a importância destes elementos, que irão definir finalmente a característica predominante de um determinado objeto, são apresentados a seguir alguns exemplos.

Equilíbrio

De acordo com as leis da física o equilíbrio é o estado no qual as forças, agindo sobre um determinado corpo, compensam-se mutuamente. O equilíbrio, tanto físico como visual, é obtido quando todos os elementos presentes na composição parecem ter chegado a uma situação de estabilidade ou de repouso, onde nenhuma outra alteração parece possível. O equilíbrio pode ser facilmente obtido em formas ou composições simétricas, onde um lado da forma ou figura, é igual ou semelhante ao seu lado oposto.

Entretanto, formas assimétricas podem também apresentar grande equilíbrio, que quando obtido valorizam o objeto ou composição do ponto de vista estético.

Peso e direção são também propriedades que determinam o equilíbrio de um objeto por seu efeito dinâmico. Tanto um quanto o outro são definidos por centros de atração que puxam a atenção de quem observa o objeto ou a imagem.

Em oposição ao equilíbrio está o desequilíbrio que transmite para o observador a sensação de estar diante de algo instável, transitório, provisório, precário ou acidental. Quando trabalhada de forma proposital e bem sucedida um objeto ou composição em desequilíbrio pode surpreender, provocar e chamar a atenção das pessoas positivamente.

Clareza

A clareza de uma forma ou composição está diretamente relacionada à luminosidade, brilho, cor, contraste, proporção e escala que caracterizam seus vários elementos. Pela presença ou ausência de luz, do claro/ escuro, é possível determinar o volume e dimensões de um objeto, realçar ou esconder detalhes, evidenciar ou camuflar qualidades ou defeitos. Brilho e opacidade são elementos complementares deste processos e relacionam-se muitas vezes com aspectos puramente simbólicos e subjetivos. Brilho pode ser exuberância e a opacidade discrição.

O contraste, ou seja a oposição entre claro e escuro, entre grande e pequeno, entre forças e qualidades opostas, é um dos elementos mais contundentes para atrair a atenção do observador, podendo inclusive dramatizar significados. Do mesmo modo, a cor é um dos elementos mais fortes do processo visual. As cores, dependendo do modo como são organizadas podem mudar radicalmente a compreensão e leitura de um objeto ou mensagem. As cores, em sua maioria, possuem um significado universalmente compartilhado, podendo ser explorada com finalidades simbólicas, funcionais, psicológicas, mercadológicas, entre outras.

A clareza pode também estar relacionada à mensagem ou conteúdo expressivo que se deseja revelar. Clareza de propósitos, de funções e de usos. Evidenciar um uso é uma das maiores qualidades de um objeto funcional.

Harmonia

A harmonia é a perfeita organização das partes em um todo coerente, onde predomina a ordem e a regularidade, possibilitando uma visão ou leitura simples, clara e compreensível do objeto ou de sua mensagem. A ordem existe quando estão ausentes as incongruências, as ambiguidades e os conflitos entre forma, uso, conteúdo, linguagens, imagens e significados.

Em síntese, a harmonia existe quando existe convergência entre aquilo que é com aquilo que é visto ou sentido.

Por oposição a desarmonia existe na ausência das qualidades acima descritas em um objeto ou mensagem. Quando o resultado obtido é uma desarticulação entre as partes de um todo perdendo-se o sentido de unidade . A desarmonia é caracterizada também pelo excesso, pela profusão de elementos, pela exageração de referências simbólicas, pela complexidade de mensagens, pela ambigüidade em precisar usos e funções, pela falta de sutileza no tratamento das imagens, pelo peso excessivo, pelo ruído e poluição visual.

Um mesmo produto pode se transformar totalmente aos olhos de quem o observa pela simples alteração da textura de sua superfície ou pela modificação de sua cor predominante.

O uso das cores, isoladamente, já permite definir uma série de características do produto e transmitir uma série de sensações. Por exemplo as cores amarelo, laranja, vermelho, rosa, marrom transmitem sensação de calidez, por isto são chamadas de cores quentes. Do mesmo modo o azul, o lilás, o verde, o roxo são cores frias, que parecem aumentar a distância entre o objeto e quem o observa.

Geralmente os esquemas de cores encontrados nos produtos artesanais podem se dividir em três grupos:

  • Combinações monocromáticas, que utilizam somente uma cor (um segmento do círculo cromático) variando somente sua intensidade (tons mais claros ou mais escuros);
  • Combinações semelhantes, é o de combinar cores vizinhas no círculo cromático. Nestes esquemas predominantes o segredo é o uso de detalhes em cores opostas ( frias ou quentes)
  • Combinações complementares, consiste em utilizar cores diametralmente opostas do círculo cromático (uso simultâneo de cores quentes e frias)

Não existem dois lugares iguais no mundo, como não existem duas pessoas iguais. Como diria o poeta Carlos Drummond de Andrade o homem não consegue sequer ser igual a si mesmo duas horas depois. Estas diferenças é o que nós chamamos de identidade. A identidade de uma grupo social é determinada pelo conjunto de símbolos, signos, códigos, normas, objetos, costumes, ritos e mitos aceitos e praticados coletivamente.

São estes elementos únicos que dão sentido ao artesanato e indicam para o artesão seu lugar no mundo. São estas referências os atributos valorizados por uma mercado globalizado ávido por produtos diferenciados.

A saudável busca pela renovação do artesanato não pode se transformar em uma busca inútil de encontrar uma estética global e nem tentar decodificar ou interpretar o o gosto alheio. Deve sim, colocar em evidência, resgatar e valorizar, os elementos mais comuns e típicos de seu entorno. Deve utilizar as cores de sua paisagem, suas imagens prediletas, sua fauna e flora, retratar os tipos humanos e seus costumes mais singulares, utilizar as matérias primas que estão mais próximas e as técnicas que foram passadas de geração em geração porém, e sempre que possível, buscando maior eficiência.

Renovação criativa de produtos

Até alguns anos atrás os produtos, fossem eles industriais ou artesanais, podiam durar no mercado muitos anos sem apresentar nenhuma alteração em sua forma, aparência ou função. As mudanças, quando ocorriam, eram lentas e pequenas, pelo temor de afastar o consumidor acostumado àquele tipo de produto. Entretanto, com o avanço tecnológico, com o crescimento das comunicações e com a pressão exercida pela indústria da moda, o ciclo de vida de todos os produtos, está se reduzindo drasticamente. Hoje em dia, é difícil encontrar um produto que dure mais de um ano sem apresentar nenhuma modificação. Automóveis e eletrodomésticos que deveriam durar muitos anos mudam de modelo a cada doze meses. Este mesmo fenômeno acaba por influenciar os consumidores que desejam encontrar também no artesanato esta mesma capacidade de renovação.

O desafio está em conseguir satisfazer esta pressão de demanda de modo criativo, sem descaracterizar os produtos ou se afastar daqueles elementos que exatamente o tornam algo distinto e singular. Ser criativo é criar novos usos, é propor novas formas, é desenvolver novas famílias de produtos, é substituir processos ou matérias primas por outras ecologicamente mais adequadas e mais eficazes.

Novos usos para produtos antigos

A tarefa de renovação periódica da oferta de produtos não deve ser um esforço isolado dos artesãos, envolvidos prioritariamente na atividade produtiva. Para atender às expectativas exigentes dos consumidores é necessário mais que talento e criatividade. É preciso saber buscar e lidar com informação, entender os fenômenos cíclicos e analisar as tendências do mercado. Porém é necessário acima de tudo dominar os processos de desenvolvimento de novos produtos, dentro de uma perspectiva global, que contemple respostas às questões de natureza técnica, econômica, ambiental, social e cultural.

Dentre as diversas possibilidades da renovação de produtos artesanais está a proposição de novos usos para antigos produtos. Alguns exemplos são bastante inspiradores, como a bateia de garimpeiro que vira o chapéu de uma luminária; o chapéu de palha que vira cachepot para vasos; o vasinho de cerâmica que vira embalagem de velas aromáticas, o pega-dedo dos índios que vira sache para bolinhas perfumadas e assim por diante.

O importante é lembrar que a tarefa de criar novos produtos não deve ser fruto do acaso, ou da “inspiração” como acredita a maioria das pessoas. O desenvolvimento de novos produtos é uma atividade sistemática, quase científica, fruto de um esforço cotidiano de profissionais que foram capacitados para este desafio.

3 Artesão profissional e artesão amador

Um artesão preocupado em estar em sintonia com o mercado, com sua produção em constante crescimento, com seus produtos conquistando cada vez consumidores mais satisfeitos e fiéis, deverá se preocupar primeiramente em ser cada vez mais profissional e menos amador.

Muitos diferenciam o profissional do amador entre aquele que tem na atividade seu sustento principal, daquele que apenas a assume de modo casual, sem maiores compromissos, apenas como uma atividade complementar de renda.

O enfoque aqui proposto expõe uma diferença mais profunda e mais sutil. Profissional é aquele que se abstrai do desejo narcisista de agradar a si próprio para tentar satisfazer o desejo de seus clientes. É aquele que estuda e analisa o mercado, atento às mudanças de hábitos, de gostos, de tendências e procura adaptar seu trabalho a estes novos parâmetros sem contudo perder a essência daquilo que faz e que o torna único, diferente e singular. Profissional é aquele que sabe quanto vale seu tempo e cobra a partir disto o seu trabalho e não de acordo com a cara do freguês. Porém é acima de tudo aquele que, tendo orgulho do que faz, se preocupa em ensinar o que aprendeu, deixando às gerações futuras o fruto de seu esforço.