Artesanato
Artesanato
1 Introdução
Para aqueles que têm na atividade artesanal seu sustento principal, definir com palavras aquilo que fazem deve ser provavelmente uma de suas últimas preocupações. A necessidade em definir, conceituar e estabelecer diferenças entre artesanato, arte popular, trabalhos manuais e outras manifestações humanas é muito mais uma preocupação de críticos, acadêmicos e técnicos que necessitam compreender melhor uma prática da qual estão distantes. Os recentes programas e projetos propostos e desenvolvidos, tanto por instituições públicas, no âmbito federal, estadual e municipal, como por instituições privadas, necessitam contudo destes esclarecimentos para melhor situarem suas ações e ajustar os limites de sua intervenção. Portanto, este curso inicia-se com uma tentativa de lançar algumas definições que poderão esclarecer melhor os limites, embora muitas vezes tênues, entre estas distintas formas de expressão.
De acordo com as referências enciclopédicas o termo “artesanato” tem tido, desde seu aparecimento, em fins do século XIX, significações ambíguas, englobando o conjunto de atividades manuais não agrícolas, sem conseguir distinguir o artesão do artista. Estas diferenças serão, mais adiante colocadas em evidência, sobretudo a partir da ótica e do compromisso particular dos verdadeiros atores destes processos.
Durante o Seminário Internacional intitulado “Design Sem Fronteiras” realizado na cidade de Bogotá/Colômbia, em novembro de 1996, do qual participaram toda a cúpula diretiva do Conselho Mundial de Artesanato (WCC) foi proposto por Eduardo Barroso Neto, do Brasil, a seguinte definição: “Podemos compreender como artesanato toda atividade produtiva de objetos e artefatos realizados manualmente, ou com a utilização de meios tradicionais ou rudimentares, com habilidade, destreza, apuro técnico, engenho e arte”
Esta definição pretende apenas colocar em evidência algumas das características do artesanato aceitas pela maioria das pessoas envolvidas com esta atividade, qual seja: o artesanato é essencialmente um trabalho individual, embora a produção de alguns objetos possa exigir a intervenção de várias pessoas durante sua confecção; deve resultar em algum objeto ou artefato novo e fruto da transformação de matérias-primas e em pequena escala (eliminando desta categoria as atividades agropecuárias ou pesqueiras, embora estas sejam, muitas vezes, denominadas de agricultura artesanal e pesca artesanal, em oposição a agricultura e pesca industrial, ou seja em grande escala). Do mesmo modo esta atividade deve revelar uma destreza e habilidade ímpar de quem a produz distanciando-a de uma simples atividade manual, assim como uma engenhosidade nas formas, usos e funções que traduzem a criatividade daqueles que, em seu cotidiano, descobriram soluções apropriadas para seus problemas e necessidades de modo não convencional e inovador.
Deste modo o artesanato difere-se das atividades ditas “manuais” por uma série de aspectos. Em uma das fronteiras mais tênues com o artesanato, uma atividade manual é em geral uma ocupação secundária, utilizando-se o tempo disponível ou ocioso, com o objetivo principal de complementar a renda familiar, enquanto o artesanato é a atividade principal de quem o produz. O principal valor agregado de um produto resultante de uma atividade manual é o tempo e a paciência empregadas em sua confecção, sendo irrelevante ou secundário seu valor cultural. Por ser um trabalho essencialmente repetitivo exige destreza e habilidade porém prescinde de uma capacidade artística e criativa capaz de intervir e alterar cada nova peça executada. Nesta categoria de “manualidades” em geral podemos incluir as roupas de bebê, toalhas, colchas, almofadas com aplicações de rendas e bordados, crochê, tapetes, cestos, caixas, e uma infinidade de pequenos objetos para o lar ou de uso pessoal como acessórios e bijuterias.
Em uma fronteira mais distante com o artesanato, e portanto mais difícil de causar algum tipo de confusão, estão os trabalhos manuais caracterizados como de preparação de matérias-primas direcionados à indústria de transformação, à produção de peças semi-acabadas e à confecção de produtos de baixa complexidade e escasso valor cultural (por ex: o garimpeiro que extrai o mineral sem beneficiá-lo).
O artesanato pode também ser categorizado, em função de suas finalidades, podendo ser de caráter:
1. Utilitário: São em geral ferramentas e utensílios desenvolvidos para suprir carências e necessidades das populações de menor poder aquisitivo, substituindo produtos industriais de valor mais elevado.
2. Conceitual: São objetos cuja finalidade principal é o de externar uma reflexão, discurso ou conceito próprio de quem o produz, seja este um indivíduo ou comunidade. Em geral estes produtos estão ligados à necessidade de auto-afirmação social e cultural de um determinado grupo e por isto mesmo muitas vezes aproximam-se da arte popular e com esta se confundem;
3. Decorativo: são artefatos cuja principal motivação é a busca da beleza, com a finalidade de harmonizar os espaços de convívio.
4. Litúrgico: São produtos de finalidade ritualística destinados a práticas religiosas ou místicas reforçando os sentimentos de fé e de elevação espiritual.
5. Lúdicos: São em geral produtos destinados ao entretenimento de adultos e crianças, intimamente relacionados com as práticas folclóricas e tradicionais, incluindo-se nesta categoria todo tipo de brinquedos populares e instrumentos musicais.
O fenômeno da globalização implicou na abertura econômica dos países à importação indiscriminada de produtos, necessários ou supérfluos, sem distinção de origem ou qualidade, jogando todas as empresas em uma acirrada disputa comercial. Frente a produtos procedentes dos países asiáticos, sempre muito baratos, as indústrias de países como o Brasil, (que dificilmente conseguirá competir na base do preço), têm como opção investir na melhoria qualitativa de seus produtos, agregando valor e colocando em destaque seus aspectos mais singulares.
Por esta razão o artesanato passou a ser repentinamente valorizado pois nele ainda residem os traços culturais mais característicos de sua região de origem. São estes diferencias culturais a grande força competitiva dos países menos desenvolvidos. Além deste aspecto estratégico do ponto de vista econômico, cabe ainda lembrar a capacidade de o artesanato ocupar expressivo contingente de mão-de-obra pouco qualificada, que foi marginalizada do mercado de trabalho por força das mudanças tecnológicas, destacando-se assim a sua função social que empresta dignidade a quem o produz.
Uma atividade que é fruto da habilidade, da destreza e da dedicação, além de ser fonte de sustento para quem o executa, traz um sentimento de auto-estima, de orgulho de si mesmo, que se transforma em mola propulsora para a construção da cidadania.
O surgimento da atividade artesanal no ocidente está associada ao desenvolvimento das cidades e ao aparecimento de atividades urbanas necessárias à vida em coletividade, tais como os padeiros, ferreiros, carpinteiros, marceneiros, tecelãos, seleiros, arquitetos, entre outros. Somente a partir do século XVIII é que surgiram as primeiras corporações de ofícios com regras e regulamentos rígidos, definindo os limites e atribuições do trabalho artesanal, conseguindo algumas destas entidades notável reconhecimento.
Entretanto, com o desenvolvimento industrial o artesanato entrou em um processo lento de decadência e marginalização social e econômica, sobrevivendo como alternativa de consumo para as populações periféricas, afastadas, ou de menor poder aquisitivo, impossibilitadas economicamente de acesso aos bens e serviços produzidos pelas indústrias.
A atividade exercida em pequenas unidades produtivas, por suas próprias características, dificilmente consegue competir em eficiência com o produto industrial de larga escala, e encontra como estratégia de sobrevivência a opção em ofertar produtos com um melhor acabamento, exclusividade, e singularidade, aspirando a uma faixa de consumidores mais exigentes e direcionados a produtos únicos e personalizados. No Brasil, as tradições artesanais de origem predominantemente indígenas se incorporaram às técnicas trazidas pelos imigrantes, criando a diversidade hoje existente.
No Brasil o artesanato sempre foi considerado uma atividade inserida no âmbito dos programas de assistência social, tratado sob uma ótica paternalista, sem considerar sua dimensão econômica e social. Por certo exceções existiram, e estas somente confirmam a regra, ficando por conta de alguns poucos programas estaduais e de alguns arquitetos e colecionadores. Somente com a criação do Programa SEBRAE de Artesanato,a partir de 1998, passou-se a ter uma visão sistêmica da atividade, atuando-se em todos os pontos da cadeia produtiva.
Uma das razões desta mudança de enfoque talvez deva-se a pressão social exercida pelo fato de haver hoje no país cerca de cinco milhões de desempregados que representam 7% da população economicamente ativa. Pressupõe-se que o artesanato possa ocupar parte desta mão-deobra ociosa, que tendo sido demitida por conta das mudanças tecnológicas dificilmente conseguirá ser novamente recontratada pelas empresas.
Somente uma ação sistêmica, articulada, sinérgica, poderá transformar o artesanato em uma atividade realmente importante do ponto de vista social, pela ampliação de sua dimensão econômica.
A divisão de trabalho no artesanato obedece a lógica da experiência e do saber, muito embora se empreguem terminologias que remontam às Corporações de Ofícios do século XVIII.
Naquela época, um oficial era o artesão que havia dominado as técnicas de sua atividade e tido uma preparação de no mínimo quatro anos como aprendiz. Já o mestre era aquele que podia empreitar e contratar os trabalhos, responsabilizando-se por sua perfeita execução.
Atualmente designamos de aprendiz os auxiliares das oficinas de produção artesanal, encarregados de elaborar partes do trabalho e que se encontram em processo de capacitação.
Do mesmo modo os oficiais são aqueles artesãos que reproduzem, e ao fazê-lo muitas vezes recriam as obras propostas pelos mestres, detentores de conhecimento técnico sobre os materiais, ferramentas e processos de sua especialidade.
Os mestres artesãos são aqueles indivíduos que se notabilizaram em seu ofício conquistando admiração e respeito, não somente de seus aprendizes e oficiais, mas também, e principalmente, do próprio mercado. Sua maior contribuição é repassar para as novas gerações os conhecimentos fundamentais de sua atividade.
2 Artesão Artista
Em princípio todo artista deve ser antes de tudo um artesão, no sentido de conseguir dominar o “saber fazer”, de sua área de atuação, ou simplesmente não conseguirá realizar a contento seus projetos e sua pretensão criativa. Ainda como artista deverá possuir em seu trabalho uma coerência temática e filosófica, cristalizados em uma série de compromissos consigo mesmo, dentre estes o de buscar sempre ir mais além do conhecido. Este compromisso permanente com a inovação já começa a afastar o artista do simples artesão, para quem a inovação é uma casualidade e conseqüência natural do fazer.
E por último, o verdadeiro artista tem um compromisso inalienável com o seu tempo, de exteriorizar sua visão específica do mundo que o cerca, o mais imune que possa às influências de qualquer natureza.
Um artesão-artista, dentro do conceito aqui proposto é aquele que tendo conquistado as condições acima expostas decide produzir coisas úteis, seriadas, acessíveis a um maior número de pessoas, porém sem abrir mão da permanente experimentação. Seu compromisso é consigo mesmo e não com o mercado. Diferente até nisto do simples artesão, cujo maior compromisso é o sustento de sua família. O artista-artesão, oriundo das camadas populares, chamados pelos críticos de autodidatas, são aqui, aqueles que mais se aproximam do conceito proposto para mestre-artesão.
O artesanato também pode ser analisado a partir das matérias primas que definem os distintos ofícios. Para cada matéria-prima principal derivam práticas profissionais que resultam em tipologias de produtos bastante específicas, com suas respectivas técnicas, ferramentas, produtos e destinações.
As principais matérias-primas utilizadas no artesanato brasileiro são:
1. Barro
2. Couro (animal ou sintético)
3. Fibras vegetais
4. Fios (algodão, linho, seda...)
5. Madeira (essências nativas, madeiras reflorestadas)
6. Metais (alpaca, alumínio, bronze, cobre, ferro, latão, prata...)
7. Pedra (granito, mármore, pedra sabão...)
8. Vidro
9. Outros ( borracha, ossos, chifres, coco, sementes...)
Do mesmo modo existem ainda produtos que utilizam-se de vários materiais, conjugando técnicas e saberes, criando novas categorias.
Barro
De acordo com as composições e técnicas se definem os tipos de cerâmica. As mais comuns são:
- Terracota (ou louça de barro), normalmente mistura de argilas naturais. Utiliza os procedimentos mais rudimentares, desde a extração da matéria-prima nas jazidas ribeirinhas, passando por sua preparação (limpeza e homogenização) até a queima dos produtos em fornos de alvenaria simples e utilizando o carvão vegetal, cuja temperatura não chega acima dos 800 graus centígrados. Os exemplos mais conhecidos desta técnica são os filtros, tijolos, telhas, vasos, etc;
- Faianças. São peças que utilizam uma massa mais clara, argilas naturais com um pouco de caulim, ou eventualmente quartzo. São peças queimadas em fornos mais sofisticados que alcançam temperaturas mais elevadas, entre 800 a 1.000 graus, e o mais conhecido está na cerâmica utilitária como pratos e xícaras.
- •As porcelanas. São cerâmicas de altas temperaturas (entre 1.200 e 1.350 graus) produzidas a partir de três materiais: argila, quartzo e feldspato, podendo este número de componentes variar. As principais etapas do processo produtivo são: extraç
As principais etapas do processo produtivo são: extração da matéria-prima; limpeza, homogeneização e/ou decantação; extrusão e/ou pré-formatação; torneamento e/ou moldagem; pintura ou decoração, acabamento e queima.
Couro
O artesanato em couro e peles pode ser encontrado em todo o país em milhares de produtos. Cru, seco ou curtido o couro é parte integrante do repertório,matérias primas e ofícios.
Os dois principais ofícios que trabalham o couro são:
O Coureiro, que produz calçados, bolsas, acessórios de uso individual, malas, estofados, móveis e utensílios domésticos;
O Seleiro, que fabrica arreios, selas, gibões, perneiras, acessórios, roupas e chapéus para montaria;
Estes produtos podem ser urbanos (orientados pelos fenômenos de moda); ou rurais (frutos das tradições e costumes, principalmente nos estados e regiões de tradição pecuarista).Estes produtos podem ser urbanos (orientados pelos fenômenos de moda); ou rurais (frutos das tradições e costumes, principalmente nos estados e regiões de tradição pecuarista).
Além do couro de gado, utilizam-se ainda para a confecção de produtos artesanais o couro de caprinos e em menor escala o de répteis e de pescados e ainda o couro sintético em peças de artesanato urbano.
Os processos de preparação do couro são realizados por curtumes, ou artesanalmente utilizando-se de diversas espécies vegetais que fornecem o tanino. As principais etapas posteriores são o tingimento; corte das peças a partir de modelos já desenhados; a montagem da mesma sobre moldes; costura; aplicações de elementos decorativos e acabamento final.
Fibras
A arte de trançar fibras vegetais é um legado deixado pelos índios e presente em todas as regiões do país, configurando um artesanato basicamente utilitário. Os produtos de fibras (matérias primas vegetais mais rijas) costumam também destinar-se a fins lúdicos ou decorativos, tais como bonecas de palhas em miniaturas. Diversas são as fibras vegetais utilizadas na produção do artesanato brasileiro, podendo-se destacar as fibras da taboa, do buriti, do côco, da carnaúba, do babaçu, o sisal, a juta, o junco, o apuí, os cipós ou trepadeiras (de fogo, titica, imbé, etc), o bambu, o vime, a cana-da-índia, cascas e entrecascas, palha de milho e folha de bananeiras, e outros.
Esta produção divide-se em três grandes grupos:
- Cestaria (bolsas, balaios, samburás, peneiras, abanos) e chapéus
- Tapetes e esteiras
- Móveis e objetos de decoração
Os principais processos produtivos são extração das fibras, seleção, em alguns casos o cozimento (em soda cáustica ou no vapor), secagem, trama / entrelaçamento e acabamento.
Fios
Os principais fios utilizados na produção de peças artesanais são a lã nos estados do sul e o algodão nas demais regiões do país, havendo ainda ocorrências mais raras de uso de fibras mais acessíveis tais como a juta ou a pita ou mais nobres como o linho e a seda, sobretudo em peças de maior valor agregado.
Na tecelagem rústica, encontrada em várias regiões do país, o artesão conhece e quase sempre executa todas as fases da produção, desde o plantio e colheita do algodão, passando pelas fases de cardar, fiar, tingir, enovelar e tecer.
Os produtos feitos com fios podem ser divididos em 4 grandes grupos:
- Tecelagem, que produz redes, mantas, colchas, toalhas, cobertores e tapetes, visto por muitos como uma categoria especial dada a sua diversidade e qualidade;
- Rendas e crochê (peças feitas a partir do fio)
- Labirintos ou crivo (peças feitas a partir do tecido).
- Bordados (trabalho feito sobre o tecido) ! Bonecas e brinquedos
Madeira
A madeira tem sido ao longo dos anos a principal matéria-prima na produção de objetos que fazem parte do acervo da cultura material brasileira. Desde as embarcações de pesca artesanal, passando por todo o tipo de móveis e utensílios domésticos, instrumentos musicais, esculturas, brinquedos populares, a madeira é o material por excelência que se presta à realização dos mais variados artefatos, seja isoladamente, seja em combinação com outros materiais. Devido a grande variedade de espécies nativas encontradas em todo o território a produção artesanal vale-se daquelas madeiras mais comuns de cada região, como exemplo a umburana na confecção da santeria nordestina, ou o buriti na produção de brinquedos e móveis leves.
Pode-se dividir o artesanato em madeira em 4 grandes grupos de produtos:
- Santeria e esculturas (isoladas e formando grupos), incorporando neste grupo todas as categorias de ex-votos;
- Movelaria e objetos de decoração, incluindo-se neste grupo todos os elementos denominados P.O.M. (pequenos objetos de madeira),brinquedos e a marchetaria;
- Luteria (arte de de fazer instrumentos musicais);
- Construções e carpintaria naval (embarcações de pesca artesanal
Metais
O artesanato em metal ocorre em todo o território brasileiro, sobretudo o utilitário. Os metais mais utilizados são o alumínio fundido; o bronze; o cobre; o ferro e a prata.
As categorias de ofícios que trabalham o metal são:
O Cuteleiro que produz instrumentos de corte tais como facas, facões e punhais;
O Espingardeiro (ou armaria artesanal) que fabrica armas de fogo, principalmente espingardas de caça;
O Ferramenteiro (na realização de moldes e ferramentas) O Latoeiro que se distingue pelo uso quase generalizado de sucatas, principalmente reciclando produtos.
O Ferreiro na produção de ferraduras, foices, dobradiças, armadores de rede, e artigos de montaria;
O Funileiro que fabrica candeeiros, lamparinas, funis, regadores, e um sem número de pequenos produtos utilitários utilizando-se principalmente as folhas-de-flandres,
O serralheiro na produção de móveis de ferro batido, esquadrias, portões, grades e elementos para a construção;
Os joalheiros e ourives, na produção de jóias, bijuterias e objetos de adorno e uso pessoal, principalmente balangandãs.
Pedras
Pela abundância, variedade e qualidade das pedras brasileiras, desde as semi-preciosas até os seixos rolados, passando por todo tipo de granitos e mármores, o artesanato mineral pode ser considerado de baixa diversificação. A exceção ocorre por conta da pedra-sabão, uma esteatita encontrada apenas em Minas Gerais e que por sua facilidade de manuseio tem sido amplamente utilizada na produção de um sem número de peças, sendo as mais notáveis as esculturas do mestre Aleijadinho (1730/ 1814).
As pedras mais valiosas são, após lapidadas, utilizadas na confecção de jóias ou incrustadas em esculturas. As de menor valor servem para a produção de pequenos objetos de usos pessoal ou de decoração, tais como chaveiros, cinzeiros, prendedores, pesos de papel, cantoneiras de livros, brincos, pulseiras, anéis e colares.
Com os mármores e granitos são produzidos principalmente mausoléus, colunas, escadas, portais, soleiras, móveis, esculturas e pequenos objetos de decoração.
Vidro
A arte de produzir vidro é o resultado de uma alquimia secular, capaz de transformar materiais sólidos (sílica, cálcio e sódio) pela ação do calor intenso (1.500 graus) em um material líquido e transparente. Retirado do fogo na ponta de um canudo de aço especial esta massa incandescente é soprada, expandida e trabalhada, criando-se formas e produtos de uma beleza única. Esta atividade é um oficio ainda restrito à certas regiões do país, sendo a produção destinada a um tipo de consumo mais exclusivo e elitista, tendo em vista que para as aplicações mais baratas e usuais as fábricas automáticas de vidro conseguem suprir as demandas existentes com menos custo e maior escala de produção.
O artesanato em vidro pode ser dividido em dois grandes grupos:
- Produtos utilitários: tais como copos, taças, cinzeiros, vasos, jarros, cânforas e garrafas
- Peças decorativas: troféus, esculturas, luminárias, vitrais e mosaicos.
Outros
Diante das dificuldades, necessidades e carências, tanto nos afazeres domésticos como na lida do trabalho diário, os homens encontram sempre respostas na forma de soluções simples, criando novas ferramentas, utensílios ou objetos de todo tipo. Em geral valem-se dos recursos e materiais à sua volta. Esta extensa gama de artefatos artesanais, nascidos da necessidade, muitas vezes não se enquadram nos ofícios tradicionais, nem por isto deixam de ter seu valor. Seu grau de novidade (inovação) e a surpresa (ou o sorriso) que provocam, são quase sempre seu principal e mais valioso diferencial.
Sem uma preocupação classificatória, podemos encontrar produtos exclusivos, ou mesclado de diversos materiais, entre outros de:
- Borrachas (naturais ou sintéticas)
- Ceras e parafinas
- Cocos, sementes e cascas de árvores
- Ossos e chifres de animais
- Papel artesanal
- Penas e plumas de aves
- Peixes, aves e insetos embalsamados ou empalhados (taxidermia)
- Materiais reciclados
O artesanato representa hoje, na maioria dos países em desenvolvimento, um segmento expressivo de seu produto interno bruto (PIB), que é a soma das riquezas produzidas por um país; além de seu inegável valor social (pela quantidade de mão de obra que ocupa) e seu inestimável valor cultural (por ser a expressão mais autêntica do saber e do fazer popular).
Aplicado em diversas outros segmentos produtivos empresta-lhes valor e diferencial competitivo, principalmente quando consorciado com outros produtos industrializados, podendo ser um componente estratégico ou até mesmo uma embalagem especial. Tomemos como exemplo o setor de confecções onde o artesanato se transforma em principal elemento de agregação de valor na forma de um bordado aplicado, de botões esculpidos a mão ou como acessórios.
Na indústria de móveis e objetos de decoração o artesanato ora é a peça em si mesma, ora parte ou componente, como um tampo de mesa, o estofamento de uma cadeira, um detalhe ornamental, como uma marchetaria. Mesmo na indústria de bens de consumo o culto ao artesanato reaparece como o novo diferencial de qualidade e humanização, como nas assinaturas em relevo impressas no monitores dos computadores machintosh, ou nos estofamentos de couro e no painel de madeira de um carro de luxo.
Ferramentas e técnicas
A principal e mais importante característica do trabalho artesanal vem a ser exatamente o fato do mesmo ser resultante de um trabalho produtivo que o homem executa através das suas mãos, com sensibilidade, perícia e cuidado. As mãos sendo seu principal instrumento de trabalho possuem contudo limites impostos quando a matéria que ela procura dominar ou modificar é mais dura, mais impenetrável, mais insensível. Neste momento as mãos necessitam de uma extensão, de um prolongamento, de uma ferramenta que permita vencer a resistência da matéria. Esta transferência da mão ao objeto determina as várias formas que as ferramentas assumem.
Deste modo, cada ofício caracteriza-se pela diversidade formal dos instrumentos que utiliza, e cada instrumento significa a transfiguração da mão do artesão em uma ferramenta de trabalho específica. Esta relação do instrumento com o artesão é tão necessária quanto a relação entre a idéia e o pensador, como observou Clarival Prado em “Artesanato Brasileiro”, edição Funarte, 1986. Os instrumentos são os meios que permitem ao artesão expressar-se e realizar seu trabalho. Deste modo, não é possível aceitar que o artesão possa expressar-se plenamente se os seus meios de produção são rudimentares, pobres, toscos e improvisados. A melhoria do artesanato passa, necessariamente, pela melhoria das condições de trabalho e do uso de ferramentas mais adequadas.