Nutrição de Cães em diferentes fases da vida
Noções Básicas de Cuidador de Cães
1 Nutrição de Cães em diferentes fases da vida
Nos dias de hoje os pets (animais de companhia), são considerados como parte efetiva das famílias. Estima-se que no Brasil, cerca de 44% dos lares possuem animais de companhia, sendo 87% destes, cães, segundo o estudo Radar Pet .
Seguindo a tendência do mercado, proprietários de cães buscam cada vez mais ofertar uma alimentação de melhor qualidade. Segundo Fahey (2003), o conceito de nutrição esta se expandindo para além da fronteira da sobrevivência e satisfação da fome, para também promover bem estar e melhoria na saúde dos animais.
De acordo com Borges (1998), os principais objetivos de um alimento para animais de estimação são: crescimento harmonioso, longevidade e resistência a doenças. Neste contexto, uma nutrição adequada para cada fase de vida do cão visa aumentar a qualidade de vida e melhorar a estado de saúde, evitando doenças e proporcionando o bem estar animal.
A relação entre o desenvolvimento de uma doença e a qualidade da alimentação e/ou a falta de alimento está diretamente relacionada. Da mesma maneira que a desnutrição acarreta em injúrias a saúde, animais em situações que ocorrem desequilíbrio entre a ingestão de alimento (calorias em excesso) e a diminuição da prática de atividade física podem acarretar em obesidade (SALVE, 2006). Problema este, que pode de igual modo prejudicar a longevidade e bem estar do animal.
Segundo França os alimentos industrializados para cães podem ser classificados quanto a: sua função, tipo de processamento e ao segmento de mercado a que se destina (econômico, premium e super premium). Alimentos classificados por sua função podem ser: completos, complementares (petiscos, biscoitos e ossinhos) e os alimentos especiais (que podem ser para uma raça específica ou para auxilio ao tratamento de alguma doença).
Aparelho digestivo de cães
Os cães, como os outros carnívoros, estão adaptados a dietas relativamente concentradas e altamente digestíveis e são caracterizados por um trato digestório simples, de tamanho relativamente reduzido, com processo de digestão, basicamente químico, cuja alimentação está baseada no consumo de produtos cárneos e derivados.
Segundo Mohrman (1979), o cão é um animal carnívoro por definição, mas onívoro por convenção, por isso é mais bem definido como sendo um carnívoro não estrito. O sistema digestório é constituído de um tubo que vai da boca ao ânus, sendo relativamente simples (Figura 1).
O canal digestório compreende os seguintes segmentos: boca e anexos (dentes, língua e glândulas salivares), esôfago, estômago, intestino delgado (duodeno jejuno e íleo), intestino grosso (ceco, cólon e reto) e ânus. Também devem ser considerados o fígado e o pâncreas como órgãos anexos ligados aos processos de digestão (KÖNIG e LIEBICH, 2004).
Figura 1. Sistema digestório de cães
Apesar da classificação zoológica compreender cães e gatos na mesma Ordem carnívora, estes pertencem às famílias diferenciadas: Felidae para os gatos e Canidae para os cães. No processo de evolução dessas espécies, ocorreram algumas diferenciações anatômicas no trato digestório de acordo com o hábito alimentar.
A relação média entre o comprimento do intestino/comprimento do corpo para cães (4,5/0,75 m) é maior do que para gatos (2,1/0,5 m). Essa maior relação indica um maior tempo de permanência do alimento no trato digestório dos animais (SCAPINELLO et al., 2007). Os cães tem também uma maior sensibilidade olfativa em relação aos gatos.
Digestão e absorção de nutrientes
Os processos de digestão implicam em ações que ajudam na degradação do alimento, absorção de nutrientes e da energia dos alimentos ingeridos e sua disponibilidade para suprir os processos fisiológicos e metabólicos do organismo.
Os cães consomem o alimento vorazmente e se adaptam a ingeri-los em diferentes horários de acordo com seus proprietários. Apesar do maior número de dentes molares nos cães, compatível com animais onívoros, o processo de mastigação praticamente não ocorre nestes animais, onde o alimento normalmente é deglutido de forma grosseira (partículas grandes), prejudicando assim a taxa normal de passagem pelo trato digestório e a superfície de contato do alimento com as enzimas digestivas.
Os lipídios tem uma parte considerável das dietas de carnívoros. A digestão da gordura exige inicialmente que passe por um processo de emulsificação permitindo, que se dissolva em água. Para isso, a elevação da temperatura dos alimentos ingeridos, ao adentrarem no trato digestório contribui para este processo, no entanto, a secreção biliar tem um papel chave com sua ação detergente, permitindo a emulsificação das gorduras e sua dissolução em água, para que, em seguida, a enzima lípase possa atuar com maior eficiência, devido ao aumento da superfície de contato com as enzimas.
O principal lipídio dietético é o triglicerídio, tanto de fontes vegetais como animais, além do colesterol, ésteres de colesterol, fosfolipídios, lipoproteínas, além das vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K), que são absorvidos juntamente com a fração lipídica, na forma de micelas (DUKES, 2006).
De acordo com Cunningham (1999) a digestão da proteína inicia-se no estômago, pela ação do ácido clorídrico. Em seguida, a pepsina, uma endoenzima, inicia o processo de digestão propriamente dito, quebrando a molécula protéica em polipeptídios com peso molecular menor que o original.
No intestino, a digestão protéica acontece em duas fases: luminal (com ação de enzimas pancreáticas) e membranosa (com ação de enzimas produzidas pelo próprio intestino), que finalizam o processo de digestão, permitindo a absorção de aminoácidos e alguns oligopeptídios, como dipeptídios e tripeptídios.
Os carboidratos presentes na dieta podem ser classificados em duas categorias: solúveis (amido e açúcares) e estruturais (componentes da fibra). Os carboidratos das dietas para cães, basicamente, são solúveis, tendo em vista as características anatômicas do trato digestório e a incapacidade de fermentação de componentes fibrosos.
O amido é o principal carboidrato das dietas de cães e gatos e a sua utilização digestiva inicia-se no intestino delgado, uma vez que estes animais não apresentam amilase salivar. O processo de digestão de carboidratos é parecido com o descrito para proteínas com uma fase luminal, onde o amido é quebrado, principalmente, em oligossacarídios pela amilase pancreática e uma fase membranosa, em que enzimas intestinais finalizam o processo de digestão produzindo monossacarídios que serão absorvidos.
Nutrição de cadelas gestantes e lactantes
As cadelas prenhes requerem atenção especial com a nutrição, para atender as necessidades da fêmea e dos filhotes. Fêmeas em bom estado corporal e fisiológico não necessitam de nutrição extra antes das últimas quatro semanas de gestação, quando a exigência dietética para todos os nutrientes aumenta significativamente.
Durante a prenhes, o aumento do peso e das necessidades nutricionais da cadela são moderados (CASE et al., 1998). Cadelas com grandes ninhadas perdem o apetite, como resultado da atividade reduzida, nestes casos deve-se aumentar a frequência de oferta de alimento.
Segundo Black (2001), as deficiências ou fornecimento inadequados de vitaminas ou minerais em cadelas prenhes podem resultar em anemia, hipertensão, complicações no parto ou até mesmo a morte. Para o embrião e feto, podem resultar em reabsorção embrionária, aborto, retardo no crescimento intrauterino, malformações e imunocomprometimento.
Na lactação, a preocupação com a dieta também precisa ser constante, ou seja, que todos os nutrientes sejam fornecidos de maneira balanceada e equilibrada, pois o leite é a principal fonte alimentar para os filhotes após o nascimento.
. A dieta precisa ser de boa qualidade, incluindo altíssima palatabilidade para estimular a alimentação, alta digestibilidade para reduzir o volume e alto teor energético, sendo administradas através de várias pequenas refeições diárias (KELLEY, 2001).
O maior crescimento fetal de cães acontece no terço final de gestação. Assim, o NRC (2006) cita que a partir das quatro semanas após a fecundação, as necessidades de energia metabolizável das fêmeas gestantes seja em torno da necessidade de mantença acrescida de 26 kcal/kg de PC/dia.
Durante a lactação as exigências de energia são dependentes de fatores como o número e taxa de crescimento dos filhotes. Dessa maneira, alguns cuidados precisam ser seguidos durante a amamentação: fornecer a quantidade adequada de calorias para prevenir perda de peso (redução excessiva da condição corporal), administrar de duas a três vezes a quantidade diária de alimento necessário a manutenção durante a lactação, água limpa e fresca sempre a disposição e reduzir lentamente a quantidade de alimento após a quarta semana de amamentação.
2 Nutrição de filhotes
Nas primeiras horas de vida o filhote deve receber o colostro da mãe que além de fornecer nutrientes, também transfere imunidade passiva, através das imunoglobulinas maternas.
A ingestão deste colostro ajuda a prevenir enfermidades e auxilia no desenvolvimento do filhote. Após 48 horas, a mãe para de secretar o colostro e fornece somente o leite, com a única função de alimento, este deve ser oferecido ao filhote de 3 a 6 vezes ao dia, seguindo por três semanas de vida.