Cicatrização de Feridas Cães e Gatos
Noções Básicas de Cuidador de Cães
1 Tratamento de feridas:
O estudo da cicatrização da pele envolve uma enorme gama de eventos e situações especiais. Ela exige um conhecimento básico de anatomia, histologia, bioquímica, imunologia, farmacologia, entre outras ciências.
Cicatrização de feridas:
consiste em uma cadeia perfeita e coordenada de eventos celulares e moleculares que interagem de modo que a reestruturação e reconstituição do tecido pode ocorrer.
Este evento é um processo dinâmico que envolve fenômenos bioquímicos e fisiológicos que se comportam de uma forma harmoniosa, a fim de garantir a restauração do tecido. Cicatrização é desencadeada por uma perda de tecido, a partir do qual a fisiologia é dirigido de forma eficiente para a reparação de um evento danoso para o organismo.
Aperda tecidual pode completamente ou incompleta envolver a derme, ou até mesmo penetrar o órgão, atingindo o tecido celular subcutâneo. É de acordo com este grau de penetração que o tipo de ferida é definido.
2 Estrutura e função da pele:
A pele é o maior órgão do corpo e a barreira anatomofisiológica entre o animal e o ambiente. Fornece proteção contra lesão física, química e microbiológica e seus componentes sensoriais percebem calor, frio, dor, prurido, toque e pressão.
Além disso,é sinérgica com os sistemas orgânicos internos e, portanto, reflete processos patológicos que são ou primários em outras partes ou compartilhados com outros tecidos. A pele não é só um órgão com seus próprios padrões de reação; também é um espelho que reflete o meio interno e, ao mesmo tempo, o mundo caprichoso ao qual ele está exposto.
A pele, os pêlos e a subcútis de um filhote recém-nascido representam 24% de seu peso corporal, na idade adulta, constituem apenas 12% (MULLER & KIRK, 1996).
Funções gerais da pele:
As funções gerais da pele animal segundo Dyce (1987, citado por MULLER & KIRK, 1996), são as seguintes:
• Barreira circundante. A função mais importante da pele é tornar possível um ambiente interno para todos os outros órgãos, mantendo uma barreira eficiente contra a perda de água, eletrólitos e macromoléculas.
• Proteção ambiental. Uma função corolária é impedir que agentes lesivos externos – químicos, físicos e microbiológicos – adentrem o ambiente interno.
• Movimento e forma. Sua flexibilidade, elasticidade e sensibilidade ao toque permitem movimento e conferem forma
• Produção de anexos. A pele produz estruturas ceratinizadas como os pêlos, unhas e a camada córnea da epiderme.
• Regulação da temperatura. A pele é importante na regulação da temperatura do corpo, através da pelagem, controle do fornecimento sanguíneo cutâneo e função das glândulas sudoríparas.
• Estoque. A pele é um reservatório de eletrólitos, água, vitaminas, gorduras, carboidratos, proteínas e outros materiais.
• Indicador. A pele pode ser um importante indicador da saúde geral, doença interna e efeitos de substâncias aplicadas por via tópica ou administradas internamente.
• Imunorregulação. Os ceratinócitos, as células de Langerhans e os linfócitos juntos fornecem à pele uma capacidade de imunovigilância que protege eficientemente contra o desenvolvimento de neoplasias cutâneas e infecções persistentes.
• Pigmentação. Os processos na pele (formação de melanina, vascularização e ceratinização) ajudam a determinar sua cor e a do pêlo. A pigmentação da pele ajuda a evitar lesão pela radiação solar.
• Ação antimicrobiana. A superfície cutânea possui propriedades antibacterianas e antifúngicas. apócrinas (epitriquiais), écrinas (atriquiais) e sebáceas. • Excreção. A pele funciona de forma limitada como órgão excretor.
• Percepção sensorial. A pele é um órgão sensorial primário para o toque, pressão, dor, prurido, calor e frio.
• Secreção. A pele é um órgão secretório, em virtude de suas glândulas apócrinas (epitriquiais), écrinas (atriquiais) e sebáceas
3 Anatomia e fisiologia macroscópicas:
Em cada orifício do corpo, a pele é contínua com a mucosa aí localizada (digestiva, respiratória, ocular, urogenital). A pele e a pelagem variam em quantidade e em qualidade entre as espécies, entre as raças dentro de uma espécie e entre indivíduos dentro de uma raça; também variam de uma área do corpo para outra, e de acordo com a idade e o sexo.
Em geral, a espessura cutânea diminui do sentido dorsal para o ventral no tronco, e de proximal para distal nos membros. . É mais fina nos pavilhões auriculares e nas áreas axilares, inguinais e perineais. Segundo SCOTTA espessura média relatada da pele do corpo de gatos é de 0,4 a 2 mm; em cães, é de 0,5 a 5 mm. A pelagem em geral é mais espessa nas faces dorsolaterais do corpo e mais fina ventralmente, na superfície lateral das orelhas e na superfície ventral da cauda.
A pele é mais espessa na fronte, no pescoço dorsal, no tórax dorsal, na região glútea e na base da caudaEm geral, a espessura cutânea diminui do sentido dorsal para o ventral no tronco, e de proximal para distal nos membros. A pele é mais espessa na fronte, no pescoço dorsal, no tórax dorsal, na região glútea e na base da cauda. É mais fina nos pavilhões auriculares e nas áreas axilares, inguinais e perineais. Segundo SCOTTA espessura média relatada da pele do corpo de gatos é de 0,4 a 2 mm; em cães, é de 0,5 a 5 mm. A pelagem em geral é mais espessa nas faces dorsolaterais do corpo e mais fina ventralmente, na superfície lateral das orelhas e na superfície ventral da caudaE
As superfícies cutâneas dos mamíferos peludos são, em geral, ácidas. O pH da pele normal felina e canina foi informada como variando de 5,5 a 7,5 (MULLER & KIRK, 1996).
O metabolismo da pele não está bem compreendido. Todas as enzimas do ramo glicolítico e as do ciclo dos ácidos tricarboxílicos já foram demonstradas na pele, mas o metabolismo real da glicose parece ser anômalo
. A glicose é de preferência metabolizada em lactato, mais do que completamente oxidada em CO2
4 Anatomia e fisiologia microscópicas:
Epiderme:
A parte mais externa da pele, a epiderme, é composta de múltiplas camadas de células que variam da forma colunar à achatada.
São de quatro tipos distintos: ceratinócitos (cerca de 85% das células), melanócitos (perto de 5%), células de Langerhans (3 a 8%) e células de Merkel, associadas aos coxins tilotríquios.
Para propósitos de identificação, determinadas áreas de epiderme são classificadas como camadas e denominadas, da mais interna para a mais externa, da seguinte forma: camada basal (estrato basal), camada espinhosa (estrato espinhoso), camada granular (estrato granuloso), camada clara (estrato lúcido) e camada córnea (estrato córneo). Em geral, a epiderme de gatos e de cães é fina (duas a três camadas de células nucleadas, não contando a camada córnea) na pele com pêlos, variando de 0,1 a 0,5 mm em espessura ou em profundidade.
A epiderme mais espessa é encontrada nos coxins e no plano nasal, onde pode medir 1,5 mm. A superfície da epiderme do coxim é lisa em gatos, mas papilosa e irregular nos cães.
Cristas interpapilares (projeções da epiderme para dentro da derme subjacente) não se encontram na pele normal peluda de gatos e de cães. Todavia, podem existir na epiderme do coxim e do plano nasal normais e no escroto com alguns pelos.
Derme:
A derme (cório) é uma parte integral do sistema de tecido conjuntivo do corpo e é de origem mesodérmica. Em áreas de pele com pêlos grosso, a derme representa a maior parte da profundidade, ao passo que a epiderme é fina.
Na pele muito delgada, a a espessura reduzida resulta da finura da derme. Esta compõe-se de fibras, substâncias básica e células. Também contém os apêndices epidérmicos, músculo eretor do pêlos, vasos sanguíneos e linfáticos e nervos.
Tendo em vista que a pele peluda normal de gatos e cães não apresenta rede de cristas, não se observam geralmente as papilas dérmicas. Portanto, uma derme verdadeiramente papilar e reticular, como é descrita nos humanos, não está presente em gatos e cães. Os termos derme superficial e profunda são preferidos.
A derme representa a maior parte da força tênsil e elasticidade da pele; está envolvida na remodelação, manutenção e substituição da pele; e modula a estrutura e função da epiderme. A derme da pele escrotal é a única que conta com inúmeros grandes feixes de músculos lisos.
5 Subcútis:
(hipoderme) Segundo Dyce (1987, citado por MULLER & KIRK, 1996, p.43), a subcútis (hipoderme) é de origem mesenquimatosa e é a camada mais profunda e geralmente mais espessa da pele.
Entretanto, não existe subcútis em algumas áreas por motivos funcionais (ex., lábio, bochecha, pálpebra, ouvido externo, ânus); nestas áreas, a derme está em contato direto com a musculatura e a fáscia.
Bandas fibrosas contínuas a estruturas também fibrosas da derme penetram e dividem a gordura subcutânea em lóbulos de lipócitos (adipócitos, células de gordura) e formam ligações da pele aos componentes esqueléticos fibrosos subjacentes, como as folhas fasciais e o periósteo. .
A porção superficial da subcútis projeta-se na derme que a recobre como papilas adiposas; estas rodeiam os folículos pilosos, glândulas sudoríparas e vasculatura para auxiliar na sua proteção contra pressão e forças de cisalhamento.
A subcútis contém cerca de 90% de triglicerídios em peso e funciona como reservatório de energia, na termogênese e no isolamento, como acolchoamento protetor e de suporte e na manutenção dos contornos superficiais.
Ela também é importante como reservatório esteróide e como local de metabolismo de esteróide e como local de metabolismo de esteróides e produção de estrogênios. O lipócito maduro é denominado por uma grande gotícula lipídica que deixa apenas uma borda citoplasmática fina e empurra o núcleo para um lado
6 Avaliação da Ferida:
Bryant (2000), entre outros autores, e diversas agências reguladoras norte-americanas, como a AHCPR (Agency fo Health Care Policy and Research (AHCPR) - Clinical practice guidelines: pressure ulcer treatment: quick reference guide for clinicians.
Dermatology Nursing, 7(2): 87-101), destacam que a avaliação é uma parte fundamental do processo de tratamento das lesões da pele, pois só o diagnóstico preciso do tipo e estágio da lesão vai permitir a correta tomada de decisão sobre as medidas a serem implementadas e os recursos que serão utilizados.
Um roteiro sistemático de avaliação deve incluir:
a) História e exame subjetivo do cliente;
b) Dados objetivos do cliente: condições gerais, exames laboratoriais, doenças associadas;
c) Avaliação do risco, com base nas condições gerais do cliente e do local da lesão;
d) Avaliação e classificação adequada da lesão: localização, tempo de evolução, medida do tamanho, diâmetro, profundidade, vitalidade do leito e dos tecidos circunvizinhos, presença de secreção e necrose, coloração do leito da ferida, sensibilidade cutânea, comprometimentos;
e) Diagnóstico adequado do tipo de ferida, suas necessidades e conseqüente planejamento de ações.
Podem ser utilizados diversos sistemas, alguns mais indicados para a avaliação de feridas agudas, outros especialmente desenvolvidos para a avaliação de feridas crônicas. Vários instrumentos têm sido criados para facilitar e direcionar o processo de avaliação, e alguns já estão validados no Brasil.
Nos Estados Unidos têm sido desenvolvidos alguns sistemas que auxiliam os profissionais nesse processo de avaliação e facilitam a tomada de decisão sobre os procedimentos e recursos a serem utilizados. Entre eles, vários trabalhos têm relatado e difundido a utilização do sistema Red/Yellow/Black – RYB (Wound Healing: Translating theory into clinical practice.
Dermatology Nursing, 14 ( 4 ): 257-261, august 2002), proposto por Cuzzel (1988), para classificação de feridas que cicatrizam por segunda intenção. Segundo tal sistema, as feridas são classificadas de acordo com a coloração que, afirma a autora, freqüentemente reflete o balanço entre tecidos novos e tecidos necrosados.
O sistema RYB assim classifica as feridas:
- As vermelhas incluem sítios doadores de enxertos, feridas pós-desbridamento, feridas crônicas em cicatrização, em que predomina o tecido de granulação e novo epitélio. Nesse tipo de ferida, o objetivo do tratamento é favorecer o ambiente úmido, proteger os tecidos neoformados e prevenir a infecção;
- As amarelas normalmente apresentam exsudato fibroso e seus tecidos são moles, desvitalizados; elas podem estar colonizadas, o que favorece a instalação de infecção.
Nesse tipo de ferida o objetivo é identificar adequadamente a presença ou não de infecção e, neste último caso, promover o desbridamento dos tecidos desvitalizados e estancar a infecção, preferencialmente por meio de terapia sistêmica;
- As pretas apresentam necrose tecidual, com desnaturação e aumento de fibras colágenas, e conseqüente formação de escara espessa, cuja coloração pode variar entre castanho, marrom e preto. Nesse tipo de ferida, devido à presença do tecido necrótico, o objetivo é remover o tecido necrosado com a máxima brevidade, por meio do desbridamento.
É evidente que a coloração não constitui um parâmetro preciso de avaliação da ferida e não deve ser o único, pois normalmente as feridas apresentam combinações dessas diversas colorações, de acordo com a profundidade da lesão, das terapias usadas e das condições locais e gerais.
Outro sistema útil para avaliação e estabelecimento de condutas e objetivos, assim como para acompanhamento da evolução do tratamento, é a escala Push Tool, proposta pela NPUAP, que, partindo dos parâmetros acima, permite a categorização da lesão e auxilia no direcionamento das medidas de intervenção em cada uma das fases do processo cicatricial, permite avaliar eficácia de medidas e recursos utilizados e a evolução do processo cicatricial.