Princípios de Interpretação da Bíblia
Teologia Cristã Protestante
1 Por que precisamos interpretar a Bíblia?
Introdução
Nem todos se apercebem do fato de que toda leitura de um texto envolve um processo de interpretação do mesmo. Não existe compreensão de um texto sem que haja interpretação, mesmo que esta leitura seja do jornal e o processo de interpretação aconteça inconscientemente.
Sendo um texto, a Bíblia não foge a esta regra. Cada vez que a abrimos e lemos, buscando entender a mensagem de Deus para nós, engajamo-nos num processo de interpretação. Como Palavra de Deus, a Bíblia deve ser lida como nenhum outro livro. Mas, tendo sido escrita por homens, ela deve ser interpretada como qualquer outro livro. Além disto, a Bíblia está distante de nós em diversos aspectos, como veremos adiante, o que faz com que nossa leitura dela exija um esforço consciente de interpretação. Ler a Bíblia, em certo sentido, é diferente de lermos a revista Veja.
Há muitas pessoas que ficam desanimadas com as controvérsias e as polêmicas que existem nos meios intelectuais onde se estuda a Bíblia. Elas consideram desnecessário o estudo mais sério da Bíblia. Alguns até pensam que estudos acadêmicos da Bíblia são uma barreira à espiritualidade e ao crescimento da Igreja. Podemos entender a atitude de pessoas assim, pois realmente existe muito academicismo e intelectualismo árido e infrutífero em muitos círculos evangélicos.
Por outro lado, rejeitar o estudo da Bíblia não vai resolver o problema, pois continuamos diante de um texto antigo, distanciado de nós, escrito em outras línguas e que precisa ser interpretado para poder ser entendido. Alguns dizem: Vamos deixar de lado estas questões e simplesmente ler a Bíblia como ela é. Infelizmente, uma leitura assim não é possível. Não existe leitura e entendimento de um texto sem que haja interpretação, mesmo que esta interpretação se processe de forma inconsciente. O objetivo desta aula é levantar alguns aspectos da natureza da Bíblia que tornam indispensável um esforço consciente para interpretá-la.
A Bíblia como livro humano
O fato de que a Bíblia não caiu pronta do céu, mas que foi escrita por diferentes pessoas em diferentes épocas, línguas e lugares, alerta-nos para o que alguns estudiosos têm chamado de distanciamento. O fenômeno do distanciamento aparece em diversas áreas:
• Distanciamento temporal
A Bíblia está séculos distante de nós. Seu último livro foi escrito pelo final do século I da Era Cristã, o que nos separa temporalmente em cerca de dois milênios. A distância temporal, num mundo em constantes mudanças, faz com que a maneira de encarar o mundo, os aspectos culturais e linguísticos dos escritores da Bíblia se percam no passado distante. Portanto, como qualquer documento antigo, a Bíblia precisa ser lida levando-se isto em conta. Os princípios de interpretação da Bíblia procuram condições de transpor este abismo temporal.
• Distanciamento contextual
Os livros da Bíblia foram escritos para atender a determinadas situações, que já se perderam no passado distante. É verdade que ao serem incluídos no cânon bíblico, eles passaram a ser relevantes para a Igreja universal. Por outro lado, recuperar o contexto em que estes livros foram escritos é essencial para entendermos melhor a sua mensagem. As cartas de Paulo foram escritas visando atender às necessidades de igrejas locais. Não posso entender corretamente o ensinamento do apóstolo sobre o uso do véu pelas mulheres (1 Coríntios 11) se não estiver consciente do problema que estava acontecendo na Igreja relacionado com a participação das mulheres no culto. Igualmente, 1 João toma outra relevância quando fico consciente de que João estava escrevendo contra a influência de uma forma incipiente de gnosticismo nas igrejas da Ásia Menor. Ou ainda, que o livro de Habacuque foi escrito num contexto de iminente invasão por potências estrangeiras. A mensagem do evangelho de Marcos fica mais clara quando descobrimos que Marcos escreveu provavelmente para ajudar os crentes romanos a enfrentar as provações que sofriam por causa de Cristo. E o livro de Jonas -- especialmente a atitude de Jonas contra os ninivitas -- ganha maior clareza quando descubro que havia uma antipatia natural dos judeus contra os ninivitas por causa dos seus grandes pecados. Os princípios de interpretação da Bíblia procuram transpor as dificuldades criadas pela distância contextual.
• Distanciamento cultural
O mundo em que os escritores da Bíblia viveram já não existe. Está no passado distante, com suas características, costumes, tradições e crenças. Muito embora a inspiração das Escrituras garanta que sua mensagem seja relevante para todas as épocas, devemos lembrar que esta mensagem foi registrada numa determinada cultura, da qual traços foram preservados na Bíblia. Os princípios de interpretação da Bíblia devem levar em conta o jeito de escrever daquela época, a maneira de expressar conceitos e ilustrar as verdades, para poder transpor a distância cultural.
• Distanciamento linguístico
As línguas em que a Bíblia foi escrita também já não existem. Não se fala mais o hebraico, o grego e o aramaico bíblicos nos dias de hoje, mesmo nos países onde a Bíblia foi escrita. Como cada língua tem seu jeito próprio de comunicar conceitos (apesar de uma estrutura comum a todas), princípios de interpretação da Bíblia devem levar em conta estas peculiaridades. O conhecimento do paralelismo hebraico certamente nos ajuda a entender os Salmos melhor, bem como os profetas.
• Distanciamento autorial
Devemos ainda reconhecer que teríamos uma compreensão mais exata da mensagem de alguns textos bíblicos reconhecidamente obscuros se os seus autores estivessem vivos. Poderíamos perguntar a eles acerca destas passagens complicadas que escreveram e que continuam até hoje dividindo os melhores intérpretes quanto ao seu significado. Por exemplo, Pedro poderia nos esclarecer o que ele quis dizer com Cristo foi e pregou aos espíritos em prisão. Ou ainda, Paulo poderia nos dizer o que ele quis dizer com o que farão os que se batizam pelos mortos?. Mateus poderia finalmente tirar a dúvida sobre o sentido da frase de Jesus não terminarão de percorrer as cidades de Israel até que venha o Filho do Homem. Daniel poderia nos esclarecer a quem ele se referia por Ciro (de quem não temos registro fora da Bíblia) e porque considerava Belsazar filho de Nabucodonosor, quando era filho de Nabonido. Não endossamos o que alguns estudiosos afirmam, que com a morte do autor perdeu-se a possibilidade de recuperar-se a intenção dos mesmos. A razão é que a intenção deles sobrevive no que escreveram. Mas certamente a ausência do autor faz com que a interpretação de textos obscuros seja necessária. Princípios de interpretação devem levar em conta o distanciamento autorial, e buscar meios de recuperar a intenção deles nos próprios textos que escreveram.
O distanciamento, portanto, exige de nós a tarefa de interpretar. Interpretar é exatamente tentar transpor o distanciamento em suas várias formas, como mencionadas acima, e chegar ao sentido exato do texto. De forma geral, o ponto central da mensagem da Bíblia é tão claro que pode ser entendido por todos, mesmo os que não estão conscientes do distanciamento. A prova disto é que a Igreja vem se mantendo viva e ativa através dos séculos, sendo composta em sua quase absoluta maioria de pessoas que não têm treinamento teológico, histórico e linguístico que permitiriam uma leitura mais informada das Escrituras. Por outro lado, uma maior exatidão e clareza acerca de todos os aspectos da mensagem bíblica não poderá ser alcançada sem interpretação consciente.
Seria importante perguntar até que ponto o lado humano das Escrituras possibilitaram a entrada de erros na mesma. Esta é uma questão bastante controversa e certamente não poderemos abordá-la de forma exaustiva aqui. Apenas reafirmaremos nossa convicção de que a Bíblia é a verdadeira Palavra de Deus, com as seguintes qualificações:
1. Ao dizermos que a Bíblia é verdadeira em tudo que afirma não estamos negando que erros de copistas se introduziram no longo processo de transmissão do texto. Seria negar a realidade. A inerrância é um atributo dos autógrafos, ou seja, do texto como originalmente produzido pelos autores inspirados por Deus. Muito embora hoje não tenhamos mais os autógrafos, pela providência divina podemos recuperá-los quase que em sua totalidade através da ajuda de ferramentas como a baixa crítica ou a manuscritologia bíblica.
2. Também não estamos dizendo que os autores bíblicos receberam conhecimento pleno e onisciente acerca do mundo e das ciências, ao escreverem. Eles se expressaram nos termos e dentro do conhecimento disponível naquela época, acomodando a verdade revelada em termos do que sabiam do mundo. Assim, eles falam que o sol nasce num lado do céu e se põe no outro, ou ainda mencionam que o sol parou no céu (Josué). Do ponto de vista rigorosamente científico estas declarações são inexatas. Ou ainda, no livro de Levítico, se diz que a lebre rumina e que o morcego é uma ave. Sabemos que as duas coisas não são verdade: lebres não ruminam e morcegos não são aves. Os autores bíblicos, entretanto, expressaram a verdade divina acomodando-se ao conhecimento de sua época, quando se pensava que o sol de fato girava em torno da terra, que todos os animais que mexiam com a boca após comer eram ruminantes e que tudo que tivesse asas e voasse era ave!
3. Também não estamos dizendo que podemos explicar todas as partes da Bíblia em termos absolutamente satisfatórios. Por exemplo, a harmonia dos Evangelhos continua sendo um desafio para autores comprometidos com a inerrância bíblica, pois nem sempre consegue-se achar uma explicação absolutamente satisfatória para os problemas levantados pelas aparentes discrepâncias entre os Evangelhos. Ou ainda, pelas discrepâncias entre 1-2 Crônicas e 1-2 Reis. No entanto, não podemos aceitar soluções que impliquem numa diminuição da autoridade das Escrituras, sugerindo contradições ou erros. É preferível aguardar até que mais informações nos ajudem a achar soluções compatíveis com a natureza da Escritura e sua divina origem.
4. Por último, é importante acrescentar que não estamos dizendo que as traduções da Bíblia são inerrantes. Muito embora possamos ler com confiança a Bíblia em nossa língua, reconhecemos que em muitos casos os tradutores tiveram que tomar decisões relacionadas com a melhor maneira de traduzir um determinado termo ou expressão, e que tais decisões, não sendo inspiradas por Deus, nem sempre foram as corretas.
2 A Bíblia como livro divino
• Distanciamento natural
• Distanciamento espiritual
• Distanciamento moral
Conclusão
3 Método de Interpretação Bíblica
A Bíblia é a Palavra de Deus. Mas, algumas das interpretações derivadas dela não são. Existem muitas seitas, cultos e grupos cristãos que usam a Bíblia declarando que as suas interpretações são as corretas. Muito frequentemente, no entanto, as interpretações não apenas diferem dramaticamente umas das outras, como são claramente contraditórias. Isto não significa que a Bíblia seja um documento contraditório. Antes, o problema está naqueles que a interpretam e/ou nos métodos que eles usam.
Como nós somos pecadores, somo incapazes de interpretar perfeitamente a palavra de Deus todo o tempo. O corpo, a mente, a vontade e as emoções são afetadas pelo pecado e tornam a interpretação 100% exata uma impossibilidade. Isto não significa que entender corretamente a palavra de Deus seja impossível. Mas que devemos nos aproximar à Sua palavra com cuidado, humildade e razão. Adicionalmente, nós precisamos o que de melhor nós poderíamos necessitar: a direção do Espírito Santo na interpretação da Palavra de Deus. Além do mais, a Bíblia é inspirada por Deus e dirigida ao Seu povo. O Espírito Santo nos ajuda a compreender o que a Palavra de Deus significa e como aplicá-la em nossas vidas.
No nível humano, para minimizar os erros que possam advir das nossas interpretações, nós precisamos conhecer métodos básicos de interpretação da Bíblia. Eu irei listar alguns destes princípios na forma de questões e então aplicá-los a uma passagem da Escritura.
Eu sigo os seguintes princípios como linhas-mestras para examinar uma passagem. Elas não são exaustivas e nem absolutas.
1. Quem escreveu/falou a passagem e para quem era endereçada?
2. O que a passagem diz?
3. Existe alguma palavra ou frase nesta passagem que precise ser examinada?
4. Qual é o contexto imediato?
5. Qual é o contexto mais amplo exposto no capítulo e no livro?
6. Quais são os versículos relacionados ao assunto da passagem e como eles afetam a compreensão desta?
7. Qual é o fundo histórico e cultural?
8. Qual a conclusão que eu posso tirar desta passagem?
9. As minhas conclusões concordam ou discordam de áreas relacionadas nas Escrituras ou com outras pessoas que já estudaram esta passagem?
10. O que eu posso aprender e aplicar à minha vida?
A fim de ajudar a entender como estas questões podem afetar a sua interpretação de uma passagem, eu escolhi uma que, quando examinada atentamente, pode fazer você chegar a conclusões muito diferentes. Eu deixarei que você determine a exatidão da minha interpretação.
A passagem que eu vou usar é Mt 24:40 Dois homens estarão no campo; um será levado e o outro será deixado.
1. Quem escreveu/falou a passagem e para quem era endereçada?
Jesus pronunciou as palavras e elas foram registradas por Mateus. Jesus falou aos Seus discípulos em resposta a uma pergunta, que iremos ver mais tarde.
2. O que a passagem diz?
A passagem diz simplesmente que um dos dois homens que estão fora, no campo, será levado. Ela não diz onde, porque, quando, ou como. Ela só diz que um será levado. Ela não define que o campo pertença a alguém ou a algum lugar em particular.
3. Existe alguma palavra ou frase nesta passagem que precise ser examinada?
Nenhuma palavra, nesta passagem em particular, realmente necessita que nós a examinemos cuidadosamente, mas para seguirmos este exercício, eu usarei a palavra levar. Usando uma Concordância de Strong e um Dicionário de Palavras do Novo Testamento, eu posso verificar qual é a palavra grega e aprender a respeito dela. A palavra no Grego é paralambano. Ela significa: 1) tomar, tomar para si mesmo, trazer para junto de si, 2) receber alguma coisa por transmissão.
Um ponto que vale a pena mencionar acerca do estudo das palavras é que o seu significado pode mudar de acordo com o seu contexto. Assim, examinando como a palavra é usada em múltiplos contextos, o seu significado pode reveber novas dimensões. Por exemplo, a palavra amor, no grego é agapao. Ela geralmente refere-se ao amor divino. Isto pode parecer óbvio, já que esta é a palavra usada em Jo 3:16 com este significado. No entanto, a mesma palavra é usada em Lc 11:43, onde Jesus diz: Ai de vocês, fariseus, porque amam os lugares de honra nas sinagogas e as saudações em público! (NVI). A palavra usada aqui é agapao. Parece que o significado da palavra pode tornar-se alguma coisa na linha de totalmente comprometido com.
No entanto, nós devemos tomar o cuidado de não usar o significado de uma palavra em um contexto em outro contexto. Por exemplo: 1) Este novo cadete é verde. 2) A árvore é verde. O primeiro verde significa novo ou inexperiente. O segundo significa a cor verde. Poderíamos impor o significado de um contexto em outro? Sim, mas não seria uma boa ideia.
4. Qual é o contexto imediato?
É o lugar onde a passagem está inserida. O contexto imediato da nossa passagem é o seguinte, Mt 24:37-42, Como foi nos dias de Noé, assim também será na vinda do Filho do Homem. 38 Pois nos dias anteriores ao dilúvio, o povo vivia comendo e bebendo, casando-se e dando-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca; 39 e eles nada perceberam, até que veio o dilúvio e os levou a todos. Assim acontecerá na vinda do Filho do Homem. 40 Dois homens estarão no campo: um será levado e o outro será deixado. 41Duas mulheres estarão moendo num moinho: uma será levada e a outra deixada. 42 Portanto, vigiem, porque vocês não sabem em que dia virá o seu Senhor (NVI).
Imediatamente podemos perceber que a pessoa levada no verso 40 é comparada a pessoa levada no verso 39. Isto é, que as pessoas que foram levadas são do mesmo tipo.
Uma pequena questão precisa ser feita agora. Quem foi levado no verso 39? Foi Noé e sua família ou foram as pessoas que estavam comendo e bebendo? A resposta a esta pergunta pode nos ajudar a entender melhor a passagem original. O próximo passo na interpretação da passagem nos ajudará a entendê-la ainda mais.
5. Qual é o contexto mais amplo exposto no capítulo e no livro?
Uma passagem deve ser sempre examinada dentro do seu contexto. Não apenas no contexto dos versos imediatamente antes e depois dela, mas também no contexto do capítulo e até do livro na qual ela está escrita.
O discurso de Jesus do qual esta passagem foi tirada, começa com uma pergunta. Jesus tinha acabado de sair do templo e no verso 2 disse aos Seus discípulos que ..não ficará aqui pedra sobre pedra; serão todas derrubadas. Então no versículo 3, os discípulos perguntam a Jesus: Dize-nos quando acontecerão essas coisas? E qual será o sinal da sua vinda e do fim dos tempos? (NVI). Então, Jesus começa a profetizar acerca das coisas que viriam no fim dos tempos. Ele falou de falsos Cristos, tribulação, do sol se escurecendo, do Seu retorno e dos dois homens no campo onde um será levado e outro será deixado.
O contexto é escatológico. Isto significa que ele está tratando das últimas coisas, ou do tempo próximo ao retorno de Jesus. Muitas pessoas acham que este versículo de Mt 24:40 refere-se ao arrebatamento mencionado em 1 Ts 4:16-17. Pode ser. Mas é interessante notar que o contexto do versículo sugere que o mau é que será levado, e não o bom.
Neste momento você pode estar pensando que este método de interpretação da passagem não é bom. Depois de tudo, o verso um será levado e o outro deixado é realmente acerca do arrebatamento. Certo? Bem, pode ser. Como você pode ver, nós todos chegamos à Bíblia com idéias pré-concebidas. Algumas vezes elas estão certas, outras, erradas. Nós sempre deveríamos estar prontos a ter a nossa compreensão da Bíblia desafiada pelo que é dito. Se nós não estivermos dispostos, então somos presunçosos. E Deus está distante do soberbo ( Sl 138:6).
6. Quais são os versículos relacionados ao assunto da passagem e como eles afetam a compreensão desta?
Acontece que existe uma passagem relacionada, na verdade, paralela, encontrada em Lc 17:26-27. Assim como foi nos dias de Noé, também será nos dias do Filho do Homem. 27O povo estava comendo, bebendo, casando-se e sendo dado em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. Então veio o dilúvio e destruiu a todos. (NVI).
4 Método de Interpretação Bíblica II
7. Qual é o fundo histórico e cultural?
8. Qual a conclusão que eu posso tirar desta passagem?
9. As minhas conclusões concordam ou discordam de áreas relacionadas nas Escrituras ou com outras pessoas que já estudaram a esta passagem?
10. O que eu posso aprender e aplicar à minha vida?
Concluindo
5 Aspectos da Interpretação
Introdução
O objetivo desta aula e da seguinte é estudar alguns aspectos da interpretação que são fundamentais para uma correta compreensão das Escrituras. São aspectos que devem ser levados em conta pelo intérprete ao procurar chegar ao sentido da Palavra de Deus. Estes aspectos decorrem do fato que a Bíblia é um livro divino e humano ao mesmo tempo. Desta forma, alguns dos aspectos são pertinentes somente à interpretação da Bíblia, enquanto que outros, à interpretação de textos antigos em geral.
Mais uma vez lembremos que adotamos uma interpretação reformada das Escrituras. O que isto significa? Em poucas palavras, é um sistema de interpretação que:
• está historicamente associado ao método gramático histórico de interpretação, adotado, usado e defendido pelo Reformadores.
• tem como pressuposto a inspiração e veracidade das Escrituras;
• procura estar sensível aos estudos modernos de ciências correlatas que podem trazer algum auxílio à interpretação do texto bíblico.
Apresentamos nesta aula dois importantes aspectos da interpretação reformada das Escrituras que devem ser levados em conta pelo exegeta reformado. Estes aspectos são derivados da natureza das Escrituras, como expostos na aula anterior.
Aspecto pneumológico
Podemos dividir em duas etapas a obra do Espírito Santo em comunicar a verdade de Deus:
• Revelação, que foi o primeiro estágio, objetivo em sua natureza. Consistiu na atuação do Espírito nos autores bíblicos e no texto que produziram, de tal forma a termos o registro infalível da Palavra de Deus.
• Iluminação, que é subjetivo, consiste na iluminação de nossa mente para compreender a verdade revelada nas Escrituras. É com este segundo estágio que nos ocuparemos aqui.
A atuação iluminadora do Espírito de Deus na leitura e compreensão das Escrituras é uma dimensão freqüentemente ignorada por estudiosos comprometidos com o método histórico-crítico e com seus pressupostos. Para eles, não há qualquer interferência ou participação de Deus no processo de compreensão. A exegese é um processo absolutamente mecânico, uma simples aplicação de métodos supostamente científicos. Veja o que disse o biblista católico Severino Croatto em seu livro Hermenêutica:
Não existe uma hermenêutica bíblica diferente de outra filosófica, sociológica, literária e outras. Há apenas uma hermenêutica geral, da qual existem muitas expressões regionais. O método e o fenômeno coincidem em todos os casos. É verdade, contudo, que a hermenêutica bíblica tem uma característica talvez inédita por assumir textos de uma longa trajetória de criação e reelaboração, originados em um povo com um itinerário igualmente longo, unificado por uma concepção linear e teleológica da história que exige um grande trabalho interpretativo. Esta fecundidade hermenêutica será bem assinalada no decorrer deste estudo.
Para Croatto, a única diferença entre a Bíblia e outros livros é que ela é um texto antigo que tem um conceito peculiar de história.
Considerando a origem divina das Escrituras, a natureza espiritual de sua mensagem e o problema criado pelo pecado no entendimento do homem, é evidente que carecemos da atuação iluminadora do Espírito de Deus para podermos entender a mensagem que Deus revelou nas Escrituras. Os textos bíblicos acima mostram isto.
Principais questões
Embora haja pouca dúvida entre os estudiosos evangélicos de que o Espírito desempenha de fato um papel no processo interpretativo, a grande questão é saber exatamente qual é este papel. E nisto os evangélicos têm apresentado diversas e diferentes soluções. Entender mais claramente o papel do Espírito é importante em nosso desejo de estabelecer e usar princípios de interpretação que nos conduzam ao sentido real dos textos bíblicos. Corremos, por um lado, o risco de exagerarmos na função do Espírito, e cairmos numa hermenêutica carismática. Por outro, podemos ignorá-la, caindo numa exegese mecânica e árida. Queremos o equilíbrio.
As principais questões levantadas pelos estudiosos são estas:
I. Qual é exatamente o papel do Espírito na interpretação? Ele revela novos sentidos ao intérprete que vive uma vida de oração e comunhão com Deus? Ou apenas ilumina o entendimento para que ele possa crer naquilo que seu trabalho exegético já descobriu?
II. Qual a relação entre espiritualidade e exegese? Até que ponto a minha espiritualidade influencia a minha exegese? A minha vida de oração tem a ver com a eficácia da minha interpretação?
Principais respostas
Os estudiosos têm dado diversas e diferentes respostas a estas questões. Vejamos algumas das mais importantes.
Esta posição sugere que sem a iluminação do Espírito ninguém pode entender a sua mensagem. Aos crentes humildes, obedientes e comunicativos, Deus concede o verdadeiro sentido das Escrituras.
Moisés Silva -- Ele defende no artigo A Função do Espírito da Interpretação Bíblica que nossa espiritualidade não tem qualquer influência na precisão da exegese bíblica. Reagindo contra a ideia de que pessoas cheias do Espírito irão ter uma exegese mais exata do texto do que outras que não são tão espirituais, Silva argumenta que em sua maior parte a exegese consiste na aplicação metodológica de regras de interpretação, conhecimento da gramática e da sintaxe, conhecimento da cultura e da história -- coisas que independem do estado espiritual de quem faz a exegese.
Ele sugere que pessoas descrentes mas preparadas hermeneuticamente farão uma exegese melhor do que crentes piedosos sem preparo algum. A ação do Espírito fará diferença apenas quanto à aplicação dos resultados da interpretação. Sem negar a atuação do Espírito na vida do exegeta crente, Silva defende entretanto que o resultado da exegese depende mais da nossa capacidade como intérpretes do que de algum ato miraculoso de revelação do Espírito.
Daniel B. Wallace -- ele argumenta que o papel do Espírito é produzir convicção da verdade, mais do que dar conhecimento dela. O Espírito dá testemunho da verdade quando alguém abre as Escrituras e começa a ler. Wallace entende o papel do Espírito em termos do que Paulo chama de testemunho do Espírito ao nosso espírito (Rm 8.16), e que Calvino chamou de o testemunho interno do Espírito. É aquela persuasão interna operada pelo Espírito, convencendo-nos da verdade. Wallace entende que é isto que o Espírito faz. Ele não dá conhecimento novos, nem novas revelações, mas simplesmente testifica conosco de que estamos diante da verdade (veja seu artigo nas Referências).
Considerando que existem muitas divergência entre cristãos sinceros e piedosos quanto a determinados pontos das Escrituras, Wallace sugere que o Espírito só dá testemunho dos pontos centrais da Escritura. Por este motivo, os cristãos se dividem quanto a pontos secundários, pois não há testemunho do Espírito quanto a eles. A dificuldade com a posição de Wallace é que ela introduz uma distinção entre doutrinas centrais e secundárias que variará de acordo com a tradição e as convicções de alguém. Por exemplo, na lista de Wallace constam como doutrinas secundárias o papel da mulher na liderança, a doutrina da inerrância da Bíblia, o tempo que Deus levou para criar o mundo e os dons espirituais. Nem todos concordariam com a lista de Wallace.
Tentando achar um caminho
Apesar das divergências quanto ao modo e intensidade da atuação do Espírito na interpretação, penso que podemos fazer algumas afirmações em busca de um caminho que leve em consideração as principais preocupações dos diferentes posicionamentos quanto ao assunto;
1. É necessário orar e labutar (o lema de Calvino) para entendermos corretamente as Escrituras: orar por iluminação do Espírito e labutar estudando as Escrituras, usando todos os recursos disponíveis.
2. Quanto mais alguém entristece o Espírito de Deus, desobedecendo as Escrituras e diminuindo o respeito por sua autoridade, mais e mais tenderá a torcer o texto (2 Pe 3.15-16).
3. Os que creem que o Espírito de Deus intervém de forma direta no mundo, estarão em melhor condição de interpretar os relatos bíblicos sobre profecias e milagres. Os incrédulos tenderão a interpretar estas passagens como vaticinia ex eventu e mitológicas, perdendo de vista a intenção do texto.
4. O objetivo da exegese não é somente adquirir conhecimento, mas sermos transformados pelo poder do Espírito, através da Palavra. Assim, devemos ler as Escrituras abertos para sermos transformados pelo Espírito (2 Co 3.18).
5. Não devemos pressupor que nossa exegese será correta se simplesmente orarmos e somos espirituais. O castigo para a preguiça e falta de estudo sério será uma exegese forçada e superficial. O Espírito de Deus não me transmitirá miraculosamente conhecimentos que eu posso adquirir estudando.
6 Aspectos da Interpretação II
Aspecto Teológico
O papel dos pressupostos teológicos sempre foi destacado pela Igreja
A natureza da revelação e do entendimento garantem a validade na interpretação
pressupostos universais
É essencial o uso correto do círculo hermenêutico
Pressupostos Reformados