Os Novos Movimentos Religiosos
Teologia Cristã Protestante
1 Os conceitos de igreja, seita, denominação e culto
Segundo a teologia católica, extra ecclesiam nulla salus (fora da Igreja não há salvação). Será? Vamos ver. As discussões acerca dos conceitos de Igreja, seita, denominação e culto não são novas: os teóricos Ludwig Feuerbach, Max Weber e Ernst Troeltsch já se debruçaram sobre esse assunto no início do Século XX (Wilson 1970, 1982).
O que é igreja?
Segundo Max Weber (1997), na sua relação com o mundo, a Igreja busca a universalidade, não somente no sentido geográfico, mas como instituição religiosa dominante, a que conserva o monopólio da produção e distribuição dos bens simbólicos de salvação (Hamilton 1999), cuja ideia vai ser retomada depois por Pierre Bourdieu, que afirma que a Igreja visa preservar um monopólio de um “capital de graça institucional ou sacramental […] pelo controle de acesso aos meios de produção, de reprodução e de distribuição dos bens de salvação” (Bourdieu 1986:58). Ainda segundo Pierre Bourdieu (1986), a boa gestão do capital religioso acumulado, visando garantir a sua manutenção e crescimento, somente pode ser feita por meio de um aparelho burocrático, por uma instituição como a Igreja, capaz, portanto, de assegurar a sua própria sobrevivência “ao reproduzir os produtores de bens de salvação” (Bourdieu 1986:59), através da constituição de um corpo de sacerdotes e serviços religiosos.
No contexto das sociedades modernas secularizadas, a Igreja, numa tentativa de garantir o reconhecimento social de seu já frágil controlo dos bens de salvação e também como estratégia de perpetuação da influência e do poder na sociedade, tende a impedir a entrada dos novos movimentos religiosos no mercado religioso, bem como a privatização da prática religiosa, ou seja, a busca individual de salvação da alma (Bourdieu 1986:58). Na busca da sua universalidade, a Igreja tem uma grande vantagem em relação às seitas, pois seus potenciais seguidores já nascem e são batizados no seio da Igreja. Além disso, a Igreja, segundo Weber, é não-exclusivista, ou seja, os critérios de aceitação de um novo membro são mínimos e, por outro lado, os casos de expulsão são raros e somente dentro do seu quadro de teólogos. Segundo Thomas Luckmann (1973), na esteira de Durkheim (1996), a história da civilização cristã ocidental é caracterizada pela extrema institucionalização da religião na forma de Igreja. Uma das conseqüências disso é o fato da religião ser tratada como uma instituição como outra qualquer. Como afirmou Troeltsch (1931), a Igreja dominou o mundo e, por isso, foi dominada pelo mundo (1931:342). Vejamos então, resumidamente, as principais características de Igreja (Troeltsch 1931; Ramos 1992).
As principais características de Igreja
1. Sistema religioso majoritário em conformidade com as instituições primordiais (política, econômica, educativa) da sociedade ou Estado, institucionalmente laico ou não.
2. Identificação com certos aspectos nacionalistas, como etnia, fronteiras geográficas, idioma, etc.
3. Legitimada socialmente (a legitimação é de origem divina e justificada pela Sagrada Escritura), a Igreja exerce influência e autoridade sobre todos os aspectos da vida.
4. Reivindica o monopólio dos bens religiosos e simbólicos de salvação.
5. Os membros são majoritariamente por nascimento/batismo e pouquíssimos por conversão.
6. Proselitismo genérico, de caráter universalista e não muito ativo.
7. Burocratização e organização complexa, envolvendo aspectos administrativos, estratificação interna (clerical-laica), distribuição geográfica ordenada, formalização teológico-dogmática das crenças, desenvolvimento de legislação formal sobre práticas, usos e costumes e a ritualização de cultos e orações.
O que é seita?
As seitas, por sua vez, não aspiram a universalidade da Igreja, pois são mais exclusivistas, os critérios de admissão são rígidos, só aceitam pretendentes considerados aptos, com base nas suas qualidades religiosas e morais. No entanto, as seitas são por natureza conversionista, pois, para subsistir, são obrigadas a recrutar o maior número possível de adeptos; ou seja, o forte proselitismo é uma das suas principais características. O Messias, o profeta, o guru, ou seja, o líder carismático, e sua seita, ao contrário das Igrejas, são obrigados a realizar a “acumulação inicial do capital religioso” (Bourdieu 1986:59) pela conquista de uma autoridade sujeita às flutuações da relação conjuntural entre a oferta de serviços religiosos e a procura pelos bens de salvação.
Segundo o teólogo e sociólogo alemão E. Troeltsch (1931), as seitas são hostis e perigosas, não somente para a Igreja oficial, mas também para o poder econômico e político instituídos, ou seja, para a ordem social dominante; e isso explica, naturalmente, o sentido pejorativo do conceito de seita e, em alguns casos, as injustificadas campanhas de difamação desencadeadas por parte do Estado e da Igreja majoritária, contra um determinado movimento religioso (Barker 1999). A seita é uma fração mais radical dentro de uma religião/Igreja instituída. Em sociedades onde há união, direta ou indiretamente, entre poder político e eclesiástico, a Igreja é considerada como a única instituição religiosa oficial, ou seja, uma instituição hierarquizada e burocratizada e detentora do monopólio dos bens simbólico religiosos, enquanto que a seita é um grupo de protesto, que se nega a aceitar a verdadeira fé – é sinônimo de apostasia (abandono da fé).
Para reforçar o que foi agora dito sobre as características da seita, é pertinente dizer que este conceito tem um duplo significado: secare – cortar; sequi – seguir (Ruuth & Rodrigues 1999). Então vejamos: (a) No primeiro sentido (secare – cortar), como foi discutido acima, seita é um pequeno grupo que se separou de um corpo religioso maior, do qual reivindica a legitimidade teológica. Ou seja, é um grupo de ruptura que busca a renovação de sua Igreja de origem, não necessariamente para criar uma nova religião ou Igreja, mas como a versão autêntica e purificada da fé. Como afirmou o teólogo Carreira das Neves “ao fim e ao cabo, todos estes novos movimentos religiosos vão descobrir, através dos seus fundadores, que são eles os verdadeiros herdeiros da Palavra de Deus” (Neves 1998:9). Outro aspecto importante a realçar é que está implícito neste conceito de seita a inovação: introduzida por um „profeta‟ ou líder religioso, o inovador que fala, prega e age de forma distinta dos líderes e dos seguidores da religião anterior, da qual está a se separar, oferecendo novos horizontes religiosos e de salvação da alma e propondo doutrinas, moral e comportamentos distintos (Galindo 1994:66).
Foi este, por exemplo, o caso das três principais religiões monoteístas históricas, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo; são as denominadas Religiões do Livro Sagrado ou religiões abraâmicas, pois a figura mítica que as une é Abraão . Posteriormente, surgem os três principais ramos, as três principais Igrejas no contexto da religião cristã: o catolicismo romano, o catolicismo ortodoxo e o protestantismo. Para além das religiões do livro, também outras religiões históricas produziram fenômenos do tipo sectário, como foi o caso do Hinduísmo, Budismo e Confucionismo. Na verdade, não podemos esquecer que, quando apareceram, todas as grandes religiões e Igrejas históricas conhecidas foram consideradas como seitas e novos movimentos religiosos durante algum tempo.
Seita, no segundo sentido (segui – seguir), pode ser definida da seguinte maneira: grupo organizado de pessoas que seguem uma mesma doutrina filosófica e religiosa. No sentido sectário, com uma grande carga pejorativa, é um grupo de pessoas que professa opiniões facciosas e intolerantes do ponto de vista político e religioso. Neste caso, a seita apresenta as seguintes características: tem um poder centralizado num único chefe, um líder carismático, um iluminado‟ que recebeu o chamamento de Deus, do Demônio ou de qualquer outra entidade sobrenatural, ao qual os seguidores, que normalmente abandonam a família, o trabalho, a escola, para viver com o grupo, devotam uma obediência cega; as normas comportamentais são extremamente rígidas; ela é fanática; alienante; autodestrutiva; valoriza a violência; é fechada e intolerante, relativamente ao exterior.
Para esclarecer melhor esta última definição, vamos dar alguns exemplos. É importante realçar que a escolha das seitas aqui apresentadas deveu-se unicamente ao fato de muitas delas estarem fortemente implantadas no mundo inteiro e de serem muito conhecidas, por causa da sua polêmica forma de atuação, digamos assim, da sua espetaculosidade:
-Igreja da Unificação do Cristianismo (The Holy Spirit Association for the Unification of World Christianity), criada nos anos de 1950, pelo reverendo coreano Sun Myung Moon (1920).
- Segundo ele, embora seguidor do Taoísmo e Confucionismo (religiões do seu contexto cultural), quando tinha 16 anos, teve uma visão de Jesus Cristo, com a mensagem de criar um novo reino de Deus na Terra e, portanto, considera-se um novo messias. Este movimento religioso também tem uma forte ação política (conservadora de direita) e possui um enorme complexo industrial e financeiro. Seu líder, agora a viver nos Estados Unidos, é proprietário do prestigiado jornal Washington Times.
-Meninos de Deus/Família do Amor (oficialmente The Fellowship of Independent Missionary Communities), uma polêmica seita neo-pentecostal, originalmente ligada ao Jesus Movement, criada em Los Angeles (EUA), em 1968, por David Brandt Berg (1919-1994), e hoje presente em mais de 50 países, distribuídos em cerca de 200 comunidades, que vivem isoladas da sociedade envolvente.
-Igreja de Cientologia, fundada em 1954, em Los Angeles
(EUA), por Ron Hubbard (1911-1986), a partir da Dianética (Hubbard 1950), uma forma de terapia mental-espiritual, denominada por ele “Ciência moderna de saúde mental”. Este NMR possui alguns membros ilustres do star-system americano, como John Travolta e Tom Cruise.
Mas há outras seitas, porque a lista é enorme (Fillaire 1995;Ikor 1996).
Há ainda as seitas que são um grande perigo para a sociedade, por exercerem extrema violência. Vejamos alguns exemplos:
Aum Shinrikyo-Verdade Suprema, um NMR com forte influência hinduísta e budista, criado em 1987 pelo japonês Shoko Asahara (nascido Chizuo Matsumoto), que em 1995 perpetrou um ataque com gás tóxico no Metro de Tóquio, causando doze mortos e vários feridos.
Seitas que praticaram suicídios coletivos e que na sua grande maioria são de origem norte-americana: Templo do Povo (líder Jim Jones); Ramo dos Davidianos (líder David Koresh); Porta do Paraíso (líder “Do”, Marshall Applewhite), conhecida como a seita dos ÓVNIS; Ordem do Templo do Sol, criada, em 1984, por Joseph Di Mambro (1924-1994) e Luc Jouret (1947- 1994), que reivindicavam ser os descendentes diretos dos Cavaleiros Templários, do período medieval.
Para concluir esta questão, vejamos, de uma forma mais exaustiva possível, as principais características de seita, no sentido sociológico (Ramos 1992; Troeltsch 1931; Weber 1997; Wilson 1970, 1982):
As principais características de Seita
1. Organização com uma estrutura simples e pouco burocratizada, quase sempre sem a distinção entre clérigos e laicos.
2. Associação voluntária, mas exclusivista, ou seja, os membros da seita não podem pertencer a uma outra organização.
3. A seita, que nasce normalmente no seio de um movimento religioso mais amplo, reivindica a exclusividade, o monopólio da „verdade‟ religiosa.
4. O líder religioso é o mensageiro da „verdade suprema‟; quase todos os fundadores de Igrejas e outras confissões religiosas, legam aos seus fiéis, de uma forma oral ou escrita, as suas experiências marcantes do contacto com o sagrado.
5. Os seus membros, que „renascem‟ numa nova espiritualidade, consideram-se os eleitos, ou seja, que foram escolhidos por Deus, pelo líder (o guru) ou outra entidade religiosa, para desempenhar um importante papel no mundo.
6. O proselitismo é seletivo, ou seja, a tentativa de conversão incide apenas sobre um número reduzido de pessoas.
7. Apóia-se na conversão pessoal, que implica mudanças radicais no modo de vida e uma forte componente emocional.
8. Adotam idéias e comportamentos muito próprios e exclusivos.
9. Todos os seus membros tendem a uma perfeição holística como ser humano.
10. Propaga a ideia que pertencer a ela é um prêmio aos méritos pessoais do pretendente, tais como: conhecimento da doutrina, experiência de conversão, recomendação de um membro mais antigo.
11. Há grande participação dos laicos nas cerimônias religiosas.
12. Durante os cultos os membros devem expressar a sua total fidelidade ao líder.
13. É pouco dialogante e defende energicamente a sua ideologia, provocando, quase sempre, um enorme isolamento do mundo.
14. Quanto à relação com a sociedade, com o Estado e com as Igrejas e religiões históricas (oficiais e/ou majoritárias), a seita tem um caráter contestatório, no que se refere aos valores, costumes e às normas sociais predominantes na sociedade.
15. Algumas seitas, que se assumem como um grupo fundamentalista radical, adotam uma atitude hostil e até mesmo de violência contra os não-membros do movimento.
16. Retiram os seus membros do seio familiar e da sociedade, para viverem em grupo, impondo-lhes, assim, os seus próprios critérios morais e de comportamento e obrigando-lhes a tomarem parte em quase todas as atividades do grupo.
17. Quem defender opiniões contrárias às doutrinas da seita ou violar as normas básicas de comportamento, éticas ou da organização, será punido internamente. Mas, de acordo com a gravidade da situação, também poderá ser expulso, perseguido pelo grupo, e até mesmo pagar com a própria vida o ato de traição.
Dentro da problemática dos agrupamentos religiosos, os dois principais conceitos são seita e Igreja, preconizados por Max Weber e o seu colega Ernst Troeltsch. No entanto, há ainda mais dois conceitos importantes: „denominação‟ e „culto‟. A denominação, por sua vez, pode ser definida como uma etapa intermédia entre seita e Igreja (Wilson 1970, 1982; Stark & Bainbridge 1985). Superada sua primeira etapa de instabilidade provocada pela ruptura, do fervor carismático, do monopólio da „verdade‟ religiosa e do caráter exclusivista, a seita do tipo conversionista começa a tornar-se mais estável, a institucionalizar-se, ou seja, a organizar-se de uma forma semelhante a uma Igreja e torna-se, assim, numa denominação. Foi o que aconteceu, por exemplo, numa primeira fase com o Calvinismo e o Metodismo (Ramos 1992:183). O culto, por sua vez, é livre, aberto e apóia-se sobre interesses e experiências religiosas individuais ou de um pequeno grupo. Segundo ODea “as relações que se exprimem no culto são, em primeiro lugar, relações com o sagrado [...] apenas secundariamente são relações entre membros e entre membros e líderes” (ODea 1969:59).
Os cultos são expressões religiosas de cariz popular, que surgem normalmente no contexto das grandes religiões históricas mundiais. Eles apresentam uma grande dose de misticismo (Troeltsch 1931) e um caráter sincrético, pois incorporam elementos da cultura (ou da contracultura) contemporânea (Hunt 2003). No entanto, os seus membros não rompem necessariamente com suas religiões ou igrejas de origem e com suas crenças religiosas predominantes. O culto é uma organização voluntária, sem regras formais de pertença como a Igreja e sem o exclusivismo da seita. No contexto do cristianismo católico, os mais importantes são o culto "mariano", de veneração a Nossa Senhora (ver, p.ex., o fenômeno Fátima, em Portugal, e Aparecida, no Brasil, entre muitos outros casos) e os cultos de veneração aos santos (ver, por exemplo, os chamados "santos populares"). A maioria desses cultos possui um espaço sagrado próprio, um santuário, que envolve peregrinação , normalmente em datas especiais.
Mas há outros exemplos de cultos fora do mundo cristão, como, por exemplo, O Baha’í (um culto de origem persa-iraniana e presente em quase todos os países do mundo e com dois grandes centros religiosos, duas enormes „catedrais‟, na Índia e em Israel12), algumas filosofias orientais, terapias espirituais e medicinas alternativas, a meditação transcendental, entre outras.
2 O fenômeno NMRs
À laia de conclusão, podemos dizer que os principais fatores para a proliferação dos Novos Movimentos Religiosos são:
2. Aumento da insensibilidade e do individualismo do mundo moderno,em geral, e das grandes cidades, em particular.
3. Aumento dos problemas sociais e econômicos, tais como: desemprego, marginalidade, toxicodependência, prostituição, racismo, violência urbana, etc.
4. Problemas do foro psicológico, tais como angústia, ansiedade e falta de sentido para a vida, etc.
5. Falta de capacidade e às vezes interesse por parte das Igrejas históricas tradicionais para enfrentar os problemas socioeconômicos, psicológicos e espirituais da maioria da população carenciada.
6. Afastamento gradual dos fiéis da sua Igreja original, pois esta apresenta, de uma forma geral, um discurso desatualizado quanto à realidade social, cultural e religiosa de hoje.
7. No caso dos países do Terceiro Mundo, a falta de vontade política dos governantes de realizar uma verdadeira mudança na sociedade, na tentativa de resolver ou amenizar a situação de extrema pobreza em que vive a maior parte da população, faz com que haja um descrédito generalizado da classe política e uma valorização das obras assistenciais de organizações nãogovernamentais e de Igrejas e outras associações religiosas, não conotadas com o poder político.