PROGRAMA DE TREINAMENTO VOCAL PARA LOCUTORES DE RÁDIO
Locução e Sonoplastia
1 INTRODUÇÃO AO PROGRAMA DE TREINAMENTO VOCAL PARA LOCUTORES DE RÁDIO
Embora o referencial teórico da literatura nacional e internacional sobre a atuação fonoaudiológica com a voz profissional seja amplo, o enfoque do trabalho fonoaudiológico com os locutores de rádio é extremamente reduzido. Essa área tem recebido pouca atenção quanto à estruturação metodológica, seja em relação aos procedimentos utilizados, ou à avaliação dos resultados. A escassez de estudos com a presença de grupo controle, a falta de padronização dos procedimentos e a imprecisão metodológica no tocante a incompatibilidade na definição e na seleção das técnicas utilizadas, é bastante evidente nos trabalhos dessa área.
Apesar de não existir um protocolo padronizado para medir os resultados funcionais do trabalho fonoaudiológico com os locutores de rádio, existe um consenso entre os poucos pesquisadores do assunto, sobre a importância do trabalho de voz e promoção da saúde vocal.
O Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC) oferece em sua grade curricular o curso de Qualificação Profissional de Radialista – Setor Locução. Esse curso é de caráter intensivo, exclusivamente profissionalizante e autorizado pelo Conselho Nacional de Educação a fornecer o Registro Profissional junto à Delegacia Regional do Trabalho.
O trabalho fonoaudiológico com os alunos desse curso incentivou a presente pesquisa no sentido de estruturar metodologicamente uma proposta de trabalho e avaliar cientificamente os resultados deste trabalho.
O uso adequado dos diferentes registros vocais está intimamente relacionado com a saúde vocal do profissional da voz. Os profissionais da voz devem adaptar seu padrão vocal em função da demanda de comunicação para uma qualidade vocal adequada e saudável, e minimizar os fatores de risco para alterações vocais.
O padrão diferenciado da fala do locutor é promovido via emprego de marcas vocais específicas, com o objetivo de atrair o ouvinte para o que está sendo comunicado
O locutor adapta seu padrão vocal, caracterizado por um contorno prosódico característico e elementos enfáticos, de acordo com as diferentes situações de comunicação, ao qual é exposto(15-16). Esse profissional necessita buscar recursos que o levem ao aprimoramento da sua locução, reestruturando constantemente a sua fala.
A redução da freqüência fundamental com pitch mais grave é bastante utilizada entre os locutores, como forma de caracterizar o discurso e obter melhor resultado nas transmissões das mensagens. Em relação à eficácia do treinamento vocal, diversos estudos enfatizam a necessidade de um treinamento de voz bem estruturado e elaborado para futuros profissionais da voz.
A atividade de leitura pós-treinamento vocal pode ser considerada como resultado de uma elaboração possibilitando uma melhor caracterização vocal.
A velocidade de fala é um importante indicativo do grau de fluência, definida como o fluxo contínuo e suave da produção da fala, medida pelo fluxo de palavras por minuto e o fluxo de sílabas por minuto. Uma emissão fluente corresponde a um alto grau de continuidade, entendida como a quantidade de correspondência entre intenção e emissão. Estudos na área indicam o fluxo da velocidade de fala em atividade de fala espontânea, tanto para palavras/min, como em sílabas/min.
Considerando a relevância dessa revisão de literatura, assim como a escassez metodológica em propostas de cursos de treinamento vocal para os locutores de rádio, foi delineada a presente pesquisa, com o objetivo de propor e avaliar a eficácia de um Programa Fonoaudiológico para Formação de Locutores de Rádio (PFFLR), direcionado aos alunos de um curso de locução.
Esta pesquisa busca fundamentar cientificamente uma proposta de curso para locutores de rádio, na área de treinamento e capacitação vocal, e contribuir para a objetividade e redução do ensaísmo nas práticas fonoaudiológicas.
2 MÉTODOS
Participantes
Foram considerados participantes desta pesquisa 70 adultos, com idades entre 18 e 45 anos, ensino fundamental concluído, sem distinção de sexo, subdivididos em dois grupos. O grupo de pesquisa (GI) foi constituído por 35 adultos (19 do sexo masculino e 16 do sexo feminino), todos eles alunos do curso profissionalizante de locução do SENAC; e o grupo controle (GII), constituído por 35 adultos (19 do sexo masculino e 16 do sexo feminino) que espontaneamente se dispuseram em participar da pesquisa, não frequentadores de nenhum curso profissionalizante de locução. Os grupos foram pareados quanto ao sexo e idade.
O critério de inclusão dos participantes de ambos os grupos foi apresentar triagem negativa para alteração da comunicação. Era necessário que todos participantes não reportassem déficits associados aos quadros de distúrbios da comunicação, que não fossem nem exercessem atividades como locutores profissionais ou amadores.
Material
Para a realização desta pesquisa, foram utilizados três protocolos elaborados com base nas literaturas específicas e adaptados pela autora deste estudo, e um protocolo utilizado integralmente sem adaptações.
Os protocolos utilizados foram: protocolo de triagem fonoaudiológica(Anexo 1), protocolo de avaliação objetiva da voz (Anexo 2), protocolo de avaliação do uso vocal(Anexo 3) e o protocolo para avaliação da fluência da fala(Anexo 4).
Foram utilizados o equipamento de gravação digitalizado de voz, o programa computadorizado de espectrografia acústica GRAM 5.7, os protocolos de avaliação e o Programa Fonoaudiológico para Formação de Locutores de Rádio (PFFLR)
As amostras de voz e de fala, obtidas a partir da aplicação dos protocolos específicos, foram gravadas digitalmente, por meio de um gravador digital Sony® (Portable MiniDisc Recorder MZ R 70) e um microfone profissional, eletrocondensador, unidirecional, sensitividade -40 + 2 dB, SK Pró Áudio.
3 Procedimento
Os procedimentos de pesquisa só foram iniciados após os processos éticos pertinentes: assinatura do Termo de Consentimento Pós-Informação e o parecer com aprovação da Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (CAPPesq nº 571/02).Todos os participantes envolvidos consentiram na realização dessa pesquisa e divulgação de seus resultados, conforme a Resolução 196/96.
Foram realizadas sessões individuais de avaliação, respectivamente dois dias antes (pré-teste) e dois dias depois (pós teste) da aplicação do Programa Fonoaudiológico para Formação de Locutores de Rádio (PFFLR). Na sessão individual de pré-teste, foi aplicado o protocolo de triagem fonoaudiológica e, em seguida, foram coletadas as amostras de voz e de fala, para aplicação dos protocolos específicos de voz e fala.
Na sessão individual de pós-teste, foram realizadas novas coletas para aplicação dos mesmos protocolos específicos. O procedimento de coleta dos dados apresentou as seguintes etapas:
- 1. Triagem fonoaudiológica
Composta por sete provas diferenciadas: prova de Articulação; Linguagem; Voz; Fluência; Variações Fonoaudiológicas; Sistema Miofuncional e Audição, conforme protocolo adaptado de triagem fonoaudiológica. - Avaliação do perfil de voz e de fala Durante a coleta das amostras, os participantes permaneceram sentados, obedecendo à postura mais comum ao locutor radialista. O material de voz foi analisado sob o ponto de vista acústico e perceptivo-auditivo.
Para a avaliação objetiva da voz foi utilizado o programa espectrográfico GRAM 5.7, para a extração da freqüência fundamental por intermédio da emissão da vogal sustentada /a/, conforme o protocolo adaptado de avaliação objetiva da voz.
A avaliação do uso vocal foi realizada a partir da leitura de dois pequenos textos no estilo notícia e comercial. O uso vocal foi avaliado dentro dos parâmetros de qualidade vocal, ataque vocal, pitch, loudness, ressonância, coordenação pneumo-fono-articulatória, articulação, modulação e ritmo de leitura, conforme o protocolo adaptado de avaliação do uso vocal.
A avaliação da velocidade de fala em leitura foi realizada a partir da leitura de dois pequenos textos no estilo notícia e comercial, por meio do cálculo do fluxo de palavras/minuto e sílabas/minuto, em amostra composta por 200 sílabas fluentes, conforme protocolo para avaliação da fluência da fala.
Programa Fonoaudiológico para Formação de Locutores de Rádio (PFFLR)
Este Programa é estruturado metodologicamente com duração e conteúdos pré-determinados, ministrado por meio de módulos fechados com objetivos direcionados e controlado em sua eficácia.
O PFFLR foi ministrado pela própria autora do estudo e fundamentado na estimulação de 11 aspectos, trabalhados seqüencialmente: propriocepção da voz; saúde vocal; ajustes vocais específicos; respiração; articulação; pontuação, inflexão vocal, ênfase, modulação, ritmo de leitura e imagem vocal.
O PFFLR foi aplicado ao grupo de pesquisa (GI) e composto por sete aulas semanais, estruturadas em sete módulos. A aplicação do PFFLR foi contínua e diária, os participantes foram orientados a realizar, no mínimo, uma vez por dia, os exercícios específicos de cada módulo. Os módulos foram evolutivos, independentemente do aproveitamento isolado em cada um deles.
Este programa foi elaborado na forma de suporte teórico, material áudio visual e ilustrativo e vivências. O limite máximo de faltas permitidas durante a aplicação do PFFLR foi de duas faltas, garantindo 75% de presença. Essa medida permitiu maior controle da eficácia do PFFLR, uma vez que três faltas implicariam a não realização de 25% do programa. Nos casos onde foi excedido esse limite, houve a exclusão do participante como sujeito da pesquisa, embora permanecesse como aluno frequentando as aulas.
Para o grupo controle (GII), os procedimentos de pré e pós teste foram idênticos ao grupo de pesquisa (GI), mantendo-se as mesmas condições de gravação. Foram realizadas duas sessões direcionadas, sendo uma de pré-teste e uma de pós-teste, onde foram coletadas as amostras de voz e de fala e aplicados os protocolos específicos. O intervalo de tempo correspondente entre o pré e pós-teste foi de sete semanas, intervalo de tempo correspondente à aplicação do PFFLR.
As análises foram divididas em variáveis paramétricas e não paramétricas. Para a análise objetiva da voz e análise objetiva da velocidade de fala em leitura, foi utilizado o Teste t de Student para Dados Pareados e para a análise do uso vocal foi utilizado o Teste de Mann-Whitney, sendo adotado o nível de significância p≤0,05 para todas as análises.
RESULTADOS
Os resultados indicam que os grupos diferenciaram-se significativamente quanto ao uso vocal e a velocidade de fala na leitura.
A Tabela 1 descreve a média de distribuição dos valores e a caracterização do uso vocal na comparação inter-grupos no pré e pós-teste. Pode-se verificar que, em relação ao uso vocal, os grupos diferenciaram-se significativamente para os parâmetros de qualidade vocal, loudness, ressonância, coordenação pneumofonoarticulatória, articulação, modulação e ritmo de leitura, com adequação desses parâmetros para a locução, após a aplicação do Programa Fonoaudiológico para Formação de Locutores de Rádio (PFFLR).
Treinamento vocal para locutores de rádio
A Tabela 2 apresenta a média de distribuição dos valores da velocidade de fala em leitura na comparação inter-grupos no pré e pós-teste. Os resultados indicam que os grupos diferenciaram-se significativamente, tanto para o número de palavras/minuto como de sílabas/minuto, com aumento na velocidade de fala, nas duas formas de textos trabalhados (notícia e comercial).
A Tabela 3 apresenta a média de distribuição dos valores da freqüência fundamental (Fo ) na comparação intra-grupo (GI), de acordo com os valores de pré e pós-teste. Observa-se que GI apresentou diferenças estatisticamente significantes entre o pré e pós-aplicação do PFFLR, com redução da freqüência fundamental.
DISCUSSÃO
Com relação ao agravamento da voz para a locução como forma de caracterizar o discurso, conforme observado na presente pesquisa pós-aplicação do Programa Fonoaudiológico para Formação de Locutores de Rádio (PFFLR), há concordâncias com diversos apontamentos da literatura.
A avaliação do uso vocal indica que o PFFLR foi eficaz para sete dos nove parâmetros avaliados. Esta avaliação permite saber como o locutor pode utilizar os recursos vocais da melhor forma possível, contribuindo para a saúde vocal.
Dentre os parâmetros que indicaram significância, a ressonância aparece com eficácia para 94,28% dos participantes, por meio da qual, o locutor consegue mais nuanças em sua locução, contemplando a questão estética da voz.
A adequação do parâmetro de coordenação pneumofonoarticulatória obtida com eficácia para 91,43% dos participantes, também é apontada na literatura.
A atuação do locutor implica uma fala inteligível e precisa, sem distorções de sons ou padrão articulatório mal-definido. A presente pesquisa indica adequação de 100% para o parâmetro de articulação, compatível com os achados de outros estudos.
A modulação é um dos marcadores vocais mais importantes na locução, fazendo toda a diferença para manter interesse no que está sendo dito, atingindo o ouvinte de forma mais efetiva. Em relação a esse parâmetro, os resultados indicaram que o PFFLR foi eficaz para 88,57% dos participantes. Diversos estudos também evidenciam que o locutor, como um profissional da voz, apresenta um contorno entoacional característico, com grande número de elementos enfáticos.
A avaliação do uso vocal realizada nesta pesquisa evidenciou que o locutor apresenta um marcador vocal que é treinado, por meio de recursos vocais específicos. Os ajustes vocais utilizados na locução são resultantes de uma elaboração vocal, que traduz a marca individual do locutor.
A pesquisa concorda com a literatura em relação aos diversos estudos sobre a importância do treinamento vocal para profissionais da voz.
Existem na literatura pouquíssimos trabalhos sobre a medida objetiva da velocidade de fala em atividade de leitura, com uma extrema escassez quando se referem aos locutores de rádio. Observa-se na literatura que muitos trabalhos desenvolvidos com a velocidade de fala, da forma que está sendo aqui avaliada, são da área da fluência.
Os resultados apresentados nesta pesquisa evidenciaram que a média de distribuição da velocidade de fala em leitura de notícia foi de 164,32 palavras/min e 361,36 sílabas/min, e em leitura de comercial foi de 141,19 palavras/min e 336,21 sílabas/min. Esses resultados quando comparados com estudos da área, indicam que a velocidade de fala para leitura é maior do que a velocidade da fala espontânea
CONCLUSÃO
A aplicação do Programa Fonoaudiológico para Formação de Locutores de Rádio (PFFLR), por meio da avaliação objetiva da voz, do uso vocal e da velocidade de fala na leitura, permitiu concluir que o programa foi eficaz na sua proposta para as avaliações do uso vocal e da velocidade de fala na leitura, uma vez que esses parâmetros diferenciaram os grupos de forma significante.
O PFFLR também permitiu concluir que em uma proposta de curso para formação de locutores, a freqüência fundamental da voz deve ter sua abordagem melhor investigada, porém não descartada, uma vez que esse parâmetro diferenciou de forma significante o grupo de pesquisa na comparação pré e pós-aplicação do PFFLR.
Há falta de parâmetros que garanta que intervalo de variação deva ser considerado significativo para a redução da freqüência fundamental, após aplicação de técnicas específicas. Esse estudo também permitiu observar que a atuação fonoaudiológica com os locutores de rádio deve ser estruturada com base nos parâmetros que indicaram significância relevante: qualidade vocal, loudness, ressonância, coordenação pneumofonoarticulatória, articulação, modulação, ritmo de leitura e velocidade de fala na leitura.
Quanto ao parâmetro velocidade de fala, há falta de valores de referência da velocidade de fala em atividade de leitura para adultos, de uma maneira geral, e específicos, para a atividade do locutor. Com base nos resultados obtidos no presente estudo, uma proposta de curso para formação de locutores deve contemplar técnicas específicas para a adequação da velocidade de fala em atividade de leitura.