Autoconceito de crianças com dificuldades de aprendizagem e problemas de comportamento
Dificuldades de Aprendizagem
1 As dificuldades de aprendizagem:
2 Autoconceito de crianças com dificuldades de aprendizagem e problemas de comportamento
Participantes:
Participaram deste trabalho 58 crianças, de ambos os sexos (60,3% de meninos), na faixa etária de 8 anos a 11 anos e onze meses, alunos de 1ª a 4ª série, com nível intelectual pelos menos médio inferior, distribuídas em dois grupos, a saber:
Grupo 1 (G1) – Crianças com dificuldades de aprendizagem - constituído por 32 crianças (19 meninos e 13 meninas) com queixa de dificuldades de aprendizagem referidas e atendidas junto ao Ambulatório de Psicologia Clínica Infantil do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, em um programa de suporte psicopedagógico. Dentro deste grupo foram identificados dois subgrupos: a) GDA: composto por 9 crianças (6 meninos e 3 meninas), que apresentavam apenas dificuldades de aprendizagem, sem problemas de comportamento; e b) GDAC: constituído por 23 crianças (13 meninos e 10 meninas) com queixa de dificuldades de aprendizagem e problemas de comportamento, avaliados segundo o critério clínico da Escala Comportamental Infantil A2 de Rutter (Graminha, 1994). Tais crianças apresentavam características de agitação, agressividade e impulsividade.
Grupo 2 (G2) – Crianças com bom desempenho escolar – constituído por 26 crianças (16 meninos e 10 meninas) com bom desempenho acadêmico, avaliado sistematicamente pelo Teste de Desempenho Escolar – TDE (Stein, 1994), as quais freqüentavam o Centro de Atendimento Integral a Crianças e Adolescentes (CAIC). Para a inclusão no G2 a criança deveria ter desempenho nas áreas de leitura e escrita compatível com sua faixa etária e/ou série escolar e não apresentar dificuldades comportamentais, segundo os pais, na avaliação por meio da Escala Comportamental Infantil.
Para a seleção dos 58 participantes foram inicialmente avaliadas 94 crianças, sendo 42 procedentes do ambulatório e 52 do CAIC. Foram excluídos de ambos os grupos 26 participantes que apresentavam desempenho abaixo do nível intelectual médio inferior na avaliação intelectual através do Teste das Matrizes Progressivas Coloridas de Raven (Angelini, Alves, Custódio e Duarte, 1987) e 10 crianças que apresentaram história de tratamento neurológico e/ou psicológico no último ano.
Após a seleção dos participantes, procedeu-se à
comparação dos grupos através do teste nãoparamétrico de Mann-Whitney, quanto às variáveis idade (G1/Média=108,75 e G2/Média=110,42), escolaridade das mães (G1/Média=6,28 e G2/Média = 6,81), escolaridade dos pais (G1/Média=5,13 e G2/Média=5,50). Não foram observadas diferenças estatisticamente significativas na comparação dos grupos quanto a essas variáveis. O projeto foi apreciado e aprovado pela Comissão de Ética do HCFMRP-USP. A participação das crianças e dos pais foi voluntária, mediante consentimento prévio por escrito dos pais.
Instrumentos
Foram utilizados os instrumentos a seguir para a seleção e composição dos grupos:
• Teste das Matrizes Progressivas Coloridas - Raven Infantil – Escala Especial – avaliação do nível de inteligência de crianças – normas brasileiras de Angelini, Alves, Custódio e Duarte (1987). O desempenho das crianças nesta prova foi utilizado como critério para a inclusão no estudo.
• Teste de Desempenho Escolar –TDE, avaliação psicométrica do nível de desempenho escolar, normas brasileiras de Stein (1994), utilizado para a inclusão dos participantes no G2.
Para a Coleta de dados:
• Escala Infantil Piers-Harris de Autoconceito (Piers, 1996) – “O que sinto sobre mim mesmo”, traduzida e adaptada para o nosso meio por Jacob (2001), respondida pelas crianças, objetivando-se a avaliação do seu autoconceito. A Escala é formada por 80 itens, apresentados sob a forma de sentenças, que avaliam o autoconceito total da criança e o autoconceito nas seis seguintes subáreas: status intelectual e acadêmico (17 itens), comportamento (16 itens), ansiedade (14 itens), aparência (13 itens), popularidade (12 itens) e satisfação (10 itens).
• Escala Comportamental Infantil A2 de Rutter –
ECI, instrumento composto por sentenças sobre a freqüência de determinado comportamento na criança, padronizada por Graminha (1994), utilizada com a finalidade de caracterizar o perfil das crianças com dificuldades de aprendizagem quanto aos aspectos comportamentais, respondida pelos pais. A Escala contém 36 itens, fornecendo escore total e escores parciais relativos a três áreas:
saúde (oito itens), hábitos (sete itens) e comportamento (21 itens).
Procedimento:
Todas as crianças de ambos os grupos foram avaliadas individualmente, as de G1 (crianças com dificuldades de aprendizagem) no Ambulatório e as de G2 (crianças com bom desempenho) no CAIC. Procedeu-se à seleção dos participantes por meio de uma avaliação de nível intelectual - Teste das Matrizes Progressivas Coloridas - Raven Infantil – Escala Especial . Para a inclusão nos dois grupos foi necessário que a criança apresentasse no teste um percentil igual ou superior a 25, compatível com inteligência média inferior, assegurando assim a exclusão de retardo mental. Para a exclusão de crianças com possíveis dificuldades de aprendizagem, no G2 (crianças com bom desempenho) procedeu-se à
aplicação do TDE considerando-se como critério de bom desempenho escolar rendimento em leitura e escrita compatível com idade ou série escolar. Com base nos dados dessas duas avaliações as crianças eram incluídas nos grupos ou deles excluídas. Na coleta de dados com a criança procedeu-se à
aplicação da Escala Piers Harris de Autoconceito, apresentada através de fita gravada, solicitando-lhe que avaliasse se a sentença apresentada descrevia como ela se sentia em relação a si mesma na maioria das situações; para tal deveria responder com “sim” ou
“não”, de acordo com o modo como considerasse as sentenças verdadeiras ou falsas para si. A avaliadora, presente na situação, anotava no protocolo as respostas, as quais foram posteriormente codificadas de acordo com as normas.
Com os pais procedeu-se à aplicação da Escala Comportamental Infantil A2 de Rutter. Quanto a G1, após uma situação de entrevista, visando à coleta de dados de identificação, os pais preenchiam a ECI por escrito sob a forma auto-administrada, conforme as recomendações do instrumento. Quanto a G2, os pais receberam em suas casas um questionário de dados de identificação e a ECI, respondendo a ambos por escrito.
Tratamento dos dados:
Os instrumentos utilizados foram codificados segundo as recomendações específicas de cada teste e comparados a dados normativos. Com relação à Escala, adotou-se a proposição, que consideraram 16 pontos nota de corte, sugestiva da necessidade de ajuda psicológica ou psiquiátrica. Com base em tal critério puderam-se identificar no grupo de crianças com dificuldades de aprendizagem (G1) dois subgrupos de crianças: um com dificuldades de aprendizagem sem problemas de comportamento (GDA) e outro com dificuldades de aprendizagem e problemas de comportamento (GDAC).
Os dados relativos ao autoconceito foram quantificados e os grupos (G1 X G2) foram comparados através do Teste Não Paramétrico de Mann-Whitney para amostras independentes. Para identificação dos itens que diferenciaram significativamente os grupos foi aplicado o Teste Exato de Fischer. Compararam-se ainda os dados relativos ao autoconceito e ao comportamento dos dois subgrupos de G1 (GDAC X GDA), utilizando-se o Teste Não Paramétrico de Mann-Whitney para comparação dos grupos e o Teste Exato de Fischer para a comparação dos itens. Considerou-se nas comparações o nível de significância de p≤0,05.
3 Resultados:
4 Dificuldades de Aprendizagem
Discussão:
As crianças com dificuldades de aprendizagem apresentaram um autoconceito geral mais negativo que as crianças com bom desempenho escolar, o que está concordância com as características próprias do perfil de crianças com dificuldades de aprendizagem já apresentado em estudos prévios. Os dados sugerem a presença de impacto negativo do fracasso escolar sobre o autoconceito das crianças com dificuldades de aprendizagem.
Analisando-se as comparações relativas às categorias observou-se que as crianças com dificuldades de aprendizagem apresentaram autoconceito mais negativo não só quanto ao escore total mais também nas categorias status intelectual, comportamento, ansiedade, popularidade e satisfação, caracterizando assim o impacto negativo do fracasso escolar sobre o autoconceito, principalmente sobre o autoconceito acadêmico. O único domínio em que não se observou diferença entre os grupos foi a aparência; os demais domínios específicos foram afetados pela dificuldade de aprendizagem. De modo geral, as crianças com dificuldades de aprendizagem que foram trazidas ao ambulatório por seus pais por dificuldades acadêmicas, quase sempre referendadas por seus professores e profissionais da área da saúde, reconheceram em si tais dificuldades acadêmicas e perceberam-se ainda com dificuldades sociais e familiares. Em contraposição, as crianças com bom desempenho, assim consideradas por seus pais e por rendimento em prova específica, vêem-se com boa saúde, sucesso acadêmico, social e familiar. Observou-se assim concordância das autopercepções com a avaliação externa, o que fornece indicadores de ajustamento.
As dificuldades comportamentais associadas a dificuldades de aprendizagem neste estudo não diferenciaram os subgrupos com relação ao autoconceito, o qual se mostrou mais negativo em ambos os subgrupos, na comparação com as crianças com bom desempenho.
Observou-se que o subgrupo de crianças com dificuldades de aprendizagem associadas a problemas de comportamento não apresentou resultados mais negativos que o grupo com bom desempenho com relação à ansiedade e satisfação, o que pode indicar que estas crianças procuram satisfação em outras fontes. As categorias ansiedade e satisfação estão ainda relacionadas a sentimentos de segurança, sugerindo que as crianças que apresentaram queixa de dificuldades de aprendizagem sem problemas de comportamento se percebem como mais ansiosas e inseguras em relação a si mesmas do que as crianças com dificuldades comportamentais associadas. Tais características estão de acordo com a queixa dos pais sobre o comportamento destas crianças, sugerindo que as crianças que apresentam apenas dificuldades de aprendizagem percebem suas dificuldades e as expectativas que nelas são depositadas, ao contrário das crianças com dificuldades comportamentais associadas, que parecem apresentar dificuldades em reconhecer suas limitações e as expectativas dos pais, o que pode ser sugestivo de maior imaturidade emocional por parte destas crianças.
Outro aspecto interessante a ser discutido é que a percepção da capacidade intelectual de ambos os subgrupos, com dificuldades de aprendizagem com e sem problemas de comportamento associados, foi mais baixa que a do grupo com bom desempenho, apesar de o critério de inclusão nos grupos ter privilegiado nível intelectual pelo menos médio inferior e os grupos e subgrupos não terem diferenças significativas quanto a tal variável. Estes resultados são semelhantes que relatam que as crianças com autoconceito negativo apresentam uma menor percepção de suas habilidades intelectuais em comparação com as crianças com autoconceito mais positivo.
Quanto à popularidade, as crianças de ambos os subgrupos apresentaram menos indicadores de popularidade quando comparadas às crianças sem dificuldades de aprendizagem. Pode-se considerar que o autoconceito dessas crianças sofre influência negativa do fracasso escolar que relata que o fracasso escolar no início da escolarização pode levar ao rebaixamento da auto-estima e sentimentos de desamparo.
Em relação ao grupo com bom desempenho, as crianças com dificuldades de aprendizagem e problemas de comportamento, quando questionadas sobre suas autopercepções, relataram idéias intrusivas, sentimentos de inferioridade e insatisfação consigo mesmas, dificuldades acadêmicas e de interação com os colegas. Observou-se que as crianças com dificuldades de aprendizagem sem problemas de comportamento, quando comparadas ao grupo com bom desempenho, relataram idéias e sentimentos semelhantes às crianças com dificuldades de aprendizagem e problemas de comportamento, reconhecendo, além disso, que causam dificuldades no contexto familiar. Tal dado sugere uma percepção mais realista do momento atual de vida destas crianças, visto que estão sendo encaminhadas para atendimento especializado.
Analisando-se os itens relativos às categorias das subescalas, na comparação com crianças com bom desempenho escolar, observou-se que o autoconceito das crianças com dificuldades de aprendizagem, independentemente da presença de problemas de comportamento, parece estar afetado com relação ao pensamento e à afetividade. Isto é explicitado através da presença de autopercepções que refletem:
a) idéias intrusivas (tudo parece dar errado, maus pensamentos, as pessoas não confiam em mim);
b) sinais de desamparo e depressão (tristeza, sentimentos de inferioridade e insatisfação consigo mesmo);
c) reconhecimento das suas dificuldades acadêmicas (esquece o que aprende, lento no trabalho de escola, preocupado com provas);
d) dificuldade frente à interação com os colegas (sofre gozações, tem dificuldades em falar na frente da classe, último a ser escolhido nas brincadeiras).
O reconhecimento das dificuldades acadêmicas e a consideração destas refletem a valorização positiva do domínio acadêmico. Neste sentido pode-se pensar que um suporte psicopedagógico pode ser bem aceito por estas crianças, uma vez que reconhecem a importância do domínio acadêmico e de suas próprias dificuldades com relação ao mesmo.
Na análise do autoconceito dos subgrupos com dificuldades de aprendizagem diferenciados pela presença ou ausência de problemas de comportamento, observou-se que a presença de problemas de comportamento não proporcionou alterações na auto-avaliação do autoconceito total e em suas categorias, sugerindo que a dificuldade de aprendizagem em si parece ser um fator de maior impacto, independentemente da presença de problemas de comportamento.
Um ponto a ser comentado diz respeito ao fato de as crianças com problemas de comportamento considerarem-se mais incluídas nas brincadeiras e sentirem que não sofrem gozações, itens que pertencem à categoria popularidade. Tal dado chama a atenção para um sentimento de maior inclusão social por parte das crianças com problemas de comportamento. Estas crianças parecem estar encontrando na popularidade uma outra área para a compensação dos prejuízos reconhecidos quanto ao autoconceito.
O sentimento de inclusão social, pode também estar relacionado ao comportamento agressivo e anti-social. Deste modo, pode-se pensar que a popularidade destas crianças pode estar associada à presença de dificuldades comportamentais com características de agitação, agressividade e impulsividade, relatadas pelos pais na procura por atendimento psicopedagógico.
A popularidade depende do contexto, podendo o comportamento agressivo ser socialmente valorizado. O delineamento adotado neste estudo não permitiu testar tal hipótese, embora a avaliação externa dos pais esteja em contraposição a esta autovalorização das crianças, na medida em que tais dificuldades foram incluídas como queixa de dificuldade, por ocasião da procura por atendimento psicopedagógico.
Considerando-se esta análise pode-se hipotetizar que o comportamento com características anti-sociais parece estar contribuindo para a popularidade dessas crianças com dificuldades de aprendizagem e problemas de comportamento. Esta forma de funcionamento pode ser prejudicial ao seu desenvolvimento, uma vez que esta autopercepção pode favorecer a continuidade do comportamento agressivo e anti-social, na medida em que este modo de comportar-se parece estar sendo bem aceito pelo seu grupo de inserção. Tal padrão de funcionamento pode ser visto como favorecedor de risco de delinquência na adolescência.
Este dado pode ser visto como um indicador de alerta com relação ao planejamento de programas de intervenção preventiva no contexto escolar, sugerindo a importância de se considerarem as autopercepções da criança, já que ela pode apresentar comportamentos que, embora considerados inadequados pelos pais e professores, podem estar contribuindo para sua popularidade e, conseqüentemente, para a formação do autoconceito. A identificação desta relação entre popularidade e autoconceito positivo chama a atenção para a necessidade de se considerarem as autopercepções na intervenção junto a estas crianças como recurso para a prevenção de comportamentos de risco psicossocial.
Tais intervenções sempre devem, destarte, considerar o ambiente no qual a criança está inserida, uma vez que as condições ambientais sustentam o autoconceito. As intervenções para melhorar o autoconceito das crianças podem ser potencializadas pelo envolvimento dos pais, especialmente com as crianças com dificuldades de aprendizagem, de modo a apoiar os esforços acadêmicos e promover a integração social da criança na comunidade escolar. Acrescenta-se ao ambiente familiar o poder do ambiente escolar, através dos professores e pares, na formação e modulação do autoconceito das crianças na fase escolar.