Professores e o Laboratório de Informática
Tecnologia Educacional e a Informática nos Tempos Atuais
1 Professores e o Laboratório de Informática
Introdução
As inovações tecnológicas no mundo contemporâneo tem se expandido cada vez mais na sociedade atual. “Estamos em um mundo em que as tecnologias interferem no cotidiano, sendo relevante, assim, que a educação também envolva a democratização do acesso ao conhecimento, à produção e à interpretação das tecnologias” (BRITO e PURIFICAÇÃO, 2008), pois a presença das novas tecnologias da informação e comunicação (TIC’s) está também na escola.
O computador não é a única tecnologia que se insere na Escola, no entanto é uma das que mais tem gerado discussões. Os primeiros computadores (calculadoras programáveis capazes de armazenar os programas) surgiram na Inglaterra e no Estados Unidos em 19451 . No Brasil, o movimento da informática aplicada à educação tem sua origem na década de 1970, no setor administrativo das escolas, buscando-se a informatização da Secretaria das Escolas. A partir de 1980 surgem o EDUCOM (Educação e Computadores), o FORMAR (professores multiplicadores) e o PROINFE (Programa Nacional de Informática Educativa). Em 1997 é criado o PROINFO (Programa Nacional de Informática na Educação). Em 1995 disciplinas de Informática na Educação começam a fazer parte dos currículos dos cursos de Pedagogia e licenciatura.
No Paraná, em 1988 é criado o Centro de Informática Educativa no PR – CIED/PR. Em 1990 são inaugurados laboratórios modelos nas cidades de Jacarezinho, Bandeirantes, Londrina, Umuarama, Cruzeiro do Oeste, Paranavaí, Mandaguaçú, Marialva, Telêmaco Borba, Dois Vizinhos, Cianorte com ênfase na Linguagem LOGO. O Centro de Treinamento do Magistério do Paraná - CETEPAR em Curitiba é criado em 1993. O Programa de Extensão, Melhoria e Inovação do Ensino Médio do Paraná – PROEM repassa 6.352 computadores para os colégios estaduais do PR em 1998 e o PROINFO 2.843 computadores. No ano de 2003 ocorre o lançamento do Programa Paraná Digital - PRD e do Portal Dia-a-Dia Educação com base em Software Livre e na Construção Colaborativa. Portanto, a implantação dos laboratórios de informática em todas as escolas Estaduais do Paraná teve início em 2003, com o Programa Paraná Digital, implantado pela Secretaria de Estado da Educação do Paraná. Porém, no Colégio em que a presente pesquisa foi realizada, os computadores só foram instalados em meados de 2007. O laboratório de informática se faz presente na escola, sendo que o uso pelos professores em suas práticas pedagógicas merece investigação.
2 Construindo a pesquisa
Computador nas aulas
O uso do computador nas aulas pode tanto contribuir para o processo ensino-aprendizagem, quanto pode acabar reproduzindo o mesmo método tradicional. De acordo com Valente (1999, p. 23), a abordagem instrucionalista usa o computador como meio para transmitir a informação ao aluno e mantém a prática pedagógica vigente. Na verdade, o computador está sendo usado para informatizar os processos de ensino que já existem. Já na abordagem construcionista, o computador é usado para criação de ambientes de aprendizagem que enfatizam a construção do conhecimento. No entanto, essa abordagem vem enfrentando grandes desafios. Implica em entender a informática como uma nova maneira de representar o conhecimento provocando um redimensionamento dos conceitos já conhecidos e possibilitando a busca e compreensão de novas idéias e valores. Portanto, o computador não deve ser usado como um meio em si mesmo, e sim, como recurso didático.
Segundo Rocha (2007, p. 47), os cursos de capacitação de professores realizados pela Coordenação Estadual de Tecnologia na Educação – CETE (Paraná), além de causar uma série de dificuldades operacionais pelo fato de se remover o professor da sala de aula, uma vez que são realizados em locais distintos daquele do dia-a-dia do professor, acarretam ainda outros problemas. Primeiro, esses cursos em grande parte se tornaram descontextualizados da realidade do professor. Em segundo lugar, não contribuíram efetivamente para a construção de um ambiente favorável à implantação das mudanças educacionais que se pretendia.
É preciso fomentar a vontade do professor de estar construindo algo novo. É preciso compartilhar de seus momentos de dúvidas, questionamentos e incertezas, como parceiro que o encoraja a ousar, mas de forma reflexiva para que possa reconstruir um novo referencial pedagógico (VALENTE, 2003, p. 23).
Ainda para Valente (2003, p. 22), um curso de formação para professores deve propiciar: o domínio do técnico e do educacional, não de modo estanque; a possibilidade de recontextualização de tudo o que aprendeu integrando as diferentes ferramentas computacionais e os conteúdos disciplinares.
(...) a formação não se constrói por acumulação (de cursos, como os professores estão enfrentando as inovações tecnológicas que estão de conhecimentos ou técnicas), mas sim através de um trabalho de reflexibilidade crítica sobre as práticas e de (re) construção permanente de uma identidade pessoal. Por isso é tão importante investir na pessoa e dar um estatuto ao saber da experiência (NÓVOA, 1992, p. 25).
Quando um curso de formação propicia reflexão sobre a prática do professor de forma contextualizada, favorece a inovação pedagógica. No entanto, a informática ao entrar nas escolas está criando, além de expectativas, muita decepção. Isso porque muitos governantes e gestores acreditam que, para ocorrer inovação, basta implantar laboratórios de informática na escola. Esquecem que as máquinas por si só não contribuem para o processo ensino-aprendizagem. A formação dos professores ainda fica um pouco de lado. Analisaremos o que os professores pesquisados dizem sobre o uso do laboratório de informática em suas aulas e sobre a necessidade de formação sobre os recursos computacionais.
3 Perguntando aos professores
A presente pesquisa partiu das inquietações ocorridas a partir do processo de implantação do laboratório de informática nas escolas da rede estadual de educação do Paraná. Observações realizadas durante este processo nos levaram a analisar o uso do laboratório de informática pelos professores em suas aulas.
O Colégio em que a pesquisa foi realizada está situado na região metropolitana de Curitiba, possui, aproximadamente, 1.400 alunos e 40 professores. O laboratório de informática possui 40 computadores. Foi instalado no Colégio no segundo semestre de 2007, através do programa Paraná Digital.
Realizamos uma pesquisa qualitativa exploratória com professores que atuam neste Colégio. Lecionam nas diferentes disciplinas da grade curricular das séries finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Sendo que todos possuem graduação na disciplina que lecionam. A intenção inicial era de pesquisar vinte professores. Os questionários foram distribuídos aos que se dispuseram a responder. No entanto, dezesseis professores devolveram os questionários. Sendo que pesquisa foi realizada com estes dezesseis professores.
Coletamos os dados a partir de um questionário com questões preformadas, tendo como objetivo verificar de que forma está ocorrendo o uso do laboratório de informática pelos professores em suas práticas pedagógicas, se há necessidade de cursos de formação sobre tecnologias educacionais e o que esperam aprender.
Como utilizaremos as informações obtidas durante este estudo exploratório exclusivamente neste trabalho, os nomes dos professores que participaram não serão mencionados. Cada um deles será identificado apenas por siglas: P1, P2 e assim sucessivamente. Também não será feita distinção de gênero (serão referidos como ‘professor’).
Antes de analisarmos as questões que se remetem ao foco da pesquisa apresentaremos, na tabela 1, informações pessoais que situam melhor os dezesseis professores entrevistados com relação à familiarização com o computador.
Ao perguntarmos aos professores se já utilizaram o laboratório de informática em suas aulas, dois dos dezesseis professores pesquisados mencionaram que não haviam levado os alunos ao laboratório de informática. Sendo que os dois usaram como uma das justificativas a falta de preparo, conforme respostas dadas:
(P 1) “A maioria dos alunos acha que utilizar a sala de informática seria apenas para o professor matar tempo. Outra questão é o despreparo por parte do professor em não poder ajudar os alunos desenvolverem suas atividades de forma adequada”.
(P 2) “Por comodismo, falta de tempo de preparar um bom trabalho, falta de preparo técnico, insegurança”.
Além do despreparo, foi mencionada a insegurança por parte do professor. Muitas vezes, os alunos dominam mais as ferramentas, fazendo com que o professor fique com receio perante a turma. Isto deve-se ao fato de que o professor pertence à geração pré-ícone/digital, o qual não vivenciou a mesma experiência que seus alunos estão vivenciando.
Apesar de quatorze dos dezesseis professores mencionarem que já levaram seus alunos ao laboratório de informática, isto não significa que estejam preparados. Cinquenta e seis por cento julgou ter pouco conhecimento em informática, conforme tabela 1.
Constatamos que utilizam, na maioria das vezes, como fonte de pesquisa, porém sem mediarem a construção. Este fato ficou evidenciado quando lhes foi perguntado, através de questão fechada, sobre onde os alunos realizavam os trabalhos de pesquisa com maior freqüência. Sete deles assinalaram a alternativa em que relatava que os trabalhos eram realizados em casa para posterior entrega ou apresentação em sala. Quatro marcaram a alternativa que mencionava que era realizada no laboratório de informática, porém sem a orientação do professor. Seis deles assinalaram que eram realizadas no laboratório de informática com a orientação do professor.
As respostas foram reforçadas quando lhes foi perguntado sobre quais e como as atividades eram desenvolvidas com os alunos. Vejamos alguns relatos:
(P 7) “...como pesquisar os conflitos nos países. Para apresentações de trabalhos e confecção, como estruturar a pesquisa e digitar o trabalho”.
(P 10) “Como pesquisa dirigida em algum site específico...”
(P 15) “Pesquisas, atividades da folha, vídeos (aulas)”.
Mais uma vez percebemos que, apesar de utilizarem o laboratório de informática em suas aulas, não estão totalmente preparados. No relato de P 7 vemos claramente o uso do computador de forma instrucional quando comenta que utiliza para “estruturar a pesquisa e digitar”.
“Refletir sobre a formação dos professores para a utilização da internet, também passa por repensar os processos de ensino-aprendizagem que os professores já utilizam” (BRITO e GARCIA, 2003, p. 4). Portanto, a formação do professor permanente que leva em conta o contexto escolar em que esse profissional está inserido faz com que ele possa analisar a sua própria prática pedagógica fundamentando-a e refletindo-a para uma conseqüente mudança.
Apesar de os professores demonstrarem que não estão seguros com relação ao uso do laboratório de informática em suas aulas, declararam que gostariam de participar de cursos de formação para o uso das tecnologias educacionais. Os professores querem se atualizar e melhorar a prática. Todos responderam que querem participar de cursos de formação para aprimorar o uso de softwares educativos, utilizar o computador como recurso didático e para usar a Tvpendrive. Como percebemos claramente nos relatos:
(P 2) “Para aperfeiçoamento pessoal, descoberta de novos recursos e metodologias, além da troca de experiências”.
(P 8) “Pelo meu conhecimento com as técnicas de lidar com os recursos disponibilizados e que muitos eu não sei manusear e com isso deixo de aproveitar e enriquecer mais o ensino e prática em sala de aula”.
Além disso, quando indagados sobre a importância da utilização das tecnologias educacionais, relataram que é importante:
(P 4) “Para o aluno, usar a tecnologia ajuda muito. Além de ser um facilitador ao aprendizado dele. Para o professor é a oportunidade de enriquecer os contextos do livro didático além do que, muitas vezes, a imagem transmite muito mais”.
(P 11) “Enriquecer o aprendizado proporcionando ao educando um melhor entendimento a partir da visualização, experimentação, contextualização e aproximação do conteúdo estudado. A realidade, que permitem associar e socializar o aprendizado despertando a curiosidade e a pesquisa”.
De acordo com Valente (2003, p. 23), “o professor precisa estar aberto para mudar, mas só isto não basta. Além das amarras pessoais, existem as amarras institucionais”. O professor precisa de apoio e de incentivo para que possa buscar a formação necessária para a inovação pedagógica.
4 Considerações finais
Com a presente pesquisa, procuramos analisar o uso do laboratório de informática pelos professores de uma escola estadual em suas aulas, a necessidade de formação continuada para o uso das tecnologias educacionais e o que os professores gostariam de aprender num curso.
Os dados apontam que os professores, apesar de, aos poucos, estarem utilizando o laboratório de informática com seus alunos, demonstram insegurança. Ainda não há mudanças metodológicas significativas, porque os professores acabam reproduzindo as aulas tradicionais. Evidenciamos que os professores acabam pedindo pesquisas sem acompanharem sua construção. E em alguns casos, usam o computador em suas aulas de forma instrucional. O computador como tecnologia educacional deve propiciar a interação do aluno com o conhecimento através da mediação do professor, este sendo fator determinante no processo ensino-aprendizagem.
No entanto, os professores pesquisados demonstraram que estão abertos as mudanças e que estão tentando se adequar às inovações tecnológicas. Não estão utilizando o computador como recurso didático, não por falta de interesse, mas por falta de um curso que possibilite reflexão sobre a incorporação das inovações tecnológicas que se fazem presentes no interior da escola. Percebemos isso, quando todos os professores responderam que gostariam de aprender num curso a utilizar o computador como recurso didático e/ou a utilizar softwares educativos.
Pudemos constatar que há necessidade de uma formação continuada para o uso do laboratório de informática de forma que possibilite a reflexão e a ação dos professores em relação ao uso dos computadores. A aquisição de equipamentos no processo de implantação das tecnologias na escola é importante. Porém, não podemos deixar de enfatizar a mediação do professor para construção do conhecimento. Para que o professor possa fazer a diferença, necessita de apoio e de formação continuada.
Pesquisas que analisem a implantação das tecnologias nas escolas Estaduais do Paraná são necessárias. Principalmente, as que dizem respeito à formação continuada dos professores para o uso do computador em suas aulas como recurso didático.