DEUS ESTÁ ENTRE NÓS?

Leitura da Bíblia

1 DEUS ESTÁ ENTRE NÓS?

Israel foi tirado do Egito por meio de sinais fantásticos e intervenções extraordinárias da parte do Senhor. As dez pragas desafiaram todos os deuses do Egito e os humilharam. A travessia pelo meio do mar a pés enxutos e o afogamento de todo o poderoso exército de faraó demonstrou que não há deus como o Deus de Israel. O maná, que caiu do céu para suprir a necessidade imediata de alimento, e a preservação de suas roupas e calçados revelaram a provisão fiel de Deus Pai. O próprio Moisés chama a atenção do povo para a singularidade daquele Senhor e do seu cuidado para com eles: “Pois, que grande nação tem um Deus tão próximo como o Senhor, o nosso Deus, sempre que o invocamos?” (Deuteronômio 4.7). No entanto, havia um grande risco por trás de toda essa sucessão de eventos poderosos. Israel poderia vir a crer num deus menor. Seu foco poderia ser posto apenas no poder, e não também na palavra fiel desse Deus. Sua fé poderia se prender apenas à crença de que suas necessidades imediatas seriam todas supridas oportunamente e que sua experiência com o Senhor se resumiria a isso. Foi exatamente o que aconteceu. Tão logo o povo começou a experimentar as primeiras dificuldades no deserto – e certamente não é fácil viver no deserto –, passou a expressar seu descontentamento, a ponto de sentir falta do Egito, do tempo em que eles eram escravos. Se cressem na promessa fiel de um Deus que, muito mais do que fazer chover maná e carne, desejava transformá-los de dentro para fora, eles saberiam que no final seriam conduzidos à boa terra – com uma nova compreensão da vida. Se fossem capazes de entender os sinais maravilhosos como um meio para um fim bem mais importante, permaneceriam firmes em meio às provações. Porém, eles só podiam crer no poder demonstrado em feitos extraordinários. Quando faltava aquele poder, simplesmente viravam as costas e olhavam saudosamente para o passado. A falta da manifestação de poder fazia-os duvidar até mesmo da mais preciosa promessa do Senhor – a de que Sua presença estaria sempre com eles: “O Senhor está entre nós, ou não?” (Êxodo 17.7). Não devemos ser tão apressados em julgar tal comportamento, pois o que aconteceu naquela época com o povo escolhido por Deus se repete aqui e agora, muitas vezes, conosco. Com a experiência de Israel na jornada pelo deserto, aprendemos valiosas lições para nossa própria caminhada.

2 ACUSAÇÕES E SUSPEITAS

Quando cremos somente no poder revelado nos milagres e sinais, não somos capazes de sobreviver às contrariedades. Nosso culto não é dirigido a Deus, mas ao seu poder; aos milagres e sinais. O maior problema com o culto ao poder é que ele precisa sempre de uma nova demonstração para se manter ativo. Aqui surge um problema: Deus não tem compromisso com esse culto. Ele não se disporá a oferecer um show todas as vezes em que nós nos sentirmos desmotivados. Se o nosso entendimento sobre Ele não estiver claro, passaremos todo o tempo de escassez e luta acusando Deus ou os outros. Tão logo saiu do Egito, “toda a comunidade de Israel reclamou a Moisés e Arão. Disseramlhes os israelitas: ‘Quem dera a mão do Senhor nos tivesse matado no Egito! Lá nos sentávamos ao redor das panelas de carne e comíamos pão à vontade, mas vocês nos trouxeram a este deserto para fazer morrer de fome toda esta multidão!’” (Êxodo 16.2,3). Os 430 anos no Egito levaram aquele povo a confiar apenas no poder. Faraó dominava por meio da demonstração de força. A dupla investidura do rei/deus – pretensão dos governantes daquela época – confundia a mente do povo. Israel queria um deus que se empenhasse na exibição de um poder confiável, que lhe desse segurança e desafiasse o faraó. A grande preocupação em seus corações se voltava para o atendimento das necessidades imediatas. Nas palavras de Paulo: “...seu deus é o estômago e eles têm orgulho do que é vergonhoso; só pensam nas coisas terrenas” (Filipenses 3.19b).
Em circunstâncias adversas, em vez de descansarmos na fidelidade de Deus, de tentarmos entender o propósito maior que Ele tem naquela situação – Ele sempre tem um propósito –, suspeitamos do Senhor e não conseguimos nos contentar com a provisão do pão (maná) de cada dia: “‘Ninguém deve guardar nada para a manhã seguinte’, ordenou-lhes Moisés. Todavia, alguns deles não deram atenção a Moisés e guardaram um pouco até a manhã seguinte, mas aquilo criou bicho e começou a cheirar mal. Por isso Moisés irou-se contra eles” (Êxodo 16.19,20). Até mesmo a bênção que vem de Deus para suprir nossas necessidades pode tomar outra forma – degradante, perversa – quando passamos a confiar nela e a atribuir-lhe mais importância do que ao Deus que fez a provisão. Ainda assim o Senhor permanece fiel: “Como um pai tem compaixão de seus filhos, assim o Senhor tem compaixão dos que o temem; pois ele sabe do que somos formados; lembra-se de que somos pó” (Salmos 103.13,14). A fidelidade é um dos atributos do caráter de Deus, por isso Ele jamais será infiel. O Senhor sabe muito bem do que somos feitos. Por essa razão, mesmo diante da nossa ingratidão, Ele nos sustenta, pois se nos deixar por nossa própria conta, certamente pereceremos. Então, seu cuidado para conosco nada tem a ver com a questão de mérito. O salmista Asafe trata com riqueza de detalhes essa relação de rebeldia versus graça entre o povo no deserto e o Senhor Deus: “Mas contra ele continuaram a pecar, revoltando-se no deserto contra o Altíssimo. Deliberadamente puseram Deus à prova, exigindo o que desejavam comer. Duvidaram de Deus, dizendo: ‘Poderá Deus preparar uma mesa no deserto?’ (...) Com a boca o adulavam, com a língua o enganavam; o coração deles não era sincero; não foram fiéis à sua aliança. Contudo, ele foi misericordioso; perdoou-lhes as maldades e não os destruiu. Vez após vez conteve a sua ira, sem despertá-la totalmente” (Salmos 78.17-19; 36-38). Asafe tinha clara percepção da graça extrema desse Deus que faz tudo unicamente para a sua glória e por amor ao seu nome (Salmos 79.9).

3 A TRANSGRESSÃO DO PRIMEIRO MANDAMENTO

O povo ainda voltaria a murmurar muitas vezes. Mas essa postura não surpreenderia o Senhor, pois Ele sabia perfeitamente o que estava em seus corações. Como vimos acima, Israel fazia confissão verbal, mas seu coração não era sincero. Havia muitos deuses estranhos povoando suas mentes (32.1). A verdadeira conversão – deles e nossa – é um processo longo e constante. Muitos símbolos precisam ser abandonados; muitos pactos, quebrados; muitos valores, revistos. Essa mudança não pode ocorrer em uma noite, ou em apenas um evento. Aqui se encontra o valor do verdadeiro discipulado, do trabalho lento e constante, da gestação de Cristo em nosso interior (Gálatas 4.19). Somos pródigos em produzir deuses que se amoldem às nossas vaidades e desejos. Em vez de almejarmos ter o caráter de Deus, optamos por fazer deuses adequados à nossa vil humanidade – não é sem razão que os deuses gregos são famosos por revelar características essencialmente humanas; são deuses feitos segundo o coração do homem. Mesmo quando não fabricamos deuses em madeira ou barro, nós os concebemos em nossas mentes. Assim como na constatação de Paulo em Atenas (Atos 17), descobrimos em nós mesmos uma religiosidade latente, porém sofremos da pretensão de adorar a um Deus que não conhecemos. Nesse caso, ecoa o apelo do profeta Oséias: “Conheçamos o Senhor; esforcemo-nos por conhecê-lo” (Oséias 6.3). Mais que todos os nossos esforços por realizar tarefas ou oferecer sacrifícios, o Senhor deseja que tenhamos empenho em conhecê-lo (Oséias 6.6; Miquéias 6.7,8). Por tudo isso se fez extremamente necessária e relevante a dramática exortação de Josué na assembléia de Siquém, muitos anos mais tarde: “Agora temam ao Senhor e sirvam-no com integridade e fidelidade. Joguem fora os deuses que os seus antepassados adoraram além do Eufrates e no Egito, e sirvam ao Senhor” (Josué 24.14). Josué sabia muito bem o que estava fazendo. Às portas da Terra da Promessa, não faria sentido arrastar para dentro de uma nova vida aquele povo com os seus velhos pecados e vícios. Ele foi capaz de compreender que é relativamente simples retirar os deuses do altar e lançá-los fora, mas não é tão simples tirá-los do coração. Esse conceito se estende por toda a Escritura e é traduzido nos escritos de Paulo nos seguintes termos: “Despir-se do velho homem” e “revestir-se do novo, criado para ser semelhante a Deus” (Efésios 4.22-24)

O PROCESSO DE PURIFICAÇÃO DO DESERTO

Dessa forma, entendemos por que o deserto é parte de um processo terapêutico utilizado por Deus; funciona como um depurador da fé. É ali que se aprende a crer não apenas no Deus de poder que realiza sinais e maravilhas, mas no Deus cuja aliança com Seu povo exige que Ele tome a frente e seja o Bom Pastor. É o que diz o testemunho do próprio Deus: “Lembrem-se de como o Senhor, o seu Deus, os conduziu por todo o caminho do deserto, durante estes quarenta anos, para humilhá-los e pô-los a prova, a fim de conhecer suas intenções, se iriam obedecer aos seus mandamentos ou não. Assim, ele os humilhou e os deixou passar fome. Mas depois os sustentou com maná, que nem vocês, nem os seus antepassados conheciam, para mostrar-lhes que nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca do Senhor” (Deuteronômio 8.2,3). A verdadeira questão aqui é a aliança de Deus com o povo. A obediência aos mandamentos é a condição fundamental para a participação nos benefícios daquela aliança. A provisão, os recursos e os milagres são apenas parte das ações salvíficas do grande “Eu Sou”. O deserto é lugar de purificação; ali toda vaidade é trazida à tona e o coração é tratado. É nele que enfrentamos o nosso maior adversário na batalha espiritual: nós mesmos. Nossas intenções e pretensões são redirecionadas ou até mesmo substituídas por outras que sirvam ao propósito de Deus. Foi assim que o Senhor Jesus se tornou aprovado. À semelhança de Israel, Ele também foi levado pelo Espírito ao deserto (Mateus 4.1). Ali, entrou em contato com o mesmo dilema daquele povo: servir a Deus ou a si mesmo? Satisfazer a vontade do Pai ou saciar a fome de pão? Amar a Deus acima de todas as coisas ou criar deuses mentais que venham a se adequar ao limite da sua humanidade? Ele escolheu ser fiel à vontade do Pai e assim sobreviveu ao deserto (Mateus 4.2-11). Não há outro meio de atravessar para além do Jordão e entrar na Promessa a não ser pelo deserto: “E aquele que não carrega sua cruz e não me segue não pode ser meu discípulo” (Lucas 14.27). Nele, ou escolhemos o caminho da fidelidade a Deus e sobrevivemos ou tombamos ante a fragilidade do que somos.

OS QUE CAÍRAM NO DESERTO

Mesmo que, em princípio, o povo tenha estado tão perto da verdade sobre Deus, com o tempo acabou se afastando cada vez mais. A poucos dias da Terra Prometida, sua falta de fé revelou quão longe estavam de Javé. No episódio dos doze espias (Números 13), no retorno da missão de reconhecimento, dez homens trouxeram um relato desolador. Descreveram a si mesmos como “gafanhotos” diante dos gigantes da terra de Canaã. Essa autoimagem tão depreciativa mostra uma total falta de maturidade espiritual. Por outro lado, dois deles, Josué e Calebe, expressaram a verdadeira fé no verdadeiro Deus – eles reconheceram o tamanho do desafio, mas demonstraram total confiança em si mesmos e no seu Deus. Eles não tinham fé na fé, mas confiavam na palavra do Deus que fez a promessa – eles foram fiéis à aliança. O problema é que o povo se deixou levar pela maioria e em uníssono chorou, rendendo-se ao medo e à incredulidade. Aqui não se trata de ter muita ou pouca fé, mas apenas de confiar ou não na promessa. Uma sentença pesada veio da parte do Senhor: “No entanto, juro pela glória do Senhor que enche toda a terra, que nenhum dos que viram a minha glória e os sinais miraculosos que realizei no Egito e no deserto, e me puseram à prova e me desobedeceram dez vezes – nenhum deles chegará a ver a terra que prometi com juramento aos seus antepassados. Ninguém que me tratou com desprezo a verá. (...) Nenhum de vocês entrará na terra que, com mão levantada, jurei dar-lhes para sua habitação, exceto Calebe, filho de Jefoné, e Josué, filho de Num” (Números 14.21-23,30) Ao falar sobre o perigo da incredulidade, o autor aos Hebreus evoca esse momento crítico do povo no deserto (Hebreus 3.7ss). Sua análise daqueles fatos ajuda-nos a entender o que se passou com aquele povo. Ele fala do “coração perverso e incrédulo” que nos afasta do Deus vivo (3.12); o deus que eles conheciam não era o Deus vivo. Também fala da importância de nos apegarmos “até o fim à confiança que tivemos no princípio” (3.14). A caminhada pelo deserto é longa, assim como a caminhada da vida – não basta ser fiel até certo ponto, mas é preciso ir até o fim. Nesse ponto, o mesmo autor tem uma palavra ainda mais forte: “Pois as boas novas foram pregadas também a nós, tanto quanto a eles; mas a mensagem que eles ouviram de nada lhes valeu, pois não foi acompanhada de fé por aqueles que a ouviram” (4.2). Aqui está a questão central da sentença divina: apesar de terem visto tudo o que o poder de Deus realizou, a palavra que lhes foi anunciada não foi seguida de fé para a salvação.

Todos esses, contra os quais Deus esteve irado por quarenta anos, caíram no deserto (Hebreus 3.17). Nada lhes faltou. Foram eles que atravessaram o mar a pés enxutos; que beberam água da rocha; que viram a glória do Senhor. É curioso perceber que os que caem geralmente são aqueles a quem nada falta, desde Adão. Por isso, Hebreus adverte: “Portanto, esforcemo-nos por entrar nesse descanso, para que ninguém venha a cair, seguindo aquele exemplo de desobediência” (4.11). Essa insatisfação que leva à queda só pode ser domada por meio da disciplina de uma vida que se volta para Deus, dia a dia. O maná de hoje não serve para o amanhã. A cada dia precisamos sair ao campo para colher uma nova porção de graça e sustento da parte do Senhor. Até que um dia o veremos como Ele é, conheceremos como somos conhecidos, nunca mais sentiremos qualquer necessidade e seremos completamente satisfeitos. A verdadeira fé é aquela que se sustenta, sobretudo, na esperança e no conhecimento da promessa e na obediência à Palavra. Assim se faz a verdadeira fé; ela é muito mais do que uma crença. É um tipo de conhecimento ou interpretação da verdadeira finalidade da vida, que é servir aos propósitos de um Deus de amor que tudo fez para a sua glória. Pedro é incisivo na definição do sentido pleno da fé: a salvação das nossas almas (1 Pedro 1.9). Foi para isso que Jesus Cristo se revelou: sua missão consiste em apresentar diante de si mesmo uma igreja pura, gloriosa, sem mancha nem ruga, mas santa e irrepreensível (Efésios 5.25-27). Cabe a cada cristão esquadrinhar as Escrituras em busca do entendimento dos termos dessa aliança e viver por eles. Por essa razão, Abraão é tido como paradigma da fé. Mesmo diante da possibilidade real de perder o que lhe era mais precioso, ele creu que a promessa feita a ele seria realizada – cumpriu-se em Abraão a máxima de Anselmo: (Anselmo de Cantuária viveu entre 1033 e 1109 na Europa. Foi um teólogo e filósofo muito influente em seu tempo, formulando conceitos que buscavam conciliar a fé e a razão) “Crer para compreender; a fé em busca de entendimento”. O propósito maior é agradar aquele que fez a promessa. Por esse motivo aquele crente subiu o monte Moriá com a decisão firme de obedecer a Deus, ainda que o seu coração sangrasse dentro do peito. “Assim, quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus” (1 Coríntios 10.31). Essa fé sustentou o Filho de Deus em suas maiores provas (Mateus 4.1-4). Pode parecer estranho pensar que Jesus precisou de fé, mas o fato é que Ele não só precisou como expressou sua fé muitas vezes: “Durante seus dias de vida na terra, Jesus ofereceu orações e súplicas, em alta voz e com lágrimas, àquele que o podia salvar da morte, sendo ouvido por causa da sua reverente submissão. Embora sendo Filho, ele aprendeu a obedecer por meio daquilo que sofreu” (Hebreus 5.7,8). Pode-se perceber isso em sua agonia no Getsêmani: “Meu Pai, se for possível afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres” (Mateus 26.39).

Paulo também se apegou à fé na vontade soberana de Deus para suportar as várias situações-limite por que passou: “Mas temos esse tesouro em vasos de barro, para mostrar que este poder que a tudo excede provém de Deus, e não de nós. De todos os lados somos pressionados, mas não desanimados; ficamos perplexos, mas não desesperados; somos perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não destruídos” (2 Coríntios 4.7-9). O que sustentava esse homem em meio a tanta contrariedade? A esperança na fidelidade daquele que fez a promessa. Para Paulo, só há verdadeira vida em Cristo, e a própria morte torna-se lucro, cumprindo-se o propósito de Deus (Filipenses 1.20,21).

Pedro expressa claramente qual é a função do poder de Deus manifestado na vida dos seus filhos: “Seu divino poder nos deu tudo de que necessitamos para a vida e para a piedade, por meio do pleno conhecimento daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude” (2 Pedro 1.3). Ao refletirmos cuidadosamente nesse único versículo, perceberemos que:

a) Pelo seu poder, Deus nos dá tudo de que necessitamos – não tudo o que queremos – e isso deve nos encher de paz e confiança;

b) Ele nos dá para que pratiquemos uma vida piedosa – há uma finalidade bem clara na liberação do seu poder e provisão;

c) Essa prática deve ter como base/meta o pleno conhecimento da pessoa de Jesus.

Então, o que Deus faz tem a finalidade de revelar o que Deus é. Tudo o que Ele criou e cria tem como propósito final a exaltação da sua glória.

TUDO PARA A GLÓRIA DE DEUS

Semelhantemente ao povo de Deus no passado, em muitos momentos nós adulamos o Senhor com a boca, “enganamos” com a língua, mas o nosso coração não é sincero. Não somos fiéis à sua aliança. O que dizemos sobre Deus nem sempre reflete algo sobre Ele, de fato. Quando lemos em um adesivo: “Deus é fiel”, na maioria dos casos essa declaração nada tem a ver com Deus. Só estamos dizendo que conseguimos obter aquele bem em que colamos o tal adesivo e estamos felizes por isso. Na verdade, dizer que Deus é fiel não pode ser uma atitude associada ou condicionada à suposta prova dessa fidelidade. Deus é fiel porque a fidelidade faz parte do seu caráter, faz parte do seu ser. Ele permanecerá fiel, mesmo quando eu não conseguir obter aquilo que desejo – foi assim com o seu Filho amado. No entanto, se a nossa fé só pode se sustentar ante a manifestação do seu poder, ela corre o risco de morrer nesse deserto sem que possamos conhecer o verdadeiro Deus. Assim como a mulher de Jó, reduziremos Deus ao tamanho das circunstâncias de tempo e espaço. Para o bem da nossa fé, da verdadeira fé no verdadeiro Deus, Jó conseguiu discernir como poucos a verdade sobre Deus e o tipo de relacionamento que o Todo Poderoso tem com os homens: “Aceitaremos o bem dado por Deus, e não o mal?” (Jó 2.10); e ainda: “Embora ele me mate, ainda assim esperarei nele” (Jó 13.15a) O compromisso do Deus revelado nas Sagradas Escrituras é em primeiro lugar com a sua glória e com o louvor do seu nome. Nas palavras de John Piper: “Deus é a pessoa mais teocêntrica do universo”. (PIPER, John. Irmãos Nós Não Somos Profissionais. Shedd Publicações: São Paulo 2009; p. 20) Infelizmente, temos sido bombardeados por uma pregação antropocêntrica, na qual Deus, ou melhor, o que supomos ser deus, tem obrigações para conosco. Afinal, nós o aceitamos e, assim, o entendemos equivocadamente, Ele teria assumido tais obrigações. Dessa maneira, o homem está no centro, ele é merecedor.

O fato é que esse delírio provocado pela liberdade da qual desfrutamos fez-nos esquecer a pregação primitiva: “Meus irmãos, quero que saibam que mediante Jesus lhes é proclamado o perdão dos pecados. Por meio dele, todo aquele que crê é justificado de todas as coisas das quais não podiam ser justificados pela Lei de Moisés” (Atos 13.38,39). Toda a arrogância e a prepotência da religiosidade judaica se baseavam na incompreensão desse fato. Então, construíram um edifício religioso com base num sistema meritório, pela observância externa dos termos da lei mosaica. Mas seus corações continuavam conservando os mesmos velhos hábitos da vida na impiedade. Nas palavras de Jesus, em Lucas 11.39: “Vocês, fariseus, limpam o exterior do copo e do prato, mas interiormente estão cheios de ganância e de maldade”. Os judeus não aceitavam a graça, porque viver a graça de Jesus impõe a inversão do processo que eles viviam.

É preciso limpar o interior do prato e viver o dia a dia confiando apenas na graça, praticando a justiça e a verdade. Com base nisso, o discípulo de Jesus entende que:

a) Ele não merece nada do que recebe – e tudo o que ele é e possui vem de Deus: “Tudo vem de ti e nós apenas te demos do que vem das tuas mãos” (1 Crônicas 29.14b);

b) por receber tanto de Deus sem nada merecer, a única atitude sensata do discípulo é servir a Jesus bem enquanto viver, seguindo o exemplo do apóstolo Paulo: “... nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, se tão somente puder terminar a corrida e completar o ministério que o Senhor Jesus me confiou” (Atos 20.24). Não se trata de expressar gratidão – não no sentido de tentar cobrir a medida do bem recebido das mãos de Deus mediante o serviço a Ele – mas “gratuidade”, pela doação da vida em resposta ao amor extremo derramado em nossos corações.Talvez seja o caso de recuperar a compreensão primitiva da provisoriedade dessa vida; assumir o custo da decisão de não vivê-la como um fim em si mesmo, de não amar a criatura acima do Criador.
 

O cerne da mensagem cristã é a glória de Deus. Por toda a Bíblia, desde o Antigo Testamento, encontramos marcas profundas dessa mensagem. Nos livros da lei: “(...) eu serei glorificado por meio do faraó e de todo o seu exército (...)” (Êxodo 14.4b); nas palavras dos profetas: “Por amor do meu próprio nome eu adio a minha ira; por amor do meu louvor eu a contive, para que você não fosse eliminado” (Isaías 48.9); “Embora os nossos pecados nos acusem, age por amor do teu nome, ó Senhor!” (Jeremias 14.7ab); nos salmos: “Ajuda-nos, ó Deus, nosso Salvador, para a glória do teu nome;” (Sl 79,9a); “Não a nós, Senhor, nenhuma glória para nós, mas sim ao teu nome, por teu amor e por tua fidelidade” (Salmos 115.1). Não temos dificuldade em aceitar a graça. O nosso problema é permanecer na graça. Essa era a recomendação de Paulo aos irmãos de Antioquia (Atos 13.43) – continuem na graça. Ele tinha plena consciência de que o cristão deve ter como alvo a glória de Deus em tudo o que faz (1 Coríntios 10.31), pois a finalidade de tudo o que a Escritura revela é que Deus seja TUDO em todos (1 Coríntios 15.28). A aliança de Jesus com os seus discípulos está fundamentada numa clara noção de serviço. Nos seus últimos momentos com eles, naquela hora em que Ele só podia pensar em algo que fosse absolutamente essencial, sua escolha foi convidá-los para uma última refeição. Após aquele momento tão singularmente especial, os discípulos passaram a disputar entre si qual deles seria o maior – isso é o que somos nós. Diante disso, Jesus tomou uma bacia com água, uma toalha, e passou a lavar-lhes os pés – isso é o que precisamos ser (cf. Lucas 22; João 13). Ao propor a série de parábolas das “coisas perdidas” (Lucas 15), Jesus deixa uma clara lição da correta relação do pecador com a graça recebida. É preciso perder tudo, vender tudo, desamar a tudo e correr para os braços do Pai.

O VERDADEIRO DEUS REVELADO EM CRISTO

Jesus falou à mulher samaritana sobre os verdadeiros adoradores e o verdadeiro culto (João 4), o que pressupõe uma falsa adoração e um falso culto. Falou também aos judeus que o perseguiam, mostrando-lhes a incoerência da sua religiosidade: “Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna. E são as Escrituras que testemunham a meu respeito; contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida” (João 5.39,40). Essa declaração de Jesus é de grande importância, pois deixa claro que é possível que alguém examine e “estude cuidadosamente” as Escrituras e nelas encontre algo bem diverso daquilo que Ele veio revelar. E mais, mostra que o estudo da Bíblia por si só pode não levar a Cristo. Em ambos os casos, Jesus procura alertar para o perigo da devoção a um deus desconhecido. Isso fica ainda mais evidente na declaração de João 8.19: “Vocês não conhecem nem a mim, nem a meu Pai”. Só Jesus pode revelar o verdadeiro Deus, pois Ele é o verdadeiro Deus e a vida eterna (1 João 5.20); “Quem me vê, vê o Pai” (João 14.9). Então, qualquer aproximação das Escrituras em busca do verdadeiro Deus deve ser feita em humildade de espírito e livre de preconceitos, em inteira rendição a Jesus Cristo, sem “mas”. Paulo dedica boa parte de seus escritos a demonstrar qual é o Cristo que ele anuncia (1 Coríntios 1.23; 2.2; Romanos 5.8; Gálatas 3.1; 6.14; Colossenses 1.20; 2.4). Sua mensagem mostra que a Cruz é o centro da mensagem cristã. Mas o Cristo crucificado é escândalo para os judeus e loucura para os gentios, pois estes buscavam o deus da sabedoria e aqueles o deus dos sinais e milagres – herança da geração que caiu no deserto. O fundamento pode ser o correto, mas a edificação sobre ele precisa preservar a correção (1 Coríntios 3.10-15). Os gálatas começaram a carreira de modo correto, mas aos poucos se deixaram desviar da retidão (Gálatas 3.1ss). É plausível deduzir que a Igreja primitiva ainda oscilava entre o verdadeiro Deus e o falso e que a causa disso era o entendimento equivocado da verdade do Evangelho. Então, mesmo sendo grato pelo simples fato de os irmãos demonstrarem fé e amor ao Senhor Jesus, Paulo orava por eles para que entendessem qual era a esperança à qual foram chamados (Efésios 1.15-19). A teologia paulina é pontilhada pela esperança. Não se trata de otimismo em relação às coisas terrenas, mas de confiança e certeza na consumação da obra que Deus, um dia, começou em cada um de nós (Romanos 8.18-27; Filipenses 1.6). (Saiba mais em ZÁGARI, Maurício, A Verdadeira Vitória do Cristão. Rio de Janeiro: Anno Domini, 2012)

O VERDADEIRO DEUS REVELADO EM CRISTO

Jesus falou à mulher samaritana sobre os verdadeiros adoradores e o verdadeiro culto (João 4), o que pressupõe uma falsa adoração e um falso culto. Falou também aos judeus que o perseguiam, mostrando-lhes a incoerência da sua religiosidade: “Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna. E são as Escrituras que testemunham a meu respeito; contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida” (João 5.39,40). Essa declaração de Jesus é de grande importância, pois deixa claro que é possível que alguém examine e “estude cuidadosamente” as Escrituras e nelas encontre algo bem diverso daquilo que Ele veio revelar. E mais, mostra que o estudo da Bíblia por si só pode não levar a Cristo. Em ambos os casos, Jesus procura alertar para o perigo da devoção a um deus desconhecido. Isso fica ainda mais evidente na declaração de João 8.19: “Vocês não conhecem nem a mim, nem a meu Pai”. Só Jesus pode revelar o verdadeiro Deus, pois Ele é o verdadeiro Deus e a vida eterna (1 João 5.20); “Quem me vê, vê o Pai” (João 14.9). Então, qualquer aproximação das Escrituras em busca do verdadeiro Deus deve ser feita em humildade de espírito e livre de preconceitos, em inteira rendição a Jesus Cristo, sem “mas”. Paulo dedica boa parte de seus escritos a demonstrar qual é o Cristo que ele anuncia (1 Coríntios 1.23; 2.2; Romanos 5.8; Gálatas 3.1; 6.14; Colossenses 1.20; 2.4). Sua mensagem mostra que a Cruz é o centro da mensagem cristã. Mas o Cristo crucificado é escândalo para os judeus e loucura para os gentios, pois estes buscavam o deus da sabedoria e aqueles o deus dos sinais e milagres – herança da geração que caiu no deserto. O fundamento pode ser o correto, mas a edificação sobre ele precisa preservar a correção (1 Coríntios 3.10-15). Os gálatas começaram a carreira de modo correto, mas aos poucos se deixaram desviar da retidão (Gálatas 3.1ss). É plausível deduzir que a Igreja primitiva ainda oscilava entre o verdadeiro Deus e o falso e que a causa disso era o entendimento equivocado da verdade do Evangelho. Então, mesmo sendo grato pelo simples fato de os irmãos demonstrarem fé e amor ao Senhor Jesus, Paulo orava por eles para que entendessem qual era a esperança à qual foram chamados (Efésios 1.15-19). A teologia paulina é pontilhada pela esperança. Não se trata de otimismo em relação às coisas terrenas, mas de confiança e certeza na consumação da obra que Deus, um dia, começou em cada um de nós (Romanos 8.18-27; Filipenses 1.6). (Saiba mais em ZÁGARI, Maurício, A Verdadeira Vitória do Cristão. Rio de Janeiro: Anno Domini, 2012)

O VERDADEIRO DEUS REVELADO EM CRISTO

Jesus falou à mulher samaritana sobre os verdadeiros adoradores e o verdadeiro culto (João 4), o que pressupõe uma falsa adoração e um falso culto. Falou também aos judeus que o perseguiam, mostrando-lhes a incoerência da sua religiosidade: “Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna. E são as Escrituras que testemunham a meu respeito; contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida” (João 5.39,40). Essa declaração de Jesus é de grande importância, pois deixa claro que é possível que alguém examine e “estude cuidadosamente” as Escrituras e nelas encontre algo bem diverso daquilo que Ele veio revelar. E mais, mostra que o estudo da Bíblia por si só pode não levar a Cristo. Em ambos os casos, Jesus procura alertar para o perigo da devoção a um deus desconhecido. Isso fica ainda mais evidente na declaração de João 8.19: “Vocês não conhecem nem a mim, nem a meu Pai”. Só Jesus pode revelar o verdadeiro Deus, pois Ele é o verdadeiro Deus e a vida eterna (1 João 5.20); “Quem me vê, vê o Pai” (João 14.9). Então, qualquer aproximação das Escrituras em busca do verdadeiro Deus deve ser feita em humildade de espírito e livre de preconceitos, em inteira rendição a Jesus Cristo, sem “mas”. Paulo dedica boa parte de seus escritos a demonstrar qual é o Cristo que ele anuncia (1 Coríntios 1.23; 2.2; Romanos 5.8; Gálatas 3.1; 6.14; Colossenses 1.20; 2.4). Sua mensagem mostra que a Cruz é o centro da mensagem cristã. Mas o Cristo crucificado é escândalo para os judeus e loucura para os gentios, pois estes buscavam o deus da sabedoria e aqueles o deus dos sinais e milagres – herança da geração que caiu no deserto. O fundamento pode ser o correto, mas a edificação sobre ele precisa preservar a correção (1 Coríntios 3.10-15). Os gálatas começaram a carreira de modo correto, mas aos poucos se deixaram desviar da retidão (Gálatas 3.1ss). É plausível deduzir que a Igreja primitiva ainda oscilava entre o verdadeiro Deus e o falso e que a causa disso era o entendimento equivocado da verdade do Evangelho. Então, mesmo sendo grato pelo simples fato de os irmãos demonstrarem fé e amor ao Senhor Jesus, Paulo orava por eles para que entendessem qual era a esperança à qual foram chamados (Efésios 1.15-19). A teologia paulina é pontilhada pela esperança. Não se trata de otimismo em relação às coisas terrenas, mas de confiança e certeza na consumação da obra que Deus, um dia, começou em cada um de nós (Romanos 8.18-27; Filipenses 1.6). (Saiba mais em ZÁGARI, Maurício, A Verdadeira Vitória do Cristão. Rio de Janeiro: Anno Domini, 2012)

A primeira vez que li as palavras de 1 Coríntios 11, fui tomado de pânico. Nesse trecho das Sagradas Escrituras, pude ver que é perfeitamente possível nos reunirmos como Igreja, em nome de Deus, tendo o mobiliário disposto corretamente, a Palavra de Deus nas mãos, os sacramentos diante de nós, o “povo de Deus” no mesmo lugar e, ainda assim, não termos um culto verdadeiro. E mais: é possível que, nesse caso, o culto nos faça mais mal do que bem (1 Coríntios 11.17). Paulo usa palavras pontiagudas e que fazem perceber que precisamos nos dispor constantemente ao autoexame quanto à validade da nossa fé e consequentemente do nosso culto: “Quando vocês se reúnem [para participar da ceia], não é para comer a ceia do Senhor”; “Examine-se cada um a si mesmo, e então coma do pão e beba do cálice. Pois quem come e bebe sem discernir o corpo do Senhor, come e bebe para sua própria condenação” (1 Coríntios 11.20,28,29) Então, cooperando com a palavra de Jesus à samaritana, é possível que venhamos a oferecer um falso culto, provocado por uma falsa ideia de Deus e de sua obra. Isso me faz tremer. Antes de Jesus vir ao mundo e antes dos ensinos de Paulo, Isaías já alertava o povo de Deus sobre o falso e o verdadeiro culto. O profeta denunciou que não havia prazer em Deus pelo culto que o povo oferecia, pelo contrário, Ele expressava repugnância (Isaías 1.11-13). Se o alvo for a glorificação do verdadeiro Deus, o culto a Ele precisa ser feito em conformidade com a prática da justiça (Isaías 58).

A primeira vez que li as palavras de 1 Coríntios 11, fui tomado de pânico. Nesse trecho das Sagradas Escrituras, pude ver que é perfeitamente possível nos reunirmos como Igreja, em nome de Deus, tendo o mobiliário disposto corretamente, a Palavra de Deus nas mãos, os sacramentos diante de nós, o “povo de Deus” no mesmo lugar e, ainda assim, não termos um culto verdadeiro. E mais: é possível que, nesse caso, o culto nos faça mais mal do que bem (1 Coríntios 11.17). Paulo usa palavras pontiagudas e que fazem perceber que precisamos nos dispor constantemente ao autoexame quanto à validade da nossa fé e consequentemente do nosso culto: “Quando vocês se reúnem [para participar da ceia], não é para comer a ceia do Senhor”; “Examine-se cada um a si mesmo, e então coma do pão e beba do cálice. Pois quem come e bebe sem discernir o corpo do Senhor, come e bebe para sua própria condenação” (1 Coríntios 11.20,28,29) Então, cooperando com a palavra de Jesus à samaritana, é possível que venhamos a oferecer um falso culto, provocado por uma falsa ideia de Deus e de sua obra. Isso me faz tremer. Antes de Jesus vir ao mundo e antes dos ensinos de Paulo, Isaías já alertava o povo de Deus sobre o falso e o verdadeiro culto. O profeta denunciou que não havia prazer em Deus pelo culto que o povo oferecia, pelo contrário, Ele expressava repugnância (Isaías 1.11-13). Se o alvo for a glorificação do verdadeiro Deus, o culto a Ele precisa ser feito em conformidade com a prática da justiça (Isaías 58).

A primeira vez que li as palavras de 1 Coríntios 11, fui tomado de pânico. Nesse trecho das Sagradas Escrituras, pude ver que é perfeitamente possível nos reunirmos como Igreja, em nome de Deus, tendo o mobiliário disposto corretamente, a Palavra de Deus nas mãos, os sacramentos diante de nós, o “povo de Deus” no mesmo lugar e, ainda assim, não termos um culto verdadeiro. E mais: é possível que, nesse caso, o culto nos faça mais mal do que bem (1 Coríntios 11.17). Paulo usa palavras pontiagudas e que fazem perceber que precisamos nos dispor constantemente ao autoexame quanto à validade da nossa fé e consequentemente do nosso culto: “Quando vocês se reúnem [para participar da ceia], não é para comer a ceia do Senhor”; “Examine-se cada um a si mesmo, e então coma do pão e beba do cálice. Pois quem come e bebe sem discernir o corpo do Senhor, come e bebe para sua própria condenação” (1 Coríntios 11.20,28,29) Então, cooperando com a palavra de Jesus à samaritana, é possível que venhamos a oferecer um falso culto, provocado por uma falsa ideia de Deus e de sua obra. Isso me faz tremer. Antes de Jesus vir ao mundo e antes dos ensinos de Paulo, Isaías já alertava o povo de Deus sobre o falso e o verdadeiro culto. O profeta denunciou que não havia prazer em Deus pelo culto que o povo oferecia, pelo contrário, Ele expressava repugnância (Isaías 1.11-13). Se o alvo for a glorificação do verdadeiro Deus, o culto a Ele precisa ser feito em conformidade com a prática da justiça (Isaías 58).

LANÇANDO FORA OS FALSOS DEUSES

Como restaurar o verdadeiro culto? A primeira coisa a fazer é retomar o conceito bíblico do verdadeiro Deus. Vivemos um tempo em que grande parte das pessoas que frequenta a igreja só conhece o Senhor de ouvir falar – da mesma forma que Jó, antes da sua experiência transformadora no deserto. Consequentemente, essas pessoas não experimentam a necessária devoção que precede o culto. De fato, precisamos retomar a compreensão sobre a nossa relação com Deus típica do primeiro amor. O chamado do Senhor ao homem é para que, uma vez liberto, o seu caminho seja conduzido por Deus. O Senhor não quer ser apenas aquele que “abençoa” – não no sentido triunfalista onde a palavra “bens” virou sinônimo de bênção – mas quer, principalmente, ser o Guia do caminho dos seus filhos. É para isso que Ele nos liberta; para que possamos tomar a decisão livre de lhe rendermos inteiramente nossas vidas. Antes de conhecermos o Senhor, vivíamos guiados por desejos e paixões egoístas que nos levavam à obediência ao curso desse mundo. Nesse estado, a Bíblia diz que estávamos mortos (Efésios 2.1-3). Aqui há um diálogo que precisa ser considerado constantemente: se vivermos para o pecado, morremos para Deus; se vivermos para Deus, morremos para o pecado. É por isso que, muitas vezes, o Senhor permite que as lutas venham, pois por meio delas o Pai nos leva de volta à obediência e à retidão, o que possivelmente redundará em bênção (Salmos 119.67): “Antes de ser castigado, eu andava desviado, mas agora obedeço à tua palavra”. É necessário lançar fora os falsos deuses aos quais servíamos antes de conhecer o Senhor Jesus. Ninguém pode ver o Reino sem nascer de novo, mas o novo nascimento é apenas o início de uma longa jornada que só pode ser levada a efeito com muita seriedade e disciplina. O homem natural não nasce nem um pouco disposto a seguir a vontade do Senhor. A nossa herança original é a natureza de Adão – arrogante e desobediente. Os salmistas sabiam que o caminho do Senhor precisa ser aprendido: “Ensina-me o teu caminho, Senhor, para que eu ande na tua verdade; dá-me um coração inteiramente fiel, para que eu tema o teu nome” (Salmos 86.11). Também sabiam que a iluminação desse caminho vem da Palavra de Deus (Salmos 119.105). Quando aprendemos o caminho e passamos a andar por ele, então Deus deixa de ser apenas uma ideia nebulosa em nossas mentes para ser o verdadeiro Senhor.

LANÇANDO FORA OS FALSOS DEUSES

Como restaurar o verdadeiro culto? A primeira coisa a fazer é retomar o conceito bíblico do verdadeiro Deus. Vivemos um tempo em que grande parte das pessoas que frequenta a igreja só conhece o Senhor de ouvir falar – da mesma forma que Jó, antes da sua experiência transformadora no deserto. Consequentemente, essas pessoas não experimentam a necessária devoção que precede o culto. De fato, precisamos retomar a compreensão sobre a nossa relação com Deus típica do primeiro amor. O chamado do Senhor ao homem é para que, uma vez liberto, o seu caminho seja conduzido por Deus. O Senhor não quer ser apenas aquele que “abençoa” – não no sentido triunfalista onde a palavra “bens” virou sinônimo de bênção – mas quer, principalmente, ser o Guia do caminho dos seus filhos. É para isso que Ele nos liberta; para que possamos tomar a decisão livre de lhe rendermos inteiramente nossas vidas. Antes de conhecermos o Senhor, vivíamos guiados por desejos e paixões egoístas que nos levavam à obediência ao curso desse mundo. Nesse estado, a Bíblia diz que estávamos mortos (Efésios 2.1-3). Aqui há um diálogo que precisa ser considerado constantemente: se vivermos para o pecado, morremos para Deus; se vivermos para Deus, morremos para o pecado. É por isso que, muitas vezes, o Senhor permite que as lutas venham, pois por meio delas o Pai nos leva de volta à obediência e à retidão, o que possivelmente redundará em bênção (Salmos 119.67): “Antes de ser castigado, eu andava desviado, mas agora obedeço à tua palavra”. É necessário lançar fora os falsos deuses aos quais servíamos antes de conhecer o Senhor Jesus. Ninguém pode ver o Reino sem nascer de novo, mas o novo nascimento é apenas o início de uma longa jornada que só pode ser levada a efeito com muita seriedade e disciplina. O homem natural não nasce nem um pouco disposto a seguir a vontade do Senhor. A nossa herança original é a natureza de Adão – arrogante e desobediente. Os salmistas sabiam que o caminho do Senhor precisa ser aprendido: “Ensina-me o teu caminho, Senhor, para que eu ande na tua verdade; dá-me um coração inteiramente fiel, para que eu tema o teu nome” (Salmos 86.11). Também sabiam que a iluminação desse caminho vem da Palavra de Deus (Salmos 119.105). Quando aprendemos o caminho e passamos a andar por ele, então Deus deixa de ser apenas uma ideia nebulosa em nossas mentes para ser o verdadeiro Senhor.

CONCLUSÃO

Precisamos buscar ajuda em Deus para abrir mão de toda ideia distorcida que temos a seu respeito. Tal postura nos levará a abandonar os falsos deuses que formulamos em nossas mentes por causa da nossa vaidade. Sendo assim, as necessidades cotidianas não determinarão a nossa fé nele, pois sabemos que não estamos em condições de exigir nada, pois tudo de melhor que o Senhor poderia nos dar, Ele já nos deu. Então, ficaremos livres de todo jugo e viveremos contentes com o que Ele faz e confiantes na sua provisão, agora e no futuro. E, assim, saberemos com certeza que o Deus dos Exércitos sempre estará ao nosso lado na hora em que formos enfrentar toda e qualquer batalha espiritual. * * * Sim, nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes. Sim, Satanás e seus demônios militam contra nós. E sim, estamos em guerra espiritual. Mas não podemos parar aí. Temos que saber também que sim, Deus é muito mais poderoso que Satanás. Sim, o maior campo de batalha espiritual, onde o Adversário lança seu mais intenso bombardeio, é a nossa mente. Sim, a Palavra de Deus é nossa maior arma nessa luta, junto com a fé, a esperança e o amor. E sim, Cristo tem sempre que ser o foco da nossa vida, das nossas preocupações e de nossos cultos, e não as hostes espirituais da maldade. Vivemos num mundo tenebroso e em dias sombrios. Mas não apenas porque há demônios entre nós ou porque o Diabo anda ao nosso derredor buscando a quem possa tragar. As trevas e sombras que recaem sobre a Igreja de Jesus Cristo têm origem em grande parte dentro das nossas próprias congregações. Pois muitos de nós têm devotado muito mais atenção aos demônios do que a Cristo. Ou seja: trocamos o prato principal pela sobremesa. Trocamos o primário pelo secundário. Trouxemos para o epicentro da nossa vida de fé algo que deveria estar na periferia. Jesus não dava conversa para demônios. Sua metodologia consistia simplesmente em “Cala-te e sai”. Mas só isso não dá ibope, não sustenta um “ministério”, não gera congressos, não atrai pessoas amedrontadas, não cria shows de TV. O que desperta a mórbida curiosidade dos temerosos e desinformados adeptos dos ensinos atuais de “batalha espiritual” – com técnicas, mapeamentos, hierarquias, nomes e mil outras informações fornecidas por supostos ex-satanistas, por demônios mentirosos que se manifestam em exorcismos ou por pessoas que tiveram “revelações” – são esses seres do mal, que passaram a ditar as ações de suas vidas de fé. Os adeptos dessa corrente de “batalha espiritual” repreendem mais os demônios do que oram a Deus. Dedicam-se mais ao estudo das supostas verdades ocultas do que a uma boa análise teológica. Fascinam-se por séries intermináveis de livros de autores que garantem ter tido experiências sobrenaturais, arrebatamentos e outras vivências que revelam o que a Bíblia não diz.

É possível que um ou outro desses relatos seja verídico? Que o que os demônios digam em sessões de exorcismo seja verdade? Só Deus o sabe. Mas essas são as perguntas erradas. As perguntas certas são: de que modo esses relatos e essas afirmações afetam minha caminhada de fé? Aproximam-me mais de Cristo? Tornam-me um cristão melhor? Ajudam-me a amar mais a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a mim mesmo? Estimulam em mim a manifestação do fruto do Espírito? Levam-me ao arrependimento dos meus pecados? Conduzem-me a buscar em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça? Fazem a minha adoração ser mais bíblica, cristocêntrica e realizada em espírito e em verdade? Essa é a questão. Se sairmos bem de uma batalha espiritual mas não dissermos “sim” a essas perguntas... terá de fato sido um triunfo? Ou apenas placebo? Como em tudo no bom combate da fé, devemos buscar na Bíblia a resposta. Em nenhuma outra fonte: na Bíblia e na Bíblia somente. E as palavras de Jesus proferidas no Sermão do Monte nos dão uma boa pista sobre isso. Ouçamos o que o Mestre diz, como registrado no capítulo 7 do evangelho segundo Mateus: Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos. (...) Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?’ Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal! Vemos então que expulsar demônios não é credencial para ninguém afirmar que conhece Cristo. Chamar Jesus de “Senhor” também não. Mas sim dar bons frutos. Mateus 3.10 afirma: “O machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo”. Qualquer semelhança com o Salmo 1 não é mera coincidência: Como é feliz aquele que não segue o conselho dos ímpios, não imita a conduta dos pecadores, nem se assenta na roda dos zombadores! Ao contrário, sua satisfação está na lei do Senhor, e nessa lei medita dia e noite. É como árvore plantada à beira de águas correntes: Dá fruto no tempo certo e suas folhas não murcham. Tudo o que ele faz prospera! Não é o caso dos ímpios! São como palha que o vento leva. Por isso os ímpios não resistirão no julgamento, nem os pecadores na comunidade dos justos. Pois o Senhor aprova o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios leva à destruição! Ser bem-sucedido na grande batalha espiritual é tornar-se como essas árvores: plantadas à beira de águas correntes, que dão fruto no tempo certo e cujas folhas não murcham. Que assim seja nossa vida, como ramos ligados à Videira Verdadeira e não a qualquer figueira seca. Se não, não teremos vida. Pelo contrário, seremos amaldiçoados pelo Senhor, secaremos e morreremos. Mas se nos mantivermos ligados à Videira de onde vem a seiva da vida teremos vida em abundância nesta terra. E, mais importante: teremos vida ao lado de Deus por toda a eternidade.

É possível que um ou outro desses relatos seja verídico? Que o que os demônios digam em sessões de exorcismo seja verdade? Só Deus o sabe. Mas essas são as perguntas erradas. As perguntas certas são: de que modo esses relatos e essas afirmações afetam minha caminhada de fé? Aproximam-me mais de Cristo? Tornam-me um cristão melhor? Ajudam-me a amar mais a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a mim mesmo? Estimulam em mim a manifestação do fruto do Espírito? Levam-me ao arrependimento dos meus pecados? Conduzem-me a buscar em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça? Fazem a minha adoração ser mais bíblica, cristocêntrica e realizada em espírito e em verdade? Essa é a questão. Se sairmos bem de uma batalha espiritual mas não dissermos “sim” a essas perguntas... terá de fato sido um triunfo? Ou apenas placebo? Como em tudo no bom combate da fé, devemos buscar na Bíblia a resposta. Em nenhuma outra fonte: na Bíblia e na Bíblia somente. E as palavras de Jesus proferidas no Sermão do Monte nos dão uma boa pista sobre isso. Ouçamos o que o Mestre diz, como registrado no capítulo 7 do evangelho segundo Mateus: Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos. (...) Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?’ Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal! Vemos então que expulsar demônios não é credencial para ninguém afirmar que conhece Cristo. Chamar Jesus de “Senhor” também não. Mas sim dar bons frutos. Mateus 3.10 afirma: “O machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo”. Qualquer semelhança com o Salmo 1 não é mera coincidência: Como é feliz aquele que não segue o conselho dos ímpios, não imita a conduta dos pecadores, nem se assenta na roda dos zombadores! Ao contrário, sua satisfação está na lei do Senhor, e nessa lei medita dia e noite. É como árvore plantada à beira de águas correntes: Dá fruto no tempo certo e suas folhas não murcham. Tudo o que ele faz prospera! Não é o caso dos ímpios! São como palha que o vento leva. Por isso os ímpios não resistirão no julgamento, nem os pecadores na comunidade dos justos. Pois o Senhor aprova o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios leva à destruição! Ser bem-sucedido na grande batalha espiritual é tornar-se como essas árvores: plantadas à beira de águas correntes, que dão fruto no tempo certo e cujas folhas não murcham. Que assim seja nossa vida, como ramos ligados à Videira Verdadeira e não a qualquer figueira seca. Se não, não teremos vida. Pelo contrário, seremos amaldiçoados pelo Senhor, secaremos e morreremos. Mas se nos mantivermos ligados à Videira de onde vem a seiva da vida teremos vida em abundância nesta terra. E, mais importante: teremos vida ao lado de Deus por toda a eternidade.

ASPECTOS POSITIVOS

Inicialmente, é preciso arrolar os aspectos positivos do atual movimento de discernimento da batalha espiritual. No entanto, qualquer lista que se faça está longe de ser exaustiva e completa, elegendo apenas alguns dos movimentos básicos que precisam ser pensados por nós. Pensando, portanto, inicialmente, nos aspectos positivos do movimento de batalha espiritual, dizemos que o seu aspecto responsivo em relação à tendência atual é positivo. Eu, particularmente, gosto de tudo aquilo que responde à realidade. De alguma forma, nós estamos, durante anos, refletindo sobre a necessidade de a Igreja ser uma instituição que responda à realidade. O atual movimento de batalha espiritual - sem que aqui haja qualquer justificativa dos seus conteúdos e do que está sendo pregado - mostra que a Igreja foi capaz de dar um batepronto”, ou seja, aquele chute de primeira, na linguagem futebolística. Há nesse movimento, portanto, uma resposta imediata. O segundo aspecto positivo é a releitura da Bíblia nessa perspectiva, ou seja: todos os acontecimentos mundiais que nos cercam, forçando a Igreja a dar uma resposta, fazem também a Igreja reler a Bíblia com outros olhos. Começa-se a descobrir que a Bíblia fala de coisas que até então se pensava não existirem. Assim, qualquer situação externa secular, ampla, que de algum modo cercou e cerceou a Igreja, forçou- a a refletir e a responder a tais questões de uma maneira mais adequada. Há uma quantidade enorme de textos bíblicos que, em outras ocasiões, estavam esquecidos “na prateleira”, postos de lado, mas que agora estão sendo recuperados e repensados, tornando-se objetos de reflexão. O problema surge quando as coisas se tornam exageradas, porque toda e qualquer releitura da Bíblia que se torna exagerada, de algum modo, deforma-se e adoece. Mas, ainda que exageradas, essas releituras acabam sendo úteis àqueles que ouvem todas as coisas e estão dispostos a reter o que é bom, com uma mente madura e equilibrada Eis alguns exemplos: há algumas décadas, houve um movimento na Igreja Evangélica no mundo que era o da teologia da secularização, a qual era extremamente exagerada. Aqueles que embarcaram nela apaixonadamente acabaram perdendo a fé, perdendo a espiritualidade e a possibilidade de se relacionarem com o invisível, tornando-se áridos e secos. Houve outros, todavia, que não embarcaram naquela teologia, mas que conseguiram resgatar dela o aspecto positivo, qual seja, a convocação de levar o sagrado e a espiritualidade para o mundo. Ora, essa é uma convocação positiva, porém só foram capazes de fazê- la e de executá-la aqueles que foram capazes de fazerem uma reflexão crítica, discernindo o que servia ou não, o que era ou não de acordo com a Palavra de Deus.

ASPECTOS NEGATIVOS

O primeiro aspecto negativo é a ênfase no macro, no grande, que tem roubado a percepção do micro, instância na qual as pessoas reais existem na espiritualidade. Ou seja, hoje em dia, vêem-se freqüentemente as pessoas “amarrando” demônios nos ares. Pessoas vão às praças públicas, fazendo o exercício de “amarrar” os principados e as potestades, dizendo: “- Tá amarrado!” No entanto, os possessos continuam nas esquinas. O que é interessante no movimento de batalha espiritual é que cada vez mais ele está mais macro, porém cada vez mais menos encarnado; cada vez mais gigante, intentando amarrar” os demônios que atuam na cidade, entretanto pessoas possessas continuam transitando pelas ruas. Outra nuance do macro, que vai vencendo o micro, é que se ora cada vez mais em grupo, todavia menos individualmente. Vê-se uma ênfase enorme nas atitudes públicas e coletivas como ir à praça “amarrar” demônio, orar em público, cantar em público... Mas, a pergunta que faço é a seguinte: como são tais pessoas em casa, sozinhas? Será que toda a exaltação e fervor demonstrados em público continuam? Parece que não. O segundo aspecto negativo do movimento de batalha espiritual é que a ênfase no invisível tem roubado em muito a visão do visível. Todos estão “especialistas” em ver o invisível; porém, estão cegos para ver o visível. Por exemplo: batalhamos contra os exércitos nas regiões invisíveis, entretanto esquecemo-nos da prostituta, que é um ser visível e que carece da nossa ajuda. Mas, “amarram-se” principados e potestades nas regiões celestiais (eu não tenho nada contra isso! Acredito que se deve enfrentá-los com oração, em nome de Jesus), em detrimento da prostituta, do drogado, do menor de rua, dos seres visíveis e cotidianos - os quais não devem ser jamais esquecidos - com os quais nos deparamos na nossa cidade e no nosso país. Outro exemplo é que se enfrenta o espírito de corrupção do país, mas se vota num candidato evangélico corrupto. É um paradoxo: “amarram-se” principados e potestades nas regiões celestiais, mas se vota num candidato evangélico visivelmente corrupto. Se se quer “amarrar” o demônio da corrupção, deve- se começar por não votar em candidato evangélico corrupto, começando, com isso, a fazer um “exorcismo” no Congresso. Um outro exemplo ainda pode ser dado. “Amarra-se” o espírito de violência sobre o Rio de Janeiro, mas não se faz nada contra os agentes visíveis da violência que atuam entre nós, destruindo e deturpando a vida de crianças nas ruas, e corrompendo a vida de homens e de mulheres. Faz-se nada, ou quase nada contra isso.

O terceiro aspecto negativo do movimento de batalha espiritual é que a ênfase no discernimento dos espíritos tem causado muita neurose. Há tanta gente discernindo espíritos a toda hora e em todo lugar, que até mesmo já discerniu o seu próprio espírito como maligno. Pessoas têm adoecido em razão disso. De vez em quando, encontro com uma dessas irmãzinhas fervorosas, que fazem diariamente orações de batalha espiritual, que me dizem - recorrendo ao dito popular - o seguinte:

“- Pastor, por que quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece?

Eu lhe respondo:

- Deixa o diabo em paz! A senhora não dá sossego a ele o dia inteiro!...”

Certa vez me encontrei com uma irmã, num outro país, a qual me falou o seguinte:

“- Eu vim para Europa, mas estou aqui com uma lista de pedidos pelos quais devo orar. Eu entro no banheiro, oro. Ando na rua orando. Mas, conquanto ore, minha cabeça está um inferno!”

Eu lhe respondi:

“- Sabe por quê? Mesmo que o diabo não existisse, alguém que pensa na vida apenas considerando as lutas, as opressões e as dificuldades, como a senhora pensa, está vivendo num inferno. Não precisa de diabo nem de demônio. A senhora já se basta, vivendo desse modo.”

Cuidado com esse tipo de gente que vê diabo em todas as coisas! Tenho, particularmente, muito medo de qualquer espiritualidade que vê o diabo mais ativo no mundo do que o Espírito de Deus. Qualquer espiritualidade que vê o diabo agindo mais intensamente no mundo do que o Espírito Santo de Deus está doente. Não se pode viver uma espiritualidade que faça do diabo o ser mais poderoso do mundo do que Deus; não se pode viver uma espiritualidade que faça de espíritos malignos os agentes mais atuantes do mundo do que o Espírito Santo de Deus. Afinal de contas, devemos acreditar no que nos diz o apóstolo João:

(...) porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo.”

(I João 4:4b)

O quarto aspecto negativo do movimento de batalha espiritual é a ênfase maniqueísta da luta do bem contra o mal. Ou seja: parte do movimento de batalha espiritual vê o mundo assim: as forças da luz de um lado contra as forças das trevas de outro. É o bem contra o mal. Essa visão maniqueísta da luta do bem contra o mal cega a visão de que bem e mal se interpenetram na história humana desde a queda, no Éden. A primeira ocorrência de maniqueísmo se deu antes da queda do homem. Em Gênesis 1:4b isto pode ser verificado: “(...) e fez separação entre a luz e as trevas.” Hoje em dia, bem e mal se interpenetram. Basta ler o que Paulo escreveu aos romanos sobre o conflito que se operava em sua alma: “Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e, sim, o que detesto. Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Neste caso, quem faz isto não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum: pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá -lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e, sim, o peca-do que habita em mim. Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. (...) Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Romanos 7: 15-21,24) Jesus também Se posicionou contra o maniqueísmo na parábola do joio e do trigo

(Mateus 13:24-30), que diz:

“Outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo; mas, enquanto os homens dormiam, vem o inimigo dele, semeou o joio no meio do trigo, e retirou-se. E, quando a erva cresceu e produziu fruto, apareceu também o joio. Então, vindo os servos do dono da cosa, lhe disseram: Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem, pois, o joio? Ele, porém, lhes respondeu: Um inimigo fez isso. Mas os servos lhe perguntaram: Queres que vamos e arranquemos o joio? Não! replicou ele, para que, ao separar o joio, não arranqueis também com ele o trigo. Deixai-os crescer juntos até a colheita, e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: Ajuntai primeiro o joio, atai-o em feixes para ser queimado: mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro.”

O que Jesus estava querendo dizer com tal parábola? Possivelmente isso:

“- É tarefa muito difícil separar a luz das trevas. Cuidado! Só Deus, no fim de tudo, discerne o que é o quê, e quem é quem.” Cuidado, portanto! Porque o maniqueísmo pode cegar-nos a percepção de que em todo o bem há mal e de que em todo o mal há bem, desde a queda do homem. No homem mais malévolo encontra-se humanidade; no homem mais santo encontra-se perversão. O quinto aspecto negativo no movimento de batalha espiritual é a ênfase nos inimigos explícitos de Deus, que muitas vezes encobre a percepção e o discernimento espiritual daquelas que são as forças que agem contra Deus, ainda que usando o Seu nome. As pessoas estão tão preocupadas com os inimigos explícitos, que deixam de praticar discernimento com relação às forças (estas sim) antagônicas a Deus, mesmo se manifestando em nome dEle. O que há de gente, tanto em nome de Deus quanto no nome de Jesus, fazendo coisas que deixam Deus escandalizado é algo espantoso. Devemos ter cuidado, para que na luta contra potestades malignas que atuam na cidade em que moramos, não percamos o discernimento das potestades malignas que atuam na nossa denominação, na nossa igreja, que falam nos púlpitos das nossas conferências evangelísticas. Tal como Jesus diz em Mateus 7:21-24: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me.- Senhor, Senhor! porventura não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi explicitamente: - Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade. Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha”. Com isto, a Palavra de Deus nos está dizendo que há muita gente expulsando demônios, profetizando e realizando milagres, em nome de Jesus, porém vivendo, na prática, contra Ele. O sexto aspecto negativo no movimento de batalha espiritual é a ênfase no papel poderosamente malévolo do diabo, que subtrai dos agentes humanos sua responsabilidade pelo mal moral e social que praticam. Há pessoas que fizeram do diabo um ser poderosamente malévolo, responsabilizando-o por todo mal que há no mundo, numa tentativa de isentarem-se da sua própria responsabilidade de evitarem o mal, praticando o bem. Tais pessoas, com essa postura, negam o que Tiago diz em sua carta: (...) mas resisti ao diabo, e ele fugirá de vós.”

(Tiago 4:7b)

Em alguns lugares, vejo pessoas quase que pregando que o diabo é irresistível; quando ele faz o “strip-tease” da maldade, ninguém resiste. É o que andam pregando por aí. Cuidado! Tal maneira de pensar tira a capacidade de se viver com responsabilidade.
 

ASPECTOS NEGATIVOS

diabo, de repente, tornou-se um ser vicário no seio da igreja evangélica, levando todas as nossas culpas, apenas não nos perdoando, não nos redimindo e não nos salvando delas, mas explicando todas elas. O diabo transformou-se num “pobre diabo”. Hoje em dia, o indivíduo adultera, e alega, pondo a culpa no diabo

“-Foi o diabo que me induziu a isso.” Tirou-se do homem a responsabilidade moral e individual do pecado, colocando-a toda sobre o diabo, atribuindo-lhe toda culpa pelos deslizes humanos. O sétimo aspecto negativo do movimento de batalha espiritual é a ênfase no choque de poderes nas regiões celestiais, que muitas vezes tira a racionalidade na percepção dos fenômenos históricos. Ou seja: às vezes estamos com a mente tão concentrada no mundo abstrato, que nós nos esquecemos do que diz Apocalipse 12:10, que afirma que a grande luta espiritual não é no céu, mas na terra:

(...) Ai da terra e do mar, pois o diabo desceu até vós, cheio de grande cólera, sabendo que pouco tempo lhe resta.”

Portanto, o grande discernimento não é o baseado na busca da compreensão do que acontece nas regiões abstratas; mas, o grande discernimento é aquele que procura compreender o que acontece aqui, no mundo concreto, onde o diabo se manifesta diariamente, nas situações as mais variadas.

O oitavo aspecto negativo do movimento de batalha espiritual é a ênfase na luta espiritual de olhos fechados e dentro dos lugares de oração, que faz de muitas reuniões de batalha espiritual verdadeiras sessões de “videogames” para crentes.

Um pastor, certa vez, contou-me:

“- Eu às vezes chego a algumas igrejas, e vejo alguns fliperamas, alguns jogos de salão acontecerem.”

E, pensando no que ele me disse, certa vez chegando em casa, vindo de uma viagem, encontrei meu filho Lukas, que é viciado” em Nintendo, entretido num desses jogos, numa luta do bem contra o mal. Há uma guerreira que dá umas espadadas no rosto de um gigante monstruoso e demoniacamente feio. Eu me aproximo do meu filho e lhe digo:

“- Oi, Lukas!”

E ele não dá a mínima:

“-Ih!... Vai!... Aí”... Caraaaaamba!...”– continua ele envolvido no jogo.

Ele está salvando” o mundo! Eu fico imaginando que a situação do Presidente dos Estados Unidos é mais confortável do que a desse meu filho, em relação à salvação” do planeta.

Tento outra vez:

“- Lukas, sou eu ... papai! Cheguei de viagem!...”.

E continua ele lá:

- Vai, vai, vai!... Ih!...Eh!... Eeeeeehhhhh! Uaaaaaaaaaaau! É demaaaaaaaais!”

Às vezes, encontro-me em certos lugares nos quais a atitude de batalha espiritual está presente com todos os seus elementos bonitos, valorosos e válidos, entretanto fico com a mesma sensação de que as pessoas envolvidas estão fazendo apenas uma “performance”: “amarram” demônio aqui, amarram” demônio ali; outros, mais ousados, jogam-no no abismo. Aí se ouvem expressões como:
 

“- Temos que salvar a cidade! ‘Amarramos’ o país!... Tá ‘amarrado’ o demônio da corrupção do Brasil!”

Ainda que tudo isso seja falado, embora se diga que o demônio da corrupção está “amarrado” os corruptos continuam soltos. A sensação que se tem, quando se sai de uma dessas reuniões de batalha espiritual, é que do lado de fora não há mais nenhuma criança abandonada na rua, que não há mais mendigo algum debaixo das marquises; que não há mais prostitutas nas esquinas, que os corruptos estão presos; que o Congresso Nacional é composto apenas de homens honestos e comprometidos com a causa pública; enfim, que não há mais problemas em nosso país.

Entretanto, na vida real, do lado de fora, nada mudou.

A pergunta que se faz é a seguinte: há valor no movimento de batalha espiritual? Há. No entanto, não há valor na atitude triunfalista e simplista que imagina que numa espécie de “jogo de salão espiritual” se resolvem os problemas do país. Só há valor na atitude de oração, de intercessão e de enfrentamento, quando ela é adulta e amadurecida, e que sabe que em si mesma não resolve todas as coisas, mas que tem consciência que é parte de um processo muito maior, o qual nos transporta da oração e da intercessão para o mundo real, em nome de Jesus, para enfrentarmos as potestades visíveis (corrupção, prostituição, imoralidade, crises, guerras, fome, desamor, etc.) cujas correspondências invisíveis enfrentamos com nossa declaração de fé acerca do triunfo de Jesus na cruz.

O nono aspecto negativo do movimento de batalha espiritual é a ênfase exagerada na quebra de maldições, que reduz demais o discernimento dos males da alma, da mente, da família e da cultura, os quais geram hábitos adoecedores.

Quando tudo é quebra de maldições, corre-se o risco de se cair num terreno perigosíssimo. Isto porque não se pode acreditar que maldições são quebradas apenas com oração e jejum. Como já se disse, elas fazem parte de um processo maior, o qual nos transporta de uma atitude intimista para uma atitude prática e real, a qual tem sua visibilidade concreta em ações para com o próximo, baseadas no caráter e na conduta de Jesus. Não adianta dizer-se cristão. É necessário, porém, viver a vida que Cristo viveu.

A Bíblia não nos diz que Abraão fez um pacto com um espírito de mentira. Mas, a Palavra de Deus nos dá conta de que, toda vez em que se encontrava em apuros, ele mentia:

Quando se aproximava do Egito, quase ao entrar, disse a Sarai, sua mulher: - Ora, bem sei que és mulher de formosa aparência; os egípcios, quando te virem, vão dizer: - É a mulher dele, e me matarão, deixando-te com vida. Dize, pois, que és minha irmã, para que me considerem por amor de ti e, por tua causa, me conservem a vida”.

(Gênesis 12:11-13)

“Partindo Abraão dali para a terra do Neguebe, habitou entre Gades e Sur, e morou em Gerar. Disse Abraão de Sara, sua mulher: Ela é minha irmã; assim, pois, Abimeleque, rei de Gerar, mandou buscá-la.

(Gênesis 20:1-2)

A Bíblia nos diz que Isaque - filho de Abraão - assistiu a isso tudo. Deste modo, quando também se encontrava em apuros, Isaque também mentia, tal como o pai: “Isaque, pois, ficou em Gerar. Perguntando-lhe os homens daquele lugar a respeito de sua mulher, disse: É minha irmã; pois temia dizer: É minha mulher; para que, dizia ele consigo, os homens do lugar não me matem por amor de Rebeca, porque era formosa de aparência.”

(Gênesis 26:6-7)

Jacó - filho de Isaque e, portanto, neto de Abraão - seguiu a mesma cultura de mentira, fazendo pior que seu pai e avô, mentindo e enganando: “Jacó foi a seu pai, e disse: Meu pai! Ele respondeu: Fala. Quem és tu, meu filho? Respondeu Jacó a seu pai: Sou Esaú, teu primogênito; fiz o que me ordenaste. Levante-te, pois, assenta-te, e come da minha caça, para que me abençoes.”