As Unhas e o Desportista

NOÇÕES BÁSICAS EM PODOLOGIA

1 As Unhas e o Desportista

A existência de patologia nas unhas do desportista, por vezes pouco sintomática, poderá condicionar limitação ou impedimento da prática de desporto pelo agravamento da patologia ungueal ou pela sua complicação. A observação clínica e dermatoscópica poderão fazer suspeitar de doenças sistémicas (colagenoses, doenças hematológicas, cardiorrespiratórias, hepáticas ou renais, intolerâncias medicamentosas, etc.) ou de neoplasias subungueais. A unha poderá ainda servir para a pesquisa de substâncias dopantes.

As patologias poderão estar relacionadas com a matriz, cutícula, prega lateral, lúnula, leito ou prato ungueal, hiponíquio ou no bordo livre. A abordagem terapêutica depende necessariamente da patologia em causa, mas também da localização da mesma, pelo que para tal é importante ter presente a estrutura anatómica da unha e tecidos circundantes. Para além das infeções (fúngicas, bacterianas e víricas) já abordadas no artigo anterior sobre esta temática, existem outras causas, das quais serão enumeradas e ilustradas as mais frequentes.

 

Traumáticas:

1.1 Hematoma

Os hematomas subungueais (Fig. 1-3) são das situações clínicas mais frequentes, geralmente de causa traumática, por inadequação do calçado ou por hiperextensão reflexa do hállux. A drenagem de hematoma pode-se justificar apenas numa fase aguda. A utilização de heparinoides sob oclusão pode acelerar a resolução do hematoma. Quando coexiste com fungos pode favorecer a recaída ou agravamento da onicomicose. Quando de repetição deve justificar o estudo biomecânico do pé. Os diagnósticos diferenciais fazem-se com as diferentes discromias, nomeadamente bandas longitudinais não melanocíticas, endócrinas e medicamentosas, ou melanocíticas.

 

1.2 Calosidades

As calosidades do dorso dos dedos, bordo dos pés, interdigitais e na própria polpa dos dedos dos pés, têm relação frequente com mau posicionamento dos dedos ou com malformação do pé, justificando abordagem multidisciplinar, por ortopedia e podologia. Não é rara a extensão reflexa do hállux e a flexão exagerada compensatória dos outros dedos, sendo úteis a realização de suportes plantares ou interdigitais personalizados e/ou o uso de tiras de adesivo para tração adequada.

 

1.3 Onicólise

O descolamento recorrente distal das unhas é frequentemente traumático, por hiperextensão reflexa dos halluxes (Fig. 4), sendo a avaliação biomecânica do pé importante para minimizar as recorrências. É fundamental o diagnóstico diferencial com onicólises inflamatórias, nomeadamente as psoriáticas.

 

2. Inflamatórias

2.1 Onicocriptose (unha encravada)

A unha encravada é das situações clínicas mais frequentes por inadaptação do calçado, hipercurvatura das unhas ou incorreto corte das unhas (Fig. 5 e 6). Associa-se frequentemente a granuloma piogénico (pápula eritematosa que aumenta rapidamente de dimensões, dolorosa, com superfície erosionada e que sangra facilmente). O uso de tiras de adesivo com tração adequada e/ou algodão corretamente colocado pode ser suficiente nos casos iniciais. A ortoníxia (Fig. 7) é frequentemente útil. Esta última técnica pode ainda ser utilizada na hipercurvatura transversa da unha (Fig. 8) e nas unhas em pinça (Fig. 9). Nas formas mais avançadas a matrissectomia parcial das unhas, sobretudo química por fenolização, é a mais eficaz. 

 

2.2 Psoríase:

A psoriase pode ter diferentes expressões ungueais: picotado, discromia, onicólise parcial ou total, com mancha cor de salmão adjacente, hiperqueratose, fendilhação ou fragmentação (Fig. 10 a 12). Pode estar associada a psoríase vulgar em áreas mais ou menos extensas, inversa, pustulosa ou artropática, pelo que a observação e orientação especializada por dermatologia é fundamental. É por vezes necessário exame histopatológico para a sua caraterização e mesmo com estudo por PAS, pois pode estar associada a infeção fúngica. Os tratamentos possíveis são múltiplos. Desde o calcipotriol, calcitol e talcalcitol tópicos, à associação com corticosteroides tópicos ou intralesionais / intramatrissiais até a diferentes terapêuticas sistémicas (acitretina, ciclosporina, metotrexato ou agentes biológicos) em função da intensidade do seu envolvimento e da coexistência e extensão ou gravidade de outras áreas envolvidas. É fundamental evitar os microtraumatismos repetidos.

 

2.3 Líquen

O líquen plano é uma doença inflamatória com envolvimento intenso de linfócitos de tipo T citotóxico, que pode estar associado com outras doenças ou fármacos, com lesões clínicas da pele e/ou mucosas sugestivas (pápulas eritematovioláceas com estrias de Wickham) e que pode ter envolvimento ungueal com expressão clínica variada (Fig. 13 e 14): estriação longitudinal ou transversal, hiperqueratose subungueal, discromia, onicólise ou mesmo pterigíum. O tratamento pode ser local, intramatricial ou sistémico e é também fundamental evitar microtraumatismos repetidos. O diagnóstico diferencial faz-se com outras doenças inflamatórias, como a psoríase, ou com microtraumatismos repetidos, de tipo tique.

 

3. Consequentes a malformação:

3.1 Mau alinhamento congénito da unha

O mau alinhamento congénito da unha se não for corrigido precocemente é frequente causa de perioníquia e onicocriptose (Fig. 16).

 

3.2 Onicogrifose

A onicogrifose ou unhas em garra (Fig. 17) constitui um tipo de paquioníquia, por vezes resultante da senescência, com interrupção do corte das unhas, com alterações neurogénicas, circulatórias periféricas ou dermatoses inflamatórias, como a psoríase. Pode colonizar com fungos e ser porta de partida para importantes processos de celulite, incluindo a erisipela (Fig. 18).

 

4. Neoplásicas:

4.1 Lesões pigmentadas

As lesões pigmentadas podem ser não melanocíticas (associadas a doenças sistémicas, microbianas ou traumáticas) ou melanocíticas. Neste ultimo caso apresentam- -se frequentemente como bandas longitudinais, mais frequentemente pigmentadas, sendo a observação clínica e dermatoscópica fundamental, aplicando-se as mesmas regras de seguimento de um nevo na pele (Fig. 19 e 20).

4.2 Melanoma

Pode surgir pela alteração de um nevo subungueal preexistente (Fig. 21 e 22), com extensão ou alteração da cor da banda longitudinal, destruição da lâmina ou prato ungueal (Fig. 23) ou aparecimento de pigmento nas pregas periungueais - sinal de Hutchison. O diagnóstico e tratamento cirúrgico precoce são fundamentais pelo caráter metastático invasivo frequente.

 

4.3 Carcinoma espinocelular

O carcinoma espinocelular subungueal está por vezes associado a infeção por HPV persistente, por vírus de alto risco, e pode surgir como espessamento ou depósito subungueal persistente, com evolução para onicodistrofia e destruição do leito e prato ungueal (Fig. 24).

 

4.4 Exostose

Surge como procidência dolorosa no dorso das falanges distais, sobretudo do hállux. Com o decorrer do tempo surge onicodistrofia e destruição do leito e prato ungueal. O estudo radiológico e histopatológico impõem-se. Resulta frequentemente de traumatismos repetidos.

 

4.5 Pseudoquisto mixóide ou mucoso

Surge geralmente como um nódulo localizado no dorso da última articulação interfalâgica distal, geralmente das mãos. Por vezes situa-se sobre a prega periungueal proximal e com o decorrer do tempo pode originar deformação da unha. Pela palpação tem consistência elástica e o conteúdo é fluído gelatinoso. Para a boa resolução cirúrgica é importante a imagiologia, incluindo a RMN.

 

Conclusão:

A patologia ungueal é diversa com múltiplas etiologias, podem ser causa de limitação de exercício, precipitadas ou agravadas pelo mesmo. O diagnóstico diferencial é essencial, a abordagem médica é indispensável pelo médico de família ou de desporto e sempre que necessário por dermatologia. A complementaridade multidisciplinar, nomeadamente da ortopedia e sempre que necessário com o apoio da podologia, sobretudo na avaliação biomecânica do pé, são muito importantes para a eficácia clínica em particular na minimização de eventuais recaídas.