O Agente no Combate às Endemias

Noções Básicas em Agente de Endemias

1 Controle da Malária: mudando o foco:

A malária, ainda hoje, é uma das doenças com ocorrência em cerca de 90 países, situados principalmente na faixa entre os trópicos do globo terrestre.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a malária um grande problema de Saúde Pública nos países em desenvolvimento. Estima-se que 300 a 500 milhões de pessoas sejam infectadas a cada ano e que nos países da África estão concentradas 90% dessas pessoas.

Na região das Américas, o Brasil é o País que mais registra casos de malária, mais ou menos 50% dos casos, e a região amazônica é responsável pela quase totalidade dos casos de malária, cerca de 99,7%.

Mesmo na região amazônica, onde a doença é considerada endêmica, a malária não se transmite com igual rapidez ou intensidade.

Existem registros, desde 1889, de regulamentação dos serviços de saúde dos portos para o controle de endemias. De 1889 a 1992, foram 103 anos de ações voltadas para a eliminação da doença, sempre tendo como objetivo a erradicação do mosquito vetor.

Na Conferência de Amsterdã, realizada em 1992, na Holanda, foi adota- da uma nova estratégia de luta, em que o foco da ação passou a ser o homem e não mais o mosquito. Assim, prevenir os casos graves e as mortes causadas pela doença passou a ser o grande desafio.

 

2 Atividades de controle da malária nas ações básicas de saúde:

Construindo uma nova prática na atenção à saúde:

Na construção de um novo modelo de atenção à saúde, é preciso que os profissionais da saúde construam também uma nova prática, que enxergue o indivíduo como um ser humano integral, vivendo dentro de uma família, dentro de uma comunidade, dentro de um contexto socioeconômico, cultural e ambiental.

Essa nova prática requer uma compreensão do homem e sua família em função das suas realidades, dos fatores que interferem de maneira positiva e/ou negativa em suas vidas e, consequentemente, na saúde.

Para que essa nova prática apresente resultados satisfatórios, é preciso que você, agente, assim como todos os outros profissionais assumam o compromisso com a promoção da saúde, a prevenção de agravos, o trata- mento e a reabilitação não só da pessoa, mas de toda a coletividade.

Como você já sabe, saúde é um direito social, e a forma de entender este direito está na Constituição Federal, no artigo 196, que diz:

“A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”.

Esse artigo constitucional garante a cada brasileiro o direito à saúde*. Nele estão também a garantia de acesso universal (a todos) e igualitário (da mesma forma). Para garantir esse direito foi criado o Sistema Único de Saúde – o SUS –, no artigo 198 da Constituição Federal.

Para que esse direito seja garantido, é preciso que vocês, não só como agentes, mas como cidadãos lutem por ele com as famílias que vocês trabalham. É preciso que as ações e serviços possam ser satisfatórios e resolutivos para os usuários.

Há alguns pontos importantes que vocês precisam conhecer bem e lutar para que eles possam estar presentes na sua Unidade Básica de Saúde:

•    a humanização do atendimento: criando e estreitando o vínculo entre as equipes de profissionais de saúde e a população, possibilitando um acolhimento positivo em todos os níveis da atenção. É uma responsabilidade compartilhada entre os serviços de saúde e a comunidade;

•    a resolutividade das ações: exercendo a capacidade de resolver ações de forma integral, no domicílio, na unidade de saúde e na comunidade;

•    a participação popular: estimulando as pessoas da comunidade a observar, opinar e se envolver nas questões de saúde, não só como usuários, mas como membros potenciais do Conselho Municipal de Saúde, que deve exercer no município o controle social do SUS. Esse princípio exige a democratização do conhecimento do processo saúde/doença e dos serviços.

•    a intersetorialidade: desenvolvendo ações integradas entre os serviços de saúde e outros setores públicos e privados, com a finalidade de articular políticas e programas de interesse para a saúde e estabelecer parcerias para potencializar os recursos financeiros, tecnológicos, materiais e humanos disponíveis, reduzindo custos e evitando duplos gastos para o mesmo objetivo.

Descentralizando o controle das endemias e reorientando os serviços:

Historicamente, as ações de controle da malária foram executadas pelo governo federal, inicialmente pelo Departamento Nacional de Endemias Rurais (DNERU), seguido pela Companhia de Erradicação da Malária (CEM), pela Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (SUCAM) e pela Fundação Nacional de Saúde (FUNASA). As ações eram planejadas de forma centralizada e executadas por equipes especializadas dessas instituições.

Ficou também comprovado que as ações executadas em forma de campanha e planos emergenciais foram incapazes de controlar a malária ao longo dos anos em algumas áreas da Amazônia.

Para atender às diretrizes do SUS de descentralização, de organização dos serviços de forma hierarquizada e da integralidade da atenção, o Ministério da Saúde e a FUNASA transferiram a responsabilidade da execução das ações de controle das endemias para os estados e municípios.

Após 1992, ocorreram algumas reformulações significativas, como, por exemplo, a mudança no enfoque do controle da doença. Abandonou-se a estratégia de erradicação, que provou ser difícil no contexto amazônico, adotando-se a estratégia de Controle Integrado da Doença, com prioridade no cuidado ao indivíduo com diagnóstico precoce e preciso, e tratamento imediato e adequado.

Todas as tentativas do passado têm demonstrado que só através de ações contínuas, inseridas nos serviços de saúde, com ênfase na atenção básica, é possível reverter o quadro da malária na Amazônia Legal.

Assim, o controle da malária, enquanto ação básica de saúde, passa a ser responsabilidade da Unidade Básica de Saúde e toda a sua equipe.

Nos municípios que já implantaram o Programa Saúde da Família, as ações serão compartilhadas entre as Unidades Básicas de Saúde, incluindo as equipes de controle vetorial e as equipes de Saúde da Família.

 

Mobilizando a comunidade para a Promoção da Saúde:

Na Constituição Federal, a participação da população está garantida no Sistema Único de Saúde e essa participação tem de ser efetiva, a fim de que as pessoas possam, através de entidades representativas, participar dos Conselhos de Saúde e das Conferências de Saúde, discutindo as necessidades de suas comunidades e as ações que podem ajudar ou não a população. Para que possam exercer esse direito, é preciso que as pessoas tenham a oportunidade de aprender assuntos de saúde e de refletir sobre os fatores que afetam a sua vida e a da sua comunidade.

O aprendizado, individual e coletivo, possibilita à comunidade exercer maior controle sobre sua própria saúde, sobre o meio ambiente em que ela vive e suas condições de trabalho e moradia, melhorando sua qualidade de vida e se organizando para exigir das autoridades competentes – prefeitos, secretarias de saúde, vereadores e conselhos de saúde – a garantia dessas condições.

A responsabilidade pela promoção da saúde, nos serviços de saúde, precisa ser compartilhada com as pessoas, a comunidade, os profissionais de saúde e o Sistema de Saúde. Todos juntos precisam ajudar a criar as condições para que o Sistema de Saúde ofereça um acolhimento e um atendimento adequado, humanizado, eficiente e resolutivo.

A promoção da saúde pode ser desenvolvida, mediante ações comunitárias concretas efetivas, mobilizando e estimulando a população a:

•    estabelecer prioridades;

•    tomar decisões;

•    definir estratégias; e

•    implementar ações.

O desenvolvimento desse trabalho envolve a participação de todos para refletirem sobre os recursos humanos e os recursos materiais disponíveis na comunidade, buscando-se intensificar o apoio social e a ajuda mútua.

Nas ações de controle da malária, a participação da comunidade me- diante mobilização social, pode, como resultado da organização da população, produzir mudanças nos hábitos e atitudes das pessoas em relação à doença e ainda interferir nas decisões das instituições.

É importante garantir e preservar a identidade antropológica e cultural de cada comunidade, mas refletir com cada uma delas a possibilidade de inserir mudanças capazes de melhorar a sua condição de vida e de saúde da comunidade.

É necessário informar à comunidade sobre a doença, suas causas, a função do mosquito transmissor, as medidas de prevenção e controle, e sobretudo o fato de que o ser humano é agora o foco da atenção, uma vez que, estando ele infectado, mantém-se a cadeia de transmissão funcionando. É preciso que as pessoas compreendam que elas são capazes de quebrar o elo dessa cadeia, realizando o tratamento adequado e imediato, beneficiando a si próprios, a sua família e a sua comunidade.

É necessário que a comunidade tenha conhecimento prático para participar das ações de proteção e controle do mosquito transmissor e, as- sim, reduzir o contato do homem com o mosquito, mediante medidas de proteção individual e coletiva, assim como medidas que organizam e protegem o meio ambiente.

Os atores sociais, isto é, as pessoas e instituições que atuam nas áreas social e política, as lideranças comunitárias, o nível de informação que a comunidade tem sobre malária, constituem apoio fundamental no planejamento e na execução das ações.

Observe o comentário de Roseli, profissional de Informação, Educação e Comunicação, da Secretaria do Estado de Saúde do Acre, sobre a capacitação dos Agentes Comunitários de Saúde:

“A educação dos agentes tem de ser continuada, com várias técnicas, capacitando-os para unir o criativo ao disponível em suas comunidades. A capacitação orienta os agentes como chegar às casas das pessoas, falar com elas, entender o momento de cada uma, ouvir muito, e sobretudo desenvolver a percepção do que está ocorrendo naquelas casas, com aquelas pessoas. Outro ponto importante é a discussão sobre o papel dos profissionais na Atenção Básica e a relação dos agentes com a Unidade Básica de Saúde”.

No depoimento abaixo, há o relato sobre o laço afetivo criado entre um doente de malária e um ACS:

“Uma agente comunitária de saúde relatou que identificou um caso de malária, encaminhou para exame, recebeu os medicamentos e acompanhou o tratamento de um senhor na área rural. Todos os dias ela o visitava e encaminhava o que era necessário. Após o tratamento, as pessoas passaram a identificá-la pelo apelido afetuoso de “flor de maracujá”, pois era assim que o senhor a chamava quando ela chegava”.

Esses dois depoimentos demonstram a necessidade de criar e manter o vínculo entre o Agente Comunitário de Saúde e as famílias de sua microárea. Esse vínculo é a demonstração de uma nova prática de saúde.

3 Aprendendo sobre malária: conceito, causa, transmissão, período de incubação:

O que é a malária:

A malária é uma doença infecciosa aguda e se manifesta através de alguns sintomas que podem aparecer isoladamente ou em conjunto, tais como:

 

 

Como a malária é conhecida nas diferentes regiões do País:

 

A malária, no Brasil, é conhecida por nomes diferentes: paludismo, impaludismo, febre palúdica, febre palustre, febre terçã, febre quartã, maleita, sezão, tremedeira, caladinha.

 

O que causa a malária:

O que causa a malária é a presença na pessoa de um agente infeccioso, um parasito chamado plasmódio, transmitido por um mosquito chamado anofelino. Esse parasito é o agente causador da malária.

Existem 4 espécies de plasmódios e os seus nomes científicos são:

•    Plasmodium vivax;

•    Plasmodium falciparum;

•    Plasmodium malariae;

•    Plasmodium ovale (este não existe no Brasil).

 

O mosquito anofelino também é conhecido como:

•    mosquito prego;

•    pernilongo;

•    muriçoca;

•    carapanã; ou

•    suvela.

 

A expressão “mosquito prego” é usada em algumas regiões em função da forma como ele pousa, conforme mostra a ilustração acima.

 

Aprendendo sobre o agente transmissor:

Mosquitos vetores:

Entre os mosquitos que transmitem a malária na Amazônia es- tão o Anopheles darlingi e o Anopheles aquasalis.

A fêmea do Anopheles darlingi, em geral, põe seus ovos em águas para- das, limpas, sombreadas ou com pequena movimentação.

O Anopheles aquasalis é o transmissor na faixa litorânea da Amazônia e deposita seus ovos em água salobra.

 

Como se comportam:

Durante o dia, os mosquitos procuram abrigo em locais úmidos, sem muita luz. Do entardecer ao amanhecer, os mosquitos fêmeas picam as pessoas em busca de sangue para amadurecer os ovos. Os machos se alimentam de seiva de plantas e flores.

 

 

Como se reproduzem:

 

O mosquito anofelino tem um ciclo evolutivo que compreende as seguintes fases:

•    as fêmeas põem seus OVOS na água;

•    os OVOS dão origem às LAR- VAS (cabeças de prego);

•    as LARVAS viram PUPAS;

•    as PUPAS se desenvolvem tornando-se mosquitos ADULTOS.

Quando adultos, os mosquitos abandonam a água e vão em busca de alimentação. Somente as fêmeas vão em busca de sangue para amadure- cerem os seus ovos. Como já vimos antes, esse sangue é vital, pois dá continuidade à espécie do mosquito, recomeçando o ciclo reprodutivo.

 

Criadouros:

Os locais onde os mosquitos depositam seus ovos e onde eles se desenvolvem até a fase adulta são chamados de CRIADOUROS.

Pela exuberância da floresta amazônica, com seus rios, igarapés, lagoas e riachos, são inúmeros os criadouros naturais de mosquitos.

Por outro lado, o homem vem ocupando parte das florestas, matas e outras áreas, desenvolvendo outros criadouros, chamados artificiais, ficando assim mais vulnerável ao mosquito.

Como você pode ver, esses locais são de natureza bem diversificada. Alguns deles podem ser limpos e drenados, outros são de difícil acesso. Assim, o combate ao mosquito é muitas vezes de difícil execução. Essas dificuldades levaram as autoridades sanitárias a priorizar a atenção no homem, mediante medidas que envolvem diagnóstico precoce e tratamento adequado e imediato das pessoas infectadas, com o objetivo de quebrar o ciclo de transmissão da doença.

Locais que podem ser criadouros do mosquito anofelino:

•    igarapés, lagoas, remanso dos rios;

•    córregos, valetas, escavações;

•    reservatórios de água salobra;

•    algumas plantas, a exemplo de bromélias ou gravatás, que acumulam água em suas folhas (criadouros mais comuns no sul do Brasil);

•    açudes e represas.

 

Quem pega malária:

Todas as pessoas que são picadas por mosquitos fêmeas infectado com plasmódio podem pegar malária.

As pessoas mais expostas são as que pegam malária com mais frequência. Os homens e mulheres em idade produtiva pegam malária por estarem mais expostos: nas atividades extrativistas (seringais, garimpos), na pesca, no banho, na lavagem de roupas e louças, na agropecuária, nas hidroelétricas, nos assentamentos, na construção de estradas, etc.

A malária traz prejuízos para a economia, já que as pessoas doentes podem passar em torno de sete dias ou mais sem trabalhar, deixando de produzir para a família e para o País. Esse conceito de prejuízo, que representa dificuldades para a família, precisa ser refletido por você, juntamente com os familiares e a comunidade, para que possam entender a gravidade do problema.

Adoecer de malária afeta a vida de quem adoece, da sua família e de toda a comunidade.

Vocês, agentes, precisam estar atentos a esse problema, desenvolvendo a compreensão de que se alguém morre de malária, significa que alguém falhou no sistema de saúde. Assim, cada um dos profissionais e o sistema de saúde têm o compromisso de evitar as mortes por malária.

É preciso também contar com o apoio de cada um dos membros da família e da comunidade, para que os casos suspeitos da doença sejam diagnosticados corretamente e o mais depressa possível, e tratados adequadamente. Só assim será possível controlar a malária no País, já que não se pode erradicar a doença, uma vez que as condições ecológicas, geográficas não permitem.

 

Como a malária é transmitida:

A transmissão da malária depende da presença e da interação dos seguintes fatores:

 

 

 

 

Como interromper o ciclo da malária:

 

Primeiro, é necessário estar consciente de que o plasmódio é o agente causador e o mosquito é o agente transmissor. O plasmódio está:

 

 

Por essa razão, a pessoa infectada e o mosquito são os pontos centrais do programa de controle da malária. A mudança de enfoque centrada no homem é um desafio que deve ser enfrentado, pois combater unicamente o mosquito tem demonstrado ser uma ação de controle pouco eficaz.

Assim, se reduzirmos os casos tomando medidas preventivas essenciais, diagnosticando e tratando precocemente as pessoas, estaremos interrompendo o ciclo de transmissão.

4 Medidas de prevenção e controle da malária nas regiões endêmicas:

A malária no Brasil:

Estudos mostram que 99,7% das notificações de malária no Brasil ocorrem na Amazônia Legal, os restantes 0,3% nas demais regiões brasileiras.

O Brasil apresenta regiões de alto, médio e baixo risco em relação à ocorrência de malária, e uma grande área sem transmissão da doença.

O mapa abaixo indica essas quatro situações.

Como vocês podem ver, o número total de casos no País é um desafio para as autoridades e trabalhadores da saúde, assim como para a população.

Esses números foram coletados por trabalhadores de saúde, como você. Sem o seu trabalho, junto às famílias, seria impossível conhecer os casos de malária na sua comunidade. É preciso que cada um e todos juntos se empenhem em cumprir as metas de redução da malária.

O mais importante é que vocês, com a ajuda das famílias da sua microárea, identifiquem precocemente um caso suspeito e que este seja encaminhado, o mais rápido possível, para que os microscopistas possam confirmar o diagnóstico e que o trata- mento seja iniciado com o medicamento correto no prazo e tempo adequados.

O trabalho de busca ativa realizado por vocês é uma vigilância não só da saúde, mas um compromisso de cidadania que precisa ser desenvolvido por toda a população. Todos precisam conhecer como identificar, dentro do seu lar, os sinais de malária e, imediatamente, buscar a sua ajuda.

É uma busca que precisa ser contínua e persistente, pois permite não só evitar que os casos se multipliquem, como também reduzir a incidência.

Quando vocês notificam corretamente um ou mais casos, estão contribuindo para que se conheça mais sobre a doença, onde ela ocorre, como ocorre e esses dados irão ajudar no planejamento das ações de controle da malária.

O seu trabalho de identificação é fundamental para que as pessoas sejam encaminhadas para a confirmação do diagnóstico, com a identificação correta do plasmódio, e o tratamento imediato e correto da doença.

 

Desenvolvendo ações de prevenção:

Para a implementação das medidas de prevenção, é preciso conhecer:

•    as alterações ambientais;

•    os locais onde as pessoas vivem, trabalham e dormem, em relação a florestas ou outros locais em que os anofelinos se abrigam; e

•    a relação do comportamento hematófago (que se ali- menta do sangue) do anofelino com as atividades que os homens desenvolvem.

Medidas de proteção individual e familiar:

As medidas de proteção pessoal são várias e têm a finalidade de proteger a pessoa, sua família e/ou a comunidade. Nem sempre elas são fáceis de serem implementadas.

Constituem medidas de proteção:

•    o uso de repelentes;

•    o uso de roupas e acessórios de proteção;

•    evitar ficar ao relento, penetrar na mata, pescar ou tomar banho de rio do anoitecer ao amanhecer;

•    usar mosquiteiros ou cortinados;

•    construir casa com paredes completas; e

•    evitar construir casas muito próximas à mata e coleções de água.

Observe um depoimento da Agente Comunitária de Saúde, Maria de Lurdes, da equipe de Saúde da Família, em Rio Branco, no Acre, sobre as medidas tomadas por um seringueiro:

“Quando eu comecei a trabalhar como agente, eu identifiquei alguns casos de malária e conheci um senhor que me disse que nunca pegou malária. Disse que nas horas em que o mosquito costuma picar, ao anoitecer e ao amanhecer, ele vestia camisa de mangas compridas, não ficava exposto, e assim se livrava da malária. Ele me aconselhou a orientar as pessoas a se protegerem”.

Veja agora este depoimento do agente Gilmar, do Bairro Cidade Nova, Rio Branco, Acre:

“Nós orientamos as pessoas a fecharem suas portas e se protege- rem, mas é difícil ficar preso dentro de casa. As medidas restritivas dependem de cada pessoa. É uma dificuldade para o agente. Uma pessoa não vai deixar de pescar por causa do mosquito. A questão é saber como se proteger”.

 

Combatendo o mosquito:

Os meios de combater o mosquito devem ser adequados a cada situação ou realidade local.

Há duas atividades que são usadas como medidas preventivas: o combate às larvas com medidas de saneamento e o combate ao vetor adulto, através da borrifação.

 

Atividades de saneamento do meio ambiente - combate às larvas:

As obras de saneamento são medidas de eficácia indiscutível no controle da malária, e devem ser realizadas sempre que possível. Essas medidas envolvem:

•    manter os igarapés desobstruídos para liberar os cursos d'água;

•    realizar drenagem ou aterro de pequenos criadouros.

No planejamento e na execução dessas medidas, é importante que a comunidade seja envolvida desde o primeiro momento e que sua participação seja valorizada.

É conveniente que se estabeleçam serviços permanentes de manutenção de pequenas obras de saneamento, que podem contribuir para combater o mosquito e, consequentemente, interferir no controle da doença. Esses serviços podem ser:

•    aterro e drenagem de criadouros realizados por órgãos públicos ou privados, com a participação da comunidade;

•    limpeza de valas, igarapés ou outras coleções de água, pelos próprios moradores.

 

Borrifação - combate ao vetor adulto:

Para combater o mosquito anofelino adulto, usam-se dois tipos de borrifação com inseticidas químicos:

a)     borrifação intradomiciliar (dentro de casa);

b)     borrifação extradomiciliar (fora de casa).

As borrifações intra e extradomiciliares de- vem ser aplicadas pelos Agentes de Controle de Endemias, através da utilização de equipamentos apropriados.

O Agente de Controle de Endemias, responsável pela aplicação cuidadosa da borrifação, precisa conversar com o Agente Comunitário de Saúde sobre a necessidade de se realizar uma borrifação seletiva e cada vez mais cuidadosa.

A borrifação só vai ser executada em locais previamente selecionados pela entomologia, levando-se em conta:

•    o hábito do mosquito;

•    a eficácia do efeito residual do inseticida;

•    a sensibilidade do anofelino ao inseticida aplicado; e

•    o efeito tóxico do inseticida.

Todo o trabalho de controle da malária tem de ser integrado e as ações devem ser discutidas por todos os envolvidos.

 

Borrifação intradomiciliar:

É a aplicação de inseticidas químicos de ação/efeito residual nas paredes internas das casas, do chão até o teto, segundo utilização de equipamentos e técnicas apropriadas, com a finalidade de atingir e matar principalmente os mosquitos infectados e, assim, evitar que transmitam a malária. Essa borrifação é recomendada para áreas urbanas, semi-urbanas e rurais em casas de paredes completas.

Mesmo assim, ela só pode ser feita quando recomendada pela entomologia e precisa ser aceita pela comunidade.

 

Borrifação extradomiciliar:

É a aplicação de inseticida fora da casa, nas áreas externas, feita através de Termo- nebulização (fumacê) ou aplicação de Ultra Baixo Volume (UBV).

5 Diagnosticando, tratando e notificando casos de malária:

Vocês entenderam que o foco do processo de controle da malária encontra-se agora no ser humano e não somente no mosquito.

Assim, identificar precocemente os casos suspeitos de malária passa a ser uma ação fundamental no seu trabalho.

Outra ação é o encaminhamento para a coleta de sangue na Unidade Básica de Saúde, a ser realizada pelo microscopista ou até por vocês, quando treinados para tal ação, em áreas de difícil acesso aos serviços de saúde.

O sangue coletado e examinado pelo microscopista leva ao diagnóstico preciso da doença e à identificação do tipo de plasmódio, possibilitando o tratamento imediato e correto.

Para que esse trabalho de identificação, diagnóstico, tratamento e notificação apresente os resultados desejados, vocês que atuam com as famílias, como Agentes Comunitários de Saúde ou como Agentes de Controle de Endemias, precisam desenvolver algumas habilidades para enfrentar as inúmeras dificuldades que surgem.

Assim, para enfrentar chuvas, atoleiros, sol escaldante, alimentação precária e descontínua, caminhos difíceis e longos, utilizando-se de caminhadas, motocicletas, barcos, canoas, bicicletas, cavalos, etc. vocês precisam desenvolver habilidades como a paciência, a calma, a persistência, a capacidade de resolver problemas, a criatividade, a responsabilidade, o compromisso e a ética.

Diante de tantas questões e afirmações, vocês podem estar se perguntando se é preciso tudo isso. É preciso, sim, um olhar diferenciado, uma observação mais detalhada, para poder identificar não só os casos de malária na comunidade, mas para buscar as situações que propiciaram o surgimento desses casos.

Veja o depoimento de Clisete, uma Agente Comunitária de Saúde do módulo de Saúde da Família, em bairro de Rio Branco, no Acre:

“Na minha área, tinha um caso de malária num quarteirão. Fui fazer a investigação. A investigação era muito importante, para eu descobrir de onde estava surgindo a doença. Fiz a busca ativa e descobri que a pessoa infectada já tinha ido embora para a colônia. Conversei com os parentes e pedi que me a visassem quando ele voltasse. Quando ele chegou, eu disse que ele precisava fazer o exame e levei-o para o Centro de Referência. Foi feito o diagnóstico, eu trouxe a medicação e eu mesma dava os remédios a ele. Eu tive de usar de autoridade para que ele ficasse na casa dos parentes. Eu disse para ele que ele estava pondo em risco a própria vida e a das outras pessoas, pois podia transmitir a doença para elas, por meio do mosquito. Ele me ouviu, eu acompanhei o tratamento e só o liberei para voltar para a colônia, quando ele estava bom. Já fazem três anos que ele não tem malária”.

Como vocês puderam perceber nesse depoimento, essa agente, além do empenho em descobrir a causa do problema para enfrentá-lo com segurança, teve persistência na busca; paciência para lidar com as dificuldades; responsabilidade sanitária para levar o caso até um resultado adequado; capacidade de resolução, pois controlou a situação e usou de seu poder de convencimento para impedir que a pessoa infectada voltasse ao trabalho sem tratamento. Portou-se com ética, pois tratou do problema com a família, informando a situação de forma discreta respeitando suas diferenças e notificou o caso corretamente.

Identificando uma pessoa com malária:

Para identificar uma pessoa com malária, é necessário: