O Papel dos Municípios na Segurança Pública
Inicialização à Segurança Pública
1 O alargamento conceitual e institucional da questão da segurança
Até recentemente o problema da segurança pública era compreendido como algo que diz respeito apenas ao governo estadual e, dentro dele, especificamente aos órgãos do sistema de justiça criminal: polícia, ministério público, judiciário e administração prisional.
O maior argumento para o não envolvimento na questão da segurança era o de que o artigo 144 da Constituição atribui ao governo Estadual a responsabilidade pelas polícias civis e militares. Assim, nesta concepção limitada de segurança, não haveria muito mais o que fazer nas esferas federal e municipal. O envolvimento federal nas questões de segurança resumia-se às ações da Polícia Federal, ao controle de algumas atividades – armas, empresas de segurança privada, etc – bem como a elaboração de Projetos de Lei no âmbito criminal e penal. No âmbito municipal, algumas poucas prefeituras mantinham Guardas Civis para a vigilância dos prédios municipais enquanto outras ajudavam de forma espasmódica as policiais estaduais, contribuindo com combustível, equipamentos ou empréstimo de imóveis.
Na última década, todavia, parece ter havido um alargamento da questão de segurança pública, tanto do ponto de vista conceitual quanto administrativo: de problema estritamente policial passou a questão multidisciplinar, envolvendo diversos níveis e instâncias administrativas. E este processo de alargamento ocorreu depois da Constituição de 1988, que em nada alterou o papel da Federação e dos Municípios na esfera da segurança, apesar da tendência municipalista em diversas outras esferas.
Em nível federal, são marcos desse processo de alargamento a criação da SENASP - Secretaria Nacional de Segurança Pública em 1995, a criação do INFOSEG, do CONASP – Conselho Nacional de Segurança Pública e a elaboração do Plano Nacional de Segurança Pública em 2000 – que trouxe consigo o estabelecimento do Fundo Nacional de Segurança Publica – com recursos anuais em torno de 300 milhões de reais para investimento em recursos humanos e materiais das polícias. Com relação ao Fundo Nacional de Segurança Pública, assinale-se que ele abriu a possibilidade para que não apenas as polícias estaduais, mas também os municípios – apenas aqueles com Guarda Municipal – requisitassem recursos do governo federal para projetos de segurança. Isto significa que o governo federal viu como legítima e procurou incentivar deste então a atuação dos governos locais; é possível até que o FNSP tenha estimulado a criação de Guardas pelo país depois de 2000.
Entre 2001 e 2004 o Governo Federal investiu cerca de 60 milhões de reais nos municípios (14 milhões apenas para a cidade de São Paulo) através dos recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública, instituído com o objetivo de apoiar projetos na área de segurança pública e de prevenção à violência. O acesso aos recursos pelos municípios foi vinculado a apresentação de projetos consoantes com a política de segurança pública do Governo Federal, e para tanto devia atender a algumas solicitações específicas, como possuir Guarda Municipal, realizar ações de policiamento comunitário ou terem Conselho de Segurança Pública.
A SENASP também tem orientado aos Municípios que elaborem um Plano Municipal de Segurança Urbana, composto de diagnósticos (área geográfi ca, problemas da região, principais crimes e ocorrências policiais, características sociais, econômicas, etc) dos problemas existentes e de ações relevantes para seu enfrentamento, abrindo a possibilidade de realização de convênio com a SENASP, tanto para os diagnósticos quanto para a realização de ações efetivas. O valor total dos projetos tem sido distribuído entre concedente e proponente, com 80% do valor total do projeto para o primeiro e 20% para o segundo, obrigando o município interessado a investir em segurança.
No âmbito prisional surgiu também o FUNPEN -Fundo Penitenciário Nacional em 1994. Digno de nota também foi o programa PIAPS, gerenciado pelo Gabinete de Segurança Institucional da Presidência durante a gestão do General Cardoso, que pela primeira vez ousou pensar a questão da segurança pelo aspecto preventivo, reunindo projetos das mais diversas áreas do governo federal, concentrando-os nas regiões mais violentas das metrópoles. Característica inovadora, o PIAPS entrava em contato diretamente com as prefeituras para negociar a vinda de projetos e recursos federais, reconhecendo claramente a relevância do governo local na prevenção da criminalidade e que aparelhar as polícias estaduais, embora importante, não era sufi ciente. Hoje instituições como as Forças Armadas, Gabinete de Segurança Institucional e Abin, começam a incluir nas suas agendas a questão da criminalidade comum.
A criação destes novos órgãos, práticas, projetos e fundos na última década evidenciam, portanto, claramente a intenção do governo federal de trazer para si parte da responsabilidade pela questão da segurança pública.
Paralelamente, os anos 90 também marcaram o envolvimento maior dos municípios na esfera da segurança, através da criação ou ampliação das Guardas Civis, de Secretarias e Planos Municipais de Segurança ou da regulamentação – através de Leis e Decretos Municipais de aspectos relevantes para a segurança, como o controle de bebidas alcoólicas, e a divulgação de serviços como o Disque Denúncia. Particularmente relevantes foram os investimentos municipais em programas sociais de caráter preventivo, focados especifi camente na questão da criminalidade e da violência. Ou então o redirecionamento dos investimentos dos projetos sociais tradicionais para as áreas e grupos de risco, ou seja, levando explicitamente em conta o potencial preventivo das políticas públicas municipais. Esta tendência de crescimento da participação dos municípios na segurança coincide internacionalmente com o aparecimento no campo da segurança de teorias como broken windows e policiamento comunitário e orientado a problema – teorias que apontam também para a necessidade de incluir outros recursos – além dos tipicamente policiais – para a solução de problemas criminais.
O fato é que, tanto o governo federal como os municipais passaram na última década a atuar de forma mais intensa na esfera da segurança, reconhecendo a relevância da problemática para a população e que para equacioná-la são necessários mais do que novas armas e viaturas para as polícias estaduais ou o endurecimento penal. O quadro abaixo dá uma ideia deste processo, analisando particularmente a Região Metropolitana de São Paulo. Dos 39 municípios que fazem parte da RMSP, oito adotaram leis de incentivo à divulgação do Disque Denúncia e todos eles depois de 2001 – uma vez que o serviço entrou em funcionamento apenas em 2000. Igualmente, todos os 16 municípios com lei seca adotaram-na neste mesmo período. As guardas municipais são mais antigas, mas dos 27 municípios com guardas na RMSP, 17 criaram-nas a partir de 1991.
A criação do Fórum Metropolitano de Segurança em 2001, congregando os 39 prefeitos da região para trocar experiências comuns sobre o tema, sem dúvida colaborou para aprofundar este processo, que é anterior ao Fórum como sugere a tabela acima; a criação mesma do Fórum de prefeitos é conseqüência deste processo de intensificação da participação das prefeituras na segurança.
Merece menção também o fato de que neste período houve igualmente um crescimento vertiginoso do setor privado de segurança, principalmente empresas de segurança eletrônica e de vigilância patrimonial. Como veremos adiante, foi o crescimento da criminalidade e da sensação de insegurança nos grandes centros urbanos o elemento impulsionador de todas estas tendências.
Razões do súbito interesse simultâneo na questão da segurança pública
Não foi por iluminação do espírito santo que todos resolveram dar as mãos para atacar o problema: políticos são em geral bastante sensíveis às preocupações de seus eleitores e tratava-se simplesmente de fazer alguma coisa ou voltar para casa nas próximas eleições.
Não é difícil compreender porque simultaneamente empresas privadas, governo federal e municipais começaram a intervir de forma mais intensa na segurança pública: 1) a criminalidade cresceu rapidamente em todo pais nos anos 80, em especial os homicídios cuja taxa passou de 11 para 27 ocorrências por 100 mil hab. entre 1980 e 2000 ; 2) em paralelo, houve um crescimento da sensação de insegurança, que colocou o crime entre as principais preocupações da população, ao lado do desemprego; 3) junte-se a isso o fato de que a população culpa a todos os níveis de governo pelo problema e não apenas ao governo estadual, detentor das polícias civil e militar.
As pesquisas de opinião pública sempre mostraram – como estas conduzidas pela Ipsos Opinion em 2003 e pela CNT/Sensus em 2004 – que para a população, embora o principal responsável pela solução dos problemas de segurança seja o governo estadual, que controla as policiais civil e militar – os outros níveis de governo também são co-responsáveis, principalmente a prefeitura. Parece haver a compreensão por parte da população de que a criminalidade tem inúmeras causas – desemprego, carências sociais – e que todos os escalões governamentais tem sua parcela de responsabilidade.
Existe paralelamente a percepção majoritária de que a criminalidade está aumentando, em todos os níveis federativos. Como já foi relatado em pesquisas anteriores, quase sempre a violência nos “outros locais” é percebida como pior do que no local próximo aonde se vive: assim, embora cerca de 80% considerem que a violência esteja crescendo no país e no Estado, apenas 41% acreditam que a violência aumentou na vizinhança. É plausível que a intensa divulgação de crimes pelos meios de comunicação, trazendo quotidianamente para perto crimes que ocorrem em locais distantes seja a maior responsável pelo fenômeno. Como quer que seja, o crescimento da sensação de insegurança – quer esteja baseado em tendências concretas ou não – fomentou este processo de criação de novas instâncias federais e municipais para lidar com a criminalidade.
As médias evidenciam que se trata de um fenômeno uniformemente distribuído pelas regiões analisadas, apesar do Rio de Janeiro estar um pouco acima da média e Vitória um pouco abaixo. Cerca de 2/3 dos entrevistados citaram a segurança e a violência como os problemas mais importantes enfrentados pelo Brasil e pelas cidades atualmente, corroborando o que outras pesquisas de opinião vêm encontrando. A análise dos cruzamentos por renda e escolaridade indica que a percepção de que a criminalidade está crescendo é especialmente forte nos estratos mais elevados, que são proporcionalmente mais vitimados pelos crimes contra o patrimônio e os que atribuem mais seriedade aos incidentes criminais. É possível que esta percepção tenha relação também com a quantidade e tipo de informações sobre o crime e violência a disposição dos estratos superiores.
Vimos acima alguns motivos que contribuíram para a entrada e participação mais intensas dos governos federal e municipal na questão da segurança. A questão agora é saber como esta participação vem ocorrendo e com que resultados.
A Atuação Municipal na Região Metropolitana de São Paulo
Neste trabalho estaremos examinando especificamente o impacto de alguns programas municipais sobre a criminalidade, tomando como referência principalmente os 39 municípios da Região Metropolitana de São Paulo, onde o problema da segurança pública foi e – apesar da melhora – continua sendo especialmente grave. Com 47% da população do Estado de São Paulo, a RMSP concentra 80% dos roubos de veículos, 67% dos roubos e 63% dos homicídios, mais do que justifi cando a escolha da área.
Como argumentou Marx ao justifi car a escolha da Inglaterra para estudar o capitalismo, é preciso ir até onde o fenômeno está mais desenvolvido, pois a “anatomia do homem explica a anatomia do macaco”. Portanto, se quisermos entender o efeito das práticas municipais sobre a criminalidade é preciso olhar para onde o problema é mais grave e as experiências municipais de prevenção ao crime mais desenvolvidas. Do ponto de vista amostral é preciso ter em mente que se trata de uma escolha possivelmente enviesada justamente por se tratar de uma área especialmente violenta, cujos resultados talvez não se apliquem a outras áreas.
2 A intervenção municipal na esfera da segurança
1) A veiculação do telefone do Disque Denúncia nos Municípios e seu efeito no número de denúncias
O Disque Denúncia é um serviço destinado a mobilizar a sociedade e promover a colaboração entre a população e a polícia, na luta contra o crime e a violência. No Estado de São Paulo, o serviço foi criado em 25 de outubro de 2000, através de uma parceria entre o Instituto São Paulo Contra a Violência e a Secretaria de Segurança Pública. De 2000 para 2004 o Disque Denúncia recebeu mais de 1,6 milhão de ligações, contendo mais de 300 mil denúncias. Destas denúncias resultaram cerca de 13.000 casos de sucessos policiais: prisão de foragidos, esclarecimento de crimes, apreensão de drogas e armas, recuperação de veículos e cargas, libertação de sequestrados, entre outras.
Denúncias a respeito de tráfico de entorpecente respondem por 42% do total. Mas o serviço tem se revelado extremamente útil também para o esclarecimento de casos de homicídio (6% das denúncias), sequestros (2%), fuga ou paradeiro de presos e estupros, entre outros crimes relevantes. Especificamente com relação ao homicídio, estamos falando em algo como 96 mil ligações entre 2000 e 2004 (6% de 1,6 milhões). A prisão tem sido o resultado mais freqüente das denúncias, tendo o serviço auxiliado na captura de 2.236 criminosos procurados. A apreensão de drogas e armas, recuperação de bens e salvamento de vítimas são outros resultados importantes das denúncias encaminhadas pela população.
Contribuição para redução da criminalidade e da violência na Região Metropolitana de São Paulo entre 2000 e 2004
Parte deste resultado deveu-se à grande divulgação do Disque Denúncia nos meios de comunicação e outros meios. Os municípios tiveram uma participação nesta tarefa de divulgação, em especial, oito deles que aprovaram leis municipais tornando compulsória a divulgação do número do serviço nos ônibus municipais, escolas, hospitais e outros equipamentos públicos de grande visibilidade.
Como mostra a tabela abaixo, houve um crescimento exponencial das ligações ao DD provenientes destas cidades desde 2000, quando passaram de 5.600 para cerca de 75.000 denúncias. Note-se todavia que o crescimento é tão vertiginoso que é difícil discernir o impacto da criação da Lei de Divulgação: em vários municípios este crescimento já ocorria antes da existência da mesma.
Além disso, este mesmo crescimento vertiginoso ocorreu em outros municípios da RMSP, municípios que não adotaram nenhum esquema especial de divulgação. Uma hipótese é de que o contato e a circulação de pessoas entre os municípios da RMSP é tão intenso que os efeitos da divulgação se espalham para toda a região: isto é bastante claro, por exemplo, com relação aos ônibus que realizam viagens intermunicipais, espalhando o número do DD por onde passam. Outra explicação possível é que o efeito da divulgação de casos de sucesso pelos meios de comunicação – principalmente rádio e televisão – é tão grande e abrangente que torna difícil identificar o efeito específico da Lei de Divulgação do DD. O que se pode ter certeza é que a divulgação se espalhou por toda a RMSP e que a adoção da Lei – embora possa ter contribuído - não foi a única nem a principal forma de disseminação do DD.
Uma estratégia alternativa para estimar o impacto da divulgação do DD através do esforço municipal é observar a evolução das ligações em outras áreas fora da RMSP. A região metropolitana da Baixada Santista – Santos, São Vicente, Praia Grande e Guarujá - fornece um bom exemplo deste impacto. O serviço já atendia a ligações da região desde o início de seu funcionamento, mas a média de ligações era bastante baixa. Em janeiro de 2004 foi fi rmado um convênio envolvendo o Disque Denúncia, o Deinter 6 (RM Baixada Santista) e os municípios da região para divulgar o número do serviço e atuar de forma sistemática sobre as denúncias recebidas. Os gráfi cos abaixo mostram que, embora o volume de ligações tenha crescido generalizadamente neste período, o salto na Baixada foi excepcionalmente elevado e se espalhou simultaneamente por todos os municípios que fazem parte da região.
Embora tenha havido ao mesmo tempo a divulgação do convênio pelos meios de comunicação, os dados aqui corroboram nitidamente o quanto o envolvimento dos municípios na divulgação do Disque Denúncia pode ser efetivo, quer através da criação de uma lei específica quer através de outros meios.
Uma outra questão de interesse é saber qual o impacto do Disque Denúncia em si sobre o crime, em especial sobre o tráfico de drogas e homicídios, que são os crimes que mais recebem denúncias. É possível notar um ligeiro crescimento no volume de apreensão de entorpecentes na baixada santista depois de janeiro de 2004, mas os dados ainda não permitem identificar nitidamente nenhuma tendência.
2) A queda dos homicídios em São Paulo
Antes de analisarmos o impacto da Lei Seca sobre os homicídios, é conveniente fazermos uma digressão sobre a queda dos homicídios em geral, de modo a poder contextualizar o impacto desta relevante medida.
Depois de um crescimento contínuo desde meados dos anos 90, os homicídios dolosos no Estado de São Paulo começaram a declinar a partir de 1999. Nos últimos cinco anos a taxa de homicídios no Estado de São Paulo caiu 37%, diminuindo de 35,7 em 1999 para 22,5:100 mil habitantes no ano passado. Embora muitos não tenham se dado conta, a magnitude e a rapidez da queda colocam São Paulo no mesmo patamar de conhecidos casos de sucesso da literatura criminal internacional, como Nova Iorque, Cali ou Bogotá. Em Nova Iorque os homicídios tiveram uma impressionante redução de 66% num período de sete anos. Na cidade da Cali – para tomar um exemplo mais próximo - as taxas de homicídios caíram um quarto em nove anos e em Bogotá caíram de 80 para 23:100 mil no mesmo período.
Existem muitas dúvidas com relação ao fenômeno: por exemplo, 1) não se sabe ao certo, por falta de estatísticas em âmbito nacional, se trata se de algo generalizado ou específico de São Paulo 2) se a queda é produto da atuação policial, de mudanças macro-sociais ou de ambas. Existem diversas hipóteses não testadas a respeito do que está ocorrendo e freqüentemente os atores envolvidos procuram tirar proveito do fato, trazendo para si a responsabilidade pela queda, mas sem apresentar dados ou uma lógica consistente para corroborar tais afirmações.
Como em quase todo país, os homicídios dolosos vinham aumentando de forma linear no Estado, desde a metade dos anos 90: em 1996, cerca de 10.500 pessoas tinham sido vitimadas em São Paulo. Em 1999 o número de vítimas tinha aumentado para 12.818 e nada levava a crer que estávamos no preciso ponto de inflexão da curva de homicídios. A partir daquele ano, contudo, a curva muda de direção e cai de forma também linear, até voltarmos ao patamar de 8.934 vítimas em 2004, ou seja, uma drástica redução da taxa de homicídios da ordem de 37% num período de apenas cinco anos.
É interessante também analisarmos o movimento de queda desagregando os dados por tamanho de cidade: tomando a média de homicídios entre 1995 e 2003, verifi ca-se que a maior responsabilidade pela queda está nos municípios de 100 a 500 mil habitantes e nos municípios com mais de 500 mil habitantes. Nos municípios com população entre 25 e 100 mil habitantes a média de homicídios continua crescendo e nos pequenos municípios a média de homicídios é estável. Em outras palavras, a queda no Estado se deve principalmente às reduções observadas nos grandes municípios, que também concentram a maior quantidade absoluta de homicídios. Vejamos rapidamente algumas prováveis causas.
Desarmamento
Existem alguns fortes indícios de que boa parte dos homicídios em São Paulo deve-se a conflitos interpessoais – sem qualquer relação com o tráfico de drogas, crime organizado ou outras dinâmicas ligadas ao mundo do crime propriamente dito. Dados do IML com relação às vítimas de homicídio mostram que, das vítimas para as quais exames foram solicitados – cerca de metade dos casos - 42% apresentavam resíduos de álcool no sangue na ocasião da morte. Em 25% dos casos a vítima morreu com apenas um tiro e em 64% dos casos o tiro não atingiu a cabeça, sugerindo uma fraca intencionalidade por parte do autor. Em 10% dos casos a autoria dos homicídios é conhecida no momento em que a ocorrência é registrada na polícia. 9% dos homicídios ocorrem dentro de residências e 1,3% de frente à residência da vítima. Boa parte dos homicídios ocorre nas noites e madrugadas dos fi nais de semana, como veremos adiante. Em resumo, parcela considerável dos homicídios envolve pessoas que se conhecem e resultam de processos de altercações sob efeito de álcool, quando muitas vítimas são mortas com apenas um tiro. Muitos dos que cometem homicídios não têm a clara intenção de matar, mas como a arma de fogo exige menos esforço físico e psicológico por parte do agressor e é mais letal do que outros tipos de armas, o desfecho morte é potenciado.
Todas estas evidências sugerem que a retirada de armas de fogo em circulação pode evitar o desfecho letal de parte destes conflitos interpessoais. Diferentemente das mortes premeditadas, nestes casos o resultado morte não ocorreria caso não houvesse a disponibilidade de uma arma de fogo no momento da “escalada”, isto é, um processo de altercação entre vítima e agressor que culmina numa agressão com arma de fogo (Wells, 2002).
Efeitos do Estatuto do Desarmamento
Uma analise de intervenção (intervention analysis) procura avaliar o impacto sobre a performance de um sistema depois de uma ação, comparada com a situação anterior à ação. A metodologia é bastante utilizada para avaliar questões de controle de qualidade e consiste em verificar a existência de alteração nos níveis da série histórica de homicídio em cada cidade e se esta mudança foi transitória ou permanente. Deutsch, por exemplo, utilizou esta abordagem para testar os efeitos da lei de controle de armas de 1975 sobre os crimes praticados com armas de fogo em Boston. (Deutsch, “intervention modeling: analysis of changes”, in Fox.). O primeiro passo é construir um modelo univariado do tipo ARIMA para cada série de homicídios seguindo os processos de identificação, estimação e diagnóstico proposto por Box e Jenkins. Uma vez identificado o modelo apropriado, a série é dividida em diversos pedaços e a cada momento procura-se verificar se há alguma alteração significativa de parâmetros (média e variância), considerando o padrão histórico anterior. Com isso é possível identificar se houve uma alteração, que tipo de alteração (por exemplo, um pulso, um pulso sazonal ou uma mudança de nível) quando ela ocorreu, qual foi sua magnitude e se foi permanente ou transitória.
Uma das vantagens deste método é que não é necessário forçar uma variável dummy para simular a data da intervenção – no caso, dezembro de 2003. Se a série apresenta de fato uma alteração de nível, ela será identificada na data ou num período próximo a ela. Uma alteração legal, quando se trata de avaliar um sistema social, pode ocorrer um pouco antes – devido à divulgação na mídia ou a testes – como pode ocorrer depois da data de jure – devido a dificuldades operacionais para colocar a nova lei em vigor.
Especificamente depois do Estatuto do Desarmamento em dezembro de 2003, é possível identificar uma quebra clara no nível mensal de quatro séries históricas relevantes: 1) armas apreendidas pela polícia; 2) armas perdidas; 3) número de internações por agressão por arma de fogo, coletado pelo Datasus (quebra em 11/2003; -37,6 internações por agressões intencionais por arma de fogo / mês); 4) série de homicídios dolosos na Capital (quebra em 11/2003; -45,4 homicídios / mês).
Armas apreendidas pela polícia
O “número de armas apreendidas” pela polícia é um daqueles indicadores que pode ser tanto interpretado como evidência da disponibilidade de armas em circulação (apreende-se menos armas porque há menos armas nas ruas) quanto como um indicador de atividade policial (apreendem-se menos armas porque a polícia está realizando menos operações para tirar armas de circulação). Pelo menos no caso de São Paulo, o número de armas apreendidos parece refletir mais a primeira dimensão (disponibilidade de armas) do que a segunda (esforço policial). Primeiro porque a quantidade de armas apreendidas vem caindo no Estado, não obstante o aumento da atividade policial e o foco no controle de armas. A quantidade de armas apreendidas cai claramente após o Estatuto do Desarmamento, que não afetou as operações policiais, mas a decisão dos indivíduos de sair ou não armado nas ruas.
Finalmente, qualquer análise espacial que se faça das apreensões de armas em São Paulo revela que há uma relação estreita entre o número de armas apreendidas num setor policial e o número de homicídios naquele setor. Com efeito, correlacionando o número absoluto de armas apreendidas em cada setor policial militar da Capital e o número absoluto de homicídios entre 2000 e 2003, encontramos coeficientes r. de Pearson que vão de .42 a .77 conforme o ano. Se correlacionarmos as taxas o r. é de .67. Embora mais fraca, a relação entre taxa de armas apreendidas pela polícia e taxa de homicídios também é positiva e significativa quando tomamos os 645 municípios do Estado como unidade de análise, ao invés dos setores policiais (r = .19; sig. > .000). Em resumo, quanto mais armas num local, maiores as apreensões feitas pela polícia e maiores os homicídios; embora seja provável também que a polícia seja mais rigorosa na busca por armas nos locais em que há muitos homicídios.
Tomando portanto o indicador “apreensão de armas pela polícia” como uma mensuração do número de armas em circulação num determinado local e período, vemos que o efeito do Estatuto do Desarmamento sobre a redução das armas em circulação é claramente capturado na série histórica de apreensões de armas pela polícia, que cai subitamente a partir de dezembro de 2003, apesar de não ter havido diminuição na atividade policial. O Estatuto fez com que a média mensal de armas apreendidas diminuísse em 425 armas, provavelmente porque as pessoas deixaram de circular com as armas em função do aumento das penalidades previstas.
Armas perdidas
Diferentemente das armas apreendidas pela polícia, que pode refletir em alguma medida o esforço policial, o número de armas perdidas pela população é claramente uma medida da disponibilidade de armas legais num determinado local e tempo. A Secretaria de segurança pública mantém um registro de armas perdidas, declaradas em Boletim de Ocorrência pelos proprietários que temem ser culpabilizados caso as armas sejam utilizadas em algum crime. Por motivos óbvios, a série reflete apenas a perda de armas legalmente registradas. O número de armas perdidas no Estado vem caindo progressivamente nos últimos anos – indicador da menor disponibilidade de armas em circulação – e a série apresenta duas quebras nítidas, a última delas em dezembro de 2003, que reduziu em 4,2 a quantidade de armas perdidas por mês.
Homicídios Dolosos na Capital
A série histórica de homicídios dolosos na Capital, coletada pelo Infocrim, releva também uma quebra no mês de novembro de 2003, que acentua a tendência de queda anterior: esta quebra pode ser atribuída especificamente ao Estatuto e representou uma diminuição de 45 homicídios por mês na cidade de São Paulo. Por algum motivo, as séries de homicídios dolosos para a grande São Paulo e Estado não mostram uma mudança de nível neste período, embora a série histórica de internações por agressões intencionais com arma de fogo do Datasus sugira também uma quebra em novembro de 2003.
3 A intervenção municipal na esfera da segurança Parte 2
Outras experiências de Controle de armas
Analisando a relação entre homicídios e armas através de um modelo de transferência de função (Transfer Function Model) e de análise de regressão
Plano de Combate aos homicídios
4 A intervenção municipal na esfera da segurança Parte 3
A relação dos homicídios com o álcool
Uso do álcool no Brasil e Violência
Relação entre consumo de álcool, religião e vitimização
5 A intervenção municipal na esfera da segurança Parte 4
Álcool nas vítimas de homicídio em São Paulo
Dia e horário da semana:
Efeitos da Lei Seca
Testando os efeitos da Lei Seca
6 A intervenção municipal na esfera da segurança Parte 5
Detecção de Intervenções
Aumento do número de estudantes matriculados no Estado de São Paulo
A criação das guardas e secretarias Municipais de Segurança e seus efeitos sobre os crimes patrimoniais
7 A intervenção municipal na esfera da segurança Parte 6
Criação das Secretarias Municipais de Segurança
Diadema – um estudo de caso