Controle biológico de pragas

Manejo Integrado de Pragas

1 Controle biológico:

  O controle biológico de pragas é o controle das pragas através de inimigos naturais. Os inimigos naturais pertencem a cinco grupos: predadores, parasitóides, parasitas, competidores e entomopatógenos.

   A seguir, são mostradas as características de cada um dos grupos de inimigos naturais.

Principais grupos de inimigos naturais:

  • Competidores: 

  São organismos de vida livre que competem com os insetos e ácaros-praga por um fator de sobrevivência como: alimento, abrigo, território ou local de nidificação. A seguir, são mostradas características dos principais grupos de competidores de importância como inimigos naturais de pragas agrícolas.

a) Coleoptera: Rola Bosta:

- Patas fossoriais;

- Corpo arredondado;

- Antena labelada.

  Pragas controladas: Moscas cuja fase larval acontece em fezes.

  • Predadores:

  Eles geralmente são maiores do que suas presas. Alguns predadores por possuírem teias (aranhas) ou veneno (marimbondo, formigas e percevejos), conseguem alimentar-se de individuos maiores do que eles. O predador consumirá diversas presas durante seu ciclo de vida. No ato da predação eles geralmente atacam e matam a presa rapidamente. Eles normalmente alimentam-se de vários outros insetos (generalista), consumindo preferencialmente aqueles em maior abundância no ambiente. Por serem generalistas, possuem ampla capacidade de adaptarem à condições adversas sofrendo geralmente menos com a ação dos inseticidas aplicados nos agrocossistemas do que os parasitóides.

  A seguir, são mostradas características dos principais grupos de predadores.

  Arthropoda não insetos:

a) Aranhas:

- 4 pares de pernas; 

- Cabeças e tórax fundidos e abdome bem distintos.

b) Ácaros predadores:

- 4 pares de pernas;

- Cabeças, tórax e abdome fundidos; 

- Tamanho varia de 0,25 – 0,5 mm.

  • Insetos:

a) Coleoptera:

1. Staphylinidae (Potós):

- Três ou mais seguimentos do abdomemn descobertos;

- Vivem sobre e no interior dos solos;

- São mais abundantes em solos ricos em matéria orgânica.

2. Histeridae (Besouro predador):

Dois seguimentos do abdome descobertos.

3. Carabidae (Besouro predador):

- Cabeça fina;

- Geralmente de cor negra brilhante;

- Geralmente maiores que 1 cm;

- Vivem sobre os solos, são abundantes em solos com matéria orgânica.

4. Anthicidae (Besouro predador):

- Geralmente menores que 3 mm;

- Cabeça de largura igual ou mais fina que o pronoto;

- Vivem nas plantas.

5. Coccinelidae (Joaninhas):

- Geralmente o corpo é oval;

- Geralmente possuem de cores vivas.

b) Dermaptera (Tesourinhas):

- Primeiro par de asas não recobrindo todo abdome;

- Estrutura em forma de pinças no final do abdomem.

 

c) Neuroptera: (bicho lixeiro):

- Asas membranosas e quando em repouso inclinadas; 

- Antenas longas;

- As larvas possuem mandíbulas longas e às vezes são recobertas por lixo.

d) Hymenoptera (Não predam insetos que produzem fezes açucaradas):

1. Formiga predadora:

- Coloração variável;

- Reentrância não proeminente na cabeça.

2. Vespa predadora (Marimbondo):

- Ninhos de celulose;

- Abdome globoso;

- Inserção das asas distante da cabeça.

e) Hemiptera (Percevejos predadores):

1. Não Pentatomidae:

- Corpo alongado;

- Aparelho bucal curto e curvo.

2. Pentatomidae:

- Corpo hexagonal;

- Antenas com 5 segmentos;

- 1 o segmento do aparelho bucal não fundido.

f) Diptera (Moscas):

a) Predadoras:

- Patas raptatórias;

- Abdome afilado na parte terminal;

- Assemelham-se à abelhas ou marimbondo;

- Geralmente coloridas;

- Cores metálicas;

- Manchas nas asas.

  Parasitóides:

  Tanto o parasitóide como seu hospedeiro são insetos. Eles parasitam o hospedeiro causando sua morte até o final do seu ciclo de vida. Os parasitóides normalmente causam a morte do seu hospedeiro quando estes vão mudar de fase. Assim, têm-se parasitóides de ovos, parasitóides de ninfas e larvas, pupas e adultos.

  Os parasitóides por viverem no interior do corpo do hospedeiro possuem certo grau de especificidade, tendo dificuldades em condições adversas e normalmente é maior o impacto de inseticidas sobre os parasitóides do que sobre os predadores. A seguir são mostrados alguns ciclos de vida de alguns parasitóides, como também são dadas as características dos principais grupos de parasitóides de importância como inimigos naturais de pragas agrícolas.

a) Diptera:

1) Moscas parasitóides:

- Abdomem muito peludo;

- Alo amarelo ao final do abdome;

- Listras longinais ao longo do corpo.

b) Hymenoptera (Vespas parasitóides):

- Abdome curvo e achatado lateralmente; 

- Ovipositor longo;

- Dilatação no último par de patas.

c) Microhimenópteros parasitóides:

- Tamanho menor que 3 mm.

  • Parasitas:

  São organismos pertencentes a vários grupos que são muito menores que o hospedeiro. Eles controlam as pragas devido a causarem debilidade destas levando a redução de sua reprodução, alimentação e desenvolvimento, sendo que eles geralmente não matam seu hospediro. Como exemplos de parasitas, pode-se citar a lumbriga como parasita do homem. No caso de insetos estes têm como parasitas alguns ácaros, nematóides e protozoários.

  • Entomopatógenos:

  Os entomopatógenos constituem microrganismos que causam doenças aos insetos e ácaros-praga levando-os a morte. Existem muitos micororganismos capazes de causarem doenças aos insetos dentre estes os mais importantes são os fungos, bactéria e vírus.

a) Fungos:

  Os fungos entomopatogênicos são os microrganismos que geralmente causam maiores mortalidades aos insetos e ácaros-praga nos agroecossistemas. Os insetos atacados por fungos entomopatogênicos apresentam os sintomas de manchas escuras nas pernas, segmentos e todo tegumento, paralisação da alimentação, o inseto tem aspecto débil e desorientado; aparecimento de coloração esbranquiçada, após o desenvolvimento da contaminação o corpo do inseto contaminado adquire a coloração característica do fungo que o atacou.

  A ação dos fungos é altamente dependente das condições ambientais, sobretudo da temperatura e umidade. Os fungos entomopatogênicos são os microrganismos mais generalistas atacando insetos pertencentes a ordens diferentes.

  Entre os principais fungos entomopatogênicos que exercem ação de controle sobre insetos e ácaros-praga nos agroecossistemas estão: Metarhizium anisopliae, Beauveria bassiana, Verticillium lecani, Nomurae riley, Hirsutella thompsonii, Aschersonia aleyrodis, Aspergilus spp., Paecilomyces spp., Cordyceps spp., Entomophthora spp. e Sporothrix insectorum. A seguir, é mostrado de forma esquemática o ciclo de desenvolvimento de um fungo entomopatogênico.

b) Bactérias: 

  As infecções bacterianas nos insetos podem causar um conjunto de sintomas que podem variar, porém, os aspectos mais frequentes e genéricos comuns são que após a ingestão do microrganismo, se inicia produção de toxinas, o inseto perde o apetite, apresenta fezes aquosas e em muitos casos o vômito é comum. Os insetos mortos por infecção bacteriana, principalmente nos estágios larvais, geralmente escurecem e se tornam macios (formação de pus). Os tecidos internos e órgãos se deterioram, sendo este processo acompanhado de mal-cheiro e o tegumento permanece intacto. A seguir, é mostrado de forma esquemática o ciclo de infecção de um inseto por uma bactéria.

c) Vírus:

  Os vírus constituem entidades capazes de ser transmissíveis e causar doenças em hospedeiros. De todos os grupos de microrganismos causadores de doenças em insetos, são os mais amplamente investigados. A infecção por vírus geralmente ocorre pela ingestão de partículas virais, podendo eventualmente ser pelo canibalismo de insetos. Após a ingestão das partículas virais, o período entre a infecção até a morte do inseto depende de vários fatores que são: idade da larva, temperatura ambiente, virulência, dosagem ingeridas e aspectos nutricionais do inseto hospedeiro. Após a ingestão, a infecção ocorre geralmente pelo intestino.

  A seguir, é mostrado de forma esquemática o ciclo de infecção de um inseto por uma espécie de vírus entomopatogênico.

Formas de uso do controle biológico:

  O controle biológico pode ser utilizado de três formas:

- Controle biológico natural;

- Controle biológico clássico; 

- Controle biológico artificial ou aplicado.

  • Controle Biológico Natural:

  Consiste na preservação e/ou incremento das populações de inimigos naturais já existes nos agroecossistemas. A preservação e/ou incremento das populações de inimigos naturais pode ser obtida através de:

- Uso de inseticida seletivos (seletividade fisiológica de inseticidas);

- Aplicação seletiva de inseticidas (seletividade ecológica de inseticidas);

- Aumento da diversidade vegetal nos agroecossistemas nas áreas vizinhas. Uma vez que as árvores, arbustos e ervas servem de abrigo, local de nidificação e fonte de alimentação complementar para os inimigos naturais. Muitas espécies de predadores e de parasitóides alimentam-se de néctar é pólen fornecidos por plantas invasoras. Além disto, esta vegetação serve de criatório para artrópodes não-pragas, os quais é fonte alimentar para os inimigos naturais; 

- Manutenção do solo recoberto por vegetação, uma vez que a formação de poeira acarreta mortalidade de predadores e parasitóides de pequeno tamanho;

- Transferência de inimigos naturais para o local de cultivo, como por exemplo, ninhos de vespas predadoras (marimbondos) para os locais de cultivo;

- Evitar o uso do fogo o qual reduz grandemente as populações de inimigos naturais;

- Aumento da matéria orgânica nos solos. Já que alguns inimigos naturais como besouros predadores e competidores que vivem na superfície e no interior do solo, alimentam-se também da matéria orgânica.

  A seletividade de inseticidas como relatado, constitui importante intrumento de preservação das populações de inimigos naturais nos agroecossistemas. A seletividade pode ser classificada em seletividade ecológica e fisiológica. A seletividade fisiológica consiste no uso de inseticidas que sejam mais tóxicos à praga do que aos seus inimigos naturais. Já a seletividade ecológica relaciona-se a formas de utilização dos inseticidas de modo a minimizar a exposição do inimigo natural ao inseticida.

  Portanto, devem selecionar inseticidas que possuam seletividade fisiológica. Os inseticidas que possuem seletividade fisiológica na dose recomendada para controle da praga, devem causar uma mortalidade menor que 80% ao inimigo natural. Além de preferirmos o uso de inseticidas com seletividade fisiológica devemos fazer uso da seletividade ecológica. Isto é, devemos utilizar os inseticidas de modo a minimizar a exposição do inimigo natural ao inseticida. Isto pode ser feito através de:

- Aplicação dos inseticidas em horários de menor temperatura do ar, já que nestes horários os inimigos naturais se movimentam menos estando, portanto menos expostos ao inseticida. O período ideal para aplicação dos inseticidas é ao final da tarde, visto que a temperatura é baixa e o inseticida poderá sofrer degradação durante a noite e período da manhã, quando é baixa a atividade dos inimigos naturais. Já o período da manhã se situa numa situação intermediária entre o período da tarde (período de menor impacto) e o das horas mais quentes do dia (período de maior impacto).

- Uso de sistema de decisão de controle.

- Aplicação de inseticidas de forma que o contato entre o inseticida e o inimigo natural seja minimizado.

  Por exemplo, quando o inseticida é aplicado em pulverização é grande o impacto dos inimigos naturais que vivem na parte aérea das plantas, entretanto é baixo o impacto sobre aqueles que vivem no interior do solo, sendo intermediário o impacto sobre os inimigos naturais que vivem na superfície do solo. O uso insetidas via solo causa maior impacto no momento da aplicação sobre os inimigos que vivem no interior do solo. Entretanto se o inseticida for sistêmico ele translocará no sistema vascular da planta tendo efeito sobre insetos-praga que atacam a parte aérea das plantas. Desta forma, eles causarão baixo impacto sobre os inimigos naturais de aparelho bucal mastigador. Entretanto, os inimigos naturais de aparelho bucal sugador (percevejos) por sugarem a planta para retirarem água e sais minerais sofrerão grande impacto.

  • Controle biológico clássico:

  Este método envolve a importação de inimigos naturais, visando controlar pragas exóticas que entram no país. Estes inimigos naturais são provenientes da região nativa da praga. No Brasil, vários inimigos naturais foram introduzidos visando o controle de diversas pragas, como mostra a tabela a seguir.

  • Controle biológico artificial ou aplicado:

  Nesta forma de uso do controle biológico o inimigo natural, após criação massal em laboratório, é liberado no campo para o controle da praga. O inimigo natural só deve ser aplicado, quando a população da praga for maior ou igual ao nível de controle e as populações dos inimigos naturais estiverem abaixo do nível de não ação.

 No Brasil, vários inimigos naturais são usados e comercializados para uso em programas de controle biológico artificial de pragas agrícolas. Assim na tabela a seguir, são mostrados alguns destes inimigos naturais comercializados no Brasil para o uso em controle biológico aplicado.

2 Manipulação do ambiente de cultivo ou controle cultural:

Cultivo:

  O cultivo de espécies vegetais exóticas, como a maioria das plantas cultivadas, requer práticas culturais que maximizem a produção mediante adequação do ambiente às necessidades destas. Esse tipo de ambiente é normalmente simplificado e a grande disponibilidade de fontes alimentares adequadas a insetos fitófagos aumenta a possibilidade de surtos populacionais destes. Contudo, a utilização de determinadas práticas culturais na lavoura, pode possibilitar a redução da ocorrência de altas populações de insetos e ácaros-praga.

  A manipulação do ambiente de cultivo pode ser feita no sentido de desfavorecer o desenvolvimento de insetos-praga, o que pode ser conseguido mediante uso de uma variedade de técnicas consideradas tradicionais e mesmo ultrapassadas, mas que reduzem a chance de colonização de pragas.

Estratégias gerais de manipulação do ambiente de cultivo:

  Diferentes estratégias podem ser usadas na manipulação do ambiente de cultivo, que são divididas aqui nos seguintes grupos:

  • Redução da capacidade de suporte do ecossistema:

  O ecossistema agrícola inclui fatores bióticos e abióticos cujo conjunto dos componentes interativos determina, a densidade média e severidade dos problemas com insetos-praga. Para a redução da capacidade de suporte do ecossistema, o que se faz é lançar mão de procedimentos destinados à redução da densidade da praga através da diminuição da disponibilidade de alimentos, abrigo e espaço habitável para a praga. As táticas utilizadas dentro desse contexto são apresentadas abaixo.

  Medidas sanitárias: é um dos procedimentos mais elementares, pois várias espécies dispendem parte de seu ciclo em resíduos ou restos orgânicos e a remoção destes pode reduzir a reprodução e sobrevivência da praga.

  São exemplos de medidas sanitárias:

a) Destruição e eliminação de restos culturais: método básico de eliminação de populações de pragas que passariam a entressafra em restos culturais, servindo como fonte de infestação à safra seguinte. Aração, gradagem e corte do material, normalmente antecedendo incorporação ou queima são algumas medidas adotadas comumente. Esta medida é particularmente importante para pragas como a lagarta rosada (Pectinophora gossypiella), bicudo e broca da raiz do algodoeiro (Anthonomus grandis e Eutinobothrus brasiliensis respectivamente), todas importantes pragas do algodoeiro no Brasil.

b) Eliminação de resíduos animais: é notória a estreita relação entre limpeza e incidência de moscas e baratas em áreas domiciliares. Da mesma forma, eliminação de dejetos animais em criações destes reduzem substancialmente a incidência de moscas, principalmente mosca doméstica (Musca domestica) e a mosca dos estábulos (Stomoxys calcitrans).

c) Armazenamento e processamento eficientes: limpeza de unidades armazenadoras é de fundamental importância para a conservação de grãos e produtos armazenados. O mesmo é válido para fábricas ou usinas de processamento de alimentos, onde o próprio processamento, se feito de maneira ineficiente, pode contribuir muito para maior incidência de insetos-praga.

d) Uso de sementes ou propágulos livres de pragas: permite evitar infestações de insetos-praga que se disseminam através de sementes, como ocorre com a lagarta rosada em algodoeiro.

e) poda: a poda periódica de algumas espécies perenes permite a redução de populações de larvas broqueadoras de caule, a exemplo do que acontece em citros, onde os galhos atacados por larvas de coleópteros broqueadores devem ser cortados e queimados.

  • Destruição ou modificação de hospedeiros ou habitats alternativos: 

 Vários insetos possuem requerimentos que não podem ser satisfeitos pela cultura, sendo necessária a dispersão deles para outros plantas hospedeiras durante determinados períodos do ano. Se essas plantas forem destruídas, a população de insetos pode ser reduzida. Essa tática é importante para a mosca-dosorgo (Contarinia sorghicola), cuja infestação no sorgo acontece a partir de insetos provenientes de certas gramíneas como o sorgo perene (Sorghum halepense).

  A persistência de plantas voluntárias de milho em área de cultivo de soja, favorece incidência de diabroticídeos (Diabrotica spp.) e o mesmo pode ser dito de outras plantas voluntárias e algumas pragas como o pulgão Macrosirphum euphorbiae e o ácaro eriofídeo do alho (Eriophyes tulipae). O uso de cobertura morta como palha ou casca de arroz em cultivo de brássicas, altera este habitat dificultando a localização dele por pulgões.

  Preparo do solo: é o método de escolha para eliminação de restos de cultura e destruição de habitats alternativos. Além desses benefícios, o preparo do solo e principalmente a aração, promove mudanças físicas no ambiente do solo podendo desfavorer populações de pragas. Época e profundidade de aração são dois pontos importantes a serem observados. Tais práticas frequentemente levam ao ressecamento da camada superficial do solo, ao enterrio de pragas localizadas na superfície do solo e a exposição de insetos localizados a profundidades maiores à incidência de radiação solar e ao ataque de inimigos naturais (pássaros principalmente), sendo o que normalmente acontece com bicho-bolo em arroz. A passagem de cilindro pesado (“rolo”) sobre a superfície do solo, leva à compactação deste desfavorecendo pragas como lagarta rosca (Agrotis ipsilon) que migram para a superfície expondo-se a ação da radiação solar e a predadores.

  Irrigação e manejo d’água: irrigação é uma atividade primária em várias regiões, mas pouca ênfase tem sido dada em seu uso para prevenção de problemas com insetos. O manejo de água pode ser utilizado no controle de pragas tais como bicheira-do-arroz, adaptadas a alta umidade e baixa oxigenação, ou bicho-bolo e lagarta-elasmo, melhor adaptados a condições mais secas. A água pode também ser fator de quebra de quiescência (dormência) de estágios de certos insetos, como ocorre com ovos de cigarrinha das pastagens.

  • Ruptura das condições necessárias ao desenvolvimento de pragas:

  Insetos-praga se estabelecem em agroecossistemas mediante a criação e manutenção de condições ambientais favoráveis a elas. O provimento ininterrupto dessas condições favorecem esses insetos, mas se este pode ser interrompido dentro dos limites de boas práticas agrícolas, as populações de praga podem ser reduzidas. Algumas alternativas dessa abordagem são apresentadas a seguir.

  • Redução da continuidade espacial:

  Nessa abordagem, o enfoque recai sobre o planejamento da distribuição espacial dos cultivos.

a) espaçamento de plantas: o aumento da densidade de plantio pode possibilitar condições de microclima desfavoráveis a certos insetos, como é o caso do bicho-mineiro-do-cafeeiro (Leucoptera coffeella), mas pode beneficiar outros como a broca-do-café (Hypothenemus hampei). O microclima mais úmido de plantios adensados de soja usualmente favorecem a ocorrência de fungos, principalmente Nomuraea rileyi, que incidem drasticamente sobre lagartas desfolhadoras.

b) localização da cultura: na seleção do local de cultivo é importante a observação do ambiente circunvizinho, pois várias espécies de insetos podem mover-se rapidamente de um campo a outro. Como regra geral, procura-se cultivar culturas que não sejam similares, pois o número de espécies-praga capazes de incidir sobre ambas é baixo. Associações entre gramíneas e leguminosas tendem a ser boa escolha. Consórcio é outro exemplo de medida que contribui para descontinuidade espacial.

  • Ruptura da continuidade temporal:

  A ideia geral é criar um intervalo temporal onde inexista fonte alimentar da praga a campo.

  Algumas alternativas são apresentadas abaixo:

a) rotação de culturas: normalmente funcionam melhor se satisfeitas três condicões:

1) a praga possui poucos hospedeiros;

2) os ovos são ovipositados antes do plantio da nova cultura;

3) o estágio que causa maiores danos possui baixa mobilidade.

  Rotação entre gramíneas e leguminosas são amplamente difundidas em nosso país.

b) incorporação de restos culturais: favorece o incremento dos níveis de umidade e fertilidade no solo e podem desfavorecer populações de pulgão em aipo.

c) rompimento da sincronia entre inseto fitófago e planta: uma das razões de insetos serem pragas de alguma cultura é devido a sincronia de ciclos entre insetos e plantas. Se a fenologia da planta pode ser alterada levando à assincronia com o ciclo da praga, as perdas por insetos podem ser reduzidas. Isto pode ser conseguido mediante uso de variedades precoces, mudança de época de plantio, ou ambos. O uso de variedades precoces, por exemplo, é de grande importância como tática de manejo do bicudo-do-algodoeiro.

  • Dispersão para fora da área de cultivo:

  Uma outra possibilidade de manejo de habitat, no caso de impossibilidade de modificação da cultura ou do ambiente desta, é lançar mão da capacidade de vôo dos insetos e suas preferências por hospedeiros. Através disso, pode ser tentado o desvio da praga de um dado cultivo apresentando a ela hospedeiros alternativos mais adequados. São duas as principais maneiras de se conseguir isso.

  Planta ou cultura-isca: normalmente envolvem o plantio antecipado da mesma cultura, o plantio de pequena área com variedades mais suceptíveis ou de hospedeiros alternativos mais atrativos a pragas. Esses procedimentos favorecem a concentração de pragas nesses cultivos-isca, onde podem ser deixados desenvolvendo ou podem ser eliminados com aplicações inseticidas. Tais táticas, tem uso atualmente em cultivos de algodão para controle do bicudo-do-algodoeiro (plantio precoce) e em feijão para controle de vaquinhas (plantio de curcubitáceas amargas, principalmente Cayaponia martiana, como plantas-isca).
  Colheita em faixas: é semelhante a cultura-isca, exceto que neste caso, a armadilha é criada na cultura principal onde a colheita é feita por faixas evitando que os insetos-praga se disperssem para outros cultivos. Essa tática é recomendada contra o percevejo Lygus hesperus em alfafa, evitando que passe a cultivos de algodão circunvizinhos.

  • Reducão do impacto da injúria:

  O propósito dessa estratégia é manejar as perdas por insetos. Ao invés de se centrar nos insetos, o foco de atenção recai sobre a cultura e modificações em suas técnicas de cultivo com o intento de minimizar perdas causadas por insetos-praga. Algumas possibilidades são exemplificadas abaixo.

  Modificação da tolerância do hospedeiro: isto pode ser geneticamente conseguido, mas o enfoque aqui é como se conseguir isto através de outros meios. A produção de plantas vigorosas, frequentemente conseguida com a adoção de boas práticas agrícolas, aumenta a capacidade das plantas de suportar danos. Alguns ácaros e pulgões parecem ser favorecidos quando seus hospedeiros são sujeitos a altos níveis de adubação nitrogenada, o que não significa que tal adubação deva ser suprimida, mas sim que frente a ela algumas pragas podem ser favorecidas e deve-se preparar para o controle delas, caso isto venha a ser necessário.

  Modificação de época de colheita: a época de colheita é usualmente variável dentro de certos limites. A orientação geral é de que cultivos atacados devam ser colhidos o quanto antes. No caso do café, recomenda-se colher inicialmente os talhões mais atacados pela broca-do-café, como medida cultural para o manejo desta.

  Diminuição de espaçamento ou aumento de densidade de plantio: usado para compensar perdas ocasionadas por insetos, que causam mortalidade de plantas como lagarta-rosca (Agrotis ipsilon) e lagarta elasmo (Elasmopalpus lignosellus).