A TC não é um conjunto de técnicas aplicadas mecanicamente como poderíamos pensar à primeira vista. A competência do terapeuta numa ampla variedade de habilidades terapêuticas é necessária para garantir a eficácia dos procedimentos da TC. Conforme Beck ressalta, em primeiro lugar e antes de tudo, para realizar o empreendimento terapêutico é importante estabelecer uma boa relação de trabalho com o paciente, um procedimento terapêutico chamado de empirismo colaborativo.
Paciente e terapeuta trabalham como uma equipe para avaliar as crenças do paciente, testando-as para verificar se estão corretas ou não e modificando-as de acordo com a realidade. Em segundo lugar, o terapeuta usa o questionamento socrático como um meio de guiar o paciente em um questionamento consciente que permitirá que este tenha um insight sobre seu pensamento distorcido, um procedimento chamado descoberta guiada. Ao longo de todo tratamento, utiliza-se a abordagem colaborativa e psicoeducativa, com experiências específicas de aprendizagem desenhadas com o intuito de ensinar os pacientes a:
1) monitorar e identificar pensamentos automáticos; 2) reconhecer as relações entre cognição, afeto e comportamento; 3) testar a validade de pensamentos automáticos e crenças nucleares; 4) corrigir conceitualizações tendenciosas, substituindo pensamentos distorcidos por cognições mais realistas; e 5) identificar e alterar crenças, pressupostos ou esquemas subjacentes a padrões disfuncionais de pensamento.
Em contraste com as terapias psicanalíticas, as sessões de TC têm uma estrutura na qual o terapeuta cognitivo desempenha um papel ativo para auxiliar o paciente a identificar e focar em áreas importantes, propondo e ensaiando técnicas cognitivas e comportamentais específicas, e planejando colaborativamente tarefas entre as sessões. Um plano de tratamento para toda a terapia e a pauta para cada sessão são discutidos com o paciente. O feedback dos pensamentos do paciente sobre a sessão em andamento e o tratamento como um todo é rotineiramente solicitado para criar a oportunidade de tratar e manejar quaisquer concepções equivocadas e mal-entendimentos que possam surgir durante a terapia.
O terapeuta cognitivo precisa ser um bom estrategista para planejar procedimentos terapêuticos que tenham mais chance de produzir mudanças específicas para aquele determinado paciente, A TC incentiva seus pacientes a adotar a abordagem empírica de solução de problemas dos cientistas, e o terapeuta serve como um modelo para seus pacientes ao incentivar a auto-eficácia, o entusiasmo e a esperança com relação ao trabalho desafiador de alterar cognições mal adaptativas.
Embora a transferência, conforme o conceito psicanalítico, não seja incentivada, sua manifestação pode ser uma ferramenta valiosa para demonstrar as distorções interpessoais do paciente. Da mesma forma, qualquer manifestação de resistência ao tratamento é lidada e tratada como crenças subjacentes disfuncionais.
Conceitualização de caso
Desde o início do tratamento, o terapeuta desenvolve (idealmente de forma colaborativa, como sempre) uma conceitualização cognitiva do paciente. A conceitualização de caso é um trabalho permanente no decorrer de um tratamento; à medida que novos dados clínicos importantes são trazidos para a terapia, a conceitualização cognitiva será alterada e atualizada conforme necessário enquanto o tratamento evolui. Para preparar um plano de tratamento, uma conceitualização de caso individual é extremamente necessária, uma vez que guia as intervenções terapêuticas.
A conceitualização de caso contém uma avaliação histórica e prospectiva de padrões e estilos de pensamento. Procurando e agrupando denominadores cognitivos comuns em diversas situações de vida e a avaliação delas pelo paciente, pode-se identificar um padrão cognitivo. Ele incluirá um entendimento do conjunto idiossincrático de crenças disfuncionais, vulnerabilidades específicas individuais e estratégias comportamentais que os pacientes usam para lidar com suas crenças nucleares.
Técnicas cognitivas e comportamentais
A separação de intervenções de TC em técnicas cognitivas e comportamentais é apenas para propósitos didáticos, já que muitas técnicas afetam tanto os processos de pensamento quando os padrões de comportamento do paciente. E como sabemos, mudança cognitiva gera mudança de comportamento, e vice-versa. Uma série de técnicas diferentes pode ser usada, dependendo do perfil cognitivo do transtorno, fase da terapia e conceitualização cognitiva específica de um determinado caso. Técnicas comportamentais poderiam ser mais usadas em casos de depressão grave nos quais há uma necessidade de promover a ativação comportamental do paciente.
Ao contrário, quando o paciente não necessita primariamente de ativação comportamental, procedimentos mais puramente orientados à cognição podem ser aplicados. Para pacientes com transtornos de ansiedade, um entendimento dos princípios fundamentais do modelo cognitivo será provavelmente necessário antes da introdução de qualquer experimento comportamental. Uma série de técnicas cognitivas é usada em TC, como identificação, questionamento e correção de pensamentos automáticos, reatribuição e reestruturação cognitiva, ensaio cognitivo e outros procedimentos terapêuticos de imagens mentais.
Entre as técnicas comportamentais estão, por exemplo, agendamento de atividades, avaliações de prazer e habilidade, prescrições comportamentais de tarefas graduais, experimentos de teste da realidade, role-plays, treinamento de habilidades sociais e técnicas de solução de problemas. Primeiro apresentaremos uma pequena amostra de técnicas cognitivas. O tratamento inicial é focado no aumento da consciência por parte do paciente de seus pensamentos automáticos, e um trabalho posterior terá como foco as crenças nucleares e subjacentes.
O tratamento pode começar identificando e questionando pensamentos automáticos, o que pode ser realizado de maneiras diferentes. O terapeuta pode orientar os pacientes a avaliar seus pensamentos automáticos, principalmente quando há uma excitação emocional percebida durante a sessão, simplesmente perguntando: “O que está se passando na sua mente?”, ou qualquer variação desta pergunta. Distorções cognitivas podem ser descobertas perguntando, por exemplo, “Quais são as evidências da sua conclusão?”, “Você está omitindo evidências contraditórias?”, “A sua conclusão segue logicamente as observações que você fez?”, “Existem explicações alternativas que podem ser mais precisas para explicar este episódio em especial?”.
Quando solicitados a refletir sobre explicações alternativas, os pacientes podem perceber que suas explicações iniciais das situações evoluíram através de inferências inválidas, o que os leva ao passo seguinte de fazer interpretações diferentes, dando, assim, novas atribuições e significados às situações. A maioria das pessoas não tem consciência de que pensamentos automáticos negativos precedem sentimentos desagradáveis e inibições comportamentais, e que as emoções são consistentes com o conteúdo dos pensamentos automáticos.
Para aumentar a consciência desses pensamentos, os pacientes podem aprender a rastreá-los e, com treinamento sistemático, localizar exatamente que tipo de pensamentos ocorreram imediatamente antes de uma emoção, um comportamento e uma reação fisiológica como consequência desse pensamento (seqüência ABC de Ellis). O Registro de Pensamento Disfuncional (RPD), conforme descrito por Judith Beck, pode ser usado para auxiliar a rastrear os pensamentos que foram ativados pela situação estimuladora e que geraram a emoção e o comportamento subsequentes.
Um exercício de RPD pode capacitar os pacientes a descobrir, esclarecer e alterar os significados que atribuíram a eventos perturbadores e compor uma resposta alternativa ou racional. Às vezes, a mera tarefa de identificar erros cognitivos, independente ou em combinação com o preenchimento de um RPD, pode ser um bom exercício para desenvolver no consultório ou como tarefa de casa. Para que as mudanças estruturais ocorram, é preciso ir muito além da mudança de erros cognitivos associados a uma síndrome específica.
Somente por meio de análise e correção das crenças mais arraigadas, alterando a organização dessas crenças, a reestruturação cognitiva pode ser realizada. O tratamento precisa ter como foco as crenças nucleares do paciente, como “É impossível eu ser amado”, e crenças subjacentes, como “Se eu não tiver uma mulher, então sou um fracasso”, que são reavaliadas da mesma forma que os pensamentos automáticos, o que significa procurar por evidências que as sustente e corrigi-las com o teste de realidade. O ensaio cognitivo é uma técnica de imagística desenvolvida para auxiliar os pacientes a experimentarem as situações temidas imaginando que elas estão ocorrendo naquele exato momento.
No consultório ou como tarefa entre as sessões, os pacientes são solicitados a “vivenciar” a situação temida na imaginação e construir as melhores estratégias de enfrentamento para superá-la com sucesso. Da mesma forma, através de imagens mentais, os pacientes podem ensaiar a solução do problemas e o treinamento da assertividade conforme necessário para superar situações problemáticas. Técnicas comportamentais são integradas num programa de tratamento de TC de muitas maneiras distintas. Quando pacientes com depressão crônica ou grave têm seu nível de atividade reduzido e estão relutantes em se comprometer com qualquer meta porque têm baixas expectativas sobre quaisquer realizações, deve-se realizar procedimentos de ativação comportamental.
Por exemplo, terapeuta e paciente podem especificar experimentos colaborativamente para ver se as expectativas negativas do paciente são válidas ou se se originam de inferências erradas sobre si próprio, outras pessoas e o futuro. Por exemplo, uma mulher deprimida pode acreditar que não consegue mais preparar uma sobremesa para o domingo da qual seus netos tanto gostam; na verdade, ela até mesmo acredita que é incapaz de ficar fora da cama tempo suficiente para fazer qualquer coisa, quanto mais preparar uma sobremesa.
Para reunir evidências sobre sua expectativa de ter habilidade na preparação da sobremesa e sua expectativa de ser capaz de sentir prazer em suas habilidades culinárias, ela é estimulada a classificar de 0 a 10 suas expectativas de habilidade e prazer antes de realizar a tarefa domingo pela manhã e compará-las com o que de fato pensou e sentiu depois de ter terminado a tarefa combinada. Ela provavelmente receberá, como de costume, muitos elogios positivos, que a ajudarão a corrigir suas classificações equivocadas de habilidade e prazer.
Pacientes deprimidos muitas vezes apresentam expectativas disfuncionais sobre suas capacidades, e ficam surpresos com um resultado muito melhor do que esperavam. Conforme o paciente as testa, o resultado traz uma nova perspectiva. Como os pacientes não conseguem avaliar seus pensamentos de forma mais objetiva, todo um conjunto de pensamentos se torna hipóteses que precisam ser submetidas ao teste de realidade.
Uma vez que muitos pacientes precisam progredir em pequenos passos, uma série de prescrições comportamentais de tarefas graduais são feitas sob medida para cada um dos pacientes para progressivamente promover experiências bem sucedidas sem sobrecarregá-los com tarefas maiores do que suas atuais capacidades de enfrentamento. Grande parte da TC é devotada a técnicas de solução de problemas; os pacientes aprenderão a seguir os passos necessários, como definir o problema, gerar maneiras alternativas de resolvê-lo e implementar soluções alternativas.
O treinamento de habilidades sociais também pode ser uma ferramenta necessária como parte do plano de tratamento. Um paciente que teme situações sociais e apresente baixo desempenho social se beneficiará de role-plays com o terapeuta da situação temida para construir habilidades sociais inibidas e superar o problema. O terapeuta age como um modelo, para que os pacientes possam aprender a ter um desempenho social. Após suficiente role-play no consultório, os pacientes são estimulados a desempenhar em situações da vida real o que eles construíram no consultório.
A TC foi desenvolvida para aplicação em formato individual, em grupo, para casais e famílias, adultos, adolescentes e crianças, em diferentes contextos clínicos. As indicações de TC são determinadas pelas variáveis do paciente e do terapeuta, mais do que pela natureza do transtorno.