Operadores de caixas de supermercados I

Operadores de Caixas de Supermercados

1 Operadores de caixa:

No Brasil, inseridos em um contexto de economia em estabilização e aumento do poder de compra da população, o setor supermercadista enfrenta uma realidade cada vez mais competitiva. Os investimentos em tecnologia e qualidade de atendimento ao cliente, a fim de reduzir filas e de prestar cada vez mais serviços, como o empacotamento de mercadorias, têm sido poderosos instrumentos na conquista de novos mercados. No país, 3% das 43 mil lojas são automatizadas e esse número tende a crescer expressivamente até o final do século. A previsão é de que sejam gastos US$ 2,0 milhões até o ano 2000, US$ 500 mil por ano, e que 60% das lojas venham a ser informatizadas. Em nível de comparação, em 1989, o custo de um check-out era em torno de US$ 10 mil, passando para US$ 2,2 mil no ano de 1996. Desta forma, num mundo onde a busca por inovações tecnológicas vem se tornando cada vez mais freqüente, o setor de supermercados tem incorporado tecnologias à sua atividade, muitas vezes sem atentar para a repercussão que a falta de um planejamento pode causar. Particularmente no check-out, a demanda por novas tecnologias é mais intensa, já que este é um ponto fundamental na organização por representar a interface entre o supermercado e o cliente.

Com o objetivo de caracterizar a população de trabalho, as entrevistas foram feitas com amostras iguais em turnos da manhã e da tarde. Os dois turnos possuem dois horários: o primeiro de 8 às 17:15 hs e de 10 às 19 hs, com duas horas de almoço e o segundo, de 13:30 às 22:30 hs e de 12 às 20 hs, com duas horas de jantar. Não há pausas previstas além dos horários de refeição. É pemitido que operador saia por alguns instantes do posto de trabalho, desde que um fiscal de caixa assuma seu lugar neste período. A população de trabalho é essencilamente feminina, com apenas 17% de homens. Com relação à idade, 10% dos entrevistados possuem de 18 a 20 anos, 39% de 21 a 24 anos, 20% de 25 a 29 e 31% possuem mais de 30 anos. Com isto pudemos concluir que a população é basicamente jovem. Quanto ao tempo na empresa exercendo a atividade, apresentamos o gráfico (figura 1) abaixo:

Observamos um alto percentual de funcionários com até 2 anos de trabalho na empresa, caracterizando um alto índice de rotatividade. Isto se deve, possivelmente, à falta de experiência anterior, à pouca idade, e principalmente às condições de trabalho, com ritmo acelerado e longa jornada de trabalho.

2 Análise ergonômica:

A implantação do scanner para registro de mercadorias através de código de barras surgiu como um revolucionário meio de melhorar a qualidade e rapidez do atendimento ao cliente. Achava-se que, juntamente com tal melhoria, os problemas dos operadores causados pela digitação seriam solucionados. O que se constatou, no entanto, foi que, com tais avanços, houve uma transferência dos problemas. Isto ocorreu, em muitos casos, devido ao fato de não ter sido feito um projeto para o novo posto. O que se observou foi apenas uma adaptação do dispositivo ao antigo local de trabalho, sem atentar ao que isso implicaria.

O posto estudado é caracterizado por:

• Uma mesa sobre a qual fica a caixa registradora, situada à frente do operador;

• Um balcão para passar e empacotar as mercadorias, que faz um ângulo de 90º com a máquina registradora, situado à esquerda do operador;

• Um armário para guardar acessórios localizado abaixo do balcão;

• Um scanner na posição vertical, situado no balcão à esquerda do operador;

• Uma cadeira giratória de altura regulável;

• Duas esteiras acionadas por pedais localizadas sobre o balcão para facilitar a passagem das mercadorias do início do balcão até a área de empacotamento, passando pelo scanner.

A atividade de trabalho consiste, basicamente, em pegar a mercadoria na esteira, passar no scanner, colocá-la na esteira que leva até a área de empacotamento, situada atrás do operador, e fazer a cobrança. Quando o funcionário responsável pelo empacotamento de mercadorias não está presente, o operador também realiza esta atividade. 

A seqüência de operações do caixa para o atendimento a um cliente é descrita a seguir.

1. O operador aciona a esteira para aproximar as mercadorias que foram colocadas na borda do balcão pelo cliente.

2. Pega a mercadoria com a mão esquerda.

3. Puxa a mercadoria até a posição ideal de leitura do código. Se muito pesada, este movimento é realizado com as duas mãos.

4. Escaneia a mercadoria.

5. Quando não é possível fazer a leitura, digita o código com a mão direita.

6. O operador torce o tronco da direita para a esquerda, voltando se ligeiramente para trás.

7. Coloca a mercadoria sobre a esteira que leva à zona de empacotamento.

8. Com o pé direito, pressiona o pedal que aciona a esteira.

9. As operações de 1 a 8 são realizadas até que todas as mercadorias tenham sido registradas.

10.O operador informa o valor da compra ao cliente e, caso o pagamento seja feito em cheque ou cartão, aciona o sinal luminoso localizado abaixo da máquina registradora para chamar as fiscais de caixa.

Naturalmente, o operador procura a posição de maior conforto ao desempenhar sua atividade de trabalho. Desta forma, as operações descritas acima ocorrem nas posições sentada e em pé, de acordo com a vontade do operador. Quando está sentado, o operador fica de frente para a máquina registradora e de lado para o scanner. É necessário girar o tronco e o pescoço para escanear a mercadoria devido ao armário situado abaixo da esteira, que não permite ao operador ficar de frente para o scanner. Isto já é possível quando o operador está em pé. Neste caso, ele pega a mercadoria inicialmente com a mão direita e vira-se somente para digitar o código caso não seja possível fazer a leitura no scanner e para acionar o pedal. 33% dos entrevistados disseram que preferem trabalhar somente sentados, 12% trabalham somente em pé, 35% alternam as posições, mas ficam mais tempo sentados, 15% ficam mais tempo em pé, trabalhando sentados na menor parte do tempo e 5% não têm preferência. A maioria dos operadores prefere ficar sentada e, dos que alternam as posições, ficam de pé quando o fluxo de clientes no check-out é mais intenso.

O scanner não lê códigos de barras que estejam molhados, característicos de carnes, frios, entre outras mercadorias. Portanto, mesmo com a adaptação de scanners aos postos de trabalho, a digitação não foi totalmente extinta. Com isso, os efeitos decorrentes desta atividade, como as dores na mão e no braço direito, ainda são sentidos pelos trabalhadores. Para pegar os produtos o operador muitas vezes fica curvado. Além disto, os repetidos estiramentos e torções do tronco resultam em posturas incorretas, tensões musculares e queixas de dores, já que o corpo humano não está preparado para as sucessivas compressões e trações de nervos ocorridas neste tipo de atividade. Com isso, estes trabalhadores estão sujeitos a adquirir lesões que podem comprometer a capacidade de realizar movimentos de forma parcial ou até total. As lesões por esforço repetitivo compreendem um conjunto de doenças que atingem os músculos, tendões e nervos dos membros superiores que têm relação direta com as exigências das tarefas, dos ambientes físicos e da organização do trabalho. São inflamações provocadas por movimentos manuais repetitivos, continuados, rápidos e/ou vigorosos, durante um longo período de tempo. A atividade dos operadores de caixa possui características que contribuem para o aparecimento deste tipo de lesões. Digitação, torção do pescoço, movimentos repetitivos da mão, braço e ombro esquerdos, stress causado pelo acelerado ritmo de trabalho, ambiente com muito ruído, má iluminação e poluição visual são fatores que contribuem para o aparecimento destas lesões. Tendinite, tenossinovite, bursite e miosite, que são, respectivamente, inflamações dos tendões, do tecido que reveste os tendões, das bursas (pequenas bolsas que se situam entre os ossos e tendões da articulação do ombro) e dos músculos, além de lombalgias, são comuns entre operadores de caixa.

Para constatar o desconforto causado pela atividade e, principalmente, pelos movimentos exigidos em decorrência das limitações do posto de trabalho, foi realizada uma pesquisa junto aos operadores para verificar quais as regiões do corpo mais agredidas pela atividade no checkout. Os resultados da pesquisa são apresentados abaixo (tabela 1).

Pudemos observar que 17% das 289 queixas relativas a dores no corpo ao final de uma jornada de trabalho, estavam relacionadas à coluna, 13% ao braço esquerdo e à região lombar, e 11% ao ombro esquerdo. 95% dos entrevistados atribuíram a causa das dores às atividades desenvolvidas durante o trabalho. Observando a atividade, constatamos que os membros superiores realizam movimentos assimétricos. O lado esquerdo é significativamente mais exigido, em função da necessidade de pegar, levantar, girar e empurrar as mercadorias para a esteira posterior. Também a coluna e a região lombar são alvo de queixas. Estas regiões refletem rapidamente o cansaço do corpo e, principalmente se o operador fica em um única posição, as dores são muito comuns. O pedal para o acionamento da esteira localiza-se no lado direito. Por isso, perna e pé direitos aparecem na tabela com percentuais mais altos, em comparação ao lado esquerdo. O pedal está adaptado para operadores sentados. Caso seja acionado na parte superior, movimenta a esteira dianteira e apertando a parte inferior, a esteira traseira é acionada. Com isto, a perna direita fica suspensa para permitir os dois movimentos. Se o operador estiver em pé, a situação torna-se mais crítica devido à necessidade de levantar a perna direita, enquanto dobra a esquerda, curvando o corpo para trás. Estes movimentos são repetidos durante toda a jornada de trabalho e são a origem das queixas observadas. Outro movimento que exige que o operador se curve e que ocorre repetidas vezes é o de acionar o sinal luminoso para solicitar a presença do fiscal de caixa. Outra região afetada é o pescoço, devido ao giro da cabeça em direção ao scanner toda vez que uma mercadoria é registrada. Uma atividade igualmente inadequada é a que o operador realiza toda vez que o cliente leva o carrinho para a área de empacotamento, passando pelo check-out. O operador se debruça sobre o balcão para verificar se não há mercadorias no interior do carrinho.

Observou-se que os homens sentem menos dores que as mulheres, já que 44% dos homens entrevistados não sentem dores, enquanto que apenas 10% das mulheres responderam o mesmo. Isto se deve ao fato de possuírem mais musculatura e, portanto, resistirem melhor aos movimentos. Os homens, além de trabalharem no check-out, empurram os carrinhos para o local onde ficam guardados ao final da jornada de trabalho. Os operadores desta população em particular atribuíram as dores à necessidade de realizar esta atividade. 

A partir dos resultados e análises obtidos, propusemos considerações para o posto de trabalho de operadores de caixa. Tais considerações procuram melhorar as condições de trabalho, atendendo às expectativas de 93% dos operadores, que acreditam que o checkout pode ser mais confortável. As especificações relativas à ergonomia e antropometria são apresentadas a seguir.

Atendendo às especificações da NR-17, “o posto deve atender aos seguintes requisitos:

a) ter altura e características da superfície de trabalho compatíveis com o tipo de atividade, com a distância requerida dos olhos ao campo de trabalho e com a altura do assento;

b) ter área de trabalho de fácil alcance e visualização pelo trabalhador;

c) ter características dimensionais que possibilitem posicionamento e movimentação adequados dos segmento corporais.”

“Os pedais devem ter posicionamento e dimensões que possibilitem fácil alcance, bem como ângulos adequados entre as diversas partes do corpo do trabalhador, em função das características e peculiaridades do trabalho a ser executado.” Botões poderiam se usados em substituição ao pedal para a movimentação das esteiras, e deveriam localizar-se à frente do operador. Operações principais devem ser realizadas nas zonas de trabalho ideal e de alcance máximo, de acordo com sua freqüência de execução. Esteiras, scanner e caixa registradora devem posicionar-se à frente do operador. Esta especificação foi também observada por 67% dos operadores, que responderam que a modificação do layout do posto, ficando o operador de frente para o scanner, seria benéfica. Deve haver espaço embaixo do balcão por onde corre a esteira para permitir que o operador possa girar, ficando de frente para o scanner. O monitor deve estar à frente do operador, permitindo que tanto ele quanto o cliente acompanhem o registro. Deve ser colocado um espelho acima e ao lado do operador para evitar furtos e evitar que mercadorias muito pesadas passem pelo balcão.

Deve haver um apoio regulável para os pés, com a faixa de variação obtida através das medidas dos operadores mais alto e mais baixo. 80% dos entrevistados acham que as cadeiras poderiam ser mais confortáveis. Desta forma, o assento e o encosto devem ser estofados e revestidos de material que absorva e permita transpiração. Não devem ser muito duros nem muito macios, para não causar desconforto. Comprimindo cerca de 2 cm com o peso do usuário, oferecem firmeza adequada. A altura do assento deve ser facilmente regulável pelo usuário quando sentado. O encosto, regulável, deve proporcionar um adequado suporte à região lombar, facilitando a manutenção das curvaturas fisiológicas da coluna vertebral. O assento deve ter profundidade de 35 a 42 cm. O bordo anterior do assento deve ser arredondado, de forma a não exercer pressão na parte ínfero-posterior das coxas, o que pode prejudicar a circulação das pernas. A cadeira deve estar quase horizontal, muito fracamente inclinada para trás. Deve possuir uma superfície plana e possuir cinco pés para ter uma estabilidade assegurada, dotados de rodízios para facilidade de movimentação. Os operadores devem receber instruções quanto aos gestos de trabalho mais adequados no sentido de evitar torções e movimentos prejudiciais. Devem ser instruídos quanto à forma correta de sentar, regular a cadeira e adaptar o posto às suas características antropométricas. O controle do ritmo de trabalho pelo trabalhador que o executa aliado ao aumento do número de pausas durante a jornada, para que os músculos descansem e o stress seja aliviado, auxiliam na prevenção de danos à saúde.

Ainda há uma deficiência nas normas relacionadas a atividades que envolvem movimentação de materiais. O que se observa é que elas fazem referência a um peso máximo das cargas transportadas, inclusive para mulheres, que “deve ser nitidamente inferior àquele admitido para os homens, para não comprometer a sua saúde ou sua segurança.” No entanto, este limite não é quantificado, tornando-se difícil eliminar este problema. Contudo, o maior obstáculo encontrado por estes trabalhadores não está relacionado a adaptações antropométricas ou incorporações de novas tecnologias. Lutar contra as longas jornadas, as condições precárias de trabalho e o stress a que são submetidos os operadores de caixa, constitui o maior desafio que os órgãos de Medicina e Segurança do Trabalho ainda terão que enfrentar.