Estratégias de Prevenção aplicada à Dependência de Álcool e Outras Drogas
Dependência Química e Abordagem Centrada na Pessoa
1 Drogas, Por quê?
O tema fascina os jovens, angustia os pais e preocupa os educadores. Os meios de comunicação veiculam, diariamente, informações sobre o assunto, muitas vezes num tom dramático, de catástrofe iminente. A literatura científica enfatiza a importância de se enfrentar a questão do abuso de substâncias através de medidas de prevenção adequadas. Por que o uso de drogas vem, cada vez mais, apresentando-se como uma questão do nosso tempo? O consumo de substâncias psicoativas existe desde os primórdios da história do homem, em praticamente todas as culturas conhecidas.
Curiosidade, desejo de transcendência, busca da imortalidade, do prazer, da sabedoria, são alguns dos motivos que aparecem, desde sempre, associados ao desejo por alguma droga. Drogas ou substâncias psicoativas “... são aquelas que modificam o estado de consciência do usuário. Os efeitos podem ir desde uma estimulação suave causada por uma xícara de café ou chá até os efeitos ...produzidos por alucinógenos tais como o LSD...” (Seibel e Toscano Jr., 2001, p.1).
Masur & Carlini (1989) definem drogas como substâncias que interferem com o funcionamento dos neurotransmissores, provocando alterações e distúrbios no comportamento. Ao longo da história da humanidade, o uso de drogas insere-se em vários contextos. Desde o místico, associado aos rituais e à busca de transcendência, até o econômico, do qual a Guerra do Ópio e a economia paralela de países como a Colômbia são alguns exemplos (Totugui, 1988). Em nosso meio, praticamente todas as pessoas fazem uso de algum tipo de droga. Medicamentos, álcool e tabaco são drogas legalmente comercializadas.
Cada cultura determina quais drogas devem ser consideradas legais e ilegais. Isso está mais relacionado a aspectos antropológicos e econômicos do que a morais ou éticos, ou mesmo aos efeitos ou características farmacológicas das substâncias em questão (Bucher, 1992). O aumento verificado nos últimos anos no consumo de drogas dos países desenvolvidos é, sem dúvida, alarmante. Por um lado, o narcotráfico organizou-se de forma mais eficiente, expandindo a oferta de produtos; pelo outro, cresceu a demanda de psicotrópicos por uma parcela cada vez maior da população (Bucher, 1996).
A Dimensão do Problema no Brasil
Embora no Brasil o padrão de consumo de drogas não seja comparável ao que se verifica nos países desenvolvidos, sua evolução recente torna esse tema uma preocupação obrigatória dos profissionais da área de saúde. O estudo mais amplo sobre o consumo de drogas no País (Carlini, Galduróz, Noto & Nappo, 2002) envolveu as 107 maiores cidades do Brasil (com mais de 200 mil habitantes). Foram entrevistadas 8.589 pessoas, com idades de 12 a 65 anos, de todas as classes sociais. Os objetivos desse estudo foram estimar a prevalência do uso e da dependência de drogas lícitas e ilícitas, além de avaliar a percepção da população sobre as drogas, a facilidade de obtê-las, seus efeitos e seus riscos.
Seus resultados retratam o comportamento dos brasileiros que moram nas grandes cidades: para o álcool, o uso na vida foi relatado por 69% dos sujeitos pesquisados e a prevalência de dependentes foi estimada em 11%, maior nos homens (17%) do que nas mulheres (6%). Em relação ao tabaco, o uso na vida é de 41%, e o número de dependentes chega a 9% da população. A maconha já foi utilizada por 7% dos entrevistados, os solventes por 6% e a cocaína por 2% dos sujeitos estudados.
Chamam a atenção as diferenças de comportamento entre homens e mulheres. Embora todos sejam expostos da mesma maneira ao consumo de drogas, com o tempo, os homens passam a usar muito mais essas substâncias do que as mulheres. No caso do álcool, um em seis homens torna-se dependente. Já para as mulheres, essa razão é de uma para dezessete.
As Drogas mais Usadas pelos Estudantes Brasileiros
O estudo de Galduróz, Noto e Carlini (1997) reúne os resultados obtidos nos quatro levantamentos sobre o consumo de drogas psicoativas por alunos do ensino médio e fundamental em dez capitais brasileiras, realizados pelo CEBRID (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas) em 1987, 1989, 1993 e 1997. Segundo esse estudo, o álcool é a droga mais amplamente utilizada pelos estudantes, muito à frente do segundo colocado, o tabaco. O uso de álcool tem início bastante precoce na vida desses jovens cerca de 50% dos alunos entre 10 e 12 anos já fizeram uso dessa droga.
O uso frequente e o uso pesado vêm aumentando na maioria das capitais estudadas. Quase 30% dos estudantes já utilizaram bebidas alcoólicas até embriagar-se. No último levantamento (1997), 11% da população pesquisada relatou ter brigado e 19,5% faltado à escola depois de beber. Quando comparado a drogas como maconha, cocaína, heroína ou tabaco, o álcool é a substância cujo uso crônico leva a maior risco orgânico, entendendo-se como risco não só a probabilidade de ocorrência de problemas, mas também a sua gravidade (Masur & Carlini, 1989).
Os principais danos orgânicos associados ao uso crônico de álcool são gastrite (em geral, é o problema que aparece mais cedo), aumento da pressão arterial, pancreatite, miocardite, hepatite e cirrose alcoólica, distúrbios neurológicos graves, alterações da memória e lesões no sistema nervoso central. Entretanto, ao contrário dos efeitos orgânicos decorrentes do uso crônico de cocaína ou mesmo do tabaco, os danos associados ao álcool levam um tempo mais longo para aparecer, da ordem de cinco a dez anos. Por isso, raramente encontramos jovens alcoolistas, embora o aumento de consumo de álcool que vem ocorrendo nas faixas etárias mais baixas possa modificar essa situação.
O uso inicial de tabaco também é bastante precoce, sendo que, aos 10-12 anos de idade, cerca de 12% já experimentaram essa substância. Há tendência de aumento no uso freqüente e no uso pesado em quatro das dez cidades estudadas. Os inalantes são substâncias presentes em produtos industrializados como esmalte, cola de sapateiro, corretivos de tinta, fluidos de isqueiro, lança perfume, entre outros. Em todos os levantamentos realizados, os inalantes só foram superados pelo álcool e pelo tabaco.
Frequentemente associado a populações marginalizadas, como meninos em situação de rua, o uso de inalantes tem sido muitas vezes compreendido como uma resposta a condições de vida extremamente precárias. Entretanto, como salientam Dalla-Déa, Almeida, Silveira e Toledo (1999), o uso dessas substâncias por jovens de classe média indica que esse fenômeno não se restringe à influência de fatores como a fome, a miséria e a marginalização, mas também é influenciado por pressões de grupo e por aspectos da subjetividade do usuário e de seus conflitos, tanto individuais quanto familiares.
No último dos quatro levantamentos (Galduróz, Noto e Carlini 1997), a maconha mostrou uma tendência de aumento do uso na vida. O uso frequente e o uso pesado também cresceram significativamente. Os autores sugerem que esses resultados podem ser interpretados de duas maneiras: ou o uso dessa substância realmente aumentou, ou a mudança de atitude da sociedade frente à maconha, possibilitando os atuais debates sobre a sua descriminalização e seu uso terapêutico fez com que os jovens passassem a relatar mais freqüentemente seu uso, que sempre foi elevado.
Nos quatro levantamentos realizados, os ansiolíticos e os anfetamínicos (moderadores do apetite) sempre apareceram entre as drogas mais consumidas pelos estudantes, com uma utilização nitidamente maior no sexo feminino. Em algumas capitais, há tendência para o aumento do uso freqüente e do uso pesado de ambos os tipos de drogas. Por se tratar de substâncias que reconhecidamente induzem a dependência o sex uso sem controle médico é potencialmente perigoso. Além disso, muitos casos de anorexia nervosa iniciam-se após a utilização de anfetamínicos em regimes conduzidos incorretamente.
O uso de cocaína vem-se popularizando entre os estudantes das dez capitais estudadas, apenas no Rio de Janeiro e em Recife não se observou tendência de aumento do uso na vida. O uso frequente cresceu em oito capitais (inclusive em São Paulo). Da mesma forma, o uso pesado apresentou aumento em quase todas as capitais. Por outro lado, o uso de “crack” aparece muito raramente - as baixas porcentagens para uso de “crack” entre os estudantes possivelmente significam que, como a dependência do “crack” é sempre muito severa, aqueles que começam a usar essa droga perdem rapidamente o vínculo com a escola.
Mesquita, Bucaretchi, Castel e Andrade(1995), em seu estudo sobre o uso de substâncias psicoativas por estudantes da Faculdade de Medicina da USP, verificaram que o álcool é a droga mais usada, com taxas de prevalência de uso na vida de 82%, uso no ano, 76% e uso no mês, 69%. De maneira geral, o álcool é a droga que mais conta com a aprovação dos alunos, tanto em relação à experimentação quanto ao uso regular. Andrade, Bassit, Kerr-Corrêa, Tonhon, Boscovitz, Cabral, Rassi, Potério, Marcondes, Oliveira, Dualibi e Fukushima (1997) avaliaram o consumo de drogas em 5225 alunos de nove escolas de Medicina do Estado de São Paulo.
Os resultados confirmam os achados do trabalho anterior a droga mais usada foi o álcool, seguida pelo tabaco, solventes, maconha, tranquilizantes e cocaína. Não foram encontradas diferenças entre os estudantes da capital e do interior. Um estudo preliminar sobre o uso de bebidas alcoólicas por estudantes de Psicologia da PUCSP e suas atitudes em relação ao álcool obteve resultados semelhantes, porém mais elevados do que os trabalhos anteriormente citados – o uso na vida foi relatado por 97%, o uso no ano por 95% e o uso no mês por 79,9% dos sujeitos. A maioria (75,1%) relata já ter bebido até a embriaguez, e 23,3% ter-se embriagado no último mês.
O conjunto desses resultados mostra que a prevalência do uso de álcool e outras drogas por adolescentes e adultos jovens é mais elevada do que a observada na população geral. Assim, a adolescência e o início da vida adulta caracterizam-se como um dos períodos de vulnerabilidade aumentada uma “janela de risco”. Devido a fatores subjetivos e/ou culturais, nesses períodos (a terceira idade é um deles) ocorre um aumento da probabilidade de consumo de álcool ou outras drogas e, portanto, dos problemas associados a esse consumo.