Análise das Condições de Trabalho de Operadores de Caixa I

Operador de Caixa

1 Operadores de caixa:

Muitas vezes, o espaço no qual o indivíduo está inserido não está adequado às suas necessidades, podendo gerar insatisfação e agravamento da saúde física e psicológica do usuário. Assim se faz necessário a elaboração de um projeto para o espaço ao qual interagirá atenda as especificações do usuário final, facilitando, com isso, o uso do espaço, considerando, em especial, a funcionalidade esperada para o local. O processo projetual é um conjunto de ações que são desenvolvidas com o intuito de atingir os objetivos do usuário para que no fim se tenha uma situação de trabalho que atenda  as suas necessidades e especificações. Para realizar um projeto que melhore a qualidade de vida do usuário, deve-se identificar o problema que deve ser resolvido e planejar um local visando corrigi-lo.

Neste momento, é que devem ser introduzidas metodologias para a análise do espaço com o intuito de reorganizá-lo de forma a atender as necessidades físicas, psicológicas e sociais do usuário final. Existem diversas metodologias para análise de projeto de interiores como Qualificativos Associados, Escala Likert, Mapas Mentais, que vem como facilitadores no processo de análise do espaço e elaboração do projeto final. Estas metodologias analisam não só o espaço físico em si, mas levam também em consideração a perspectiva psicológica do usuário, ou seja, quais expectativas ele possui em relação aquele espaço, como ele supõe que este espaço o atenderia de forma satisfatória gerando bem-estar e qualidade de vida em seu dia a dia. Estas características estão presentes na metodologia Mapa Mental. Os mapas mentais são representações espaciais das imagens mentais de determinado espaço que são internalizadas na memória através da capacidade de percepção do homem. Assim, os mapas mentais formam uma ferramenta capaz de fornecer informações que irão auxiliar na compreensão do espaço físico vivenciado pelo usuário (MAFRA, 2009). Devido à importância de se elaborar projetos de interiores visando a necessidade do usuário final correlacionado com a funcionalidade do espaço, o presente estudo analisou através do método de mapas mentais a percepção de operadores de caixa de supermercado de uma rede de supermercados, tendo centrado sua análise em uma das filiais na cidade de Ponte Nova – MG, considerando a diversidade de usuários e a influência dos elementos ambientais presentes, com o intuito de modificar a realidade existente para melhorar não só a qualidade de vida dos trabalhadores como também o rendimento profissional deste que leva a uma melhoria da empresa como um todo.

Para tanto, o estudo teve como objetivo proporcionar às pesquisadoras uma experiência na aplicação da metodologia de análise de projetos de interiores,denominada Mapa Mental, a fim de complementar as concepções teóricas sobre o tema, visto que este é de extrema importância para os profissionais em Economia Doméstica. Todo ser humano possui uma percepção própria do espaço em que vive. Esta percepção é formada através da sua relação com o ambiente. De acordo com esta relação e do apropriamento de outras experiências adquiridas que se assemelham, é que o homem define seu conceito do espaço e o apreende em sua memória. Assim, segundo Stoklols (1978, apud Fischer 1989, apud Mafra, 1999), o usuário através dos seus esquemas cognitivos é capaz de aprender com os estímulos ambientais vivenciados. Através desses esquemas que são aprimorados por experiências já adquiridas, o usuário irá relacionar-se com seu ambiente, pois o ambiente possuirá um significado tanto geográfico como simbólico para ele.

Como dito, o usuário apreende em seus esquemas cognitivos a representação do conceito do espaço a que pertence, por isso, a aplicação de mapas mentais para analisar a percepção do indivíduo se torna fundamental visto que, este método consegue resgatar das imagens mentais estes conceitos. É fundamental compreender a perspectiva do usuário de um espaço antes de planejálo, pois assim, o projeto final proporcionará bem-estar físico, psíquico e social para quem o utilize. Assim confirma Ely et al. (2007), quando diz que o estudo entre o usuário e o ambiente é fundamental para registrar e analisar como que o usuário percebe e experimenta o espaço e até que ponto o ambiente contribui de forma positiva na realização das atividades e promoção do bem-estar. Para realizar uma análise que seja fiel a perspectiva do usuário, deve-se conhecer alguns conceitos importantes que irão auxiliar na compreensão exata e realização de um projeto que obtenha sucesso em sua totalidade.

Funcionalidade:

Pode-se definir funcionalidade como algo cuja concepção e execução têm em vista atender a função, destinada ao fim prático (AURÉLIO, 2009). Assim, segundo Mafra (1999), a funcionalidade possui três dimensões: uma semântica, uma emocional e uma estrutural. A dimensão semântica serve de elo entre o usuário e o projetista, buscando atender um fim prático, ser útil e ter uso que pode levar a uma mudança de percepção do que é funcional ou não. Interessante mencionar que a relação do usuário com o ambiente está mais fundamentada nos conceitos divulgados pelo mercado do que as crenças e valores dos mesmos em alguns momentos dessa interação homem/espaço. Enquanto que a dimensão emocional diz que o usuário se relacionará com o ambiente através de um significado geográfico e um valor simbólico e a construção de espaços funcionais dependem das associações que são construídas através de experiências anteriores. Já a dimensão estrutural visa projetos de espaços de trabalho que procuram criar ambientes que não exija muito esforço do usuário. Para um espaço de trabalho ser considerado funcional, segundo Mafra (1999), ele deve oferecer eficiência, maior produtividade e clima organizacional.

A autora segue dizendo que: embora a questão estrutural seja um dos primeiros obstáculos na interação usuário/espaço, um ambiente funcional não deve criar barreiras físicas nem psicológicas, pois espera-se que uma estrutura espacial definida muitas vezes por muros, móveis e pelo relacionamento entre usuários, quando bem assistidas, pode minimizar os efeitos negativos produzidos por um ambiente inadequado. Dessa forma, o conceito de funcionalidade deve ser construído a partir da realidade do usuário, porém,)  a sociedade industrial configurou o conceito de funcionalidade à racionalidade, ignorando os sentimentos do usuário, tendo racionalização dos espaços se fundindo à ideia de eficiência dos mesmos. Então, é muito importante levar em consideração o usuário do ambiente que será projetado para o desenvolvimento de determinadas atividades, para que este espaço seja considerado funcional, contudo observa-se, segundo Antonopoulos, “que apesar dos objetos do cotidiano do local estarem organizados a partir da atividade que se processa em diferentes ambientes através de seus arranjos, estes podem permitir ou não o uso do espaço de forma mais diversificada e funcional”. Para que um ambiente seja considerado funcional ele precisa que atender também as necessidades ergonômicas do usuário final. Assim, torna-se necessário falar sobre este aspecto e perspectiva.

Ergonomia:

Ergonomia é uma ciência aplicada ao projeto de máquinas, equipamentos, sistemas e tarefas, com o objetivo de melhorar a segurança, saúde, conforto e eficiência no trabalho, através do estudo de aspectos como postura e movimentos corporais, fatores ambientais, relação entre mostradores e controles, assim como cargos e tarefas. A ergonomia possui duas finalidades: o melhoramento e a conservação da saúde dos trabalhadores; a concepção e o funcionamento satisfatório do sistema técnico do ponto de vista da produção e da segurança. Ela tem contribuído para melhorar a vida cotidiana, tornando os meios de transportes mais cômodos e seguros, a mobília doméstica mais confortável e os aparelhos eletrodomésticos mais eficientes e seguros. Além de preocupar-se com os aspectos fisiológicos do projeto do trabalho, ou seja, com o corpo humano e como ele se ajusta ao ambiente.

De acordo com Böck, a relação homem-ambiente envolve dois aspectos:

• Aspectos físicos: a ergonomia preocupa-se em como a pessoa se confronta com os aspectos físicos de seu local de trabalho, onde inclui mesas, cadeiras, máquinas, computadores, ente outros;

• Aspectos de condições ambientais: envolve como uma pessoa relaciona-se com as condições ambientais de sua área de trabalho como temperatura, iluminação, barulho ambiente, entre outros.

O estudo da ergonomia baseia-se em outros conhecimentos de outras áreas científicas, como a antropometria, biomecânica, psicologia, fisiologia, toxicologia, engenharia mecânica, desenho industrial, informática, eletrônica e gerência industrial. Assim, a ergonomia integrou os conhecimentos relevantes dessas áreas e desenvolveu métodos e técnicas específicas para aplicar esses conhecimentos na melhoria do trabalho e das condições de vida.

Assim, a adoção de práticas ergonômicas implica em qualidade de vida no trabalho e acredita-se que essa seja condição essencial para o êxito dos sistemas envolvidos, quais sejam, homem/produção.

Antropometria:

A antropometria é a ciência que estuda as medidas e proporções das diferentes partes do corpo para determinar diferenças entre indivíduos e grupos. Esses dados da estrutura humana são importantes para dimensionar e avaliar máquinas, equipamentos, postos de trabalho e verificar a adequação deles às características antropométricas dos trabalhadores, dentro de critérios ergonômicos adequados, para que a atividade realizada não se torne fator de danos à saúde e desconforto ao trabalhador  Segundo Couto (1996, apud Silva et al., 2006), os estudos antropométricos estão bastante disseminados, a ponto de permitirem a definição de alturas e distâncias corretas ainda na fase de projeto, que é o momento de melhor aplicação prática dos conceitos antropométricos. As medidas antropométricas são dados essenciais para a concepção ergonômica para produtos de consumo (móveis) e bens de capital (máquinas). Para utilização desses dados, é importante avaliar os fatores que influenciam os dados antropométricos como raça, etnia, dieta, saúde, atividade física, postura, posição do corpo, vestuário, dentre outros (BINOTE, 2007). De acordo com Iida (1990), as variáveis antropométricas devem auxiliar o projetista no desenvolvimento de equipamentos e ambientes de trabalho que tenham como objetivo a satisfação dos envolvidos sociedade, e que esses produtos sejam testados com uma parcela representativa da população para ajustes, se necessário e, posteriormente, a produção em escala comercial.

Mobiliário:

Na concepção de um mobiliário deve-se considerar um prévio dimensionamento para o futuro usuário. Cadeiras e bancos devem ser selecionados juntamente com as mesas e bancadas para que se possa fazer uma escolha adequada para não prejudicar a saúde usuário  Para Costa (2005), para que os produtos, dentre eles o mobiliário, possam desempenhar adequadamente a sua relação com o usuário, estes devem ter algumas características como qualidade técnica: que é a parte que faz funcionar o produto, dos pontos de vista mecânico, elétrico, eletrônico ou químico, transformando uma forma de energia em outra, ou realizando funções, como cortes, soldas, dobragem e outras; qualidade ergonômica, que inclui a facilidade de manuseio, a adaptação antropométrica, o fornecimento claro de informações, as compatibilidades de movimentos e demais itens de conforto e segurança; e a qualidade estética que envolve a combinação de formas, cores, uso de material, texturas e cores, para que os produtos sejam visualmente agradáveis.

Na definição dessas qualidades, há também um forte componente que pode contribuir para afetar a preferência dos consumidores, o componente econômico. Muitas vezes, os fabricantes preferem alterar os aspectos estéticos e ergonômicos dos produtos por questões mercadológicas, porque as qualidades técnicas não são tão visíveis ao consumidor e também são de difícil modificação. Entretanto, existem, também, muitos casos de produtos que são tecnicamente bem resolvidos, mas fica difícil dotá-los das qualidades ergonômicas e estéticas. Deve haver uma grande interação entre essas três qualidades dos produtos e, sempre que possível, devem ser solucionadas de forma integrada, desde a fase inicial de concepção do produto ou sistema.

O mobiliário deve desempenhar algumas funções, práticas, estéticas, simbólicas, técnicas, funcional, ergonômica, semântica e de agradabilidade. A função prática engloba as questões ligadas à ergonomia física, de uso so produto. A função técnica está relacionada com a resistência e durabilidade dos materiais. A função estética configura o conceito do belo, do bonito. Já a função simbólica serve como símbolo de algo que se quer transmitir como o status do usuário. Como o presente estudo trata-se de trabalho sentado, visto que foram analisados operadores de caixa de supermercado, vê-se necessário falar um pouco sobre esta variável mobiliário, em especial, a questão da cadeira, visto que o operador de caixa de supermercado trabalha, a maior parte do tempo sentado, pois nesta posição se sente melhor. Considerando este aspecto, é necessário que se tenha uma cadeira adequada à função que desenvolve no local de trabalho.

Cadeira:

Para que uma cadeira ofereça conforto e segurança para o usuário deve ser levado em consideração alguns dados ergonômicos como segurança, postura, ângulos de conforto, dimensões adequadas para encosto e assento e revestimento, dentre outros, sempre em busca do bem-estar dos usuários (COSTA, 2005). A preocupação com a postura e com a qualidade dos equipamentos no trabalho começou a ganhar força na década de 1980, quando teve início a informatização dos escritórios. Desde então, os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT) - nova denominação das lesões por esforços repetitivos (LER) - passaram a afetar cada vez mais pessoas. De acordo com dados do Instituto Nacional de Prevenção às LER/DORT, associação sem fins lucrativos que mantém o Programa Nacional de Prevenção às LER/DORT, essas patologias são a segunda causa mais frequente de afastamento de trabalhadores no Brasil. A entidade informa ainda que, de cada 100 trabalhadores da Região Sudeste, um é portador deste tipo de patologia.

Os mais atingidos por esses distúrbios são profissionais do comércio e de serviços, como bancários, digitadores, atendentes de telemarketing, secretárias e jornalistas, a maior parte deles na faixa dos 30 aos 40 anos (BINOTE, 2007). De acordo com estudo feito para a referida associação, pelo economista José Pastore, da Universidade de São Paulo, no primeiro ano de afastamento de um funcionário, as empresas gastam em média 89 mil reais com encargos sociais e com o salário de seu substituto. Somados, os custos patronais com o afastamento por doenças ocupacionais no Brasil representam cerca de 12,5 bilhões de reais/ano, fora outros 20 bilhões de reais anuais para pagamento de aposentadorias, indenizações e tratamento médico. Esses números mostram que é melhor, e mais barato, investir na prevenção e na melhoria das condições de trabalho, aí inclusos mobiliário e acessórios adequados à atividade (BINOTE, 2007). As cadeiras com melhores qualidades ergonômicas permitem a alternância postural e ao mesmo tempo são capazes de evitar o desconforto da posição por períodos mais longos; as inadequadas induzem à posturas erradas, que podem desencadear problemas à saúde do trabalhador.

Características de uma boa cadeira:

A principal qualidade da boa cadeira é ser apropriada à atividade que o usuário desenvolve no dia a dia. As cadeiras de escritório para funções que exigem o uso constante do computador devem ser estofadas. Quanto maior a densidade da espuma, maior será a durabilidade do móvel; as laminadas, por sua vez, têm vida útil curta e não resistem ao uso diário por mais de um ano. por mais de um ano (BINOTE, 2007). A espuma ideal tem densidade entre 45 e 65 cm, dependendo da qualidade do material, do design, da largura e da espessura do assento e do encosto. As regulagens obrigatórias envolvem a altura do assento e a posição do apoio lombar no encosto; por isso, quanto mais regulagens o modelo oferece, mais facilmente ele se adapta aos diferentes usuários. É importante que o assento seja liso e tenha pequena inclinação para trás; também deve ter dimensões adequadas para acomodar nádegas e coxas, deixando somente as dobras do joelho para fora. As bordas do assento requerem acabamento arredondado para não comprometer a circulação sanguínea dos membros inferiores (BINOTE, 2007). As cadeiras para as funções que implicam o uso constante de computador como a função dos operadores de caixa, devem apresentar também encosto dorsal mediano e levemente côncavo, acompanhando a curvatura do dorso no sentido horizontal - os encostos acentuadamente côncavos e os planos são desconfortáveis. Elas devem ter cinco sapatas para garantir estabilidade (BINOTE, 2007). Os rodízios não podem ter seu movimento dificultado pelo piso. Por sua vez, o encosto ideal oferece ajuste de altura e a possibilidade de pequena inclinação para trás, recurso que ajuda na correta alternância postural. O apoio para os braços é desaconselhável, pois, muitas vezes, restringe a aproximação entre a cadeira e a mesa, obrigando o usuário a assumir posturas incorretas. Caso esse item esteja previsto, convém que ele tenha altura e largura reguláveis, para se adaptar aos diferentes usuários, ou seja, mais altos ou mais obesos.

Local de estudo:

O presente estudo foi realizado na cidade de Ponte Nova, localizada na Zona da Mata Mineira, que se distancia 170Km da capital do estado, Belo Horizonte. A população estimada do município em 2006 era de 70.344 habitantes (PREFEITURA, s.d.). A cidade conta com um vasto número de supermercados, como por exemplo, o supermercado Poupy, Leve Mais, Moreirão, Oliveira, Solução, Uai, Bahamas, dentre vários outros, sendo um destes objeto do referido estudo. Esta empresa é genuinamente mineira, com fortes ligações com a comunidade nas cidades onde mantém suas unidades. A empresa iniciou suas atividades comerciais com um bar, progredindo para uma mercearia rapidamente, sendo esta evolução muito significativa. Em apenas 24 anos, a referida empresa experimentou grande crescimento, contando com 15 lojas na cidade de Juiz de Fora, e mais seis lojas em outras cidades de Minas Gerais (Ponte Nova, Ubá, Barbacena, Cataguases, Viçosa e Além Paraíba). É considerada a 3ª rede de supermercados em Minas e a 18ª no Brasil. Atuando no segmento varejista, com um numero aproximado de 2.500 colaboradores diretos e centenas de empregos indiretos (SITE da empresa, s.d.). O supermercado em estudo tem como missão: vender pelo preço justo, sendo a melhor alternativa do mercado varejista, primando pela satisfação dos clientes, estabelecendo parcerias com os fornecedores, investindo no desenvolvimento dos colaboradores e atuando em conjunto com a comunidade na busca do bem comum (SITE da empresa, s.d.).

População e amostra:

A população do presente trabalho foi composta por 34 trabalhadores residentes na cidade de Ponte Nova, que trabalhavam como operadores de caixa no supermercado estudado. A amostra foi composta por aproximadamente 20% dos operadores de caixa, totalizando seis operadores, sendo todos do sexo feminino. A sistematização das etapas para a obtenção dos dados do estudo de caso baseou-se na combinação de três diferentes instrumentos de investigação: Observações, questionários (Apêndice 1) e o Mapa Mental. Cabe ressaltar que houve uma ordem sequencial para a aplicação de cada etapa e a opção de combinar os métodos teve a intenção de complementar as limitações apresentadas por cada um deles.

Para o estudo de caso, as observações realizadas tiveram, a princípio, o intuito de familiarizar os pesquisadores com a empresa e com os funcionários. A primeira observação feita pelos pesquisadores foi importante para o conhecimento da estrutura física do local e para a confirmação da escolha do ambiente de estudo: setor de operadores de caixa da filial da rede de supermercados em Ponte Nova, e também para a estruturação da observação no ambiente escolhido. As observações no setor de operadores de caixa foram no total de duas, ocorrendo todas no período matutino, sendo realizadas em média de 4 horas/dia. Tinham como objetivo avaliar a apropriação e uso do espaço pelos usuários. Procurou-se identificar seu perfil e hábitos, descrevendo também a rotina na empresa, as formas de interação social, a organização espacial e a apropriação do espaço. As descrições do espaço físico (dimensões, as características e as condições dos objetos de trabalho e dos acabamentos), do mobiliário e do layout foram fundamentais para compreender e justificar a percepção e o comportamento dos usuários. As técnicas usadas para a realização do método de observação foram principalmente registros fotográficos e anotações que ajudaram na estruturação das entrevistas.

2 Aspectos do ambiente do trabalho:

Dados das observações:

No que se refere à organização espacial deste supermercado, percebeu-se que esta possuía arranjos físicos de fácil leitura espacial e orientabilidade, confirmando que o projeto foi adaptado à função atual. Os ambientes eram divididos de acordo com a função que cada um exercia, tendo placas informativas para facilitar a identificação do usuário. O local era bem amplo e iluminado, possuindo inúmeros pontos de ventilação e apresentando muitos ruídos devido a barulho de máquinas e a própria comunicação entre os clientes. Através desta observação pôde-se perceber também que os operadores de caixa trabalhavam em diferentes turnos considerando os existentes na empresa, não tendo cada operador um turno fixo. Eles possuíam um momento em que saíam dos caixas para tomar um café e descansar em torno de 15 minutos, porém, esta pausa não tinha horário certo, variando de acordo com o movimento. Pôde-se perceber também que os equipamentos usados pelos operadores são novos e considerados de ótima qualidade, por isso, não observou-se nenhum desconforto nos operadores enquanto utilizavam os mesmos. Os acabamentos do local eram de boa aparência, o piso era antiderrapante, as paredes eram pintadas nas cores que remetiam à logomarca da empresa, as bancadas dos caixas eram bem arrematadas não apresentando nenhuma característica que pudesse ferir seus usuários ou transeuntes (quinas, prego aparente, dentre outros) e as cadeiras eram estofadas.

Percebeu-se, também, que os operadores, enquanto exerciam suas funções em seu espaço, mantinham expressões faciais de preocupação, apesar de que estes estavam sempre sorrindo, brincando e conversando uns com os outros devido a proximidade dos caixas. As cadeiras usadas pelos operadores se encontravam de acordo com as normas tendo cinco sapatas, aro de apoio aos pés, acento com 45 cm de largura e profundidade, as regulagens obrigatórias envolvendo a altura do assento e a posição do apoio lombar no encosto, dentre outros. Os operadores de caixa contavam sempre com a presença de seus coordenadores e dos gerentes gerais da empresa que estavam sempre por perto, ajudando quando necessário. Através destas observações, pode-se familiarizar com os funcionários, tornando mais fácil a realização das etapas seguintes.

Dados da relação Homem-ambiente, obtidos a partir do questionário:

De acordo com os dados dos questionários, os operadores de caixa do estabelecimento analisado eram do sexo feminino, e possuíam idade entre 28 e 43 anos. A maioria das funcionárias possuíam ensino médio completo, sendo que apenas uma o tinha incompleto, mas estava cursando. O tempo de serviço na função de operador de caixa variou de 9 meses a 24 anos. Com relação a opinião que o operador de caixa tinha sobre o serviço que realizava, este possuía satisfação na execução de sua tarefa apesar de que 33,2% dos operadores terem relatado de que, às vezes, o trabalho era estressante e, ou complicado. Quando questionados sobre como era o serviço de operador de caixa, 83,3% disseram que era muito agitado na maior parte do tempo e 16,6% que é agitado, mas às vezes tranquilo. Um desconforto relatado por 33,3% dos questionados foi a dor nas costas, 16,7% relatou ter dores de cabeça, mas 50% disseram não sentir nenhuma enfermidade durante o trabalho. Em relação ao bem-estar físico, 50% dos entrevistados se sentiam muito cansados ao final da jornada de trabalho, para 33,2%, o cansaço dependia do movimento de pessoas no supermercado, já 16,6% se sentiam bem fisicamente, ao final da jornada.

Os equipamentos e ferramentas utilizados no trabalho foi motivo de divergência na percepção dos operadores de caixa, pois para 33,2% eles atendiam suas necessidades no trabalho por serem novos e sempre passarem por revisões. Outros 50% consideraram que parcialmente as ferramentas e equipamentos estavam de acordo, devido ao fato de as cadeiras não serem confortáveis. Já para 16,6%, as ferramentas não se adequavam as necessidades do trabalho. Quando questionados se os elementos externos ao trabalho, como ruído, temperatura, causam danos, 33,2% acreditavam que sim, que o ruído produzido pela voz dos clientes. Para 33,2%, a temperatura baixa lhes causava desconforto. Ainda para 16,6%, as cadeiras sem apoio para os pés era o causador de desconforto. Por fim, 16,6% consideravam que os elementos externos não geravam desconforto no desenvolvimento do trabalho. Conforme respostas obtidas com o questionário, 83,3% preferiam realizar o trabalho sentado, pois nesta posição se sentiam menos cansados. Apenas 16,6% não opinaram sobre sua preferência. Todos os operadores de caixa relataram satisfação com o trabalho realizado. Porém, 50% deles mudaram algo para melhorar como, por exemplo, não trabalhar aos domingos e feriados, aumentar o salário e melhorar a relação com os outros funcionários. A carga horária de trabalho foi considerada boa em 50% das respostas obtidas, ela era boa ou estava correta. Já para 33,2% ,ela era pouco pesada. E apenas 16,6% não opinaram sobre o assunto. Com relação ao intervalo 50% dos questionados não opinaram, 33,2% disseram que o tempo de intervalo era bom e somente 16,6% relataram que o intervalo era pouco.

Dados conseguidos com o uso da metodologia Mapa Mental:

Notou-se, após a análise dos desenhos sobre o caixa de supermercado, que todas vislumbravam alterações na cadeira usada, lembrando que tal necessidade foi verbalizada pelos operadores ainda na fase dos questionários. Apesar de algumas mencionarem quando questionadas que os equipamentos e ferramentas de trabalho atendem suas necessidades, todas, na hora de desenhar um local de trabalho desejado, desenharam uma cadeira maior do que a usada, deixando claro o desejo por mobiliários mais confortáveis. Outro aspecto apresentado pela maioria como situação desejada de trabalho foi o aumento de espaço entre as bancadas que os cercam, demonstrando novamente o desejo de maior conforto. Este último item foi citado em 67% dos desenhos. Houve também, por parte dos respondentes, a especificação de algumas outras modificações demonstradas nos desenhos, onde uma delas foi a mudança de lugar da gaveta onde fica o dinheiro, que foi apresentada em 16,6% dos mapas.

O grupo de operadores que participaram do estudo realizando o desenho dos mapas mentais demonstraram grande dificuldade em propôr um maior número de alterações, devido à falta de tempo para realizar o desenho, visto que, este método foi aplicado pouco tempo antes destes operadores iniciarem a jornada de trabalho. Outra importante conclusão resultante da aplicação deste método é o fato de os operadores não acreditarem que estas mudanças possam ser realizadas devido à sensação de impotência destes e, isso, implica na falta de interesse em demonstrar todas as mudanças que sentem que seria importante estar negocinado para a modificação do espaço de trabalho, gerando como consequência, maior satisfação com o espaço para o desenvolvimento do seu trabalho.

Sugestões para melhoria do espaço de trabalho vivenciado:

Sugeres-se que cada item especificado pelo trabalhador em relação ao ambiente físico seja considerado, na perspectiva de se realizar um estudo mais aprofundado dos aspectos salientados para que os mesmos possam contribuir para uma proposta de redefinição do espaço que antes de ser para ele, a proposta também será estruturada pelos mesmos. Em relação à cadeira, sugere-se que, primeiramente, seja realizada uma avaliação para concluir se o desconforto da cadeira é realmente proveniente de seu tamanho ou se é da ausência de conhecimento dos funcionários quanto à utilização das regulagens existente na mesma, para que a partir de então se realize mudanças mais compatíveis, considerando o que de fato gera insatisfação no uso, para garantir aos usuários um maior conforto e rendimento durante o trabalho. Além de aumentar o espaço entre as bancadas de trabalho, para também gerar maior conforto na realização do trabalho dos operadores.

Através deste estudo, fez-se a análise do local de trabalho de operadores de caixa de um supermercado com o intuito de descobrir como os funcionários do supermercado estudado percebiam o seu local de trabalho, visando modificar a realidade existente para melhorar não só a qualidade de vida dos trabalhadores como também o rendimento profissional deste que leva a uma melhoria da empresa como um todo. Assim, através de observações, percebeu-se que o projeto do local possuía arranjos espaciais de fácil leitura; o ambiente de trabalho era divido de acordo com cada função e as condições ambientais do local, em geral, eram boas. Os funcionários trabalhavam em turnos diferenciados e tinham 15 minutos de descanso. Os equipamentos, em geral, eram de boa qualidade e novos. Os coordenadores e gerentes do supermercado estavam sempre junto aos caixas, ajudando os operadores quando necessário. Analisando os questionários aplicados, constatou-se que a maioria dos entrevistados possuía satisfação na execução das suas tarefas, entretanto, havia um grupo que relatou que o trabalho, às vezes, era estressante e complicado. Em relação ao serviço de operador, a grande maioria disse que era agitado na maior parte do tempo. Sobre as enfermidades relatadas durante a jornada de trabalho, a principal apontada foi a dor nas costas, mas houveram funcionários que relataram não sentir nenhuma dor. Sobre os equipamentos e ferramentas utilizados no ambiente, constatou-se que a grande maioria estavam de acordo com as suas necessidades. A maioria dos funcionários preferia realizar o trabalho sentado e a carga horária segundo eles era boa.

Por fim, na análise dos mapas mentais, pôde-se perceber nos desenhos que os operadores sentiam necessidade de cadeiras mais confortáveis, espaços maiores entre as bancadas que os cercavam e uma mudança de uma das bancadas de lugar para que os funcionários possam ter uma maior mobilidade dentro da área do trabalho. Assim, conclui-se que os operadores estavam inseridos em um ambiente de trabalho que apresentava algumas falhas que devem ser corrigidas para gerar conforto e um maior rendimento do funcionário. Este estudo também proporcionou uma grande experiência aos envolvidos na aplicação da metodologia de análise de projetos de interiores, em especial, Mapas Mentais, complementando as concepções teóricas adquiridas na disciplina Metodologia para análise de projetos de interiores, disciplina esta ministrada no curso de Economia Doméstica, da Universidade Federal de Viçosa. No decorrer do trabalho foram percebidas algumas limitações como amplitude e complexidade do assunto, ausência de materiais sobre a temática e metodologia proposta para o estudo, dificuldades para comunicar com os operadores, insuficiência de tempo para as entrevistas, dentre outros. Este estudo foi inovador, visto que o tema abordado é pouco estudado e, ainda, permitiu abrir oportunidades para outros estudos mais abrangentes sobre o aspecto estudado.