A perspectiva escatológica do Antigo Testamento
Mobilização Missionária
1 Introdução
Para entender corretamente a escatologia bíblica, é preciso vê-la como um dos aspectos integrantes de toda a revelação bíblica.A escatologia não deve ser vista como algo encontrado apenas em livros como Daniel e Apocalipse, mas como algo que domina e permeia toda a mensagem da Bíblia.
Para um melhor compreensão,precisamos apreciar mais de perto a natureza da mensagem bíblica como um todo.Abaixo,examinaremos a perspectiva escatológica do Antigo Testamento.
Com uma certa frequência,teólogos da tradição liberal têm dito que há pouca escatologia no Antigo Testamento. Devemos concordar,naturalmente,que os escritores do Antigo Testamento não fornecem ensinamentos claros a respeito da qual chamamos de "escatologia futura": vida pós-morte,segunda vinda de Cristo,juízo final e assim por diante,Mas há outro sentido,segundo o qual o Antigo Testamento está orientado escatologicamente do princípio ao fim. George Ladd o descreve da seguinte forma:
Conclui-se que a esperança de Israel, pelo reino de Deus, é uma esperança escatológica, e essa escatologia é a consequência inevitável da visão que Israel tem de Deus. O antigo criticismo wellhauseniano insistia que a escatologia era um desenvolvimento tardio que emergiu somente na época pós-exílica. Recentemente, o pêndulo tem se inclinado para outra direção, e o caráter fundamental da escatologia israelita tem sido reconhecido. Pode-se citar um número cada vez maior de eruditos que reconhece que foi o conceito de Deus, ocupando-se com Israel na história redentiva, a causa do surgimento da esperança escatológica.
Um dos eruditos citados por Ladd é T. C. Vriezen, professor de Estudos do Antigo Testamento da Universidade de Utrecht. Vriezen comenta que a visão escatológica que se encontra no Antigo Testamento é “um fenômeno israelita que não se encontra fora de Israel”.Ele continua:
A escatologia não surgiu quando o povo começou a duvidar da veracidade do reinado de Deus no culto, mas sim quando eles tiveram de aprender, em meio a um grande sofrimento, a confiar em Deus, pela fé somente, como o único fundamento firme da vida, e quando esse realismo da fé esteve dirigido criticamente contra a vida do povo, de modo que a catástrofe iminente era considerada uma intervenção divina plenamente justa e, ainda, de modo a ser confessado que o Deus santo permanecia inabalado em sua fidelidade e amor a Israel. Dessa maneira, a vida de Israel na história passou a ter um aspecto duplo: por um lado, o juízo era considerado próximo, tangível, e a recriação da comunidade de Deus como algo que se avizinhava. A escatologia é uma certeza religiosa que emana diretamente da fé israelita em Deus, conforme enraizado na história de sua salvação.
Por causa disso, Vriezen examinou a escatologia essencial à mensagem tanto do Antigo como do Novo Testamento:
No coração da mensagem do Antigo Testamento está a expectativa do reino de Deus, e em Jesus de Nazaré está o cumprimento inicial dessa expectativa , isso subjaz á mensagem do Novo Testamento. O verdadeiro cerne de ambos,Antigo Testamento e Novo Testamento,é portanto, a perspectiva escatológica.
Examinemos a perspectiva escatológica do Antigo Testamento com mais minúcia, vendo alguns conceitos específicos da revelação, nos quais essa perspectiva está incorporada. Comecemos com a expectativa do redentor vindouro. A narrativa da queda nos primeiros versículos de Gênesis 3 é imediatamente seguida pela promessa de um redentor futuro no versículo 15:
“Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. Esta passagem, com frequência denominada “a promessa-mãe”, passa a determinar todo o Antigo Testamento. As palavras são endereçadas à serpente, mais tarde identificada como um agente de Satanás (Ap 12.9; 20.2).A inimizade instalada entre a raça humana e a serpente implica que Deus, que também é inimigo da serpente, será amigo do homem. Encontramos a promessa do redentor vindouro na predição de que finalmente o descendente da mulher esmagará a cabeça da serpente.
A inimizade instalada entre a raça humana e a serpente implica que Deus, que também é inimigo da serpente, será amigo do homem. Encontramos a promessa do redentor vindouro na predição de que finalmente o descendente da mulher esmagará a cabeça da serpente.
Esse redentor vindouro, descrito em Gênesis 3.15 apenas como o descendente da mulher, é designado descendente de Abraão em Gênesis 22.18 (cf. 26.4; 28.14).Mais adiante, Gênesis 49.10 especifica que o redentor deverá ser um descendente da tribo de Judá. Mais tarde, no curso da revelação do Antigo Testamento, aprendemos que o redentor vindouro será um descendente de Davi (2Sm 7.12-13).
Após o estabelecimento da monarquia, o povo de Deus do Antigo Testamento reconheceu três ministérios especiais: de profeta, sacerdote e rei. O redentor vindouro era aguardado como o auge e o cumprimento dos três ministérios especiais. Ele deveria ser um grande profeta: “O SENHOR, teu Deus, te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim [Moisés]; a ele ouvirás” (Dt 18.15). Ele seria um sacerdote eterno:
“O SENHOR jurou e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque” (Sl 110.4). Ele também deveria ser o grande rei do seu povo: “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta ó filha de Jerusalém: eis aí te vem o teu Rei...” (Zc 9.9).
Com referência ao reinado do redentor vindouro há uma predição específica de que ele se assentará no trono de Davi. O profeta Natã disse a Davi: “Quando teus dias se cumprirem e descansares com teus pais, então, farei levantar depois de ti o teu descendente, que procederá de ti, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e eu estabelecerei para sempre o trono do seu reino” (2Sm 7.12-13; cf. Is 9.7).
Podemos também perceber que a vinda do futuro Rei e Redentor é identificada com a vinda de Deus ao seu povo. Em Isaías 7.14, por exemplo, o redentor vindouro é denominado Emanuel, que significa “Deus conosco”. Em Isaías 9.6, um dos nomes atribuídos ao redentor prometido é “Deus Forte”. A. B. Davidson faz um comentário a respeito nas seguintes palavras:
Algumas vezes, a vinda “de Jeová” é cumprida de acordo com a esperança messiânica – Jeová desce para junto de seu povo no Messias, sua presença é manifestada e percebida nele (...) Deus está plenamente presente, com propósitos redentores, no rei messiânico. Essa é a concepção messiânica mais sublime.
2 A bíblia e o futuro
Ao lado da concepção de que o redentor vindouro será um profeta, um sacerdote e um rei, porém, encontra-se em Isaías a visão de que o redentor será o servo sofredor de Deus. O conceito de “servo do Senhor”, que aparece com frequência em Isaías, algumas vezes designa a nação de Israel e, outras vezes, descreve o redentor vindouro.
Entre as passagens de Isaías que descrevem o Messias vindouro como o servo do Senhor estão: 42.1-4; 49.5-7; 52.13-15, e todo capítulo 53. É especialmente Isaías 53 que retrata o redentor vindouro como o servo sofredor de Jeová: “Ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (v. 5).
De passagens como essas nós aprendemos que o redentor, cuja vinda o crente do Antigo Testamento aguardava, era considerado, pelo menos no tempo dos últimos profetas, alguém que iria sofrer por seu povo a fim de redimi-lo.
Outra forma pela qual o Antigo Testamento descreve a vinda do redentor é como o Filho do Homem. Encontramos esse tipo de expectativa particularmente em Daniel 7.13-14.
Eu estava olhando nas minhas visões da noite,
e eis que vinha como as nuvens do céu
um como o Filho do Homem,
e dirigiu-se ao Ancião de Dias,
e o fizeram chegar até ele.
Foi-lhe dado domínio,
e glória, e o reino,
para que os povos, nações e homens de todas as línguas
o servissem;
o seu domínio é domínio eterno,
que não passará,
e o seu reino
jamais será destruído.
No Novo Testamento, o Filho do Homem é identificado com o Messias.Em resumo, podemos dizer que o crente veterotestamentário aguardava um redentor, de maneiras diversas e pelo sentido de várias figuras, que deveria vir em um tempo futuro (ou nos “últimos dias”, para usar uma figura de linguagem comum ao Antigo Testamento) para redimir seu povo e, também, para ser uma luz aos gentios. Pedro, em sua primeira epístola, nos dá um quadro vívido sobre o modo como os profetas do Antigo Testamento aguardavam a vinda desse Redentor messiânico:
A respeito desta salvação, os profetas, que falaram da graça que haveria de vir para vós, buscaram atentamente, e com o maior cuidado, procurando descobrir a época e as circunstâncias às quais o Espírito de Cristo neles estava-se referindo, quando ele predisse os sofrimentos de Cristo e as glórias que se seguiriam (1Pe 1.10-11, NIV).
Outro conceito da revelação bíblica no qual a perspectiva escatológica do Antigo Testamento está incorporada é o do reino de Deus. Apesar de o termo “reino de Deus” não ser encontrado no Antigo Testamento, o pensamento de que Deus é rei está presente particularmente em Salmos e nos profetas. Deus é denominado, com frequência, de Rei, tanto de Israel (Dt 33.5; Sl 84.3; 145.1; Is 43.15), como de toda a terra (Sl 29.10; 47.2; 96.10; 97.1; 103.19; 145.11-13; Is 6.5; Jr 46.18). Porém, devido à abundância de pecado e de rebelião nos homens, o senhorio de Deus é efetuado apenas imperfeitamente na história de Israel.
Por causa disso, os profetas aguardavam um dia em que o reinado de Deus pudesse ser provado plenamente, não somente por Israel, mas pelo mundo inteiro.
É Daniel que desenvolve a ideia do reino vindouro. No capítulo 2 de sua profecia, ele fala acerca do reino que Deus um dia levantará, que nunca será destruído, que quebrará todos os outros reinos em pedaços e permanecerá para sempre (v. 44-45).E em 7.13-14, como vimos, àquele um como Filho do Homem é dado um domínio eterno e um reino que não será destruído. Por causa disso, Daniel prediz não apenas a vinda de um reino futuro, mas conjuga esse reino com a vinda do redentor, a quem descreve como o Filho do Homem.
Mais um conceito veterotestamentário com implicações escatológicas é o da nova aliança. Como muitos eruditos do Antigo Testamento têm mostrado, a ideia da aliança é central à revelação do Antigo Testamento.Nos dias de Jeremias, entretanto, o povo de Judá havia quebrado a aliança de Deus com eles por meio de suas idolatrias e transgressões. Embora o tema principal das profecias de Jeremias seja o de condenação na ruína, ele prediz que Deus fará uma nova aliança com o seu povo: “Eis aí vêm dias, diz o SENHOR, que firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; porquanto eles anularam a minha aliança” (Jr 31.31-32; ver também 33-34). A partir do Novo Testamento (ver Hb 8.8-13; 1Co 11.25) fica claro que a nova aliança predita por Jeremias foi instaurada por Jesus Cristo.
Entre os conceitos escatológicos do Antigo Testamento tem muita importância o conceito da restauração de Israel. Após a divisão do reino, Israel e Judá caíram mais e mais na desobediência, idolatria e apostasia. Por isso, os profetas pregaram que, devido à desobediência, o povo de ambos os reinos seria levado ao cativeiro por nações hostis, e ficaria disperso por terras estrangeiras. Mas em meio a essas predições sombrias há também profecias de libertação. Vários profetas predisseram a futura restauração de Israel do seu cativeiro.
3 Fundamentos Escatológicos do Novo Testamento
Passando à doutrina escatológica do Novo Testamento, é interessante notarmos os numerosos e amplos textos escatológicos e apocalípticos pelos quais dão-se a impressão que sejam profundamente influenciados pela doutrina do Antigo Testamento.Por isso, aparece, de forma não tão clara, a consciência de uma situação escatológica nova, que determina um novo ato interpretativo da escatologia antiga. A situação nova dessa economia neotestamentária se adverte imediatamente na consciência do valor que assume nela o presente como cumprimento da esperança para o qual foram anexados os últimos dias (cf. At 2,17; Hb 1,2), a última hora (cf. 1Jo 2,18) da história.
Entretanto, somado a isso, nota-se a razão escatológica deste presente cumprimento: a pessoa de Cristo, o último Adão (cf. 1Cor 15,45) com quem se cumpre a obra de Deus que abarca a tudo e a todos como o Primeiro e o Último (cf. Ap 1,17), com o qual irrompe, através de sua cruz e ressurreição, o futuro de Deus no centro do tempo histórico, antecipando-lhe o fim.
Jesus de Nazaré não anunciou um fim do tempo depois de si, mas antecipou em si , pela sua cruz e ressurreição, a era final da história. Também antecipou o acesso nosso aos bens messiânicos, à vida eterna já oferecida pelo Pai na pessoa do Filho. Portanto, esta relação das promessas, que se cumprem no presente, não anula, mas reforça a ulterior esperança ao eschaton definitivo da história. “Isso constitui [...] o paradoxo da tensão entre «presente-futuro» como nota específica da escatologia neotestamentaria”.Isso constitui, ainda, o problema fundamental da escatologia cristã do Novo Testamento, que, em qualquer modo, reassume unitariamente todos os seus outros aspectos.
Há uma tensão entre presente e futuro que emerge no aproximar-se dos dados da teologia do Novo Testamento, começando já por aqueles sinóticos acerca da pregação de Jesus até sua proclamação inaugural como nos aparece na redação do Evangelho de Marcos (1,15) na qual a irrupção escatológica do Reino é afirmada já no agora do tempo cumprido e na afirmação da sua aproximação, que faz alusão a uma presença própria e dinâmica em vias de conclusão.
Este aspecto característico da escatologia neotestamentária que ecoa em muitas parábolas dos evangelhos sobre o Reino (cf. Mc 4 e Mt 13) nas quais aparece como realidade em vista de um crescimento e em alguns dados importantes para o futuro, como o que encontramos no Evangelho de Marcos: “[...] aquele que, nesta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e de minhas palavras, também o Filho do Homem se envergonhará dele quando vier na glória do seu Pai com os santos anjos”(Mc 8,38).
Sobre o juízo futuro do Filho do Homem, o qual porém já agora vai amadurecendo-se no tempo presente do ministério de Jesus, que impõe aos homens sua radical decisão quanto à postura que se deve assumir diante a ele. Se em alguns lugares dos Sinóticos se fala, no entanto, em termos de manifestação repentina do Filho do Homem, quase que anulando a importância da duração do presente, que se coloca já na salvação do homem, como caráter repentino de intensidade não tanto no sentido cronológico, mas no sentido qualitativo, como avivamento que retoma a postura própria dos homens frente ao evento mesmo.
Para quem se encontra nessa postura espiritual, a vinda do Filho do Homem será repentina como aquela do ladrão à noite (cf. Mt 24,43-44). A discriminação escatológica futura é, antes de tudo, já determinada pela decisão escatológica do presente, nos confrontos do Cristo (cf. Mt 25). Tais dados evangélicos mostram claramente como a escatologia pertence ao futuro, assim como a proclamação de uma realidade tal, que já agora advém ao homem por causa do evento escatológico, na pregação do Reino e na sua definitiva instauração, na morte e ressurreição de Jesus, que determina uma mudança fundamental na própria história.
Um dos problemas que domina o estudo da escatologia no Novo Testamento é o que lança seu olhar sobre o próprio relacionamento entre o presente da vida das comunidades cristãs e sua espera parusíaca. Deixando à parte as teses já superadas pelo escatologismo consequente que embate com quanto tudo que já se tenha dito acerca deste assunto, que se fecha se a esperança acerca da vinda do Senhor, tão viva nas primeiras comunidades cristãs, diante do fato de experiência do indefinido prolongar-se do transcorrer do tempo não seja em qualquer modo posta em crise, determinando, assim, aquilo que viria a ser o problema central escatológico do cristianismo primitivo.
Há diversas afirmações da parte de Paulo que poderiam tentar, de algum modo, avaliar a ideia de que os primeiros cristãos esperavam uma parusia próxima, dentro de sua própria geração. Isso é uma questão de pertença aos problemas exegéticos do passado. Na verdade, as afirmações que expressam-se sobre o devir breve (cf. 1Cor 7,29) do tempo não aparecem tão intensas no sentido de uma iminência cronológica.
Essas são, portanto, as determinações qualitativas do tempo cristão presente no Senhor que se faz próximo (cf. Fil 4,5), da qual essa aproximação é mais um conceito teológico que cronológico do presente cristão que nos consente afirmar que as comunidades pascais que vivem na alegria da experiência da plenitude do dom do Espírito Santo não padeceram nas crises por conta do retardamento da parusia, como se o tempo já inaugurado pela ressurreição e pelo pentecostes fosse ainda um tempo vazio da salvação que se coloca na espera do evento futuro da parusia.
Se assim tivesse acontecido, qual seria a novidade definitiva introduzindo a vinda do Cristo e o cumprimento da hora pascal em concordância com o antigo eon da promessa? Diversamente a isso, ela, ao contrário, descreve a situação da igreja apostólica após a ressurreição, motivo da sua experiência sobreabundante dos dons do Espírito e da expansão missionária da pregação apostólica do Evangelho que tomava consciência da plenitude dos valores salvíficos através dos tempos.
Era mesmo uma plenitude não ainda assimilada da totalidade da humanidade e da sua história que mantinha viva a espera pela consumação definitiva do plano de Deus (parusia). Ela estava tomada, assim, não pela preocupação de encontrar um preenchimento ao decurso do tempo, para completar o seu vazio, se bem pelo desejo de levar à sua total expansão a plenitude cristologico-soteriológica presente da história, preparando, assim, o momento final da parusia do Cristo.
A demora não é pensada no Novo Testamento como enganação da esperança dos primeiros cristãos. Ela é como que uma tomada de consciência da exigência de crescimento nas suas dimensões universais do evento escatológico centralizado no tempo. Enquanto que na escatologia judaica a perspectiva apocalíptica do fim buscava percorrer a temporalidade da história, cuja finalidade dos tempos implicava no fim da própria história e a consumação do século presente, assinalando a passagem repentina (iminência apocalíptica) ao eon anterior, meta-histórico, a novidade da escatologia cristã está, ao contrário, na integração da eternidade e do eon futuro no tempo histórico, que se faz presente entre o tempo da espera e o fim da história, decorrendo em um tempo longo, no qual já agora se cumpre a própria salvação, através de Cristo, que reina vitorioso, que é o triunfo da vida sobre a morte, da verdade da fé que conforta o caminho dos crentes.
A relação entre o antigo e o novo eon redefine-se na proclamação que Jesus faz do Reino de Deus já próximo e sua história precedente no Antigo Testamento. No tempo de Jesus, podem-se distinguir algumas manifestações peculiares acerca da esperança do Reino de Deus vindouro. A primeira dessas manifestações se faz na esperança messiânico-política que tem, como ponto de partida, a ideia de que ao Reino de Deus contrapõe-se o domínio estrangeiro em Israel. Nesse caso, o sentido conotado ao Reino é o de libertação do jugo das tropas de ocupação estrangeira.
Outra manifestação é a que diz respeito da esperança rabínica quanto ao Reino de Deus, que vê na culpa de Israel a razão pela qual o Reino de Deus, que era visível, acabou por afastar-se de Israel. Desse modo, agora, o Reino de Deus está oculto, porém, se a Lei fosse observada novamente, o Reino de Deus se manifestaria novamente, com a obediência dos israelitas à Lei. Há também a manifestação de uma esperança apocalíptica, que aposta no breve desaparecimento do eon antigo, para, então, começar um novo, bem diferente.
No Novo Testamento, há um vocábulo significativo: o Reino de Deus. Esse conceito encontra-se, principalmente, nos Evangelhos Sinóticos, pois é narrado e proclamado por Jesus. Entretanto, a proclamação e o anúncio do Reino de Deus presentes nos Sinóticos não correspondem às manifestações acima verificadas. Na visão de Jesus, a incursão do Reino de Deus está ligada à sua pessoa, à sua atuação (cf. Lc 11,20). Porém, Jesus não quer ser o messias político no sentido esperado pelos israelitas. No intuito de excluir essa afirmação, ele parece evitar o uso do título de messias para si.
“[...] Jesus enfatiza que o Reino de Deus é, antes de tudo, uma dádiva. ‘O tempo está cumprido, o reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no evangelho’ (Mc 1,15)”. [45] Percebe-se que há, primeiramente, o uso de um indicativo (o tempo está; o reino de Deus está) e, logo em seguida, um imperativo (convertei-vos e crede). Essa estrutura de pregação está também presente nas diversas parábolas, como a do tesouro e da pérola (cf. Mt 13,44-46). A alegria expressa pelo encontro do tesouro é a mesma daquele que encontra o reino dos céus. Tanto na parábola quanto para o que busca o reino dos céus há um esforço ético no começo, culminando em uma gratificação.
Contrariando o pensamento apocalíptico de que o Reino de Deus só viria depois que o velho eon estivesse totalmente desaparecido, Jesus anuncia que o Reino de Deus já se faz presente, já brotou, em meio ao tempo atual. [46] “A vinda do Reino de Deus não é observável. Não se poderá dizer: ‘Ei-lo aqui! Ei-lo ali’, pois eis que o Reino de Deus está no meio de vós” (Lc 17,20s). E em que consiste esse Reino de Deus anunciado por Jesus? Não em qualquer escrito de sua parte ou em seus dizeres, menos ainda qualquer definição a respeito desse tema. O fato decisivo e novo é que, para os discípulos de Jesus, o reino irrompe com o Mestre. Nesse sentido, há todo um sentido no se falar sobre ele, sobre seus atos e ditos, caso se queira dizer algo sobre o conteúdo do reino de Deus.
Jesus usa de uma simbologia toda clássica para o Reino de Deus. Em uma de suas parábolas ele cita o reino de Deus como um banquete festivo, o que se torna de fácil apercepção e compreensão para seus contemporâneos. Nesse sentido, o Reino de Deus é alegria, é comunhão, é partilha.
Na fé no reino de Deus concentram-se as antigas promessas e esperanças de Israel, sobretudo a esperança da corporeidade e mundanidade da salvação; em parte as antigas promessas também são desenvolvidas, superadas e transformadas. Também se recorre a elementos essenciais da apocalíptica, sobretudo a esperança da ressurreição dos mortos e a tendência ao universalismo. A relação entre os dois éones, porém, é vista de modo diferente do que na apocalíptica. O reino de Deus não vem primeiro (como virada que a transforma) depois do tempo presente, mas já começa no tempo presente: como germe do novo no velho mundo.
No entender escatológico, quando se fala de Reino de Deus, ele se faz de ambas perspectivas: ele já está presente e ainda não está, está atuante e ainda está por vir, ele já é experimentável e ainda é objeto da esperança. É nesta tensão que está a grandeza escatológica acerca do que se denomina sobre o Reino de Deus. Nisso se confirma a definição de escatologia cristã: não se deve restringir a eventos e condições que são, ainda, instâncias de futuro. A escatologia cristã fala de experiências que as pessoas crentes fizeram com Jesus Cristo, daquela realidade peculiar que é ainda atuante hoje, despertando, simultaneamente, a esperança de um futuro melhor e maior.
4 O evento da parusia
Em grego, parousia significa presença ou chegada. Esse termo é empregado, muitas vezes, em sentido técnico para designar uma visita cerimonial de um soberano a uma cidade ou país. No que diz respeito ao Novo Testamento, o termo é usado, muitas vezes, para designar a vinda escatológica de Jesus.
Os evangelhos sinóticos descrevem a parusia como a vinda do Filho do Homem na glória do Pai. Essa vinda é, muitas vezes narrada como uma vinda nas nuvens, em poder e glória. A parusia será precedida por sinais nos céus, a saída dos corpos celestiais de seus cursos. Há também uma imagem da vinda como sendo igual a um relâmpago. Nessa imagem, encontramos o significado refere-se à repentina e não anunciada aparição do Filho do Homem, mas, também sugere o esplendor de seu aparecimento. Ele virá da mesma forma de como subiu aos céus e, assim, porá seu trono nos céus.
A temporalidade da parusia é indefinida. Portanto, os discípulos não terminarão a sua pregação a todas as cidades de Israel antes que o Filho do Homem venha. A presente geração passará antes que todas essas coisas aconteçam. Por outro lado, ninguém conhece a hora, nem mesmo o Filho do Homem, sendo esse um segredo que o Pai reservou para si. Nesse sentido, Jesus adverte aos discípulos para estarem prontos para a sua vinda a qualquer hora.
Nessa direção, o discurso do Reino de Deus acaba se transformando em discurso do Reino de Cristo nos outros escritos neotestamentários, principalmente em Paulo e suas cartas. Há uma significativa mudança de perspectivas entre o Antigo e o Novo Testamento. A partir do Novo, Jesus é o anunciador do Reino de Deus, tornando-se o Cristo que passa a ser o centro da pregação das comunidades cristãs primitivas. Tanto uma quanto a outra se baseiam na convicção de que o Reino de Deus se tornou realidade em Jesus Cristo e por meio deste.
Em consequência a isso, é possível, agora, enunciar que o Reino de Deus está enunciado em Jesus Cristo, da mesma forma que a consumação do Reino de Deus se torna a própria esperança na vinda de Cristo em sua glória, em sua parusia (cf. 1Ts 1,10; 1Cor 11,26.16,22; Ap 22,20).
Enquanto expectativa, a parusia passa por uma mudança acentuada no Novo Testamento. “A primeira geração de cristãos viveu na expectativa iminente, isso é, na esperança do fim próximo, ainda durante seu tempo de vida”.
Nesse sentido, dá para entender a inquietação de Paulo, que expressa na carta aos Tessalonicenses as seguintes indagações: que será dos cristãos que já morreram? Acaso eles não têm parte na parusia? A esses questionamentos o próprio apóstolo responde:
Irmãos, não queremos que ignoreis o que se refere aos mortos, para não ficardes tristes como os outros que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também os que morreram em Jesus, Deus há de levá-los em sua companhia. Por isso vos declaramos [...]: que os vivos, os que ainda estivermos aqui para a Vinda do Senhor, não passaremos à frente dos que morreram. (1Ts 4,13-15).
O fato de gerações inteiras estarem morrendo enquanto a história continuava, gerou um novo desafio para responder aos questionamentos como: acaso virá a parusia? Sobretudo Lucas é que escreve sobre a divisão da história. Nesta concepção, Cristo virá com certeza, mas não importa ficar olhando para o céu com o pensamento preso na parusia. É preciso esperar a vinda do Cristo na comunidade (cf. At 1,11-13).A vinda definitiva do Senhor há de se deslocar para o futuro mais distante, a um tempo indeterminado e intermediário, que é o tempo da Igreja. Esse tempo torna-se, então, o mais importante.
Do mesmo modo, o juízo não acontece primeiro no dia derradeiro. Ele já acontece agora, na decisão feita pela fé em contrário à descrença (cf. Jo 3,18). No já agora é que se faz ouvir o chamado escatológico do Filho do Homem, que é quem chama os mortos à vida (cf. Jo 5,25). Tendo em vista, entretanto, que a comunidade não quis deixar de anunciar a parusia como a consumação do mundo ainda por vir, introduziram-se enunciados no tempo futuro na escatologia”.
Esta escatologia foi concebida originalmente e exclusivamente em tempo presente.
As características externas do evento parusíaco nos Evangelhos Sinóticos têm clara derivação dos eventos relacionados à vinda do Filho do Homem narrados pelo profeta Daniel. Para Daniel, a vinda do Filho do Homem é o último ato; é a história mundial, é a instauração do Reino de Deus e é a sujeição de todas as coisas e de todos os poderes hostis. Nesse sentido, a tradição cristã primitiva atribuiu essa imagem de Salvador e Juiz a Jesus.
Na literatura paulina encontramos o conceito de parusia muito desenvolvido, no entanto, em consubstancialidade ao conceito de parusia que encontramos nos sinóticos. A parusia é o dia de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1Cor 1,8).
No entender de Paulo, em seus escritos ele expressa que Jesus é aquele que vem com os seus santos (cf. 1Ts 3,13) e sua vinda é precedida por um arcanjo e um toque de trombeta, vindo Jesus das nuvens (cf. 1Ts 4,13ss). Na carta aos Filipenses, Paulo narra a vinda de Jesus dos céus, com os anjos, em uma chama de fogo, com glória (cf. Fl 3,20; 2Ts 2,7ss). Sua vinda é precedida por sinais, através dos quais sua proximidade pode ser discernida (cf. 2Ts 2,1-12). Ele vem no tempo indicado, chamado de kairós (cf. 1Cor 4,5). Por tal sentido, a parusia é a hora da ressurreição dos mortos: os justos haverão de se unir com ele nas nuvens, ao passo que os vivos serão arrebatados com ele até a glória.Também as demais cartas católicas trabalham a ideia de que, na parusia, o céu e a terra serão consumidos pelo fogo (cf. 2Pd 3,10-12). A parusia é, assim, chamada de revelação de Jesus Cristo.
Nos escritos joaninos, no entanto, encontramos um problema: a ausência da parusia. Em 1Jo 2,28 o termo usado é epiphaneia (manifestação), da qual os cristãos esperam, e o Cristo glorificado é representado dizendo que ele vem sem demora (cf. Ap 3,11; 22,20). Para Bultmann, a ressurreição de Jesus trabalhada em João é explicada, junto com sua parusia, através de uma fundição das duas realidades. A ressurreição e a parusia foram fundidas em único evento.
O tempo da parusia como evento indefinido era forte na Igreja primitiva. Muitos chamam a Igreja primitiva de comunidade escatológica, pois vivia continuamente na comum esperança parusíaca. A Igreja não teve consciência de sua missão, até que foi obrigada a renunciar à esperança de que o fim estava próximo, o que tornou difícil a conciliação com a própria obra evangelizadora dos apóstolos.
As mudanças quanto à expectativa da parusia mostram com clareza como que se dá a tradição da fé. Ela se dá em uma correlação existente entre os antigos elementos da própria tradição e as novas experiências. Essas novas experiências (a morte de um membro da comunidade, a história que continua através de gerações são alguns exemplos) modificam o modo original da forma como a fé concebia a parusia. Contudo, a fé na parusia também modifica a própria experiência histórica com situações intra-históricas, com encontro entre pessoas, com determinadas situações que já podem ser experimentadas. Entre elas estão os encontros com o Senhor, que vem ao nosso encontro, embora a consumação derradeira da história ainda esteja por vir. A tradição da esperança da parusia é um processo de aprendizagem que necessita tanto das novas experiências históricas quanto o decisivo impulso de decisão do início. É neste processo de aprendizagem que se torna possível a aprendizagem da tensão existente entre o já agora e o ainda por vir, que é uma característica da pregação neotestamentária acerca do Reino de Deus. Se a esperança da parusia não é, em princípio, outra coisa senão a esperança do próprio Reino de Deus, ela tem que valer naturalmente também para a parusia.
Portanto, a fé na parusia acarreta em, pelo menos, duas características. A primeira versa-se sobre os termos futuros: virá o dia em que Cristo reinará; virá o mundo anunciado por ele mesmo; virá o mundo anunciado por ele e que, por ele mesmo, foi iniciado, que é o Reino de Deus. A segunda versa-se sobre o tempo presente: podemos e devemos contar diariamente com o encontro com Cristo, embora, aparentemente, o curso da história nos pareça intocado no que diz respeito ao desafio do amor concreto ao próximo, na reunião em seu nome e na celebração da Eucaristia. Tal encontro já nos é uma prefiguração do encontro com o mesmo Cristo, com o qual nos encontraremos definitivamente no fim. Essas duas características são inseparáveis, no entanto. Dessa maneira, a esperança da parusia não pode ser reduzida aos comprimentos fragmentários do nosso tempo, mas, também, não se dirige exclusivamente para um futuro infinito. Contrariamente a isso, ela faz do presente o começo da consumação esperada.
Parusia e Juízo
A fé na parusia de Cristo está associada à fé no julgamento do mundo. Essa fé tem larga história que começa já no Antigo Testamento, apresentando-se como história de sofrimentos do povo de Israel, no confronto com o indescritível sofrimento das pessoas justas (por exemplo, Jó), na experiência de que não se pode fechar o balanço entre o modo como as pessoas vivem e o destino que elas têm e que fizeram com que sua fé na justiça de Deus, que é efetiva em todos os tempos, transformasse-se em esperança da futura intervenção divina na história, na esperança de que venha o dia de Javé (juízo divino).
Deus virá e julgará os povos inimigos (cf. Is 13-17). Entretanto, ele também julgará a Israel e exigirá de Israel as prestações de conta do luxo, da injustiça e da idolatria de seu povo (cf. Is 2,6-4,1). Até mesmo para Israel a vinda do Senhor será terrível (cf. Am 5,16-20.6). O objetivo do juízo final não é a destruição ou a tortura sem fim. Pelo contrário, é a purificação e a salvação, que estabelecerá, no fim, uma nova relação do homem com Deus, gerando uma nova alegria de Deus em seu povo (cf. Ml 3,2-4).
Já no tempo dos grandes profetas, imaginava-se o juízo divino com termos intra-históricos. O juízo aconteceria em catástrofes históricas, através de derrotas políticas e militares, no caos, nos saques, nos regimes governamentais de caráter desumanos, no exílio. Todas essas coisas servem para a purificação. Através delas é que Deus pode dirigir para o bem a história do homem, dirigir a própria história de Israel em busca de uma renovação da própria vivência do povo israelita. Desse modo, então, a literatura apocalíptica apresenta como o dia de Javé, o dia derradeiro, que é o dia que haverá de pôr fim à história do presente eon.
Nos Evangelhos de Mateus e de Lucas, vemos um João Batista pregador do arrependimento, inteiramente dominado por pensamentos acerca do juízo próximo. Na pregação de Jesus podemos também verificar palavras de ameaças e elas têm papel importantíssimo: as figuras do fogo, das trevas, do choro e ranger de dentes são exemplos bem concretos e convincentes dessa perspectiva.
Concomitante a essas ameaças, encontramos também outros motivos para a conversão, tais como a exortação de não perder a festa, a não ficar de fora quando lá dentro se celebra o casamento (cf. Mt 25,1-13; Lc 14,16-24), o convite a uma vida maravilhosa, vida essa em que a pessoa possa se sentir como sendo filha ou filho de Deus, em semelhança ao Pai.
Com a aproximação do Reino de Deus, aproxima-se também o juízo. Tudo o que foi dito sobre o juízo, por Jesus, pode ser entendido como que um chamado de alerta, um despertar para a situação de decisão apresentada. Ao tomar ciência do juízo, ele também apresenta um caráter e um efeito libertador nos que dele tomam consciência. A ciência do juízo proporciona liberdade interior em relação aos poderosos deste mundo (cf. Mt 10,28), tornando as coisas relativas e proibindo, inclusive, qualquer condenação das pessoas entre si.
O elemento teológico neotestamentário do juízo se dá na afirmação de que o juiz vindouro é o próprio Jesus, e não outro. Nos Atos dos Apóstolos encontramos os seguintes dizeres: “[...] E ordenou-nos que proclamássemos ao Povo e déssemos testemunho de que ele é juiz dos vivos e dos mortos, como tal constituído por Deus” (At 10,42), que culmina em toda a pregação apostólica, conforme verificamos, por exemplo, em João: “[...] Porque o Pai a ninguém julga, mas confiou ao Filho todo julgamento [...] e lhe deu o poder de exercer o julgamento, porque é o Filho do Homem” (Jo 5, 22.27).
Verificamos que há, nesses enunciados escatológicos, muito mais do que uma mera e simples informação sobre o que será o futuro. Trata-se, portanto, de dar uma direção à história dos homens e de uma perspectiva de esperança.A história do mundo será decidida por Jesus. Esse fim será conforme o agrado dele e o futuro pertencerá ao mundo por ele enunciado, anunciado e praticado por ele.
O futuro pertencerá ao Reino de Deus, como Jesus o compreendeu e o mostrou. Sua pregação e sua prática de vida são o critério decisivo para o juízo e, portanto, é também o critério decisivo acerca do comportamento ético, que significa vida bem-sucedida ou fracassada, conforme as escolhas próprias de cada um. Por Jesus ser o juiz, é dele toda e qualquer dignidade de fé presente nas eschata, e também é dele todo e qualquer comportamento cristão que se apresente numa perspectiva de esperança. O juiz é o mesmo que “[...] passou fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo diabo” (At 10,38).