CONTEXTOS EM GESTALT-TERAPIA

Noções Básicas em Gestalt Terapia

1 CONTEXTOS EM GESTALT-TERAPIA

APRESENTAÇÃO

A Gestalt-terapia é uma abordagem psicológica proposta, inicialmente, por Frederick e Laura Perls, cujo início oficial se deu com o lançamento do livro Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality, em 1951, de Fritz Perls, Ralph Hefferline e Paul Goodman (a primeira edição brasileira foi lançada em 1997). Ela possui fundamentação antropológica alicerçada em pressupostos do Humanismo, do Existencialismo e da Fenomenologia, mas também recebeu influências da Psicologia da Gestalt, da Teoria Organísmica e da Teoria de Campo, dentre outras. Em sua origem, a teoria da Gestalt-terapia era voltada para a prática psicoterápica. Desde então, outros autores (inclusive brasileiros) vêm se dedicando ao desenvolvimento e ao aprofundamento de seus conceitos de modo que ela possa subsidiar cada vez mais e melhor a atuação do psicólogo e de outros profissionais nos mais variados contextos. Em conversa recente com Lílian Meyer Frazão, uma das pioneiras e memória viva da abordagem no Brasil, ela relatou que a Gestalt-terapia surgiu em nosso país em 1973, quando Silvia Peters veio a convite de Thérèse Tellegen, conduzir um workshop do qual participaram ela, Walter Ribeiro, Paulo Barros, Abel Guedes e a própria Lilian, além de outras pessoas que não deram continuidade na abordagem. Ao final do workshop, um pequeno grupo decidiu estudar por conta própria o livro Gestalt Therapy, o qual era composto por duas partes: a primeira continha exercícios vivenciais e na segunda eram apresentados os pressupostos da nova abordagem. Em 1977, após ter feito um curso com Ervin e Miriam Polster nos Estados Unidos, Thérèse convidou Bob Martin para vir ao Brasil. Então, aquele mesmo grupo de profissionais, acrescido da presença de Jean Clark Juliano, participou de um curso intensivo vivencial de duas semanas com ele. E assim tudo começou!... Thérèse Tellegen teve um papel essencial no surgimento da Gestalt-terapia no país. Além de convidar gestalt-terapeutas estrangeiros para ministrarem cursos aqui, ela publicou o primeiro artigo brasileiro de Gestalt-terapia, Elementos de Psicoterapia Guestáltica, no Boletim de Psicologia da Sociedade de Psicologia, foi a primeira brasileira a publicar um livro (Gestalt e Grupos, em 1984) e coordenou o primeiro curso de especialização em Gestalt-terapia do Brasil, no Sedes Sapientiae (1980), em São Paulo, junto com Lilian Frazão, Jean Clark Juliano e Abel Guedes. Já em 1976, a Editora Summus publicou o primeiro livro em português da abordagem, Tornar-se Presente, de John O. Stevens, da Coleção “Novas Buscas em Psicoterapia”, coordenada pelo Paulo Barros. Além destes, outros profissionais participaram das “primeiras horas” da abordagem gestáltica em nosso país e contribuíram de modo inestimável como seus precursores, dentre os quais, destaco Lika Queiroz, Teresinha Mello da Silveira, Selma Ciornai, Cristina Frascarolli (Tsallis), Jane Rodrigues, Décio Casarin, Bruno Fróes dos Reis, Eduardo Bandeira, Silvio Lopes, Afonso Henrique Lisboa da Fonseca e Gercilene Campos, dentre outros. Desde então, a Gestalt-terapia caminhou muito em nossas terras. Diversos outros gestalt-terapeutas vieram ao Brasil ministrar cursos e participar de palestras, outros tantos brasileiros fizeram o mesmo no exterior, vários institutos de formação e cursos de especialização em Gestalt-terapia surgiram e congressos regionais e nacionais vêm sendo realizados. Também a nossa farta produção bibliográfica nestes últimos 42 anos vem demonstrando a amplitude dos campos de atuação e o fortalecimento da abordagem, sendo Jorge Ponciano Ribeiro uma referência relevante, por ser o autor com mais publicações, com uma dezena de livros. Importante ressaltar também que desde 2007, a Revista da Abordagem Gestáltica, editada pelo Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt-terapia de Goiânia (ITGT), fundado por Virgínia Suassuna e Marisete Malaguth, cujo editor-chefe é Adriano Furtado Holanda, vem publicando artigos tanto da Abordagem Gestáltica, quanto daquelas que se fundamentam nas perspectivas humanistas, existenciais e fenomenológicas, consagrando-se como um dos periódicos especializados em publicações da Terceira Força em Psicologia. Longe de querer esgotar a história da Gestalt-terapia no Brasil, tanto pela impossibilidade diante da riqueza histórica, quanto pelo grave risco de não mencionar muitos colegas que trabalharam e vêm trabalhando arduamente pela consolidação da nossa abordagem no país de norte a sul, esta breve introdução tem por objetivo registrar um pouco do muito que a comunidade gestáltica brasileira vem produzindo, inclusive com inserção em diversas universidades públicas e privadas. Neste sentido, é importante registrar que Teresinha Mello da Silveira foi a pioneira no exercício docente em Gestalt-terapia em um curso de graduação em Psicologia, no caso na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, a partir de 1984, tornando-se a precursora na formação de gestalt-terapeutas no Rio de Janeiro há décadas. Por sua vez, Lika Queiroz também vem lecionando Gestalt-terapia na Universidade Federal da Bahia há mais de 20 anos, e é uma referência ímpar na consolidação da Gestalt nas regiões norte e nordeste. Já Ângela Schillings, professora na Universidade Federal de Santa Catarina desde a década de 80, é uma das gestalt-terapeutas de expressão na região sul do país, responsável pela formação de novos profissionais da abordagem naquela região. Assim como elas, outros gestalt-terapeutas compõem o quadro docente de diversas universidades, desempenhando um papel inestimável na divulgação da abordagem nos cursos de graduação e de pós-graduação. Em 2018, Celana Cardoso Andrade e Mônica Botelho Alvim, ambas professoras da Universidade Federal de Goiás e da Universidade Federal do Rio de Janeiro, respectivamente, apresentaram um relevante estudo no qual relatavam a presença de 23 professores gestalt-terapeutas em instituições públicas de ensino superior brasileiras, promovendo o fomento e o aprofundamento da produção do conhecimento na abordagem em território nacional. Em Minas Gerais, o Bruno Fróes dos Reis, também um dos participantes dos cursos iniciais da abordagem no Brasil, ministrou disciplinas e supervisionou atendimentos em Gestalt-terapia por mais de três décadas no curso de graduação em Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais, aposentando-se em 2015. Nesta mesma universidade, desde 1995, também eu venho desenvolvendo diversas atividades acadêmicas (disciplinas, supervisões de atendimentos, projetos de extensão, dentre outros), buscando fortalecer, em colaboração com outros colegas, as abordagens fenomenológico-existenciais em terras mineiras. Uma das parcerias mais recentes e profícuas foi aquela realizada com José Paulo Giovanetti, amigo e professor aposentado do Departamento de Psicologia da UFMG, que trouxe para esta instituição o Curso de Especialização em Psicologia Clínica: Gestalt-terapia e Análise Existencial (CEPC), cuja primeira turma teve início em 2018, com sua capacidade completa do início ao fim: 40 alunos. Esta parceria foi corroborada por outros colegas professores do CEPC, dentre os quais cito Saleth Salles Horta e Telma Fulgêncio, também amigas e gestalt- -terapeutas, colocando sua experiência clínica a serviço da formação de novos psicólogos clínicos da terceira força em Psicologia, e de gestalt-terapeutas em particular. Um dos vários frutos desta parceria é este livro, com textos elaborados a partir dos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC’s) destas gestalt-terapeutas mineiras da nova geração. Em cada um deles as autoras compartilham suas reflexões e sistematizações teóricas acerca de suas experiências em vários campos de atuação. Sem dúvida, é uma grande satisfação para todos nós, do corpo docente do CEPC, acompanhar o amadurecimento profissional destas colegas que se empenharam na produção destes trabalhos teóricos consistentes teoricamente e que merecem ser compartilhados através desta coletânea. São escritos decorrentes das suas experiências clínicas, em especial na clínica ampliada e na Saúde Pública, nos quais elas tecem relevantes considerações sobre sua prática profissional em múltiplos contextos referenciados pela abordagem gestáltica. Esperamos que este livro sirva como referência para todos e todas interessados na clínica gestáltica e que seja inspiração para a nova geração de gestalt-terapeutas mineiros e brasileiros!

2 A COMPREENSÃO DO SER NA BUSCA PELO SENTIDO DA VIDA

Vivemos em uma pós-modernidade frequentemente marcada pela massificação e por certa ausência de tomada de posição diante dos acontecimentos e do mundo. Por isso, é preciso se mover ainda mais para fugir desse contexto bastante favorável ao comodismo e à alienação. Mahfoud, ao citar Buber, aponta que todo o processo para atingir a autenticidade partiria exatamente do questionamento, da provocação para despertar um sentimento de responsabilidade com e pela existência. E a partir disso, é preciso perceber que o que tem por vir é sempre pessoal e particular; “Trata-se, antes, de conhecer para qual caminho o seu coração o atrai e depois escolhê-lo com todas as suas forças” (MAHFOUD, 2005, p.55). Sabe-se que nasce com cada homem uma potencialidade, uma novidade – a capacidade de ser uma vez e nunca mais aquilo que nunca existiu. Cada ser carrega em si uma potência, uma capacidade de criação, assim, em cada atitude a pessoa se implica, toma posicionamento sobre seus atos, se não faz isso, inicia-se um processo de falta pela busca de si mesmo. A pergunta “Quem sou eu?” acompanha o homem e aqueles que se dedicam a pesquisar sobre o que é humano. Cada um carrega em si a busca pela resposta dessa pergunta que nunca se finda. Esse movimento constante se dá na verificação do que corresponde a cada pessoa, onde cada um se encontra. Dessa forma, pretendemos discutir a elaboração do sentido a partir do encontro com o outro, através de uma abordagem fenomenológico-existencial.

O EXISTENCIALISMO

As vastas transformações sofridas pela humanidade no período pós- -guerra trouxeram intensos sentimentos de dor e desesperança ao homem e à sua forma de entender sua própria existência. Este é o ambiente no qual o existencialismo desponta e começa seu desenvolvimento. A primazia da razão, antes defendida, vê-se colocada em cheque e aparece a dúvida em relação ao racionalismo como a única forma de solucionar as intempéries (CARDOSO, 2013). Nesta concepção, o homem é entendido como livre e dotado de responsabilidade capazes de direcionar o seu viver e constituir o seu existir. Quaisquer definições prévias do que viria a ser o humano são contestadas e este passa a ser entendido como constante vir a ser. Dessa forma, o homem se apresenta como um ser de ação, caracterizado pela constante construção de si mesmo. Não nasce pronto, fechado em si, é na verdade um devir. Nesse sentido, podemos entendê-lo como ser de possibilidades e escolhas, e sendo assim, moldador e moldado pelo caminhar. Através desta abordagem, nos salta aos olhos a responsabilidade de cada um pela unicidade que se constrói, pela história e pelo posicionamento de quem se é/quem se escolhe ser. O homem, como ser de liberdade é, nesta visão, responsável por sua existência e pelos seus projetos. Porém, isso não acontece em nenhum momento de forma isolada, o homem é ser de abertura, de contato, de conexão, de relação. Isto significa que o mundo, o outro e o ser estão sempre envolvidos e interligados nesta construção.

A FENOMENOLOGIA

A fenomenologia nasceu como alternativa à forma de conceber a ciência e a filosofia no século XIX: o positivismo. Enquanto enfatizava-se a razão e os métodos quantitativos e preditivos como a única forma para acessar o conhecimento do homem e do mundo, a fenomenologia surge como o meio de considerar a subjetividade humana e se consagra como uma nova forma de se posicionar e apreender o mundo. A partir de então, pôde-se vivenciar uma mudança de paradigma importante na busca e construção do conhecimento. Edmund Husserl se tornou uma grande referência na fenomenologia, propondo uma mudança de atitude diante do objeto. O autor considera a consciência como doadora de sentido àquilo que ela apreende. Logo, toda consciência é consciência de algo (CARDOSO, 2014). Além disso, propõe a suspensão da atitude natural – pressuposições, conceitos e dados apriorísticos – em favor da atitude fenomenológica – acesso aos fenômenos que aparecem à consciência.

Consciência é muito mais do que apontavam até então a filosofia, a psicologia e principalmente o senso comum, que a viam como um lugar onde, de alguma maneira, se prende o conhecido. Husserl vê a consciência como uma síntese em fluxo que não tem nenhuma substancialidade, sendo mais uma dinâmica entre Sujeito e Objeto, onde todo ser recebe seu sentido e valor (REHFELD, 2013, p. 28). Relacionar-se com o mundo e a cada momento estar aberto para apreender os fenômenos não significa que o homem se torna diferente a cada momento em que vivencia determinada situação. Significa que o reconhecimento de quem se é no mundo interfere nas significações que se atribui à experiência, à sua elaboração. Dessa forma, este torna-se o horizonte primeiro, mais básico. Ao levarmos em conta a compreensão de mundo e tomarmos como fundamental a ideia de que os participantes da história do ser fazem parte de seu mundo, entendemos que tudo tem sentido a partir de seu próprio referencial. Por isso, o ser-no-mundo é o horizonte vital, maior e básico na existência humana. Neste horizonte fundamental, compreendemos que as ações e produções humanas são múltiplas e singulares.

O PAPEL DAS RELAÇÕES NA CONSTRUÇÃO DO SER

Tendo emanado do domínio natural das espécies para a aventura da categoria solitária, cercado pela atmosfera de um caos que nasceu com ele, o homem espera, secreta e intimamente, um sim, que só poderá vir de uma pessoa para outra. É de um homem para outro que o pão celestial de ser o próprio ser é passado (BUBER, 1965b, apud HYCNER & JACOBS, 1995, p. 44). Tomando emprestadas as palavras de Martin Buber, podemos perceber a característica mais propriamente humana: seu potencial relacional e a constante construção de si mesmo nas relações que estabelece ao longo de sua vida. Estas, portanto, são capazes de configurar unidade e autenticidade ao homem, ao passo que ele se torna um ser singular no encontro com o outro. Dessa forma, constitui-se enquanto ser-no-mundo. Por “mundo”, entendemos aqui como o conjunto de aspectos que configuram a existência: aquilo que está fora do ser - o ambiente e seus componentes - e as relações nas quais se está imerso - com ele mesmo e com os outros (ROMERO, 2006). Logo, o ser está no mundo não de qualquer forma, mas constituindo-se como ser-no-mundo-em-relação.

Como nos elucida Romero (2006), os encontros com os quais o ser se depara são permeados por particularidades que o colocam diante da dinâmica de sua existência. Assim, toda pessoa é marcada por sua corporeidade, sendo morada de seu corpo, relacionando-se com ele e utilizando-o para estar em contato com tudo ao seu redor, reagindo fisiológica e biologicamente ao que lhe acontece. Além disso, é perpassado por uma sociedade, composta por um sistema de valores e peculiaridades culturais com os quais precisa se haver. Sendo um ente corporal inserido em um sistema social, o homem desenvolve atividades de modo a transformar sua relação com a natureza e consigo mesmo por meio do trabalho e ações que lhe permitem sobreviver. Através disso, encontra formas de buscar a realização de seus interesses e necessidades, sendo afetado e captando de forma sensível o que lhe ocorre nessa busca e nas relações que estabelece ao longo desse processo. Destaca-se ainda sua condição de ser temporal situado em um espaço - marcado por um passado, diante de um presente e aberto às possibilidades de um futuro - fato que colocará o homem diante da fluidez da existência de sua finitude. Dessa maneira, integrando tais características, o ser é capaz de atribuir sentido ao que lhe ocorre, como nos aponta Husserl ao discorrer sobre a consciência e seu caráter intencional atribuidor de significado às suas vivências. Viktor Frankl (1990), ao tecer comentários sobre a prática da psicologia científica, provoca-nos a reflexão sobre a relação entre sujeitos intencionais, “(...) entre os atos intencionais que deles provém e os objetos intencionais. ” (FRANKL, 1990, p. 35). Acrescenta-se assim, outro elemento à dinâmica da existência: o mundo do outro com o qual nos relacionamos. O relacionamento de seres intencionais atribui um movimento que impele o homem a responder à sua realidade, ao que os outros universos com os quais está em contato lhe despertam e ao que ele próprio desperta em outrem. O comportamento humano é humano apenas na medida em que ele finalmente trata de um agir-no-mundo, e o agir se deixa reduzir novamente ao ser-motivado-pelo-mundo. De fato, o mundo nos dá os motivos que nos desafiam à ação. Ele nos dá as razões para abordá-lo desta ou daquela forma, seja fazendo algo, seja amando alguém. (FRANKL, 1990, p. 35) A existência humana presume a presença de outras existências que a confirmem. Alice Miller (1997) propõe algumas reflexões sobre as primeiras relações da criança e o importante impacto delas ao longo de toda a vida. Para a autora, a necessidade primeira da criança é de ser considerada e ter seus sentimentos e sensações levados em conta desde o nascimento. A criança é totalmente dependente e precisa de cuidados externos para se manter viva. Por isso, precisa da atenção dos adultos que destinam cuidados a ela e fará de tudo para mantê-los por perto (MILLER, 1997). A forma com a qual estes adultos têm de responder às demandas da criança será fundamental para que ela se torne uma pessoa autônoma e cresça de modo a realizar suas necessidades satisfatoriamente. Dessa forma, as relações construídas na infância guiarão a pessoa no decorrer de seu desenvolvimento, de modo a orientar - em certa medida - sua forma de estar-no-mundo e de funcionar. Por isso, os relacionamentos tidos como saudáveis irão proporcionar um clima de tolerância e atenção àquilo que o ser apresenta, auxiliando-o a romper com a simbiose - que antes se fazia tão necessária - com a mãe para que a criança possa caminhar rumo à sua autonomia. Como nos aponta Miller, “a verdadeira autonomia é precedida pelo sentimento de dependência” (1997, p. 31). Considerar a criança em desenvolvimento significa aceitá-la como se apresenta, cheia de medos, sentimentos conflitantes e desafios instaurados pelas descobertas de um mundo recém-conhecido por ela. Assim, validar seus sentimentos passa pela imposição de limites. A criança precisa ser orientada nos espaços que agora está inserida, de modo que tenha suporte para compreender o que lhe é permitido e aquilo que não o é. Também precisa ser acolhida naquelas sensações e sentimentos desagradáveis, tais como raiva, tristeza e dor. Apesar de muitas vezes desconfortáveis para os pais e cuidadores, os sentimentos tidos como negativos e moralmente inconvenientes sentidos pela criança precisam ter lugar na relação. Tais sentimentos fazem parte daquele ser. Por isso, é tendo permissão para experimentá-los que ele conseguirá lidar melhor consigo mesma e com os outros à sua volta. Para melhor ilustrar o que aqui propomos, percebendo a poesia como importante fonte da expressão humana e entendendo sua forte ligação com a Psicologia, usaremos algumas palavras de autores consagrados na literatura nacional e estrangeira como forma de representação daquilo que tecemos. Não pretendemos com isso esgotar as possibilidades e perspectivas que cada leitura nos provoca. Por isso, faremos um breve recorte destes textos com o objetivo de nos aproximarmos da existência humana enquanto ela acontece, na manifestação própria de seu movimento.

Ensinamento Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento. Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo: “Coitado, até essa hora no serviço pesado”. Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente. Não me falou em amor. Essa palavra de luxo. (PRADO, 1991, p. 116) No poema, podemos perceber a descrição daquilo que se aprendera com a mãe: a confirmação do outro e as maneiras das quais dispomos para cuidar das nossas relações. Notamos que houve o despertar para o que é mais caro ao ser humano: sua necessidade de amor e atenção. Deste modo, o eu lírico pode significar em sua vida o lugar do sentimento que atravessa nossas relações e como podemos nos atentar para este fato que precisa de constante zelo. Sua forma de expressão nos impele a perceber sua relação com a mãe e a relação de sua mãe com seu pai como doadoras de sentido às suas existências. Além disso, atentamo-nos - a partir das palavras da escritora - para aquilo que acontece no encontro entre pessoas, a importante esfera do ‘entre’, aquilo que acontece na troca, na fronteira entre o ‘eu’ e o ‘outro’ que se torna um ‘nós’. Entretanto, Miller (1997) nos aponta para o quão difícil essa postura de abertura e acolhimento para com os filhos é para aqueles pais que não receberam isso em suas próprias infâncias. Feridas desse período tão vulnerável e rico em experiências podem ficar registradas naquele adulto, o qual se não acolher sua criança machucada poderá transferir para seu filho suas necessidades e dores. A criança, por sua vez, é bastante sensível em entender o que precisa fazer para conseguir o amor de seus pais, podendo fixar seus comportamentos - que antes lhe serviam como mantenedores do amor parental - utilizando-os de modo inapropriado para outras situações ao longo de sua vida, deixando de se colocar no mundo de modo criativo e autêntico. Por isso, tal acomodação aos apelos dos pais pode fazer com que a criança desenvolva um modo de funcionar no qual se mostra de acordo com aquilo que acredita ser esperado dela, de modo a desenvolver aquilo que é chamado de ‘falso self’ (MILLER, 1997). A pessoa fica impossibilitada de se mostrar como é verdadeiramente, temendo perder a atenção dos pais. O verdadeiro self não consegue se desenvolver e se diferenciar porque não pode ser vivido. Compreensivelmente, essas pessoas reclamam contra sentimentos de vazio, falta de sentido, desenraizamento - pois esse vazio é real (MILLER, 1997, p. 23, grifo da autora). Assim, ao tornar inviável a expressão do ser da forma como ele se apresenta, as relações tornam-se neurotizantes ao passo que ensinam o ser a operar de modo a responder àquilo que acredita ser seu valor, sua responsabilidade e função. Abandona-se sentimentos, vontades e a verdade de uma pessoa singular para atuar em um mundo que lhe cobra agir, pensar e sentir de determinada maneira. À medida que incorpora tais concepções sobre si mesmo - que muitas das vezes não correspondem à realidade - a pessoa passa a fundir-se a essa imagem (MILLER, 1997). Pergunta XLIV - Onde está o menino que fui, segue dentro de mim ou se foi? - Sabe que não o quis nunca e que tampouco me queria? - Por que andamos tanto tempo crescendo para separar-nos? - Por que não morremos os dois quando minha infância morreu? - E se minha alma tombou por que permanece o esqueleto? (NERUDA, 2004, p.19) Guardamos forte intimidade com aquilo que fomos e que nos possibilita ser. Isso implica em considerar a intensa influência das relações que construímos com os outros e conosco. Em sua obra, Alice Miller (1997) esclarece-nos sobre a dificuldade em rompermos com nossos antigos modos de funcionar e de percebermos como por vezes, nossos pais que em nossa ilusão nos amaram incondicionalmente, puderam contribuir para experiências de desamparo e dor. No poema de Neruda, podemos perceber que há uma retomada à infância na qual aponta-se certa distância entre o que se foi e o que se é, sugerindo que o “menino” de agora nunca quis o menino de antes. Entretanto, “permanece o esqueleto” uma vez que aquilo que vivemos é de fundamental importância para a nossa construção e atualização no aqui e agora. Por isso, as relações neurotizantes podem nos afastar de nós mesmos, ao passo em que nos reduzem ao esperado, àquilo que devemos cumprir. Além disso, naquelas relações onde não existe afeto ou em que ele é concedido de formas específicas - como apenas quando a pessoa agrada ao outro ou lhe dá aquilo que solicita - coloca o ser em contato com os sentimentos de abandono, insegurança, desproteção e desamor por si e pelo mundo a sua volta. Este é o caso das relações agressivas que podem incluir as violências física, psicológica e sexual. Quando tais tipos de violência são vivenciados na infância, a criança passa a reconhecer a si mesma e suas relações embasada nesses sentimentos que acabam por lhe tirar a sensação de unidade garantida pelo afeto e proteção (MILLER, 2004). Tal fato faz com que desconfie e viole a si mesma ao precisar fugir constantemente de seus sentimentos, de sua própria morada. A hostilidade de um ambiente violento impede o movimento de reflexão e crescimento da pessoa e até mesmo de aprender aquilo que muitas vezes se diz querer ensinar com o uso de agressões físicas e psicológicas. O sentimento de unidade anteriormente descrito é substituído pelo sentimento de medo que divide e fraciona seu modo de estar no mundo. É capaz de enfraquecer seu relacionamento consigo e com o outro de modo a dificultar seu amadurecimento emocional e sua capacidade de se responsabilizar por suas ações. Os registros de tais agressões são marcados de forma intensa na experiência subjetiva da pessoa. Se ela não consegue se recordar de maneira clara e muito evidente as agressões que sofrera, ou se relativiza isso como sendo “para seu próprio bem” a fim de manter o amor do agressor, seu corpo se encarrega de guardar as consequências disso - seja por manifestações somáticas ou pela reprodução a outrem daquilo que lhe aconteceu. [...] Porém, de vez em quando ele [o corpo] sinaliza sua aflição por meio de sintomas, como fazia a criança quando faltava na escola, quando ficava doente com frequência, constituindo-se num eterno enigma para os pais. (MILLER, 2004, p. 29) Dessa forma, as agressões físicas, psicológicas e sexuais marcam a constituição do ser de uma maneira muito peculiar. Com elas a criança não tem a oportunidade de se enxergar cheia de possibilidades, amada e respeitada pelo que é. Mas, passa a se reconhecer através das agressões sofridas, volta seu olhar para o abandono, por vezes perde a oportunidade de conhecer a si mesma e aos outros verdadeiramente. À medida que o indivíduo cresce, leva consigo as marcas de sua história, utilizando-as para estar em contato com o mundo. Não raro, essas pessoas se relacionam ao longo de suas vidas com este padrão desenvolvido e - por ser o que aprenderam e o conceito que construíram de relações - repetem aquilo que vivenciaram antes na sua história, perpetuando-a com seus filhos, parceiros, familiares e amigos (MILLER, 1997). Minha infância (Freudiana) [...] Melhor fora não ter nascido… Feia, medrosa e triste. Criada à moda antiga, - ralhos e castigos. Espezinhada, domada. Que trabalho imenso dei à casa para me torcer, retorcer, medir e desmedir. E me fazer tão outra, diferente, do que eu deveria ser. Triste, nervosa e feia. Amarela de rosto empapuçado. De pernas moles, caindo à toa. Retrato vivo de um velho doente. Indesejável entre as irmãs. Sem carinho de Mãe.

Sem proteção de Pai… - melhor fora não ter nascido. E nunca realizei nada na vida. Sempre a inferioridade me tolheu. E foi assim, sem luta, que me acomodei na mediocridade de meu destino. (CORALINA, 2008, pp. 95-100) Com a contribuição da poesia expressa nas palavras de Cora Coralina, podemos apalpar os efeitos de uma relação agressiva e a forma com a qual o indivíduo encontra para se reconhecer e se situar no mundo como ser-em-relação. Todavia, embasados por uma abordagem fenomenológica-existencial, tomamos o homem como um todo capaz de integrar-se e regular-se, sendo responsável por si mesmo ao desbravar sua própria existência. Percebemos o homem como uma teia complexa e multifacetada que é afetado por suas relações, mas também as afeta. Além de atribuir significado às suas vivências, é capaz de fazer escolhas apoiado em si mesmo e direcionado para suas possibilidades. Por isso, enquanto adulto o homem é capaz de acolher sua criança assustada - sedenta por atenção e amor - e fazer as pazes com a sua própria história, de modo a reorientar o foco de suas decisões para si mesmo, tendo acesso à unidade antes perdida. Infância Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. Minha mãe ficava sentada cosendo. Meu irmão pequeno dormia. Eu sozinho menino entre mangueiras lia a história de Robinson Crusoé, comprida história que não acaba mais. No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu chamava para o café. Café preto que nem a preta velha café gostoso café bom. Minha mãe ficava sentada cosendo olhando para mim: - Psiu... Não acorde o menino. Para o berço onde pousou um mosquito. E dava um suspiro... que fundo! Lá longe meu pai campeava no mato sem fim da fazenda. E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé. (ANDRADE, 2012, p. 83) É através do olhar do adulto que somos que podemos integrar nossas primeiras experiências, ressignificando-as. As palavras de Drummond nos permitem refletir a possibilidade de olharmos para a nossa história e dela extrairmos a verdade que carregamos. Apesar de não podermos fugir da nossa própria verdade podemos olhá-la com grandiosidade e amor, responsabilizando-nos por aquilo que somos e tomando as rédeas de nossa própria construção. [...] porque (finalmente) como adultos recuperamos o direito de não fugir da realidade, de rejeitar argumentos ilógicos e de permanecer fieis ao nosso conhecimento, à nossa própria história (MILLER, 2004, prólogo, p. XIX). Por isso, quando o adulto consegue acolher sua criança ferida, pode dar novo significado aos fatos que aconteceram em sua história. Apesar de não conseguir mudar aquilo que lhe ocorrera, tem a possibilidade de encontrar novos modos para lidar com seu caminho, escolhendo como construí-lo, encontrando sentidos.

O PAPEL DAS RELAÇÕES NA CONSTRUÇÃO DO SER

Tendo emanado do domínio natural das espécies para a aventura da categoria solitária, cercado pela atmosfera de um caos que nasceu com ele, o homem espera, secreta e intimamente, um sim, que só poderá vir de uma pessoa para outra. É de um homem para outro que o pão celestial de ser o próprio ser é passado (BUBER, 1965b, apud HYCNER & JACOBS, 1995, p. 44). Tomando emprestadas as palavras de Martin Buber, podemos perceber a característica mais propriamente humana: seu potencial relacional e a constante construção de si mesmo nas relações que estabelece ao longo de sua vida. Estas, portanto, são capazes de configurar unidade e autenticidade ao homem, ao passo que ele se torna um ser singular no encontro com o outro. Dessa forma, constitui-se enquanto ser-no-mundo. Por “mundo”, entendemos aqui como o conjunto de aspectos que configuram a existência: aquilo que está fora do ser - o ambiente e seus componentes - e as relações nas quais se está imerso - com ele mesmo e com os outros (ROMERO, 2006). Logo, o ser está no mundo não de qualquer forma, mas constituindo-se como ser-no-mundo-em-relação.

Como nos elucida Romero (2006), os encontros com os quais o ser se depara são permeados por particularidades que o colocam diante da dinâmica de sua existência. Assim, toda pessoa é marcada por sua corporeidade, sendo morada de seu corpo, relacionando-se com ele e utilizando-o para estar em contato com tudo ao seu redor, reagindo fisiológica e biologicamente ao que lhe acontece. Além disso, é perpassado por uma sociedade, composta por um sistema de valores e peculiaridades culturais com os quais precisa se haver. Sendo um ente corporal inserido em um sistema social, o homem desenvolve atividades de modo a transformar sua relação com a natureza e consigo mesmo por meio do trabalho e ações que lhe permitem sobreviver. Através disso, encontra formas de buscar a realização de seus interesses e necessidades, sendo afetado e captando de forma sensível o que lhe ocorre nessa busca e nas relações que estabelece ao longo desse processo. Destaca-se ainda sua condição de ser temporal situado em um espaço - marcado por um passado, diante de um presente e aberto às possibilidades de um futuro - fato que colocará o homem diante da fluidez da existência de sua finitude. Dessa maneira, integrando tais características, o ser é capaz de atribuir sentido ao que lhe ocorre, como nos aponta Husserl ao discorrer sobre a consciência e seu caráter intencional atribuidor de significado às suas vivências. Viktor Frankl (1990), ao tecer comentários sobre a prática da psicologia científica, provoca-nos a reflexão sobre a relação entre sujeitos intencionais, “(...) entre os atos intencionais que deles provém e os objetos intencionais. ” (FRANKL, 1990, p. 35). Acrescenta-se assim, outro elemento à dinâmica da existência: o mundo do outro com o qual nos relacionamos. O relacionamento de seres intencionais atribui um movimento que impele o homem a responder à sua realidade, ao que os outros universos com os quais está em contato lhe despertam e ao que ele próprio desperta em outrem. O comportamento humano é humano apenas na medida em que ele finalmente trata de um agir-no-mundo, e o agir se deixa reduzir novamente ao ser-motivado-pelo-mundo. De fato, o mundo nos dá os motivos que nos desafiam à ação. Ele nos dá as razões para abordá-lo desta ou daquela forma, seja fazendo algo, seja amando alguém. (FRANKL, 1990, p. 35) A existência humana presume a presença de outras existências que a confirmem. Alice Miller (1997) propõe algumas reflexões sobre as primeiras relações da criança e o importante impacto delas ao longo de toda a vida. Para a autora, a necessidade primeira da criança é de ser considerada e ter seus sentimentos e sensações levados em conta desde o nascimento. A criança é totalmente dependente e precisa de cuidados externos para se manter viva. Por isso, precisa da atenção dos adultos que destinam cuidados a ela e fará de tudo para mantê-los por perto (MILLER, 1997). A forma com a qual estes adultos têm de responder às demandas da criança será fundamental para que ela se torne uma pessoa autônoma e cresça de modo a realizar suas necessidades satisfatoriamente. Dessa forma, as relações construídas na infância guiarão a pessoa no decorrer de seu desenvolvimento, de modo a orientar - em certa medida - sua forma de estar-no-mundo e de funcionar. Por isso, os relacionamentos tidos como saudáveis irão proporcionar um clima de tolerância e atenção àquilo que o ser apresenta, auxiliando-o a romper com a simbiose - que antes se fazia tão necessária - com a mãe para que a criança possa caminhar rumo à sua autonomia. Como nos aponta Miller, “a verdadeira autonomia é precedida pelo sentimento de dependência” (1997, p. 31). Considerar a criança em desenvolvimento significa aceitá-la como se apresenta, cheia de medos, sentimentos conflitantes e desafios instaurados pelas descobertas de um mundo recém-conhecido por ela. Assim, validar seus sentimentos passa pela imposição de limites. A criança precisa ser orientada nos espaços que agora está inserida, de modo que tenha suporte para compreender o que lhe é permitido e aquilo que não o é. Também precisa ser acolhida naquelas sensações e sentimentos desagradáveis, tais como raiva, tristeza e dor. Apesar de muitas vezes desconfortáveis para os pais e cuidadores, os sentimentos tidos como negativos e moralmente inconvenientes sentidos pela criança precisam ter lugar na relação. Tais sentimentos fazem parte daquele ser. Por isso, é tendo permissão para experimentá-los que ele conseguirá lidar melhor consigo mesma e com os outros à sua volta. Para melhor ilustrar o que aqui propomos, percebendo a poesia como importante fonte da expressão humana e entendendo sua forte ligação com a Psicologia, usaremos algumas palavras de autores consagrados na literatura nacional e estrangeira como forma de representação daquilo que tecemos. Não pretendemos com isso esgotar as possibilidades e perspectivas que cada leitura nos provoca. Por isso, faremos um breve recorte destes textos com o objetivo de nos aproximarmos da existência humana enquanto ela acontece, na manifestação própria de seu movimento.

Ensinamento Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento. Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo: “Coitado, até essa hora no serviço pesado”. Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente. Não me falou em amor. Essa palavra de luxo. (PRADO, 1991, p. 116) No poema, podemos perceber a descrição daquilo que se aprendera com a mãe: a confirmação do outro e as maneiras das quais dispomos para cuidar das nossas relações. Notamos que houve o despertar para o que é mais caro ao ser humano: sua necessidade de amor e atenção. Deste modo, o eu lírico pode significar em sua vida o lugar do sentimento que atravessa nossas relações e como podemos nos atentar para este fato que precisa de constante zelo. Sua forma de expressão nos impele a perceber sua relação com a mãe e a relação de sua mãe com seu pai como doadoras de sentido às suas existências. Além disso, atentamo-nos - a partir das palavras da escritora - para aquilo que acontece no encontro entre pessoas, a importante esfera do ‘entre’, aquilo que acontece na troca, na fronteira entre o ‘eu’ e o ‘outro’ que se torna um ‘nós’. Entretanto, Miller (1997) nos aponta para o quão difícil essa postura de abertura e acolhimento para com os filhos é para aqueles pais que não receberam isso em suas próprias infâncias. Feridas desse período tão vulnerável e rico em experiências podem ficar registradas naquele adulto, o qual se não acolher sua criança machucada poderá transferir para seu filho suas necessidades e dores. A criança, por sua vez, é bastante sensível em entender o que precisa fazer para conseguir o amor de seus pais, podendo fixar seus comportamentos - que antes lhe serviam como mantenedores do amor parental - utilizando-os de modo inapropriado para outras situações ao longo de sua vida, deixando de se colocar no mundo de modo criativo e autêntico. Por isso, tal acomodação aos apelos dos pais pode fazer com que a criança desenvolva um modo de funcionar no qual se mostra de acordo com aquilo que acredita ser esperado dela, de modo a desenvolver aquilo que é chamado de ‘falso self’ (MILLER, 1997). A pessoa fica impossibilitada de se mostrar como é verdadeiramente, temendo perder a atenção dos pais. O verdadeiro self não consegue se desenvolver e se diferenciar porque não pode ser vivido. Compreensivelmente, essas pessoas reclamam contra sentimentos de vazio, falta de sentido, desenraizamento - pois esse vazio é real (MILLER, 1997, p. 23, grifo da autora). Assim, ao tornar inviável a expressão do ser da forma como ele se apresenta, as relações tornam-se neurotizantes ao passo que ensinam o ser a operar de modo a responder àquilo que acredita ser seu valor, sua responsabilidade e função. Abandona-se sentimentos, vontades e a verdade de uma pessoa singular para atuar em um mundo que lhe cobra agir, pensar e sentir de determinada maneira. À medida que incorpora tais concepções sobre si mesmo - que muitas das vezes não correspondem à realidade - a pessoa passa a fundir-se a essa imagem (MILLER, 1997). Pergunta XLIV - Onde está o menino que fui, segue dentro de mim ou se foi? - Sabe que não o quis nunca e que tampouco me queria? - Por que andamos tanto tempo crescendo para separar-nos? - Por que não morremos os dois quando minha infância morreu? - E se minha alma tombou por que permanece o esqueleto? (NERUDA, 2004, p.19) Guardamos forte intimidade com aquilo que fomos e que nos possibilita ser. Isso implica em considerar a intensa influência das relações que construímos com os outros e conosco. Em sua obra, Alice Miller (1997) esclarece-nos sobre a dificuldade em rompermos com nossos antigos modos de funcionar e de percebermos como por vezes, nossos pais que em nossa ilusão nos amaram incondicionalmente, puderam contribuir para experiências de desamparo e dor. No poema de Neruda, podemos perceber que há uma retomada à infância na qual aponta-se certa distância entre o que se foi e o que se é, sugerindo que o “menino” de agora nunca quis o menino de antes. Entretanto, “permanece o esqueleto” uma vez que aquilo que vivemos é de fundamental importância para a nossa construção e atualização no aqui e agora. Por isso, as relações neurotizantes podem nos afastar de nós mesmos, ao passo em que nos reduzem ao esperado, àquilo que devemos cumprir. Além disso, naquelas relações onde não existe afeto ou em que ele é concedido de formas específicas - como apenas quando a pessoa agrada ao outro ou lhe dá aquilo que solicita - coloca o ser em contato com os sentimentos de abandono, insegurança, desproteção e desamor por si e pelo mundo a sua volta. Este é o caso das relações agressivas que podem incluir as violências física, psicológica e sexual. Quando tais tipos de violência são vivenciados na infância, a criança passa a reconhecer a si mesma e suas relações embasada nesses sentimentos que acabam por lhe tirar a sensação de unidade garantida pelo afeto e proteção (MILLER, 2004). Tal fato faz com que desconfie e viole a si mesma ao precisar fugir constantemente de seus sentimentos, de sua própria morada. A hostilidade de um ambiente violento impede o movimento de reflexão e crescimento da pessoa e até mesmo de aprender aquilo que muitas vezes se diz querer ensinar com o uso de agressões físicas e psicológicas. O sentimento de unidade anteriormente descrito é substituído pelo sentimento de medo que divide e fraciona seu modo de estar no mundo. É capaz de enfraquecer seu relacionamento consigo e com o outro de modo a dificultar seu amadurecimento emocional e sua capacidade de se responsabilizar por suas ações. Os registros de tais agressões são marcados de forma intensa na experiência subjetiva da pessoa. Se ela não consegue se recordar de maneira clara e muito evidente as agressões que sofrera, ou se relativiza isso como sendo “para seu próprio bem” a fim de manter o amor do agressor, seu corpo se encarrega de guardar as consequências disso - seja por manifestações somáticas ou pela reprodução a outrem daquilo que lhe aconteceu. [...] Porém, de vez em quando ele [o corpo] sinaliza sua aflição por meio de sintomas, como fazia a criança quando faltava na escola, quando ficava doente com frequência, constituindo-se num eterno enigma para os pais. (MILLER, 2004, p. 29) Dessa forma, as agressões físicas, psicológicas e sexuais marcam a constituição do ser de uma maneira muito peculiar. Com elas a criança não tem a oportunidade de se enxergar cheia de possibilidades, amada e respeitada pelo que é. Mas, passa a se reconhecer através das agressões sofridas, volta seu olhar para o abandono, por vezes perde a oportunidade de conhecer a si mesma e aos outros verdadeiramente. À medida que o indivíduo cresce, leva consigo as marcas de sua história, utilizando-as para estar em contato com o mundo. Não raro, essas pessoas se relacionam ao longo de suas vidas com este padrão desenvolvido e - por ser o que aprenderam e o conceito que construíram de relações - repetem aquilo que vivenciaram antes na sua história, perpetuando-a com seus filhos, parceiros, familiares e amigos (MILLER, 1997). Minha infância (Freudiana) [...] Melhor fora não ter nascido… Feia, medrosa e triste. Criada à moda antiga, - ralhos e castigos. Espezinhada, domada. Que trabalho imenso dei à casa para me torcer, retorcer, medir e desmedir. E me fazer tão outra, diferente, do que eu deveria ser. Triste, nervosa e feia. Amarela de rosto empapuçado. De pernas moles, caindo à toa. Retrato vivo de um velho doente. Indesejável entre as irmãs. Sem carinho de Mãe.

Sem proteção de Pai… - melhor fora não ter nascido. E nunca realizei nada na vida. Sempre a inferioridade me tolheu. E foi assim, sem luta, que me acomodei na mediocridade de meu destino. (CORALINA, 2008, pp. 95-100) Com a contribuição da poesia expressa nas palavras de Cora Coralina, podemos apalpar os efeitos de uma relação agressiva e a forma com a qual o indivíduo encontra para se reconhecer e se situar no mundo como ser-em-relação. Todavia, embasados por uma abordagem fenomenológica-existencial, tomamos o homem como um todo capaz de integrar-se e regular-se, sendo responsável por si mesmo ao desbravar sua própria existência. Percebemos o homem como uma teia complexa e multifacetada que é afetado por suas relações, mas também as afeta. Além de atribuir significado às suas vivências, é capaz de fazer escolhas apoiado em si mesmo e direcionado para suas possibilidades. Por isso, enquanto adulto o homem é capaz de acolher sua criança assustada - sedenta por atenção e amor - e fazer as pazes com a sua própria história, de modo a reorientar o foco de suas decisões para si mesmo, tendo acesso à unidade antes perdida. Infância Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. Minha mãe ficava sentada cosendo. Meu irmão pequeno dormia. Eu sozinho menino entre mangueiras lia a história de Robinson Crusoé, comprida história que não acaba mais. No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu chamava para o café. Café preto que nem a preta velha café gostoso café bom. Minha mãe ficava sentada cosendo olhando para mim: - Psiu... Não acorde o menino. Para o berço onde pousou um mosquito. E dava um suspiro... que fundo! Lá longe meu pai campeava no mato sem fim da fazenda. E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé. (ANDRADE, 2012, p. 83) É através do olhar do adulto que somos que podemos integrar nossas primeiras experiências, ressignificando-as. As palavras de Drummond nos permitem refletir a possibilidade de olharmos para a nossa história e dela extrairmos a verdade que carregamos. Apesar de não podermos fugir da nossa própria verdade podemos olhá-la com grandiosidade e amor, responsabilizando-nos por aquilo que somos e tomando as rédeas de nossa própria construção. [...] porque (finalmente) como adultos recuperamos o direito de não fugir da realidade, de rejeitar argumentos ilógicos e de permanecer fieis ao nosso conhecimento, à nossa própria história (MILLER, 2004, prólogo, p. XIX). Por isso, quando o adulto consegue acolher sua criança ferida, pode dar novo significado aos fatos que aconteceram em sua história. Apesar de não conseguir mudar aquilo que lhe ocorrera, tem a possibilidade de encontrar novos modos para lidar com seu caminho, escolhendo como construí-lo, encontrando sentidos.

A QUESTÃO DO SENTIDO

O homem é também aquele ser que a todo o momento pode se questionar sobre o sentido de sua vida. Por sentido entendemos aqui como aquilo que norteia e orienta as ações e decisões de uma pessoa. Além disso, tomamos também como o conjunto de ideias e valores que guardam significado. Dessa forma, faz parte do homem se perguntar sobre o sentido da vida e se de fato existe algum. Deparar-se com a vida no seu desenrolar e ter de responder às suas provocações é o movimento próprio de seu acontecer. Entretanto, estar diante da indagação sobre o sentido e o real valor do viver é parte deste processo. Por isso, podemos dizer que alguém que se questiona sobre o sentido de sua vida está - em última análise - frente ao presente próprio do existir (FRANKL, 1990). Ao perceber-se vivo, o homem acolhe as solicitações que a vida lhe faz precisando responder a ela de acordo com aquilo que lhe corresponde mais intimamente. Isto significa que a pessoa é capaz de encontrar, descobrir um sentido para a sua existência, mas não de criá-lo. É no fazer e desfazer do viver que a vontade por um sentido se desponta e a serviço disso o homem se depara com a liberdade de estar diante de suas possibilidades. Assim, a cada momento de vida a pessoa - onde e como ela está - depara-se com a solicitação de sentido. E a existência humana aponta para além de si mesma, mostra sempre algo que não é de novo ela mesma - a algo ou alguém, a um sentido, ou a um ser companheiro. Só a serviço de algo ou no amor ao seu parceiro o homem torna-se inteiramente homem e inteiramente ele mesmo (FRANKL, 1990, p. 29). Dessa forma, perceber aquilo que se destaca no pano de fundo da realidade no constante jogo de figuras/ fundo no aqui e agora faz com que a possibilidade de sentido se torne bastante singular (FRANKL, 1990). Isto também significa que frente ao passível de sentido se encontra a transitoriedade, deparamo-nos com ela ao longo do tempo vivido do ser. Ou seja, a possibilidade de sentido tem “Kairós” (FRANKL, 1990). Como seres temporais que somos, precisamos a cada novo momento dar uma nova resposta à questão do sentido e isso é único e está sempre à espera de cada pessoa. Tomamos emprestadas as palavras de Joel Martins para tecermos algumas reflexões sobre a temporalidade em nós: É minha intenção olhar o humano na sua existencialidade como sendo o seu tempo vivido. O tempo é o sentido da vida. Sentido como o de um curso d’água, sentido de uma frase, sentido de um valor ou sentir um perfume [...]. (MARTINS, 1995, p. 8) Configurar o homem como ente temporal nos coloca diante de sua característica de Ser de possibilidades. É ao longo de seu tempo vivido - não o cronológico, mas aquele carregado de significado - que o homem se reconhece como ser histórico, sempre o mesmo, sempre outro. Dessa maneira, o homem é capaz de vivenciar aquilo que o acontecer da vida lhe provoca. Frankl (1990) aborda as maneiras pelas quais o homem pode encontrar o sentido de sua vida. Sugere que uma dessas formas pode se dar através da realização de alguma ação: a execução de alguma tarefa que lhe apareceu como digna de ser feita. Além disso, anuncia a descoberta de sentido através daquilo que se vivencia: a algo ou alguém - sentimentos de amor e pertença. Por fim, elucida que também no sofrimento - aquele inevitável, como uma doença incurável ou situações emergenciais, por exemplo - e também diante da finitude, existe a possibilidade de crescimento e encontro de si mesmo. Assim, firmado em sua bagagem existencial - configurada por aspectos já descritos como corporeidade, historicidade e temporalidade - o ser não se abstém de procurar por um sentido, decide quem ele é nesta busca. Tomar posição diante de sua existência e de quem si é tem que ver com escolha. Isto é, estar diante dos possíveis abre o ser para a liberdade e o homem só tem condição de ser livre frente aos determinismos e condicionamentos que se lhe impõem (ROMERO, 2006). Entretanto, e apesar de todos os condicionamentos e das programações, constamos que o ser humano raras vezes fica preso à rede que o estrutura e condiciona. Apresenta uma abertura a suas possibilidades assim como um poder de questionamento que lhe permite superar a sua condição de figura parcialmente programada e, nos piores casos, de sujeição e servidão (ROMERO, 2006). Diante disso, somos colocados frente a um ponto de fundamental importância quando confrontados pela questão da decisão: a responsabilidade. Questionar-se sobre o sentido de vida e estar diante de seu acontecer leva ao homem a se responsabilizar por suas escolhas e pelo próprio sentido com o qual se depara. Lidar com este aspecto da vida coloca o homem para se haver com um conflito: responsabilizar-se tem algo como que libertador - inúmeras possibilidades e caminhos a trilhar. Entretanto, há também algo terrível, como nos provoca Mafalda, a grande personagem do cartunista argentino Quino: “Justo a mim me coube ser eu!”. A cada momento o homem precisa responder ao que a vida lhe pergunta, na concretude do aqui e agora. É terrível saber que em cada momento sou responsável pelo próximo, que cada decisão, a menor e a maior, é uma decisão “para toda a eternidade”; que em cada momento eu realizo ou perco uma possibilidade, possibilidade de um momento (FRANKL, 1990, p. 108). Dessa maneira, é com o pano de fundo apresentado anteriormente que o ser humano é capaz de emitir respostas às suas questões vitais. Entretanto, como podemos perceber, não faz isso de forma aleatória e isolada. Antes, o ser está mergulhado em uma trama na qual são tecidas suas relações interpessoais. Por isso, é consigo mesmo e com o mundo que sua liberdade e sofrimento são vislumbrados. Dar respostas ao que lhe apresenta no viver, tem que ver com encontrar correspondência na existência e isso se dá através das relações. Como nos propõe Alice Miller (1997), é possibilitado pelos sentimentos de aceitação e compreensão que o ser situa-se no seu mundo pessoal e encontra seus modos de viver. Este mundo está emaranhado por tais complexas relações que a pessoa alimenta com os objetos que fazem parte de sua realidade e pela maneira que encontra para estar em contato com todos esses elementos em conjunto. Diante disso, a relação com outrem convoca a pessoa a dar-se conta da existência deste outro, das respostas que ele emite ao mundo, mas muito verdadeiramente a dar-se conta de si mesmo e de sua responsabilidade frente ao mundo do outro e ao seu próprio mundo (MAHFOUD, 2010). Dessa forma, percebemos que estar diante das questões humanas, do sentido que tais questões podem oferecer à existência de cada ser, é estar diante invariavelmente da própria humanidade. E isto nos aponta para o reconhecimento e percepção do Tu - aquilo que não sou “eu”, mas que de alguma forma habita a interioridade do ser. Alteridade que é potência para despertar de forma completa a intimidade de cada um. Por isso, a companhia humana é capaz de auxiliar cada pessoa na busca pelo sentido de vida ao passo que instaura a possibilidade do reconhecimento e aproximação de si mesmo (MAHFOUD, 2010). O caçador de raízes [...] “Quando escolhi a selva para aprender a ser Folha por folha Entendi minhas lições E aprendi a ser raiz, barro profundo Terra calada, noite cristalina E, pouco a pouco, mais toda selva. ” (NERUDA, 1994, p. 232)

A poesia de Neruda nos provoca a olharmos para a humanidade que existe em nós. Ao aceitarmos o convite da vida acontecendo, podemos notar aquilo que somos e aquilo que nos cerca: somos um corpo, entes bio-psico-sociais-espirituais que - inseridos em uma comunidade - damos significado ao que nos acontece enquanto pertencemos à trama composta por outros seres humanos. Quando escolhemos a comunidade humana para aprendermos com cada parte dela, podemos então localizar a própria humanidade em nós, localizamos a unidade do nosso próprio ser. Entretanto, quando diante da humanidade estamos diante irrevogavelmente do sofrimento, da finitude e de questões existenciais que trazem a dúvida: qual o sentido da vida? Dessa maneira, frente ao sofrimento, podemos ser confrontados pela vida mesma que pulsa em nós e nos instiga a nos posicionarmos com aquilo que verdadeiramente somos. Como nos mostra Mahfoud (2010) a grande questão não é o sofrimento propriamente dito, mas a consciência que a pessoa tem de si mesma dentro de suas condições pessoais e as circunstâncias vividas. “Então, a reabertura do problema humano é a abertura da consciência desde um ponto de consistência dentro da inconsistência das condições humanas.” (MAHFOUD, 2010, p. 6). Neste ponto, somos colocados frente à uma questão de fundamental importância: os recursos que a pessoa dispõe para aproximar-se de si e do mundo e para lidar com suas inconsistências. Além disso, podemos refletir como a psicoterapia pode facilitar o processo de reconhecimento de si e, consequentemente, auxiliar na busca pelo sentido de vida. Incenso fosse música Isso de querer Ser exatamente aquilo Que a gente é Ainda vai Nos levar além (LEMINSKI, 2013, p. 228) Como nos aponta a poesia de Leminski, ser o que somos tem a potência de nos levar sempre além. Rumo ao crescimento pessoal, o que verdadeiramente nos representa é o que nos dá suporte no embate com as situações da vida diária, no aqui e agora, bem como projetos e projeção de um futuro. A psicoterapia pode ser uma importante aliada neste processo.

3 A PSICOTERAPIA E SUAS CONTRIBUIÇÕES PARA O INDIVÍDUO NA BUSCA DO SENTIDO DA VIDA

Podemos entender como Psicoterapia um processo de desenvolvimento pessoal de potencialidades, de reconhecimento de limitações e de aprofundamento do próprio conhecer-se. É proposta do processo capacitar o cliente, ajudando-o a reconhecer seus medos e dificuldades, mas sobretudo, suas possibilidades. Dessa maneira, quando entendemos o ser humano como responsável, ativo e protagonista do seu processo de vir a ser, temos como função fazer apontamentos sobre sua infinita liberdade de se direcionar, escolhendo os rumos de sua trajetória. Isto não significa deixá-lo desamparado na de descoberta de si mesmo, mas sim apresentá-lo como ser de decisão, capaz de significar e ressignificar a sua realidade. Diante dos possíveis e das situações de sua vida, como autor de sua própria história e de sua condição inexorável de agente transformador, o homem encontra na psicoterapia um facilitador do processo que é seu. Através da escuta de si mesmo, validada por um outro, o cliente é capaz de ampliar sua percepção, abrindo-se e permitindo maior posicionamento de forma autêntica. Além disso, o processo psicoterapêutico pode funcionar como uma ferramenta para o fortalecimento da pessoa do cliente, na medida em que percebe suas potencialidades e acolhe sua totalidade, encontrando maneiras alternativas para melhor lidar com aquilo que lhe traz angústia e dor.

O homem, por meio de seu sofrimento, revelou sua sabedoria, verdade sobre a condição humana: ser gente é ter lugar na vida de alguém. Mesmo que seja debaixo de um guarda-chuva. Quem tem lugar tem raiz, sente confiança. Quem sente confiança pode criar um destino, e quem vislumbra um destino tem asas, pode sentir a esperança. Não é coisa nem espectro. É pura travessia. É amor e mistério encarnados. É humano (CARDELLA, 2014, p. 130).

É importante ressaltar a característica dialógica numa abordagem de cunho fenomenológico-existencial. Assim, entendemos Relação Dialógica como uma construção a partir de elementos inerentes ao encontro humano tais como: ‘presença, comunicação genuína e inclusão’ (BUBER, 1965, apud HYCNER e JACOBS, 1997, p. 77). Dessa maneira, ser presença é aspecto fundamental da relação e, muitas das vezes, é importante estar no lugar em que o cliente se encontra – muito antes de desejar caminhar. Como ressaltam Hycner e Jacobs: “A presença implica trazer para a interação a plenitude de nós mesmos” (1997, p. 78). Desse modo, na relação terapêutica o encontro tem potencial transformador. Ao passo que se configura como um recorte do mundo e das relações do cliente, é capaz de mobilizar a energia propulsora da mudança. Por isso, quando julgamos o homem como sendo esse perpétuo inventar-se que vai se modificar e se constituir a partir de relações e de experiências, podemos pensar que a psicologia pode trabalhar e realizar interferências nesse caminho. Yalom (2006) prefere tratar paciente e terapeuta como ‘companheiros de viagem’, talvez nenhum outro termo explique melhor o que tentamos dizer. É através da companhia humana - citada anteriormente - que acessaremos a humanidade no outro e também a nossa própria. Dizer isto não significa sugestionar uma mistura de duas unicidades, entre aquilo que é do cliente e aquilo que é do psicoterapeuta. Antes, significa ser para que o outro seja e ser porque o outro é. Por isso um processo terapêutico ou educativo pode ser tão fundamental. Quando estamos juntos atentos à reabertura do problema humano, aparece algo maior do que era pensado antes, mais justo, mais correspondente às grandes expectativas que nos constituem. E assim volta a se fazer a experiência da surpresa e da alteridade em cada um de nós, entre nós, além de nós. Uma companhia humana é construída por cada um de seus membros, pela pessoalidade com que nos colocamos uns diante dos outros (MAHFOUD, 2010, p. 7). Nesse sentido, o contato é fundamental. Isso porque, entrar em contato é ter a possibilidade de transformar a si mesmo. Cada encontro, único e irrepetível, guarda em si a possibilidade de abertura. A relação com o outro é uma forma dialógica de desenvolvimento e crescimento pessoal. É no contato que a vida acontece e é através dele que podemos trocar, satisfazer necessidades e nos reconhecer enquanto seres humanos individualizados e legítimos. Por isso, a atualização do que a gente é acontece na relação. Enquanto psicoterapeutas é fundamental que tenhamos a sensibilidade de perceber que somos, antes de tudo, outra pessoa. Estar a serviço do outro significa priorizar o cliente na relação, colocando-se no fundo, num contexto em que as questões do cliente devem ser figura. Sem dúvida, é necessário estar congruente, ou seja, ser capaz de ouvir os próprios sentimentos e perceber conflitos e necessidades. [...] Estas são, no meu entender, atitudes amorosas do terapeuta: tanto o esforço para estar disponível em situações difíceis, quanto a humildade em reconhecer (para si mesmo) as próprias limitações e impossibilidades. (CARDELLA, 1994, p. 65) Portanto, precisamos nos atentar para o nosso próprio cuidado assim como para com o outro. Além de nos colocarmos à disposição e abertos para o encontro com o novo, a fim de que o outro seja nosso objetivo último e não o meio para chegarmos a algum outro lugar. E ainda, que possamos facilitar e contemplar este outro naquilo que ele verdadeiramente é; sem nenhum tipo de julgamento ou manipulação para que seja o que imaginamos ou esperamos. É no encontro com o diferente que vivemos um misto de graça e desafio e que temos a oportunidade de legitimar a alteridade. Diante disso, percebemos a unicidade e a beleza de ser o que se é. Confrontado pela vida em seu acontecer o homem é responsável por responder com autenticidade àquilo que lhe é provocado. Mesmo com dificuldades e conflitos apresentados por um ambiente de urgências e imediatismos como o pós-moderno, cabe atentarmo-nos para a importância do posicionamento de cada pessoalidade que compõe o todo. Traduzir-se Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira. [...] Uma parte de mim é só vertigem: outra parte, linguagem. Traduzir-se uma parte na outra parte que é uma questão de vida ou morte - será arte? (GULLAR, 1985, pp. 144-145) Ferreira Gullar convoca-nos a refletirmos sobre nossa característica de seres de conflito. Instaura, ainda, uma nova provocação: a possível arte escondida no fazer e desfazer do próprio existir. O humano, ao expressar-se de diversas maneiras, reconhece aquilo que lhe corresponde e é capaz de captar beleza no que lhe acontece. Nesse sentido, traçamos um paralelo entre arte e psicoterapia. Assim como o artista/ artesão, o psicoterapeuta precisa acolher com serenidade e delicadeza aquilo que se insinua à sua frente. Precisa também – tal qual o artista – respeitar os contornos daquilo que lhe aparece, não podendo produzir nada além da arte que já está em cada um. Dessa forma, buscamos chamar a atenção para o papel e o lugar do profissional da psicologia clínica que atua como facilitador no processo de busca de si mesmo e, consequentemente, do sentido de vida. Estar diante de uma existência inteira e multifacetada que busca constantemente por dar respostas legítimas às convocações do existir é inevitavelmente estar diante de sua própria humanidade. Por isso, estando frente à intimidade de outrem e sendo - em partes - responsável por esta relação, o terapeuta está também diante de si e por isso deve estar constantemente atento a si, à sua construção e aos sentidos que lhe despertam- Tal fato é importante porque é tendo contemplado o seu sentido de vida que o profissional poderá auxiliar o cliente em seu processo de descoberta e responsabilização. Afinal, como nos elucida Cardella (2014, p. 109) “a terapia é, então, travessia e transformação compartilhadas”.

4 O ENCONTRO NA ABORDAGEM FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL GESTÁLTICA

A escolha por este tema de monografia foi motivada pela vivência na prática clínica e no curso de especialização em Psicologia Clínica: Gestalt- terapia e Análise Existencial, que objetiva fomentar a qualificação dos profissionais da Psicologia para atuarem nos diversos contextos, tendo como foco a saúde. Tal vivência trouxe questionamentos sobre a atuação do Gestalt-terapeuta na prática clínica, considerando o desafio cotidiano de oferecer ao cliente/paciente a oportunidade de se encontrar e tornar o seu modo de ser no mundo satisfatório e condizente com o que lhe é próprio. Percebeu-se que para atuar no setting terapêutico há a exigência de um posicionamento e atitude do profissional de Psicologia que seja condizente com a proposta da Gestalt-terapia. A visão de homem e, consequentemente, a compreensão de sua atuação no mundo marcam a direção na qual o gestalt-terapeuta se põe a caminhar na gratificante tarefa de acompanhar o cliente/paciente no processo psicoterápico. A Gestalt-terapia é uma abordagem psicoterapêutica fundamentada na fenomenologia, no existencialismo dialógico, no humanismo, na Teoria Organísmica, na Teoria de Campo e nas filosofias orientais. O foco de atuação é o desenvolvimento pessoal, baseado na potencialidade humana de autorregulação e autogestão, visando a realização plena do ser. Busca fomentar a integração das dimensões sensoriais, afetivas, intelectuais, sociais e espirituais do ser humano, através do contato autêntico com o mundo e consigo mesmo. Compreende o homem como um ser complexo e em constante organização e reorganização conforme as suas necessidades. Está em constante modificação pela interação consigo mesmo e com o mundo, explicitando a sua natureza: é um ser de relação. O homem é um ser-no-mundo e um ser-no-mundo-com-os-outros. Assim, faz-se relevante a compreensão sobre a qualidade e o tipo de relação que estabelece no e com o mundo. Para tanto, utilizou-se a compreensão apresentada por Martin Buber, autor que se ocupou do estudo e compreensão da existência humana, enfatizando a existência dialógica ou a vida em diálogo. Para o mesmo, a relação de maior valor existencial é o encontro dialógico, a relação inter-humana, e descreve duas atitudes distintas do homem frente ao mundo e ao ser homem: o relacionamento Eu-Isso e a relação Eu-tu. O relacionamento Eu-Isso denota a possibilidade da experiência, do conhecimento, da objetificação. O relacionamento Eu-Tu, pela compreensão do outro enquanto pessoa, abre a possibilidade do encontro interpessoal, marcado pela presença, aceitação, reciprocidade. O dialógico é encontro mútuo, a presentificação de um e de outro, como pessoas. Na prática clínica em Gestalt-terapia, o relacionamento entre terapeuta e cliente/paciente é relevante, visto que a relação dialógica possibilita a ambos vivenciarem um relacionamento genuíno. Para a Gestalt-terapia, o relacionamento dialógico Eu-Tu, o encontro existencial, é caracterizado pelo encontro entre pessoas como pessoas. Quando o terapeuta acessa o outro enquanto um tu, uma pessoa, institui-se uma forma de relação na qual o terapeuta pode se tornar um eu, que presentifica o outro, o confirma na sua alteridade. A presença, a escuta atenta e crítica, o olhar cuidadoso, a postura acolhedora, a companhia verdadeira do terapeuta representa para a pessoa do cliente/paciente uma oportunidade de arriscar e adentrar ao seu processo, na busca por um melhor-ser. O objetivo deste trabalho é investigar a importância da postura dialógica na prática clínica, segundo a abordagem Gestáltica. Buscou-se ainda, aprimorar o conhecimento sobre a referida prática baseada na relação interpessoal dialógica como fonte do encontro psicoterápico. Para coleta e análise de dados sobre o tema proposto, foram utilizados a pesquisa e análise bibliográfica. Foi realizada uma revisão bibliográfica através de livros e artigos coletados nas seguintes base de dados: Revista IGT na Rede, Revista Científica, Revista da Abordagem Gestáltica e livros. A primeira seção apresenta uma breve sistematização sobre a Gestalt- -terapia. A segunda trata do Encontro Humano, incluindo sub-seções sobre a Relação Humana e o Encontro na Psicoterapia. A terceira trata do Encontro na perspectiva da Gestalt-terapia. Por fim, as Considerações Nunca Finais. Espera-se que as reflexões apresentadas neste texto possam contribuir, sem ser prescritivo ou normativo, com o processo de construção por que passa a Psicologia e especificamente a Gestalt-terapia.

A ABORDAGEM GESTÁLTICA

Desenvolvida a partir de 1940, por Fritz e Laura Perls, a Gestalt-terapia é uma abordagem psicoterapêutica fundamentada na fenomenologia, no existencialismo dialógico, na Teoria Organísmica e na Teoria de Campo. A Gestalt-terapia busca o desenvolvimento pessoal, baseado na potencialidade humana de autorregulação e autogestão visando a plena realização do ser. Ginger e Ginger afirmam que a referida abordagem se destina a “qualquer pessoa (ou organização) que esteja procurando desabrochar melhor seu potencial latente, não só um melhor-ser, mas um mais-ser, uma qualidade de vida melhor” (itálico dos autores). Asseguram ainda que, a Gestalt (...) se apresenta como uma filosofia, uma ‘arte de viver’, um modo diferenciado de “conceber as relações do ser vivo com o mundo”. O foco está na conscientização da experiência atual – o aqui e agora – e na “reabilitação da percepção emocional e corporal” (Ginger e Ginger, 1995, p. 17). A perspectiva do trabalho gestáltico é fomentar a integração das “dimensões sensoriais, afetivas, intelectuais, sociais e espirituais do ser humano”, na busca pelo desenvolvimento do contato autêntico com o mundo e consigo mesmo, como destacam Ginger e Ginger (1995, p. 15). Os referidos autores salientam o propósito de auxiliar no processo de “tomada de consciência global da forma como funcionamos e de nossos processos: de ajustamento criador ao meio, de integração da experiência presente, de nossas evitações e de nossos mecanismos de defesa ou resistências” (Ginger e Ginger,1995, p. 18). Nesse sentido, são apontadas quatro premissas que norteiam a referida abordagem, conforme ressalta Kiyan (2009). A primeira diz da condição do ser humano, como ser de relação, sendo a existência humana marcada pela relação estabelecida entre o campo-organismo-meio, não sendo possível conceber a vivência humana fora do contexto e do meio no qual está inserido, e das relações que estabelece. A segunda refere-se à consciência, sendo esta fundamental, uma vez que pela conscientização é possível que o indivíduo estabeleça “contatos de boa qualidade”, se responsabilize por sua existência e assuma “seu potencial”, compreendido como a capacidade de autorealização. O conceito de consciência em Gestalt-terapia está relacionado a palavra de origem inglesa Awareness que, embora não haja uma tradução exata, tem os seguintes correlatos: “consciência”, “conscientização”, “tomada de consciência” (Kiyan, 2009, p. 44). A palavra Awareness, na Gestalt-terapia assume o sentido de estar consciente de ..., da experiência vivida, se relaciona a “estar em contato com a própria existência, com aquilo que é”, enfatiza Yontef (1998). Diz do “processo de estar em contato vigilante com os eventos mais importantes do campo indivíduo/ambiente, com total apoio sensorimotor, emocional, cognitivo e energético”, o que favorecerá a integração (Yontef, 1998, p. 30-31, itálico do autor). Conclui-se que estar aware diz da disponibilidade, da presença, do interesse, na conscientização, da aceitação daquilo que é, da qual o indivíduo dispõe quanto ao processo de tomada de consciência de sua vivência, estando apoiado na interação organismo/ambiente. A terceira premissa refere-se à autorregulação ou homeostase, princípio existente em todo organismo, responsável pela satisfação das necessidades e do equilíbrio organísmico. Perls (1985, p. 21) denomina o “processo homeostático de processo de auto-regulação, processo pelo qual o organismo interage com seu meio” com a finalidade de satisfazer a necessidade dominante/primeiro plano (figura), aquela que mais agudamente precisa ser satisfeita, sendo que as demais (fundo) ficam temporariamente em segundo plano. Estas necessidades podem ser tanto fisiológicas quanto psicológicas, como a sede, a fome, o afeto e outras. Vale destacar a importância do “aqui e agora” no trabalho gestáltico. É no momento presente que a vida acontece, essa é a única possibilidade, já que o passado não existe mais e o futuro ainda não aconteceu. O centro temporal de nós mesmos como eventos espaço-tempo humanos conscientes é o presente. Não há outra realidade a não ser o presente. O desejo de reter mais do passado ou de antecipar o futuro poderia encobrir completamente este senso de realidade. (Perls, 2002, p. 146, itálico do autor) Mesmo que seja possível, e por vezes, necessário transitar pelo passado e pelo futuro, o presente deve ser considerado o norte para qualquer ação voltada para a reorganização organísmica. Assim, a “falta de contato com o presente, falta de ‘sensação’ real de nós mesmos, leva à fuga para o passado (pensamento histórico) ou para o futuro (pensamento antecipatório)”, destaca Perls (2002, p. 147). O equilíbrio está na valorização do fenômeno tal qual se apresenta em cada momento. E, quando há o desequilíbrio no contato temporal, instala-se a ansiedade, definida por Perls como “a brecha entre o agora e o depois. Assim que você deixa a base segura do agora e corre para futuro, você experimenta ansiedade”, uma vez que perde o apoio para a orientação contida no presente (Perls, 1985, p. 134).

A quarta premissa refere-se à prevalência do como sobre o porquê. Em Gestalt-terapia o processo é valorizado por favorecer a conscientização, o experimento e o crescimento. A apreensão da forma como o indivíduo age diante das exigências para consigo mesmo e as exigências externas, pode ser esclarecedora, uma vez que “dessa forma tomará contato com seu modo de agir e com as muitas outras possibilidades que se configuram a partir de então”, destaca Kiyan (2009, p. 47). O aqui e o como são conceitos base para a Gestalt-terapia. Correlacionando os referidos termos, Perls (1977a) assinala que, Agora engloba tudo que existe. O passado já foi e o futuro ainda não é. Agora inclui o equilíbrio de estar aqui, é o experienciar, o envolvimento, o fenômeno, a consciência. Como engloba tudo o que é estrutura, comportamento, tudo o que realmente está acontecendo – o processo. (Perls, 1977a, p. 69, itálico do autor). Para a abordagem gestáltica o conceito de polaridade, herança do pensamento oriental taoista (Tao-Yin/Yang no qual todo inteiro contém em si seu oposto), também é relevante (Kiyan, 2009; Yontef, 1998). As polaridades não equivalem à opostos irreconciliáveis, mas sim a partes que interconectam. O pensamento dicotomizado impacta no processo de autorregulação do organismo, tende a ser intolerante para com o diferente, e a diversidade existente. A autorregulação organísmica conduz à integração entre as partes, “numa totalidade que contém as partes”, destaca Yontef (1998, p. 34). A Gestalt-terapia, teve em sua estruturação teórica e prática, a influência de diversas correntes filosóficas e teóricas, que têm em comum a valorização do humano, nos aspectos emocionais, espirituais, culturais e sociais, e de suas potencialidades de autorrealização, autorregulação e autogestão. Destacam-se a Fenomenologia, o Existencialimo, o Humanismo, a Psicologia da Gestalt, a Teoria Organísmica, a Teoria de Campo e a Teoria Holística. Em razão do foco da presente proposta, não será explicitado as influências e as contribuições que as referidas filosofias e teorias ofereceram à construção e elaboração da Abordagem Gestaltáltica. A seguir, será apresentada breve explanação sobre o encontro humano e sua relevância, considerando a natureza relacional do ser humano.

O ENCONTRO HUMANO

O homem é um ser-no-mundo e um- ser-com-os-outros. A compreensão sobre si mesmo é fomentada pela relação com os outros homens, é um co-existente, conforme assinala Giovanetti (2015, p. 50), já que na existência do ser- -homem está explícito o ser-presente de outros homens. Para a compreensão da existência humana deve-se considerar a importância da relação constituidora entre o homem, o mundo e os outros homens, já que “(...) a relação é o elemento anterior à constituição do homem como subjetividade”. Isto pois, para a fenomenologia-existencial, o “Eu é entendido como possuindo uma vinculação primária, ‘como um ‘estar’ em uma mútua vinculação”, sendo os sentimentos “matizes da vinculação primordial” (relação mãe-bebê). A afetividade, um dos eixos da organização psíquica, se manifesta conforme a maneira como os contatos são estabelecidos pelo eu com o mundo, destaca Giovanetti (2015, p. 51). Importa compreender a qualidade e o tipo de relação que é estabelecida com o mundo, uma vez que estas marcam o modo relacional do sujeito consigo mesmo, com os outros e com o mundo. Segundo Giovanetti (2015), são três as esferas pelas quais o homem concretiza sua dimensão relacional: com a natureza – relação de objetividade; com os outros homens – relação intersubjetiva; e a relação de transcendência, que se dá pela relação do homem com uma realidade para além (trans) da realidade que ele se situa. Tal proposição concorda com as reflexões de Martin Buber (1878-1965), considerado o filósofo do encontro, que distingue três dimensões da relação humana: com a natureza, com a humanidade e com os seres espirituais (Buber, 2001). Buber prioriza e destaca a relação intersubjetiva, por considerar que por meio dela a reciprocidade e unicidade são potencializados. Inspirado na mística do Hassidismo, postula uma filosofia do diálogo e uma metafísica do encontro em sua célebre obra EU e TU. Buber se ocupou do estudo e compreensão da existência humana, enfatizando a existência dialógica ou vida em diálogo. Na busca por desvelar o sentido existencial da palavra, o referido autor desenvolveu uma ontologia da palavra – como palavra falante direcionada a outro ser – o sentido de portadora do ser. Ressaltando o significado da palavra, Zuben afirma que para o referido filósofo, “a palavra proferida é uma atitude efetiva, eficaz e atualizadora do ser do homem. Ela é um ato do homem através do qual ele se faz homem e se situa no mundo com os outros”. A palavra, então, é apresentada como “princípio ontológico do homem como ser dialogal e dia-pessoal”, como aquela que conduz e introduz o homem na existência. “A palavra, como portadora do ser, é o lugar onde o ser se instaura como revelação” (Zuben, 2003, p. 87). Para Buber, a relação de maior valor existencial é o encontro dialógico, a relação inter-humana, e conceitua relação como equivalente àquilo que, “de essencial, acontece entre seres humanos e entre Homem e Deus” (Zuben, 2003, p.84). Para o mesmo, a vida em diálogo está marcada pelas categorias: “palavra, relação, diálogo, reciprocidade como ação totalizadora, subjetividade, pessoa, responsabilidade, decisão-liberdade, inter-humano” (Zuben, 2003, p.88). Partindo do conceito de relação e da importância atribuída à mesma, o filósofo do encontro descreve duas atitudes distintas do homem frente ao mundo e ao ser homem. Trata-se das palavras-princípio Eu-Tu, que se refere a “um ato essencial do homem, atitude de encontro entre dois parceiros na reciprocidade e na confirmação mútuas”; e Eu-Isso, que diz da “atitude de experiência e a utilização” (Zuben, 2003, p.89). São duas possibilidades do ser se revelar como humano. “As palavras- princípio não exprimem algo que pudesse existir fora delas, mas uma vez proferidas elas fundamentam uma existência”, afirma Buber (2001, p. 3). Ao proferir a palavra-princípio, o homem, Eu, abre a possibilidade de atender ou não o apelo do ser, que implica em ação passiva ou ativa. A “própria condição de existência como ser-no-mundo é a palavra como diálogo”. Entretanto, o “Eu de uma palavra-princípio é diferente do Eu da outra”, uma vez que “há uma dupla possibilidade de existir como homem”, destaca Zuben (2003, p.91). Para Buber (2001, p. 6), “o mundo como experiência diz respeito à palavra-princípio Eu-Isso. A palavra-princípio Eu-Tu fundamenta o mundo da relação”. Crema (2017, p. 38) esclarece que a relação Eu-Tu diz da “essência da alteridade implícita na relação que é reciprocidade face-a-face, como fundamento da vida dialógica, base ontológica do entre, do inter-humano, essência do nós, que só pode ser proferida pela pessoa em sua totalidade”. Quando, na relação de intersubjetividade, ocorre a vivência de reciprocidade tem-se aí um encontro interpessoal. Giovanetti (2015, p. 53-54) utiliza a palavra encontro para designar a situação na qual um ser afeta, de algum modo, a existência do outro ser, ou seja, ela se concretiza na relação intersubjetiva que promove o crescimento, a troca de experiências, quando as vivências mobilizam a existência. Quanto ao relacionamento Eu-Isso, o Eu aqui demarca o sujeito da experiência, de conhecimento frente ao objeto. A experiência é distanciamento do Tu, afirma Buber (2001, p. 10). A palavra Eu-Isso marca a dualidade entre sujeito e objeto, está para o fundamento da atitude egocêntrica, “que se coloca diante das coisas que são vivenciadas com um somatório de atributos e qualidades” (Crema, 2017, p. 38). Zuben (2003) assinala a caracterização dada por Buber, aos pólos correlatos das palavras-princípio. Assim, o Eu do Eu-Tu recebe o nome de ‘pessoa’, enquanto que o Eu do Eu-Isso, é chamado de ‘egótico’. Ao Eu-pessoa equivale o Tu; e ao Eu-Egótico equivale um Isso, Ele ou Ela. Tanto Tu quanto Isso podem se referir a pessoas, seres da natureza, objetos de arte, Deus, etc. Embora as distinções entre as palavras-princípio, estas são complementares e necessárias uma a outra. É pela relação com o Tu que há o Eu. O Tu também pode vir a ser um Isso. “O Tu é presença além do tempo, do espaço e da compartimentalização, que atualiza o Eu (...). O Isso é coerente no tempo e no espaço, e pode ser ordenado e classificado, nada tendo de mal em si, como a própria matéria” (Crema, 2017, p. 38). E ainda, pela relação o “Eu se torna Eu em virtude do Tu e reciprocamente”, destaca Zuben (2003, p. 93). Sobre relação, descrita por Buber sob diferentes termos (diálogo, relação essencial, encontro), Zuben (2003) enfatiza a importância de se atentar para a definição dos mesmos: “O encontro é algo atual, um evento que acontece atualmente, isto é, na presença. A relação engloba o encontro. Ela abre a possibilidade da latência; ela possibilita um encontro dialógico sempre novo” (p. 92, itálico do autor). Assim, a relação representa a possiblidade de atualização do encontro dialógico. Conceituando o dialógico, Zuben (2003) assinala que para Buber o termo equivale a “uma forma explicativa do fenômeno inter-humano”, que implica a presença ao encontro mútuo, presentificação de um e de outro. A reciprocidade caracteriza a existência do encontro e a atualização da relação, e é encontrada apenas no eixo eu-tu. O entre é entendido como uma categoria ontológica dos polos envolvidos na relação. Dá-se espaço para o “‘entre’, que leva ao contato consigo mesmo e com o outro”, proporcionando a ocorrência de transformação para os envolvidos na relação (Luczinski e Ancona-Lopez, 2010, p. 79). “O ‘entre’, o ‘intervalo’ é o lugar de revelação da palavra proferida pelo ser” (Zuben, 2003, p. 93). Tal intervalo é identificado entre Eu e Tu e Eu e Isso. Para ser dialógico, é necessário que haja totalidade daquele que participa do evento instaurado pela palavra-princípio Eu-Tu. Por totalidade entende-se a participação do ser na sua totalidade. O“evento ‘acontece’ em virtude do encontro ‘entre’ o Eu e o Tu na reciprocidade da ação totalizadora”, destaca Zuben (2003, p. 94). Sobre o diálogo genuíno, Luczinski e Ancona- Lopez (2010, p. 79) afirmam que “tanto no que é mutuamente construído e buscado quanto na relação espontânea a vivência eu-tu pode ocorrer abrindo caminho e transformando”.

A RELAÇÃO HUMANA

Giovanetti (2015, p. 82) descreve a relação humana como sendo uma ligação na qual há “troca de conteúdos humanos” e na qual a comunicação entre as pessoas possibilite o “desvelamento de significados” para ambas as partes. E estabelece condições prévias para a caracterização da relação humana. Deste modo, elenca três pontos. O primeiro refere-se ao “conhecimento do outro como sujeito”, o que significa “reconhecer o outro como sujeito dos próprios atos” e que a busca pela concretização da direção da vida está relacionada à capacidade de decisão de cada um, uma vez que cada ser humano é capaz de encontrar e definir o rumo de sua vida, bem como o sentido de sua vida (Giovanetti, 2015, p 83). A segunda condição apresentada refere-se à “aceitação do outro como ele se apresenta”, que se expressa no respeito e na aceitação do diferente, ser capaz de abrir-se ao novo, “às novidades do cotidiano”, destaca Giovanetti (2015, p. 83). A terceira condição diz respeito à existência de mobilização de afetos na relação, que é “deixar que o outro repercuta dentro de nós, procurando compreender o que esse movimento está significando”, afirma Giovanetti (2015, p. 84-85). Dando continuidade à tarefa de caracterizar e definir o que é uma relação humana, Giovanetti (2015) sinaliza quatro elementos estruturais da relação: o encontro, o diálogo, a reciprocidade e o vínculo. O encontro é entendido como a “experiência em que, valendo-nos da relação com o outro humano, aprendemos algo e crescemos existencialmente” (Giovanetti, 2015, p. 85). Sobre o diálogo, Giovanetti (2015, p. 85) assegura se tratar do “tipo de comunicação que se vincula entre as pessoas que estabelecem o encontro”. O terceiro elemento, ser recíproco na relação com o outro, diz da disponibilidade para ser envolvido por ele, participar da vida, da existência do outro. “Se a reciprocidade for vivenciada na sua pura autenticidade, ela gerará o vínculo”, sendo o quarto elemento. Pelo vínculo a relação pode ser sedimentada, e expressa a qualidade da relação. A afetividade denota a qualidade e intensidade do relacionamento, destaca Giovaneti (2015, p. 87).

O ENCONTRO NA PSICOTERAPIA

A obra de Buber representa importante contribuição na tarefa de compreender o homem na singularidade e complexidade da sua existência, considerando sua condição de ser-no-mundo. Portanto, considera a existência humana nas suas dimensões pessoais, sociais, políticas e éticas. Suas reflexões têm como ponto de partida a experiência vivida e o diálogo, articulados com o pensamento e a ação, na busca pelo reencontro com o sujeito na sua humanidade. Apregoa a abertura para o outro na relação inter-humana, uma vez que o homem se constitui nas relações que estabelece. Neste sentido, o encontro entre pessoas, a presença marcada pela abertura, pela disponibilidade, pelo respeito, a vivência da relação mútua entre duas pessoas no processo terapêutico, são valorizados. Zuben (2003, p. 147) ressalta que embora o conhecimento científico tenha sua relevância no processo terapêutico, este não deve sobressair à relação estabelecida entre as pessoas disponíveis ao encontro na relação de ajuda. Trata-se da relação dialógica, ou relação Eu-Tu. Buber, conforme enfatizado por Zuben (2003), prioriza nas relações humanas, o ‘entre’ que é o lugar onde ocorrem os encontros autênticos nos eventos inter-humanos. Neste, a palavra proferida ao outro, capaz de suscitar resposta e revelar a autenticidade presente no encontro entre pessoas, demarca sua função como potencializadora do encontro. Neste sentido, “o dialógico acontece ‘entre’ as pessoas envolvidas”, tendo seu sentido explicitado no “intercâmbio, na interação, no intervalo das duas palavras” (Zuben, 2003, p. 155). Zuben (2003) lembra que Buber assinala que o ‘encontro’ se dá pelo movimento de distanciamento e pela relação. Sendo que, pelo distanciamento, o homem reconhece a alteridade e se distingue do outro. Pela relação, há a presentificação do outro como pessoa. O movimento de voltar para o outro com o corpo e a alma representa o movimento básico dialógico: voltar-se-para-o- outro. O oposto consiste no movimento de dobrar-se-em-si-mesmo como sendo “o retrair-se do homem diante da aceitação, na essência do seu ser, de uma outra pessoa na sua singularidade”, e ainda, como “a admissão da existência do Outro somente sob a forma de vivência própria, somente como uma parte do meu eu”, enfatiza Buber (1982), citado por Zuben (2003, p. 156). Correlacionando a compreensão Buberiana sobre relação e a prática clínica, Luczinski e Ancona-Lopez (2010, p. 79) reforçam que quando o terapeuta se abre ao cliente de modo a “conseguir acessá-lo enquanto um tu, institui-se uma forma de relação em que o terapeuta pode entrar no modo eu-tu de funcionamento, ou seja, se torna um eu.” Isto pois, proferiu a palavra tu ao considerar o outro enquanto presença, pessoa. Seu eu é um eu em relação, e sofre transformação. As autoras assinalam que por esta razão a relação entre terapeuta e cliente pode ser fecunda e proporcionar “uma sensação indescritível de admiração e plenitude”. Terapeuta e cliente são impactados por tal experiência. “É como se fosse realmente uma ruptura do funcionamento comum e uma abertura sutil para a dimensão ontológica que envolve todos os seres” (Luczinski e Ancona-Lopez, 2010, p. 79). O dialógico, então, se dá no evento do inter-humano, na relação e aceitação mútua. Para tanto, ver o outro tal como ele é, ver que o outro é um não eu, é necessário para o diálogo autêntico. Na relação terapêutica, importa que o terapeuta saiba reconhecer quando colocar de lado seus conhecimentos teóricos e técnicos, para então se colocar diante do paciente, e “tornar-se presente no encontro”, confirmando a pessoa na sua experiência e alteridade, destaca Zuben (2003, p. 157). Sobre o encontro terapêutico, Teixeira (2006) enfatiza que o foco é a experiência que o outro tem do mundo, e caracteriza-se pela relação existencial no estar-com e estar-para. O referido autor define encontro como sendo: [...] apreensão da presença do outro ‘tal como’ ele aparece diante do terapeuta – [...], sem distorções interpretativas – pelo que é necessário estabelecer contato (sintonizando), aceder ao seu estado de consciência (empatizando) e compreender, captando as modalidades de constituição da sua presença no mundo. (Teixeira, 2006, p. 295). O encontro de uma existência com uma outra existência assinala a relação existencial – estar-com, que implica uma [...] presença sentida (estar-por-si), a reciprocidade (estar-para- -o-outro), cuidado (acolher o outro na sua esfera vital), o laço emocional (eu/tu que criam um ‘nós’, numa reciprocidade activa para que o outro se ilumine e descubra) e convite ao diálogo autêntico, a partir das vivências ou intencionalidades significativas. (Teixeira, 2006, p. 295) Luczinski e Ancona-Lopes (2010, p. 80) ressaltam que, na clínica psicológica, importa “buscar apreender a pessoa na sua dinâmica existencial, vivenciando o ‘entre’, ou seja, incluindo a relação e sua imprevisibilidade como fundantes no processo desencadeado”. Giovanetti (2015) assinala que o encontro psicoterápico é desenvolvido numa interação, uma relação interpessoal na qual há a veiculação de “material subjetivo”, ou o “conteúdo significativo” das vivências da pessoa do cliente, necessária para o desenvolvimento do processo terapêutico. Enfatiza a importância de o(a) profissional respeitar o ritmo e o desvelamento da vida íntima daquele que busca auxílio. “Do processo terapêutico, o cliente espera cura, e não amizade; ajuda e não amor”. Ajuda esta, que se dará por meio da solidariedade e do apoio, na busca conjunta – terapeuta e cliente – pelo esclarecimento das suas vivências (Giovanetti, 2015, p. 55). Cabe destacar que, dado que a relação não pode ser controlada ou moldada conforme o interesse dos participantes, uma vez que se trata de um acontecimento, uma postura de abertura e “disposição diante do outro” facilitam a aproximação entre os participantes, “abrindo caminho para um encontro real entre pessoas”, enfatizam Luczinski e Ancona-Lopes (2010, p. 80). O diálogo genuíno, nesse sentido, é o início do encontro entre pessoas. E para tanto, Luczinski e Ancona-Lopes (2010) destacam três condições para a ocorrência de um diálogo genuíno. A primeira é a autenticidade dos participantes, que é “a possibilidade de as pessoas se guiarem pelo que são no momento, sem parecer algo ou produzir uma imagem de si”. Aqui é ressaltado o desafio colocado ao psicoterapeuta, que é se colocar como é, e encorajar o cliente a fazer o mesmo. Ao ser afetado pelo cliente, o psicoterapeuta se torna responsável pelas decisões que toma na condução do processo psicoterápico. A vulnerabilidade que se apresenta, tanto para um quanto para outro, pode trazer receio aos participantes do processo, uma vez que aponta para a abertura para o novo, o que não invalida a possibilidade de crescimento e “transformação de si e do outro” ao vivenciarem a relação (Luczinski e Ancona-Lopes, 2010, p. 80). A segunda condição refere-se ao reconhecimento do outro como alteridade, como singular, totalidade. “É ter uma atitude de contemplação, e não de mera observação”. E, como terceira condição, as referidas autoras apontam a necessidade de que nenhum dos parceiros se imponha ao outro, que haja uma confirmação do outro. “Confirmar alguém é acreditar nele enquanto pessoa, sem ter que, necessariamente, concordar com ele”, destacam Luczinski e Ancona-Lopes (2010, p. 80). Giovanetti (2015) destaca algumas características do encontro psicoterápico baseado na relação interpessoal, afirmando que nesta, “deve compreender, em si, o cuidado, a assistência e o tratamento” (2015, p. 56). E acrescenta: a primeira característica é o cuidado, que diz da atenção ao ritmo do cliente, aguardando o desvelar deste; quanto ao tratamento, o terapeuta deve estar atento ao objetivo da psicoterapia, entendida como uma intervenção de tratamento, uma ação ‘curativa’ que auxilia o cliente a se reorganizar no seu modo de existir. Neste sentido, o relacionamento terapêutico auxilia o cliente a desenvolver sua autonomia, evidenciando que a relação terá um fim, um rompimento necessário para que o paciente construa seu próprio caminho e se responsabilize por si mesmo. A segunda característica apontada refere-se ao objetivo da terapia e a consequente finitude. A terceira característica apontada é a existência da assimetria para o desenvolvimento da relação terapêutica, já que o terapeuta é aquele que possui formação profissional para compreender o que ocorre na relação, e o cliente é aquele que trará elementos para serem trabalhados no processo terapêutico (Giovanetti, 2015, p. 56-57). Sobre a relação que se dá no processo psicoterápico, valendo-se das reflexões feitas por Amatuzzi (1989) sobre a mutualidade da relação eu-tu, Luczinski e Ancona-Lopez assinalam que a “psicoterapia não pode ser considerada uma situação de diálogo pleno, de relação eu-tu completa, pois não há igualdade de papéis” (2010, p. 79). Aqui, é apontada uma limitação da relação instaurada no processo psicoterápico. Ainda assim, à medida que se aproxima de uma relação pessoa-pessoa, ela pode ser fecunda e trazer benefícios, principalmente ao cliente, que terá experimentado uma relação eu-tu. A presença, a escuta atenta e crítica, o olhar cuidadoso, a postura acolhedora, a companhia verdadeira do psicoterapeuta representa para a pessoa do cliente uma oportunidade de arriscar e adentrar ao seu processo, uma vez que não está só. “Suas experiências serão acolhidas e acompanhadas pelo psicólogo que, estando presente e atento, poderá contribuir para sua compreensão, indo além delas, indo para onde apontam”, afirmam Luczinski e Ancona-Lopez (2010, p. 81). É um movimento de crescimento e ruptura com os antigos modos de relação vivenciados. A posição assumida pelo psicoterapeuta funciona como um ponto de apoio para o cliente, que poderá desenvolver o auto-suporte necessário para desvelar-se e velar-se, ao mesmo tempo que avança para o encontro consigo mesmo, buscando a integração e o melhor de si. A relação no processo psicoterápico fomenta o encontro interpessoal, que é parte da psicoterapia, e coloca a pessoa em movimento de devir. A qualidade e intensidade do envolvimento presente na relação alimenta o encontro, onde pode ser formulado uma novidade que coloca em movimento, produzindo um saber e uma pergunta é apresentada. pelo cliente. “Uma resposta que surge de uma pergunta nascida do encontro, quando corresponde à vivência da pessoa, a colocará em movimento reflexivo e vivencial, tendo como resultado a apropriação de um saber de si” (Luczinski e Ancona-Lopez, 2010, p. 81). Tal proposição assinala a relação da pessoa com o mundo a sua volta, e a expande, assinalando o lugar situado pelo homem: “na fronteira entre sua subjetividade e o mundo, atravessada por ambos, mas irredutível a qualquer esfera”, destacam Luczinski e Ancona-Lopez (2010, p. 81). Cabe ainda, enfatizar a natureza do encontro, que é relacional e capaz de estimular o “processo compreensivo da pessoa”, abrindo caminho para possíveis “elaborações, ressignificações e a busca pelo sentido, as quais não se darão necessariamente no setting terapêutico, mas como consequência de uma relação”, que terá efeitos nos diversos aspectos da vida da pessoa, para além da situação terapêutica, ressaltam Luczinski e Ancona-Lopez, 2010, p. 81, itálico das autoras). Deste modo, na psicoterapia, o encontro representa, para além de um acontecimento relacional entre terapeuta e cliente, uma oportunidade de interação entre as pessoas, e de elaboração pessoal desencadeada no processo.

5 O ENCONTRO E A GESTALT-TERAPIA

A Gestalt-terapia, abordagem psicoterápica de origem fenomenológico- -existencial e holística, teve influência de diversas abordagens que valorizam o humano. Yontef (1998) assinala três princípios que definem a Gestalt-terapia, sendo eles: o primeiro: “A Gestalt-terapia é fenomenológica; seu único objetivo é a awareness e a sua metodologia é a da awareness”; o segundo: “A Gestalt-terapia baseia-se totalmente no existencialismo dialógico, isto é, no processo de contato/afastamento Eu-Tu”; o terceiro: “O fundamento conceitual da Gestalt-terapia ou a visão de mundo gestáltica baseiam-se no holismo e na teoria de campo” (Yontef, 1998, p. 234). A Gestalt-terapia é caracterizada como existencial por valorizar o presente existencial de cada paciente e pela atitude relacional adotada. Yontef (1998, p. 241) afirma que: “No nível filosófico ele é chamado de Existencialismo Dialógico. No nível de relacionamento pode ser igualmente chamado Diálogo Eu-Tu, Encontro ou Encontro Existencial”. Para a Gestalt-terapia, o relacionamento dialógico Eu-Tu, o encontro existencial, é caracterizado pelo encontro entre pessoas como pessoas, baseado no diálogo que vai além do uso de palavras, lembra Yontef (1998).

No relacionamento terapêutico em Gestalt-terapia, cinco características de diálogo são enfatizadas, conforme destaca Yontef (1998, p. 252-253). A primeira refere-se à inclusão, entendida como a capacidade de se situar na experiência do outro, sem julgamento, análise ou interpretação, atentando-se para manter distinta a própria presença. A segunda característica é a presença do terapeuta, que expressa para o cliente, “observações, preferências, sentimentos, experiência pessoal e pensamentos”. Trata-se de confirmar a pessoa, na sua diversidade e singularidade. A terceira característica é o compromisso com o diálogo. O terapeuta dialógico “permite ao que está ‘entre’ controlar” o acontecimento instaurado pelo diálogo. A partir do contato estabelecido, o terapeuta se permite ser afetado pela pessoa (inclusão), e permite que o paciente seja afetado por quem o terapeuta é (presença). Tal característica equivale ao “relacionamento baseado explicitamente no que a pessoa está experienciando, e respeito ao que o outro experiencia” (Yontef, 1998, p. 253). O diálogo é vivido é a quarta característica do diálogo em Gestalt- terapia. O diálogo é feito e não falado. Ocorre no presente, no agora. É viver, fazer e experienciar. “Entrar em contato é relacionar-se com a vida e com o imediato – agora. Relacionar-se é viver (...)” (Yontef, 1998, p. 265, itálico do autor). A quinta característica do diálogo: o relacionamento dialógico em Gestalt-terapia não é exploratório ou manipulativo, considerando cada pessoa como uma finalidade em si mesma. “Embora a mutualidade da terapia não seja total e exista uma diferenciação de tarefa/papel”, o(a) terapeuta adota o desenvolvimento de um relacionamento horizontal (Yontef, 1998, p. 256, itálico do autor). A presença ativa do(a) terapeuta é instrumento principal no processo terapêutico, destaca Yontef (1998). É compreendida como a disponibilidade do(a) terapeuta para o encontro, estar em contato com o outro que se apresenta. “Contato é a experiência da fronteira entre o ‘eu’ e o ‘não-eu’”, afirma Yontef (1998, p. 18). É pelo contato que o indivíduo se comunica, se mostra, se manifesta, experimenta, percebe a si mesmo e o mundo. “O contato é o processo básico do relacionamento”, sendo definido como “o processo de contato/afastamento”. Entrar em contato compreende quatro aspectos: conectar, separar, mover e awareness, afirma Yontef (1998, p. 237). Sobre o conceito de relacionamento dialógico, Hycner (1995) enfatiza que se refere ao fato de que nos tornamos, e somos, seres humanos devido à relação que estabelecemos com outros seres humanos. Diálogo se refere à interação mais específica entre pessoas que buscam o encontro genuíno com o outro, podendo ou não haver o uso de palavras. O diálogo pode ocorrer, inclusive, no silêncio das duas pessoas. Hycner (1995, p. 70, itálico do autor) esclarece que na psicoterapia, o termo dialógico, para o(a) terapeuta, “refere-se basicamente a uma abordagem do cliente; ir ao encontro dele no nível de desenvolvimento psicológico, até onde ele chegou, e trabalhar para ajudá-lo a ter uma postura relacional mais saudável com o mundo”. Além disso, é o relacionamento estabelecido entre terapeuta e cliente que permite a este “explorar seus conflitos intrapsíquicos” e caminhar rumo a um contato maior com o terapeuta e com o mundo (Hycner, 1995, p. 70). Tal relacionamento “permite ao cliente desvelar seus conflitos, tristezas, expectativas, enfim, e compartilhar seu mundo interno e restaurar as conexões que foram se perdendo ao longo da vida” (Almeida, 2010, p. 218). Sobre o vínculo entre terapeuta e cliente, Zinker (2007, p. 19) assinala que o “terapeuta deve agir amorosamente com seu cliente”, uma vez que a experiência de ser totalmente aceito pelo terapeuta proporciona ao paciente “sentimentos de autoconhecimento e de apreço e amor”. O amor altruísta do terapeuta promove confiança. Como o processo da terapia lida frequentemente com as partes mais vulneráveis da pessoa, a confiança deve estar sempre presente para que as duas partes se permitam revelar seus sentimentos. É esse ‘amor’, em todas as suas formas, que alimenta o processo criativo entre o cliente e o terapeuta. (Zinker, 2007, p. 19) O vínculo entre Gestalt-terapeuta e cliente possibilita o estabelecimento da confiança e, ao cliente experimentar ser compreendido, acolhido e aceito e, talvez, ele possa voltar a si mesmo e compreender-se, acolher-se e aceitar-se. Almeida (2010, p 218) enfatiza que, cabe ao psicoterapeuta gestáltico acolher de modo dialógico e fenomenológico as manifestações do cliente, “sem permitir que seus próprios vieses interfiram negativamente no processo sem, contudo, esquecer que é um participante ativo na constituição dessa relação”. Destaca ainda que, a “psicoterapia deve, sem prejuízo de outras funções, auxiliar a pessoa a reencontrar seu próprio sentido”, e ao Gestalt-terapeuta “propiciar ao cliente a compreensão da totalidade das circunstâncias em que está inserido”, das suas vivências e experiências (Almeida, 2010, p 219).

O encontro, na perspectiva da Gestalt-terapia, representa um acontecimento fomentado pelo diálogo autêntico. No processo psicoterápico, embora haja limitações decorrentes da especificidade do trabalho, ele é facilitado pela disponibilidade e postura do terapeuta em acolher e cuidar do outro na sua singularidade, alteridade e totalidade. A qualidade da relação terapêutica é fundamental, uma vez que é o empenho e a intensidade da mesma que favorecerá ao cliente a confiança necessária para desvelar-se e velar-se, num movimento de descoberta, aceitação, amor e auto-realização.

CONSIDERAÇÕES NUNCA FINAIS

A Gestalt-terapia, como abordagem de origem fenomenológico-existencial e holística, em sua estruturação teórica e prática, contou com a influência de diversas abordagens, que comungam da valorização do humano. O homem é compreendido como um ser livre, de potência e transformação, aquele capaz de autogerir, se criando a cada momento, num constante vir-a-ser, na busca por uma existência autêntica. Como abordagem psicoterápica, a Gestalt-terapia prioriza o perceber, o sentir e o atuar. O foco está na awareness, na capacidade de a pessoa estar em contato consigo mesmo, com sua existência, abrindo a possibilidade de realizar escolhas mais significativas para si. A relação entre terapeuta e paciente tem relevante importância no processo psicoterápico, sendo que o diálogo entre ambos, como pessoas, marca a característica da atuação em Gestalt-terapia. Tal postura evidencia a influência dos pensamentos de Martin Buber, filósofo do encontro, que teoriza sobre a relação Eu-Tu. Buber prioriza a relação inter-subjetiva genuína, na busca pela compreensão da existência humana, marcada pela condição de ser-no-mundo e ser-no-mundo-com-os- outros. Sendo o homem, constituído na e pelas relações que estabelece consigo, com os outros e com o mundo a sua volta, a qualidade da relação terapêutica é imprescindível para fomentar o desvelar e o revelar do ser do cliente e, ainda, possibilitar que o mesmo construa consigo uma relação de aceitação, de amor e compreensão, favorecendo a autoconsciência, autodeterminação, auto-realização. O processo psicoterápico tem como uma das possibilidades oferecer àquele que busca a psicoterapia, a oportunidade de se descobrir, se cuidar, se conectar a si mesmo, buscando a expressão de sua autenticidade. Para tanto, faz-se relevante a postura adotada pelo Gestalt-terapeuta, cabendo a disponibilidade para a pessoa que se apresenta. Tal disponibilidade é explicitada pela abertura e presença do terapeuta, pelo respeito para com o fenômeno que se desvela, pela aceitação e confirmação do outro como pessoa. Na abordagem Gestáltica a relação dialógica entre terapeuta e cliente constitui o ponto central do trabalho desenvolvido, uma vez que por meio da vivência de um relacionamento baseado no contato e na autenticidade, é possível a vivência de um relacionamento mútuo e genuíno, capaz de fomentar o autoconhecimento, a abertura para novas possibilidades de ser no mundo de modo mais condizente com o que lhe é próprio. A relação dialógica estabelecida entre Gestalt-terapeuta e cliente busca fomentar o desenvolvimento pessoal, considerando a potencialidade humana de autorregulação e autogestão, busca-se um “melhor-ser” e um “mais-ser”, a plena realização do ser. Assim, buscou-se, com a presente proposta de pesquisa, maior compreensão acerca do tema proposto, bem como aprimorar o arcabouço teórico e prático para a atuação clínica.

6 REFLEXÕES ACERCA DA ESQUIZOFRENIA DO PONTO DE VISTA DA GESTALT-TERAPIA

O propósito deste texto é aprofundar reflexões acerca da esquizofrenia do ponto de vista da Gestalt-terapia. Para tanto, foi realizada uma retrospectiva histórica sobre a psicopatologia e foi articulado o tema geral aqui proposto com a clínica psicológica. A partir de um levantamento bibliográfico sobre o assunto em questão, o texto foi dividido em quatro partes: considerações históricas da psicopatologia, apresentação dos principais conceitos gestálticos, detendo atenção primeiramente para o enfoque fenomenológico-existencial e, depois, sobre como a psicopatologia fenomenológica se vincula à esquizofrenia e, por fim, análise desta patologia sob a perspectiva da Gestalt. A escolha por esse tema surgiu a partir da experiência de atendimentos realizados em uma clínica de psicologia, cujo viés utilizado era a Gestalt-terapia. Ao longo de aproximadamente dois anos de prática clínica, foi possível observar que, em suas primeiras sessões, os clientes chegavam ao consultório afirmando ter a percepção de que muitos psicólogos pelos quais passaram estavam mais interessados em definir se o seu diagnóstico era efetivamente esquizofrenia ou outra patologia, do que em saber como eles eram enquanto pessoa. Essa visão diz respeito ao olhar de incapacidade que muitos estudantes e profissionais de psicologia ainda têm diante do sofrimento humano, o que erroneamente acaba levando-os a priorizar as explicações causais dos sintomas existentes na pessoa, em detrimento dos modos de funcionamento daquele ser, da sua originalidade como pessoa e de suas potencialidades de vida. De acordo com Schillings (2017), isso ocorre porque a esquizofrenia foi, durante muitos anos, excluída da prática clínica dos gestalt-terapeutas e da sociedade. A retomada recente desta área na clínica ampliada tem desafiado muitos profissionais a uma mudança de postura em seu trabalho “[...] o que leva [...] a uma necessária e irremediável visão de totalidade, sendo absolutamente contrária a uma abordagem segmentada da realidade, sob pena de desconsiderar a própria realidade do todo” (HOLANDA, 1998, p. 36). Diante da necessidade de se construir uma visão mais ampla do humano, ocorreu uma aproximação de uma parte da psicologia em relação à filosofia existencial e fenomenológica, presentes nas décadas 20 e 30. Somente após isso foi possível uma mudança de paradigma pela psicologia sobre a psicopatologia (de médica para fenomenológica) e, em 1951, a efetivação de uma nova proposta pela Gestalt-terapia: a psicopatologia relacional, baseada nos estudos filosóficos de Martin Buber sobre relação dialógica. Dessa maneira, para chegar a uma compreensão a respeito da psicopatologia relacional, fez-se necessário abordar o conceito de Fenomenologia Existencial presente na filosofia de Husserl e Heidegger, no intuito de entender como essas concepções influenciaram a perspectiva gestáltica sobre esquizofrenia.

PSICOPATOLOGIA CLÁSSICA E ESQUIZOFRENIA

Hipócrates, séc. IV, considerava serem os transtornos mentais disfunções que decorriam de um inadequado funcionamento cerebral. Deu a isso o nome de paradigma organicista, e, até hoje, a classe médica tem seguido essa teoria em sua prática profissional (ROMERO, 2001). A primeira descrição médica importante sobre esquizofrenia surgiu no final do século XIX com Emil Kraepelin e até hoje vem influenciando os estudos sobre o tema. Ele fez uso do termo “demência precoce”, criado em 1856 por Morel, para descrever os quadros clínicos observados em seus pacientes e propor uma classificação e um diagnóstico médico. Assim, ele conceituou a demência precoce como uma destruição das conexões internas da personalidade psíquica do paciente que ocasionavam danos emocionais e comportamentais na pessoa ao longo do tempo, além de sintomas clínicos de alucinações e delírios (LOUZA NETO; ELKIS, 2007; SADOCK, 2008). No entanto, no início do século XX, Bleuler utilizou pela primeira vez o nome “esquizofrenia” em substituição ao termo “demência precoce”. Ele conceituou a esquizofrenia, principalmente, como uma cisão da personalidade que leva à alteração dos pensamentos, dos sentimentos e de uma perturbação da relação da pessoa com o mundo exterior. Porém, deve-se ressaltar que, apesar desse termo ser utilizado hoje internacionalmente para identificar esse transtorno, os conceitos existentes desta patologia clínica se baseiam nos sintomas apresentados por Kraepelin (SADOCK, 2008).

Assim, no presente texto, compreender a classificação médica atual da esquizofrenia é importante, não para rotular o cliente reduzindo a pessoa à classificação categorial dentro do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM) ou da Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial de Saúde, mas para trazer apontamentos teóricos da psicopatologia clássica que serão úteis para o entendimento da mudança de paradigma iniciada com a Gestalt-terapia. Desde a década de 60 até hoje, foram publicadas cinco edições do DSM, em cada uma delas sugeriu-se a “melhor descrição disponível de como os transtornos mentais se expressam e podem ser reconhecidos” (DSM V, 2014, prefácio). De acordo com a última edição, sua classificação está pertinente com a denominação diagnóstica do CID-9, do CID-10 e também com a nova estrutura implantada pelo CID-11 em 2015. Desde a 3a edição, a esquizofrenia vem ganhando lugar como uma tipologia de classificação de doença mental e a psicose vem deixando de ser considerada uma categoria de fundo, isto é, um tipo de categoria médica. Então, a psicose vem sendo utilizada ou para delinear os sintomas característicos daquela ou como um transtorno dentro do espectro da esquizofrenia (nomeado pelo DSM V de “outros transtornos psicóticos”). Todas essas mudanças conceituais da psicopatologia clássica tratam o sujeito reduzindo-o às manifestações sintomáticas, ao diagnóstico médico e às limitações do funcionamento psicológico. Na 5a edição do DSM (2014), a esquizofrenia é descrita como um espectro de tipologias de doenças mentais e é conceituada como uma “anormalidade em um ou mais dos cinco domínios a seguir: delírios, alucinações, pensamento (discurso) desorganizado, comportamento motor grosseiramente desorganizado ou anormal (incluindo catatonia) e sintomas negativos” (DSM V, 2014, p. 87). Contudo, para auxiliar na construção do plano de tratamento médico, a esquizofrenia pode ser classificada em uma escala quantitativa, chamado de Gravidade das Dimensões de Sintomas de Psicose Avaliada pelo Clínico. Nele se mede o nível de manifestação dos cinco sintomas primários citados em uma numeração de 0 (zero) a 04 (quatro), sendo o nível 03 (três) considerado moderado e o 04 (quatro) grave. Esta avaliação, apesar de não ser obrigatória, pode ser feita pelo médico, durante o atendimento, através do preenchimento de oito itens, sendo que cinco incluem os sintomas listados anteriormente, e os outros três, avaliam os prejuízos cognitivos e as patologias do humor (depressão e mania). A utilização desta escala pode ser feita regularmente mediante a tomada de decisão do profissional, visando avaliar as mudanças de gravidade dos sintomas.

Portanto, o paradigma organicista resulta não só da segregação construída pela prática médica, mas representa também os preconceitos existentes em uma cultura complexa, em rótulos sociais de incapacidade e limitações implícitos no diagnóstico. Isto porque desde os primórdios do seu desenvolvimento conceitual, a esquizofrenia era considerada, descrita e classificada, do ponto de vista médico, como uma doença a ser mensurada mediante a presença de certos sintomas específicos (SANTOS, 2005).

O CONCEITO DE DIAGNÓSTICO

Segundo Dalgalarrondo (2008), a palavra diagnóstico é utilizada na psicopatologia médica para identificar e categorizar transtornos mentais e patologias psíquicas e foi utilizada pela primeira vez no séc. XVIII na medicina francesa. Todavia, é possível afirmar que o movimento antipsiquiatria na década de 1960 fez com que muitos psicólogos se opusessem a utilização do termo diagnóstico na psicoterapia. No entanto, a Luta Antimanicomial Brasileira possibilitou uma avaliação cuidadosa sobre o uso do diagnóstico médico e as conceituações dos transtornos mentais voltaram a ser importantes para a prática dos psicólogos devido à abertura da atuação destes profissionais na clínica ampliada (SCHILLINGS, 2017). Essas discussões acerca do diagnóstico impactaram diretamente a maneira dos profissionais de saúde atuarem. César Campos, psiquiatra com importante liderança no Movimento de Luta Antimanicomial e construtor da Reforma Psiquiátrica no Brasil, concluiu que ao final dos anos 70, com a vinda de Michel Foucault e Franco Basaglia no país, teve início um questionamento sobre a maneira de atender os pacientes psiquiátricos (CAMPOS, 1998). Essa reflexão se fortaleceu nos anos 80 com a Reforma Psiquiátrica Brasileira e ao final da década de 80 com a Luta Antimanicomial. Esses movimentos visavam a desinstitucionalização dos manicômios, mudanças na área da Saúde Pública e a construção dos direitos para as pessoas com sofrimento psíquico e ainda estão em curso no país (MELO, 2012). E foi nos anos 90 que: [...] o movimento pela Reforma Psiquiátrica obteve seus grandes avanços políticos e estratégicos na luta por serviços substitutivos em saúde mental e na construção de experiências de tratamento e assistência aos usuários dessa política, que vem sendo pautada nos princípios do SUS. (MELO, 2012, p. 86)Assim, com a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS), foi desconstruída a preocupação, durante os atendimentos médicos, em diagnosticar o paciente conforme o modelo médico tradicional, dando lugar a uma compreensão que “[...] defende formas diferenciadas e ampliadas de acolher, cuidar e tratar do sujeito, em sua existência concreta de vida” (MELO, 2012, p. 87). Desse modo, muda-se o paradigma: de tradicional, ou seja, focado exclusivamente no diagnóstico, para uma visão humanizada, de escuta às necessidades da pessoa e adotando uma perspectiva voltada para o bem-estar físico, mental e social do sujeito. Com isso, as fundamentações filosóficas fenomenológica e existencial têm muito a contribuir para essa nova postura profissional.

A PERSPECTIVA FENOMENOLÓGICA-EXISTENCIAL

O enfoque fenomenológico-existencial se propõe a compreender o sentido da experiência humana, antes de se preocupar em quantificar e categorizar essas vivências com explicações causais (CORREA; CHÁCON, 2008). Assim, apresentaremos a seguir alguns apontamentos acerca da Fenomenologia e do Existencialismo com o objetivo de aprofundar nas reflexões sobre essa concepção humana.

A FENOMENOLOGIA

O matemático e filósofo Husserl, no início do século XX, buscava um método através do qual pudesse descrever e analisar a consciência, de modo que a filosofia se elevasse a uma condição estritamente científica. Assim, ele propôs a Fenomenologia, cujo interesse é pelo fenômeno (RIBEIRO JÚNIOR, 2003). A palavra fenômeno significa o aspecto do objeto que aparece imediatamente na consciência, sendo objeto “a coisa enquanto está presente à consciência” (RIBEIRO JÚNIOR, 2003, p. 10). Husserl sustentava o retorno da pessoa à realidade, tal como ela se apresenta, e afirmava que o fenômeno da consciência emerge a partir da disponibilidade do ser em descrever os eventos, coisas, situações, objetos, pessoas e organismos envolvidos na experiência vivida (ROMERO, 2001). De acordo com Ribeiro Júnior (2003), a consciência é sempre intencional, ou seja, é sempre consciência de algo, uma ideia de alguma coisa. E é a partir dessa intencionalidade da consciência que somos capazes de atribuir sentido e significado ao que vivenciamos. Perceber os espaços físicos, os sentimentos que aparecem em determinado momento e até mesmo o que pensamos em relação às pessoas é o que possibilita a atribuição de sentido ao objeto. De acordo com Correa e Chácon (2008), sentido seriam os valores particulares que cada ser humano atribui e expressa ao longo de cada experiência, sendo esta última conceituada como sendo as situações e condições das quais a pessoa passa ao longo da vida, vivenciando-as de maneira particular e a partir da intencionalidade de consciência que possui. Assim, Husserl, adota uma postura de “retorno-às-coisas-mesmas”, que seria deixar o fenômeno falar por si mesmo e se manifestar como deve ser, sem pré-conceitos e sem observar o mundo sob uma perspectiva pré-determinada. Para a fenomenologia husserliana, a consciência humana é sempre consciência “de algo” e existe a partir da sua relação com o objeto. Quando deixamos que o fenômeno da consciência venha à tona, sem julgamentos, e buscamos adotar uma postura de dúvida universal diante do que pensamos saber, saímos de uma atitude natural para uma atitude fenomenológica (ROMERO, 2001). A atitude natural é aquela assumida quando encaixamos a experiência em uma teoria definida a priori e as explicações e interpretações que damos rapidamente para os caminhos que decidimos trilhar em nossa vida. Em contrapartida, a atitude fenomenológica coloca entre parênteses tudo o que conhecemos anteriormente, para podermos olhar para os fenômenos que emergem da consciência como eles são, mesmo que imbuído da nossa subjetividade. Essa mudança de atitude é chamada por Husserl de redução fenomenológica ou époche (CARDOSO, 2018; ROMERO, 2001). De acordo com Ribeiro Júnior (2003), a redução fenomenológica é a possibilidade de ver o mundo a partir de sua essência e époche é a suspensão intelectual do juízo acerca da realidade, o que permite acessar a intencionalidade da consciência. Pela redução fenomenológica pratica-se a époche, a qual consiste em colocar entre parênteses todo o mundo natural com que nossa subjetividade está acostumada, para poder refletir sobre como o objeto é realmente em si mesmo. A Fenomenologia é também considerada como um método descritivo filosófico, sendo “aquilo que se acha presente na consciência [...] que busca produzir em nós, imagens; refletir sobre estas imagens, descrevê-las, isto é, tentar determinar e classificar seus caracteres distintivos” (RIBEIRO JÚNIOR, 2003, p. 30). Segundo o autor, ele é descritivo, pois busca descrever o mais fielmente possível os aspectos de qualquer fenômeno, e é universal, porque pode ser utilizado em qualquer experiência que se manifesta na consciência. Assim, o método fenomenológico possui três momentos: intuição, redução e ideação. A intuição seria a verdade contida no objeto, algo concreto (por exemplo: o sol é amarelo); a redução seria conhecer o objeto tal como ele é a partir do que aparece na consciência; e ideação é quando se revela uma nova significação acerca do objeto e ocorre após a redução fenomenológica.

O EXISTENCIALISMO

A partir dessa perspectiva fenomenológica proposta por Husserl e se inspirando nos estudos dos filósofos Kant e Hegel sobre a racionalidade humana, o filósofo Heidegger, considerado um dos teóricos mais importantes do Existencialismo do século XX, começa a pensar de maneira mais aprofundada sobre o “sentido do ser”. Assim, ele passa a se destacar como pensador, trazendo um paradigma inovador de visão de homem para a atualidade, desenvolvendo a ontologia do ser, ou seja, o estudo do ser pelo ser (HEIDEGGER, 2012). Como complemento da nova perspectiva proposta por Heidegger, nas décadas de 1920 e 1930, o movimento existencialista ganhou força e se aproximou, pela primeira vez, da Fenomenologia com o filósofo Kiekeggard, cujo pensamento expressa a constituição da essência humana na sua própria existência. Influenciado pelas ideias de Kiekeggard, Heidegger desenvolveu o conceito de Dasein (ser-aí), para expressar a noção de ser no mundo, concreto, prático, anterior à existência humana. Isto posto, o ser-aí é visto como pleno de possibilidades e que se transforma no (e com o) mundo, em um constante vir-a-ser e em uma relação dialética (HEIDEGGER, 2012). Assim, Heidegger (2012) traz a noção do Dasein (ser-aí) como um fenômeno que se desvela aos poucos em um movimento de abertura. De acordo com a compreensão do paradigma heideggeriano proposto por Strenger (1982), o ser-aí está presente no aqui e agora, mas só pode se revelar a si mesmo no momento em que a negação do vir-a-ser e a simulação de sua existência se esgotam. Portanto, o vir-a-ser é um movimento de transcendência de todos os a prioris do homem, e quando se vai ao encontro da pergunta primária: “quem sou eu?”. Isso leva a um caminho de descoberta dos sentidos e verdades do ser-aí ao longo das experiências humanas (o vir-a-ser). Portanto, a partir da contextualização filosófica apresentada, a seguir faremos reflexões sobre uma nova proposta de visão na Psiquiatria e na qual a clínica Gestáltica tem como referencia: a Psicopatologia Fenomenológica.

A GESTALT-TERAPIA

Fritz Perls, em 1951, publicou o livro Gestalt-Therapy: excitement and growth in the human personality, sendo esta obra considerada o marco inicial a Gestalt-terapia. Teoricamente, essa abordagem está ancorada em pressupostos do Humanismo, do Existencialismo e da Fenomenologia (especialmente nas perspectivas dos filósofos Husserl, Nietzsche, Buber e Sartre), além de correntes de pensamento como a Psicologia da Gestalt, a Teoria Organísmica e a Teoria de Campo, dentre outras influências (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997). A Psicologia da Gestalt originou-se na Alemanha, entre 1910 e 1912, sendo Wertheimer, Kohler e Koffka os principais autores. Esse modelo teve como objetivo principal investigar a percepção humana e a Gestalt-terapia faz uso de vários de seus principais conceitos, como gestalt (entendida como configuração, forma), figura-fundo, e com a concepção de que o todo é diferente da soma das partes. A Teoria Organísmica de Kurt Goldestein destaca que o organismo tem uma tendência à auto-regulação, porém quando ele se desorganiza pode denotar em formas psicopatológicas de contato. Neste sentido, sua concepção de homeostase é fundamental na prática da abordagem gestáltica. Quanto à Teoria de Campo, foi desenvolvida por Kurt Lewin e se propõe a fundamentar a compreensão de que a pessoa está sempre em relação com um meio. Esse meio seria o campo, ou seja, onde e quando a relação está acontecendo, trazendo a noção de temporalidade para as situações (FRAZÃO, 2013; PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997; RODRIGUES, 2016). Em relação à concepção antropológica em Gestalt-terapia, vê-se o homem em seu potencial de desenvolvimento e de crescimento a partir de um constante processo relacional humano, sendo o indivíduo um ser de consciência, capaz de atribuir sentido e intencionalidade a tudo em uma perspectiva processual, dinâmica e temporal (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997). Porém, só se está em relação a partir do contato. Contato na perspectiva gestáltica seria a nossa capacidade humana de interagir com o outro e, ao mesmo tempo, estar presente consigo mesmo, ocorrendo isso “em diferentes níveis: do sentir, do pensar, do fazer, do falar” (RIBEIRO, 2016, p. 91). E o sentido que a pessoa atribuir ao que vivenciou na realidade fora de si irá depender da duração e da intensidade desse contato. Portanto, o contato ocorre no aqui e agora, em determinado tempo e espaço e em um dado campo. Desse modo, na prática clínica em Gestalt-terapia, o campo é expresso pelo cliente durante as sessões através dos seguintes aspectos: afetos, presença corporal, postura, respiração, ritmo e voz, elementos físicos. Assim sendo, o modo como a pessoa concebe o viver e expressa o seu sofrimento psíquico, independente do diagnóstico médico e sintomas apresentados, é o centro para o desenvolvimento do trabalho psicoterapêutico (GINGER; GINGER, 1995; LOBB, 2013; RIBEIRO, 2016; TENÓRIO, 2012). No entanto, para alcançar o propósito do Existencialismo de se refletir acerca da existência durante um processo terapêutico, utilizamos o método fenomenológico de Husserl.

O MÉTODO FENOMENOLÓGICO E A GESTALT-TERAPIA

Em Gestalt-terapia, o método fenomenológico permite o resgate do homem que está em sofrimento (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997). Na prática clínica, por exemplo, propõe-se ao cliente que descreva as vivências sobre as quais gostaria de conversar naquela sessão. Esta descrição existencial, ao longo das sessões, leva a pessoa a atribuir sentido e intenção as coisas do mundo. Por exemplo, quando a pessoa chega ao consultório sentindo dificuldades para ser aprovado em determinado exame, com ansiedade, depressão, passando por separação conjugal, perdas ou quaisquer outras adversidades, o cliente será convidado a descrever sobre aquilo que vivencia, suas percepções, fantasias, desejos, medos, lembranças, etc (CARDOSO, 2018). A partir do contato ao longo do tempo, ele poderá reconstruir os significados sobre essas experiências e se apropriar mais de sua vida e das escolhas que faz. Diante disso, todo o trabalho terapêutico privilegia as vivências despertadas na pessoa com o objetivo de ampliar a consciência e conferir sentido a partir do fenômeno que se desvela. Resgatando o homem através da descrição de seu ser, é possível que uma pessoa em sofrimento possa recuperar a sua singularidade e sua originalidade para lidar com as diferentes situações em sua vida, em um movimento de abertura ao mundo (REHFELD, 2013). A utilização do método husserliano em pessoas com o quadro mental acima requer do gestalt-terapeuta a compreensão de alguns conceitos, como saúde e doença, que irão auxiliar a adotar uma postura terapêutica diante do cliente. Mas isso exigirá certo esforço adaptativo do psicoterapeuta, pois, segundo Schillings (2017), em nosso sistema socioeconômico capitalista, a norma social qualifica as pessoas como saudáveis ou adoecidas, em um modelo dicotômico saúde-doença. E em discordância com esta divisão, a Gestalt-terapia trabalha com uma dimensão dialética e rejeita o conceito de adoecimento como sinônimo de sintomas ou de incapacidade para adotar uma concepção que vê a pessoa como detentora de capacidades para se reinventar em novos ajustamentos criativos que satisfaçam sua necessidade.

SAÚDE E DOENÇA NA ABORDAGEM GESTÁLTICA

Para compreender o adoecer humano e o ser saudável, a Teoria Organísmica desenvolvida por Goldstein é de suma importância, especialmente no modo como Perls se apropriou de alguns pressupostos desta teoria para explicar o sofrimento humano. Goldstein desenvolveu a Teoria Organísmica baseado na Psicologia da Gestalt e seus estudos apontam que todo organismo busca a sua autorregulação ou homeostase, em um impulso que é natural do próprio ser. Ou seja, o ser busca satisfazer as suas necessidades vitais (fome, sono, sexo, por exemplo) através da interação humana e da negociação entre aquilo que deseja e o que o ambiente é capaz de proporcionar. Assim, essas necessidades podem ser fisiológicas, psicológicas, sociais, dentre outras, e quando satisfeitas, o indivíduo se sente em equilíbrio. Portanto, quando ele está em um funcionamento psíquico saudável, seu ciclo vital está seguindo em fluxo. Se essa fluidez é interrompida, compreende-se que o ser está em um processo disfuncional e adoecedor (LIMA, 2014). Perls amplia a visão acima e salienta que vivemos em uma constante mudança. Por isso, saber adaptar-se aos diferentes contextos, bem como utilizar a criatividade para resolver os problemas ou pensar em novas possibilidades de vida é estar saudável. Já quando perde-se essa capacidade criativa e utiliza-se um repertório de respostas fixos, a pessoa está paralisada diante do meio e adoece (LIMA, 2014). Em outras palavras, saúde: [...] está relacionada à capacidade da pessoa de responder de maneira criativa e autêntica às suas demandas e àquelas do seu mundo próprio, reconhecendo e legitimando suas experiências, o que inclui suas possibilidades e limitações no momento presente. Assim, ela é muito mais ampla que a mera ausência de sintomas ou doenças, pois requer a capacidade de estar em relação e de investir afetivamente nos laços inter-humanos. Saúde, portanto, tem relação com a capacidade e com as habilidades do ser em responder às imprevisibilidades inerentes à vida (CARDOSO, 2017, p. 41 e 42) Portanto, para Cardoso (2017) saúde é entendida como a capacidade da pessoa em ajustar-se criativamente ao meio e a se posicionar singularmente em seu cotidiano de vida, de modo flexível e de maneira processual. Já doença ocorre quando, pelo contato inter-humano, a pessoa se vê em ameaça ou não possui suporte suficiente para lidar com a novidade decorrente da situação em que vive. Segundo Cardoso (2002) e Fukumitsu, Cavalcante e Borges (2009), é por esse motivo que se manifestam comportamentos rígidos e cristalizados ao interagir com o mundo como um todo, o que influenciará a gênese de qualquer enfermidade. Em suma, de acordo com Holanda (1998), a Gestalt-terapia busca dar atenção à saúde, enfatizando mais as potencialidades do ser-aí (o Dasein heideggeriano), do que de seus sintomas e limitações. O adoecimento humano seria, então, esse movimento de fechamento da pessoa em sua interação com o mundo, interno ou externo. Essa tomada de consciência possibilita a construção de uma vida saudável dentro de suas possibilidades humanas, mesmo que em experiências esquizofrênicas (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997). De acordo com Francessetti (2015), quando a subjetividade da pessoa não se constituiu completamente de modo a diferenciá- -la do outro, ela pode desenvolver um campo psicopatológico que a leva a experiências de adoecimento humano. Esse campo é “fenomenológico em que há uma ausência na fronteira do contato: é um campo em que o sofrimento está contido como uma ausência” (FRANCESSETTI, 2015, p. 07, tradução livre do autor). No caso da esquizofrenia, por exemplo, o que existe é uma indisponibilidade do ser na abertura ao interagir com o outro e com as próprias vivências interiores. Assim, a pessoa permanece em confluência total com o ambiente e não é, psicologicamente, capaz de separar-se do outro, sentindo-se, portanto, invadido. A psicopatologia fenomenológica, então, tem o intuito de enxergar os modos de existir e as vivências próprias do ser que adoeceu. Para Jaspers, somos o efeito de uma complexidade humana e dependendo do contexto de vida que estamos vivendo podemos nos tornar doentes. Para ele, portanto, o que existe são pessoas que adoecem e doença significa um vivenciar em que houve uma descontinuidade na vitalidade do sujeito (ROMERO, 2001).

SAÚDE E DOENÇA NA ABORDAGEM GESTÁLTICA

Para compreender o adoecer humano e o ser saudável, a Teoria Organísmica desenvolvida por Goldstein é de suma importância, especialmente no modo como Perls se apropriou de alguns pressupostos desta teoria para explicar o sofrimento humano. Goldstein desenvolveu a Teoria Organísmica baseado na Psicologia da Gestalt e seus estudos apontam que todo organismo busca a sua autorregulação ou homeostase, em um impulso que é natural do próprio ser. Ou seja, o ser busca satisfazer as suas necessidades vitais (fome, sono, sexo, por exemplo) através da interação humana e da negociação entre aquilo que deseja e o que o ambiente é capaz de proporcionar. Assim, essas necessidades podem ser fisiológicas, psicológicas, sociais, dentre outras, e quando satisfeitas, o indivíduo se sente em equilíbrio. Portanto, quando ele está em um funcionamento psíquico saudável, seu ciclo vital está seguindo em fluxo. Se essa fluidez é interrompida, compreende-se que o ser está em um processo disfuncional e adoecedor (LIMA, 2014). Perls amplia a visão acima e salienta que vivemos em uma constante mudança. Por isso, saber adaptar-se aos diferentes contextos, bem como utilizar a criatividade para resolver os problemas ou pensar em novas possibilidades de vida é estar saudável. Já quando perde-se essa capacidade criativa e utiliza-se um repertório de respostas fixos, a pessoa está paralisada diante do meio e adoece (LIMA, 2014). Em outras palavras, saúde: [...] está relacionada à capacidade da pessoa de responder de maneira criativa e autêntica às suas demandas e àquelas do seu mundo próprio, reconhecendo e legitimando suas experiências, o que inclui suas possibilidades e limitações no momento presente. Assim, ela é muito mais ampla que a mera ausência de sintomas ou doenças, pois requer a capacidade de estar em relação e de investir afetivamente nos laços inter-humanos. Saúde, portanto, tem relação com a capacidade e com as habilidades do ser em responder às imprevisibilidades inerentes à vida (CARDOSO, 2017, p. 41 e 42) Portanto, para Cardoso (2017) saúde é entendida como a capacidade da pessoa em ajustar-se criativamente ao meio e a se posicionar singularmente em seu cotidiano de vida, de modo flexível e de maneira processual. Já doença ocorre quando, pelo contato inter-humano, a pessoa se vê em ameaça ou não possui suporte suficiente para lidar com a novidade decorrente da situação em que vive. Segundo Cardoso (2002) e Fukumitsu, Cavalcante e Borges (2009), é por esse motivo que se manifestam comportamentos rígidos e cristalizados ao interagir com o mundo como um todo, o que influenciará a gênese de qualquer enfermidade. Em suma, de acordo com Holanda (1998), a Gestalt-terapia busca dar atenção à saúde, enfatizando mais as potencialidades do ser-aí (o Dasein heideggeriano), do que de seus sintomas e limitações. O adoecimento humano seria, então, esse movimento de fechamento da pessoa em sua interação com o mundo, interno ou externo. Essa tomada de consciência possibilita a construção de uma vida saudável dentro de suas possibilidades humanas, mesmo que em experiências esquizofrênicas (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997). De acordo com Francessetti (2015), quando a subjetividade da pessoa não se constituiu completamente de modo a diferenciá- -la do outro, ela pode desenvolver um campo psicopatológico que a leva a experiências de adoecimento humano. Esse campo é “fenomenológico em que há uma ausência na fronteira do contato: é um campo em que o sofrimento está contido como uma ausência” (FRANCESSETTI, 2015, p. 07, tradução livre do autor). No caso da esquizofrenia, por exemplo, o que existe é uma indisponibilidade do ser na abertura ao interagir com o outro e com as próprias vivências interiores. Assim, a pessoa permanece em confluência total com o ambiente e não é, psicologicamente, capaz de separar-se do outro, sentindo-se, portanto, invadido. A psicopatologia fenomenológica, então, tem o intuito de enxergar os modos de existir e as vivências próprias do ser que adoeceu. Para Jaspers, somos o efeito de uma complexidade humana e dependendo do contexto de vida que estamos vivendo podemos nos tornar doentes. Para ele, portanto, o que existe são pessoas que adoecem e doença significa um vivenciar em que houve uma descontinuidade na vitalidade do sujeito (ROMERO, 2001).

PSICOPATOLOGIA E GESTALT-TERAPIA

A Psicopatologia Fenomenológica foi elaborada a partir dos estudos sobre fenomenologia realizados por Husserl. Com a publicação, no ano de 1913, da obra Psicopatologia Geral, de autoria do filósofo e psiquiatra Karl Jaspers, marcou-se o início de um novo paradigma para a psiquiatria: a Psicopatologia Fenomenológica. A proposta nesse caso era compreender os fenômenos sob uma tríplice perspectiva: fenomenológica, explicativa e compreensiva. O objetivo de Jaspers era descrever de maneira fenomenológica as principais funções e disfunções psíquicas, na busca por abranger os fenômenos que influenciam o ser humano, especialmente os patológicos. Ele também buscou explicações sobre as causas de certo acometimento psiquiátrico, contudo, deu maior importância à compreensão dos modos de existir do ser que está doente. Suas explicações físicas também são relevantes para o entendimento da totalidade do ser que adoece, mas isso não é tudo. Seus estudos apontam para um interesse na trajetória vital da pessoa, na intenção de oferecer também uma visão antropológica da psicopatologia e as particularidades daquela pessoa (MOREIRA, 2015; ROMERO, 2001). Nesse sentido, se faz necessário buscar esclarecer os delírios psicóticos presentes nessas pessoas, para que dessa forma os profissionais estejam atentos aos sinais que possam indicar um momento de crise. Manifestações de um fechamento em si mesmo, ações e condutas absurdas, acompanhadas de um desligamento em relação ao ambiente, podem significar que aquele indivíduo está desconectado da realidade e desenvolvendo um mundo próprio subjetivo. Romero apresenta uma passagem interessante sobre um cliente em crise: Não sei o que me acontece, mas me desligo; perco o contato com o que está ao meu redor. Sempre tive o hábito de falar sozinho quando estava só, mas bastava a proximidade de alguém para eu parar. Só que a semana passada me peguei em plena Av. Paulista discutindo acaloradamente com minha mulher, em voz alta. De pronto me apercebi do que estava fazendo, quando vi que um monte de curiosos me olhava com ar zombeteiro. Estava só no meio da multidão. Foi como se despertasse de um sonho. Então compreendi que havia enlouquecido (ROMERO, 2001, p. 301) A grande novidade no campo médico daquela época, introduzida por Jaspers, foi a fenomenologia husserliana, dando início a uma nova disciplina separada da psiquiatria: a psicopatologia. Nesses estudos, ele teve interesse em unir o modelo explicativo, presente no modelo médico, com o modelo histórico-compreensivo possível pela descrição fenomenológica. Dessa maneira, ele inaugurou uma discussão sobre a aproximação entre subjetividade e a realidade objetiva. Somente com os estudos sobre fenomenologia realizados pelo psiquiatra suíço Ludwig Binswanger, no final da década de 1950, no âmbito da psicopatologia, é que a área passou a se denominar psicopatologia fenomenológica. Com sua daseinsanalyse ou análise existencial, este filósofo inaugurou a preocupação primordial do campo com a existência humana (MOREIRA, 2015). Em relação à Gestalt-terapia, sabe-se que é um modelo psicoterápico que se interessa pelo caráter relacional dialógico existente a partir do contato. Então, além de se ocupar com a totalidade do ser, estabelece uma teoria da psicopatologia que se refere às disfunções nas relações, tomando como base os estudos sobre diálogo relacional do filósofo austríaco Martin Buber (HOLANDA, 1998; PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997). Assim, diante de circunstâncias difíceis para as vivências do ser, a pessoa pode passar a desenvolver resistências no modo de interação humana. Esse bloqueio não implica na configuração de uma psicopatologia, porém quando esses comportamentos se tornam cristalizados, rígidos e anacrônicos, podem configurar formas psicopatológicas de contato e desenvolver um ajustamento criativo3 psicótico. Essa terminologia se refere à psicose da concepção clássica, porém por ser o ajustamento criativo uma função relacional, ele não se utiliza pré-definições, como no paradigma tradicional. Assim, o que se considera na psicopatologia relacional é que no caso de um ajustamento criativo psicótico a “disposição criativa se encontra, em algum grau, potencialmente desorganizada” (COSTA; COSTA, 2017, p. 25).

O SOFRIMENTO PSÍQUICO GRAVE

Autores como Carvalho e Costa (2010) adotam a terminologia “sofrimento psíquico grave” no lugar de utilizar rótulos da patologia médica, mesmo diante da esquizofrenia: [...] a fim de indicar não apenas o que está sob os desígnios da definição de psicose, mas para superá-la rumo ao apontamento de fenômenos existenciais, fenomenológicos, de caráter relacional e dinâmico que digam da angústia humana bem mais que a mera classificação nosográfica e categorial sintomatológica (CARVALHO; COSTA, 2010, p. 17 e 18) Van den Berg (1966) apresenta um paciente fictício que apresenta as disfunções comuns presentes em uma pessoa que se relaciona com a vida de maneira perturbada e patológica. Apesar de ter sido escrito na década de 1960, esta história se mantém atualizada para viabilizar uma compreensão de como se dá uma vivência psicopatológica da realidade. Por exemplo, ao propor ao cliente que descreva como vê o outro: [...] ele não tem contato real com pessoa alguma. Toda e qualquer pessoa o irrita. Quando seus pais estão conversando sobre assuntos corriqueiros de todos os dias, acha-os crédulos, muito românticos e otimistas demais. Tem objeções à palavra “amigo”, pois a amizade, em sua opinião, não é mais que egoísmo disfarçado. Não chama de amigos aos colegas estudantes que o visitam e conversam com ele a respeito dos seus conhecimentos científicos. [...]. No que concerne as moças, não tem opinião formada. Prefere não ter nada com elas. [...]. Ao seu ver, as relações com prostitutas são a única espécie de relações que um homem pode ter com outro sexo. [...]. Para conservar a sua tranquilidade, ele tem que se afastar de tudo o que possa evocar relações humanas normais (BERG, 1966, p. 17) A citação acima demonstra a interrupção que a pessoa vive em relação ao diálogo humano, em um movimento de fechamento ao outro, o que assinala algo presente na vivência psíquica e que a leva a este isolamento social e a um agravamento de seu sofrimento psíquico. Após essa contextualização filosófica, metodológica e epistemológica, as próximas linhas desse estudo apresentam alguns conceitos da Gestalt-terapia que darão subsídio para tecer reflexões sobre as funções psíquicas no caso de um ajustamento criativo psicótico. Na Gestalt-terapia, autores que estudam o tema “esquizofrenia” optam também por fazer uso da expressão “ajustamento criativo psicótico” ou “ajustamento psicótico” como nomenclatura gestáltica. Portanto, a seguir, faremos uso desta terminologia ao se referir sobre a esquizofrenia da clínica médica (COSTA; COSTA, 2017).

CONSIDERAÇÕES SOBRE A COMPREENSÃO DIAGNÓSTICA DO AJUSTAMENTO CRIATIVO PSICÓTICO NA ABORDAGEM GESTÁLTICA

A Gestalt-terapia é uma abordagem que considera corpo e mente de maneira unificada e que existe a partir do contato humano em uma perspectiva holística. Na ocasião de seu surgimento, foi considerada uma abordagem inovadora da visão de homem, uma vez que se ocupou em observar o que acontece na fronteira de contato entre organismo e ambiente. No entanto, quando ocorre uma disfunção na interação humana devido à ruptura da fronteira de contato, a pessoa encontra-se em um ajustamento criativo psicótico em que ocorre uma desorganização no funcionamento do self (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997).

O CONCEITO DE SELF

O termo self utilizado nessa abordagem é o processo de como uma pessoa estabelece contato com o ambiente de maneira espontânea e criativa (LOBB, 2013). O relato abaixo exemplifica como um cliente se apresentou em sua primeira sessão: [...] deixou espaço entre as suas costas e o espaldar da cadeira, como se estivesse preparado, desde o início, para levantar-se e ir embora. Sua mão direita, que mantinha dentro do colete ao entrar e que utilizou apenas para me cumprimentar com pouco entusiasmo, voltou imediatamente à sua posição original (BERG, 1966, p. 9) Na descrição acima, a relação do sujeito com o profissional fez emergir na pessoa do cliente uma maneira de se apresentar única. Esse modo de se mostrar (como se fosse embora a qualquer momento e com desânimo) é como o self estava atuando naquele momento. Em um próximo encontro, o self poderá se apresentar diferente e dependerá de como ocorrerá a interação. De acordo com Lobb (2013), o self seria caracterizado pelo modo como a pessoa reage nas diferentes situações. Em outras palavras, o self é o sistema de contatos em funcionamento na fronteira, nos quais as partes da pessoa (mente, corpo, pensamento, emoção, respiração) se manifestam de maneira integral durante o contato. Seu objetivo é formar figuras e fundos4 e fazer ajustamentos criativos, incluindo suas três funções que trabalham juntas durante a interação: Id, Ego e Personalidade. A função Id seria a capacidade sensório-motora, psicológica e corporal do self de estabelecer contato com o mundo; a função Personalidade seriam as atitudes adotadas durante a interação; e a função Ego é a capacidade do self em contato de identificar quem é ele e quem não é, e o poder de escolha individual (LOBB, 2013; PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997). A fronteira de contato e as funções do self são constituídas nos dois primeiros anos de vida da criança. Se nessa época ela passa por experiências de contato em que foi valorizada e confirmada em sua singularidade, mais tarde conseguirá dialogar consigo mesmo, se diferenciar do outro e aceitar as suas “necessidades e limites próprios, com capacidade para autorrealizar- -se, transformando ou adaptando-se às condições do ambiente que lhe cerca” (SCHILLINGS, 2017, p. 227). Mediante o exposto, o ajustamento criativo do tipo psicótico é conceituado como um adoecimento que acomete a pessoa devido a uma desordem no funcionamento do self, mais especificamente, na função Id. Quando a pessoa desenvolve este tipo de psicopatologia, pode-se dizer que, possivelmente, em tenra idade, ela não vivenciou experiências de contatos humanos suficientemente saudáveis para que esta função fosse constituída de forma plena em seu psiquismo (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997; TENÓRIO, 2012).

O AJUSTAMENTO CRIATIVO PSICÓTICO E A INTERRUPÇÃO NA FUNÇÃO ID DO SELF

A função Id é o fundo do sistema de contato do self em que se encontram situações passadas, assuntos inacabados, experiências cotidianas e as emoções básicas do ser humano (como dor, desejo). É a sensação mais primária, a pulsão interna da pessoa, em que ocorre um sentir pré-reflexivo, ou seja, perceber o ambiente de maneira vaga (BARROS, 2014; CARVALHO, 2010; GINGER, GINGER, 1995).

Lobb (2013) descreve que a função Id possui a capacidade sensório-motora de assimilar o contato, ou seja, apresenta uma habilidade desde a infância de assimilar o contato organismo-ambiente e de adquirir habilidades específicas relacionadas às necessidades psicológicas e às experiências corporais. A necessidade psicológica diz respeito àquilo que pode surgir no interior do sujeito, ou a partir de uma demanda do ambiente, sempre em uma relação organismo-ambiente. Já a experiência corporal é a capacidade da pessoa de estabelecer diante daquilo que vivencia um sentido de que o ambiente pode ser confiável. Quando a função Id está disfuncional, ocorre uma percepção vaga do ambiente e o self se torna frágil e vulnerável, não conseguindo reagir ao mundo durante o contato humano. A percepção da pessoa e a habilidade de avaliar e desenvolver estratégias (ajustamentos criativos) para enfrentar suas dificuldades se torna incipiente. A pessoa fica com diversas situações para serem resolvidas, mas que, na verdade, nunca se resolvem. Por esse motivo, no ajustamento criativo do tipo psicótico, o processo de formação e fechamento de Gestalten5 é aniquilado e o fundo se torna impossibilitado de sustentar a emergência da figura. Esse processo ocorre porque, diante de uma vivência insustentável para a pessoa, houve o rompimento de sua fronteira de contato, o que leva a uma desintegração e à fragmentação do self (TENÓRIO, 2012). Assim, aquilo que emerge como figura parece não se ancorar psicologicamente de maneira inteligível e ela passa a ter pensamentos, sentimentos e comportamentos incoerentes com a realidade (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997). De acordo com Lobb (2013), mediante tal interrupção também ocorre uma acumulação de Gestalten abertas e incompletas o que, consequentemente, potencializa a interrupção do próximo contato. Por isso, a pessoa com um ajustamento criativo psicótico apresenta comumente dificuldades de estabelecer contato social e se isola. Romero (2001) conta a experiência de um paciente que se aproximou dele quando atuava como estudante de psicologia em um hospital. A pessoa disse: “Lembra, padre, das folhas de outono? Dos dias anuviados e do riso das crianças? Eu me lembro. E se lembra, padre, quando você brincava com os cachorros no pátio de sua infância, enquanto nossa mãe cantarolava uma canção? Não se lembra? Eu me lembro” (p. 286). Neste exemplo, o autor pontua justamente a dificuldade de estabelecer contato com o outro. Nesse caso, o paciente estava se relacionando com o estudante de maneira limitada e também estava em contato com uma experiência própria e única. Para Francesetti e Lobb (2007), outra dimensão importante é a compreensão da experiência psicótica. Esses autores entendem-na como uma construção muito particular da pessoa e que acontece a partir de um relacionamento alterado com o outro e o ambiente. Essa alteração ocorre devido à dimensão pré-pessoal, que é uma experiência pré-consciente da pessoa onde o self não se diferencia do ambiente. Segundo Francesetti, Geceli e Roubal (2013), a sensação de uma constante invasão do outro dentro de si mesmo, ao ponto de tornar-se insustentável manter uma relação humana, ocorre na medida em que a fronteira de contato é totalmente rompida na subjetividade. A partir disso, Francesetti (2015) avança nos estudos trazendo a perspectiva de campo fenomenológico como igualmente importante para a compreensão das experiências psicóticas. Para ele, o campo é compreendido em uma dimensão fenomenológica onde surgem fundos e figuras relacionados com as situações vivenciadas no aqui e agora. Neste caso, uma experiência surgirá em vez de outra, sendo elas fenômenos que emergem em determinado tempo e espaço. O campo fenomenológico e também o psicopatológico seriam entidades que existem entre e ao redor da pessoa e do ambiente, porém sem reduzi-la a qualquer um deles (FRANCESSETI, 2015). Desse modo, receber uma pessoa que vivencia experiências psicóticas requer do psicoterapeuta uma postura fenomenológica de suspensão de juízos e de valores - redução fenomenológica, ou seja, colocar tudo o que se sabe entre parênteses, por assim dizer - priorizando o aqui e agora, as vivências e a presentificação da experiência pelo cliente. Assim, independente do tipo de ajustamento criativo, a presença e o diálogo terapêutico autêntico são o que permitem à pessoa, com esse tipo de sofrimento psíquico grave, uma reorganização e um reajustamento no mundo (CARDOSO, 2018). Na relação terapêutica onde o campo fenomenológico que emerge nas sessões é patológico do tipo psicótico, ter a consciência da possibilidade de contato, porém limitado, do cliente, faz diferença na construção da relação terapêutica entre psicólogo e cliente. Por isso, a realização de uma compreensão diagnóstica processual é tão importante no trabalho psicológico, não para tentar curar ou mudar o cliente, mas para reconhecer a dor e as experiências dessa pessoa e, também para compreender qual tipo de relacionamento terapêutico a pessoa está pedindo. Mesmo diante de um contato humano abortado, como no ajustamento criativo psicótico, pode ser um caminho promissor para o profissional possibilitar espaço que propicie para a pessoa o despertar de si mesma (FRANCESETTI; GECELE; ROUBAL, 2013).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Basicamente, foi ressaltado ao longo do texto o modo como se vê, do ponto de vista da Gestalt-terapia, uma pessoa que apresenta um ajustamento criativo do tipo psicótico. Em uma visão humanizada, há o interesse do psicoterapeuta em compreender como essa pessoa reage em sua vida, os sentidos e os significados que vão sendo construídos ao longo das experiências. Um aspecto relevante a ser considerado é o foco do psicoterapeuta em olhar para o ser-aí (Dasein) do sujeito a partir da relação dele com o mundo (ser-no-mundo), levando em consideração que a pessoa se relaciona com o ambiente e se transforma, em um constante vir-a-ser. Mesmo diante de um sofrimento psíquico grave, o trabalho clínico é pautado por uma postura fenomenológica do profissional que considera o contato humano limitado como o contato possível no encontro terapêutico. Isso porque se compreende, em um caráter processual, que a disfunção na função Id do self acarreta em interrupções de contato que geram Gestalten inacabadas e isso dificulta o fluir da relação organismo-ambiente, levando a pessoa a ter experiências esquizofrênicas a partir de um campo fenomenológico do tipo psicótico. Na clínica, quando uma pessoa que apresenta um ajustamento criativo psicótico está descrevendo para o psicoterapeuta suas experiências esquizofrênicas, por exemplo, o que acontece nesta interação é um contato, porém abortado. Ou seja, não cabe ao profissional promover questionamentos que façam o sujeito entrar em conteúdos emocionais e promover reflexões profundas sobre sua experiência. Aqui, vale muito mais acolher o sofrimento da pessoa, deixá-la dizer sobre sua vivência, deixando-a ser em seu contato limitado com o mundo, de modo que este aconteça, mesmo que de maneira abortada, para que haja a possibilidade de ser restaurado. Pelas observações na clínica, adotar uma postura profissional de não entrar em contato com o sujeito leva a uma consequência reversa do esperado, ou seja, é aí que o sujeito com ajustamento criativo psicótico sentirá confiança em construir um vínculo terapêutico com o profissional. E o próprio processo de construção desse vínculo já se torna terapêutico por ser esta a maior dificuldade existente nessa pessoa, em função da interrupção na função Id do self. Desse modo, pela dificuldade de interação entre organismo e ambiente, há a possibilidade de contato, porém de maneira abortada. À guisa de conclusão, a Fenomenologia e o Existencialismo oferecem um método e uma visão antropológica pautado pela ciência e que permite o acesso às experiências e às vivências de uma pessoa com ajustamento criativo psicótico. Isso permite com que uma relação terapêutica possa permitir um contato como possibilidade de ser em um movimento saudável de crescimento humano.