Tecnologia Aplicada aos Fios Têxteis

Corte e Costura de Lingerie

1 Técnicas, invenções e ciência:

Técnicas, invenções e ciência são sinônimos da história do progresso e dos grandes momentos da humanidade. Com o passar dos séculos, o homem discorreu sobre a natureza da matéria e adquiriu aos poucos um profundo conhecimento sobre o mundo micro e macroscópico. Conhecer a evolução, a experimentação e as técnicas do passado é uma chave para compreender o mundo científico e tecnológico que circunda os seres humanos.

A tecnologia é, de modo geral, a conversão de recursos naturais com a finalidade de atender às necessidades humanas. Assim, é um termo que inclui desde as ferramentas e processos simples até as ferramentas e processos mais complexos já criados pelo ser humano.

Sendo assim, a roupa pode ser considerada uma tecnologia e são usadas por questões sociais, culturais ou por necessidade de proteção ao frio ou exposição solar.
Os materiais utilizados para a confecção das roupas podem ser naturais, como algodão, seda, couro, ou sintéticas, como o acrílico, por exemplo. São fibras que ao longo dos anos adquiriram tratamentos especiais e, por isso, são carregadas de conhecimentos tecnológicos.

Não diferente, são os processos dos outros materiais, mesmo sendo de base química, como os fios sintéticos. Todos eles possuem de algum modo, uma carga considerada de conhecimento para, de fato, existir.

Nesse contexto, em que o vestuário é fator primordial à sociedade, tanto as roupas quanto os acessórios vinculados a elas, fazem parte de um universo conhecido como Moda. Ferreira (1999) conceitua que a moda é o “uso, hábito ou estilo geralmente aceito, variável no tempo, e resultante de determinado gosto, ideia, capricho, e das interinfluências do meio”.

Moda é a tendência de consumo da atualidade, composta de diversos estilos que podem ter sido influenciados sob vários aspectos. Acompanha o vestuário e o tempo, que se integra ao simples uso das roupas no dia-a-dia.

A moda é abordada como um fenômeno sociocultural que expressa os valores da sociedade (usos, hábitos e costumes) em um determinado momento. O vestuário é apenas um dos muitos enfoques de pesquisa destinados à moda.

Assim, este estudo fundamenta-se nesse recorte, ao explorar a Moda por meio do vestuário e compreender algumas das tecnologias aplicadas às fibras naturais e sintéticas e como elas interferem no processo de produção das fibras que compõem os tecidos e, desse modo, interferir diretamente no Design de Moda.

O estudo tem por objetivo geral apresentar tecnologias que agem diretamente no Design de Moda, sobretudo no que diz respeito aos fios empregados na confecção de roupas, e compreender se novos produtos alteram o consumo da sociedade.

Os objetivos específicos do estudo são: identificar tecnologias aplicadas aos fios empregados no produto de Moda; comparar as tecnologias investigadas e documentar e avaliar o impacto dessas tecnologias no consumo social.

Os avanços tecnológicos e científicos têm se refletido na área têxtil por meio do desenvolvimento de novas fibras, acompanhando o comportamento do mercado consumidor que busca por novidades e valores funcionais e estéticos. Os velhos têxteis do passado ganham agora status de fibras tecnológicas, incrementadas com o resultado das pesquisas na área.

O avanço da indústria têxtil permitiu não apenas o aprimoramento dos tecidos tornando a roupa mais confortável e funcional, mas também permitiu sua produção em maior escala e, como resultado, ajudou a viabilizar sua distribuição no mercado, esclarece Sanches et al. (2009).


Os fios naturais provenientes do algodão, cânhamo e linho não são, há muito tempo, as únicas matérias primas utilizadas no vestuário. Polímeros e poliamidas, por exemplo, são alguns dos modificadores conquistados pela indústria química que puderam ser aproveitados na indústria do vestuário.

A Moda é uma das principais consumidoras dessas tecnologias aplicadas nas confecções de tecidos, visto a quantidade de coleções de roupas lançadas todos os anos pelas indústrias de vestuário e com grande diversidade.

O Design conquista espaço não apenas pela produção em massa, mas também pelo consumo. Esse é um fator determinante quando se alia tecnologia, Moda e Design a fim de aumentar o consumo e, no final, obter o lucro.

A Moda é vendida pelos meios de comunicação em massa como um dos principais canais para que os indivíduos expressem seu estilo individual e distinção dos seus pares. Nessa totalidade de expressões da identidade e estilos, pode-se destacar, por exemplo grupos sociais como os Emos, Punks, Patricinhas, Mauricinhos, Nerds, Clubbers, Grunges e Góticos.

O visual de cada tribo é marcado por um tipo específico de filosofia, gosto musical, estilo de vida, vestuário e esses comportamentos refletem no consumo. Uns preferem matérias sintéticos, outros preferem roupas de tecidos finos e naturais.

    • bem provável que uma das questões mais presentes nas discussões sobre o mercado de consumo contemporâneo diz respeito à Moda, e esse conceito mantém uma relação de simbiose com a mídia e com os fenômenos sociais, argumentam San'Anna & França (2008).

Rech (2002) conceitua produto de moda como um produto que conjugue as propriedades de criação, qualidade, vestibilidade e aparência. Estes são altamente orientados para o mercado e devem contemplar além da função de abrigo e proteção, os valores simbólicos dos códigos estéticos vigentes.

Neste contexto, o desenvolvimento deste produto deve contemplar aspectos mais abrangentes do que a mera estilização do produto, primando por sistematização das informações e decisões na conduta projetual (Treptow, 2003). Assim, a diferenciação do vestuário pode ser descrita não apenas por modelos e novos cortes de roupas, mas também por meio do material que constitui os tecidos e agradam diferentes públicos.

Os materiais capazes de formar um componente têxtil, por meio do entrelaçamento de fios, são chamados de fibras têxteis. Estes, por sua vez, podem ser separados em duas classes bem distintas: naturais ou artificiais, resultante de avanços de pesquisas entre as substâncias e suas propriedades, expõe Sanches et al. (2009).

Os fios sintéticos passam por tratamentos para que, cada vez mais, fiquem com o toque e maciez do algodão, além disso, tem elevada aceitabilidade, os vestuários são confeccionados com maior rapidez e a um custo menor, diminuindo a dependência da indústria têxtil das eventuais crises de escassez de fibras naturais.

No Brasil, a empresa têxtil Rhodia Poliamida mantém uma linha de produtos de fios sintéticos chamada Amni®, que assegura o padrão de qualidade dos artigos produzidos com os fios de Poliamida 6.6, em perfeita tradução da tecnologia e inovação (AMNI, 2009). Essa matéria-prima é disponibilizada para diversas empresas nacionais.

Nesse aspecto tecnológico, os têxteis inteligentes surgem como materiais aptos a sentir e a responder de maneira controlada ou prevista aos estímulos do meio ambiente, que podem ser de origem elétrica, térmica, química ou magnética. Como resposta a esses estímulos, estão as mudanças da forma, cor, geometria, volume e outras propriedades físicas visíveis. As inclusões de Shape Memory Materials (SMMs) em estruturas têxteis resultam em novos conceitos de vestuário, que têm se utilizado das duas principais tecnologias da área: os Shape Memory Alloys (SMA) e Shape Memory Polymers (SMP) para criar efeitos estéticos e funcionais em tecidos, assim como o desenvolvimento de peças de vestuário, esclarece Laschuk (2008).

O uso de Shape Memory Materials na área têxtil reflete a importância da inovação tecnológica e dos benefícios do seu potencial estético e funcional no vestuário, ressalta Laschuk (2008). O efeito de memória de forma pode criar nos tecidos significantes e expressivos efeitos tridimensionais na sua forma ou superfície proporcionando “vida” ao tecido.

O surgimento das chamadas fibras e fios com tecnologia têm contribuído decisivamente para o estabelecimento de novas fronteiras de utilização dos produtos de moda. A incorporação deste tipo de fibras converteu produtos utilizados no cotidiano em artigos de elevado conteúdo tecnológicos, com alto desempenho em diversas situações e de maior conforto, seja em roupas de uso casual como em roupas íntimas ou para práticas esportivas.

Soutinho (2006) acredita que a moda íntima masculina ou feminina, tem assumido uma importância cada vez maior para os consumidores e passou a ser cuidadosamente escolhida de acordo com as suas finalidades. Assim, o setor do vestuário íntimo apresenta novas tecnologias que atendem principalmente a três propriedades: valorização estética e conforto, proteção e fácil cuidado.

Desse modo, o mercado de moda íntima ganhou nos últimos anos novos enfoques e orientações com o aparecimento de modernas tecnologias de produção dos seus artigos, como: a lingerie sem costura, calcinhas contra celulite, calcinha anti-cólica, lingerie com algodão orgânico, entre outros.

A moda íntima também desponta como uma alternativa para a contribuição na conscientização ambiental. O Algodão orgânico vem sendo empregado na confecção de peças de vestuário íntimo por algumas empresas.

Souza (2000) descreve que o algodão orgânico é aquele cultivado dentro de um sistema que fomenta a atividade biológica, sem agrotóxicos, estimula a sustentabilidade e exige um manejo diferente do sistema de produção convencional. Desta forma, os sistemas de plantio orgânico dependem basicamente de insumos naturais, contribuindo para a saúde do solo e das pessoas.

Ao tratar de roupas específicas para a prática esportiva, hoje, alguns tecidos são desenvolvidos por grandes empresas para promover a melhoria dos produtos juntamente com centros de estudos. Uma dessas empresas, situadas no Brasil, é a Santaconstancia, que disponibiliza tecidos com tecnologia para a produção de roupas esportivas. Pode-se destacar entre os produtos que servem de matéria-prima para as demais confecções a Poliamida Leggerissimo Pro, Sportiva-Pro® e Milledue® (SANTACONSTANCIA, 2009). As tecnologias aplicadas aos fios garantem, entre outros benefícios, conforto térmico, leveza e melhor precisão na execução dos movimentos.

Procedimentos de pesquisa

Após levantamento bibliográfico para verificar e registrar as tecnologias existentes aplicadas aos fios que compõem os tecidos para o vestuário, houve a produção de um questionário para coletar informações referentes a temática do estudo.

O questionário procurava responder algumas perguntas básicas como, por exemplo, se os indivíduos se interessavam por Moda ou se conseguiam diferenciar um fio natural de um fio sintético e se as pessoas se interessavam por tecnologia aplicada aos tecidos.

Essas indagações também buscavam compreender como novos produtos alteram o consumo da sociedade, seja por meio do estilo de vida, aquisição de roupas em quantidade, ou pelo fato das pessoas procurarem de fato a compra de materiais com tecnologia têxtil.

O questionário da pesquisa de campo foi aplicado na cidade de Bauru – SP na primeira quinzena do mês de novembro de 2009. Responderam as questões 50 indivíduos dos gêneros masculino e feminino com média de idade de 27 anos, com idades entre 17 e 57 anos.

Resultados da Discussão

Os resultados do estudo apresentados nessa sessão podem auxiliar o designer de Moda a conhecer o seu público e optar pela melhor tecnologia para a confecção de seu produto.

Investigar estilos de vida das pessoas, de um determinado grupo de consumidores, ajuda a indústria do vestuário a satisfazer de modo pleno as reais necessidades dos usuários, desde os trajes casuais ou próprios para práticas esportivas.

O designer deve atentar para questões antropométricas, processos de fabricação, materiais e até mesmo para o descarte final do produto visto a real escassez de matérias primas e seu correto uso com cautela para evitar desperdícios. Perguntas e percentual de respostas são apresentadas na Tabela 1.
 

A primeira questão da pesquisa (1. Você se interessa por Moda?) serviu para avaliar o interesse das pessoas no assunto Moda. Metade das pessoas respondeu que “Não, mas procuro estar bem vestido”; 28% afirmaram “Sim, uso porque sinto necessidade de ser bem vestido”; 12% responderam “Sim, só uso roupas e acessórios que estão ‘na moda’” e 10% “Não, não tenho interesse”. Assim, é possível registrar que 78% das pessoas se interessam e procuram estar bem vestidas.

A pergunta seguinte (2. Você consegue reconhecer a diferença entre uma fibra natural (algodão, linho, juta, etc.) e uma fibra química (viscose, poliéster, poliamida, etc.)?) verificava o quanto as pessoas conseguiam distinguir uma fibra natural de uma fibra química. Apesar de mais de 30% dos entrevistados afirmarem reconhecer entre as fibras naturais e químicas, pode -se constatar que 50% não sabem e que alguns gostariam de saber as diferenças entre as fibras (28%).

A questão três versava sobre os têxteis inteligentes (3. Você já teve contato com um têxtil inteligente (materiais que estão aptos a sentir e a responder de maneira prevista aos estímulos do meio ambiente/usuário)?) e as respostas já eram esperadas: a grande maioria (70%) não conhece ou nunca teve contato com um têxtil inteligente, contudo, 30% dos entrevistados relataram algum conhecimento sobre o produto.

A quarta pergunta serviu para avaliar o interesse das pessoas pela tecnologia aplicada aos tecidos (4. Você se interessa por novidades tecnológicas em tecidos?). A maioria dos entrevistados afirmou não se preocupar, contudo, se o produto tiver alguma tecnologia, “é bom”, indiferente ao tipo específico de tecnologia aplicada aos fios.

A pergunta seguinte (5. Quantas peças de roupa com tecnologia têxtil você possui?) procurava responder a quantidade de peças de roupas com algum tipo de tecnologia que as pessoas possuíam e avaliar o consumo dos usuários. Mais da metade afirmaram possuir até cinco peças (52%); 22% responderam ter de 6 a 10 peças de roupas com tecnologia têxtil; 20% “de 11 a 20 peças” e apenas 6% responderam ter mais de 20. Este resultado não era o esperado, pois cinco peças é considerado um número baixo, visto a aplicação de tecnologia em vestuário como, por exemplo, em roupas íntimas e esportivas.

Para avaliar o consumo anual das pessoas com tecnologia têxtil foi formulado a questão de número seis: 6. Quanto você gasta por ano com roupas com tecnologia? Com este resultado é possível afirmar que, pouco mais de 70% dos consumidores em potencial da entrevista, gastam até R$ 200,00 por ano com roupas que possuem tecnologia no vestuário.

A pergunta seguinte tinha o propósito de conhecer qual o tipo de peça do vestuário que os consumidores achavam mais importante ter tratamento tecnológico (7. Qual peça você considera mais importante possuir tecnologia têxtil em roupas esportivas?). Como imaginado, a maioria indicou a camiseta como a peça do vestuário que consideram mais importante ter tecnologia têxtil (48%). Porém, roupas de banho (22%) foram mais lembradas do que as bermudas e calças (20%) e os acessórios como meias, tops e faixas registraram apenas 10% da preferência das pessoas.

A pergunta oito versava sobre tecnologias específicas aplicadas em roupas para prática esportiva (8. Qual tipo de tecnologia você considera mais útil em roupas esportivas?). Mais da metade, 64%, prefere o conforto térmico em primeiro lugar. Outras tecnologias aplicadas aos fios como ação bactericida, compressão e proteção Ultra Violeta ficaram empatadas na preferência de “utilidade” respondida pelos entrevistados.

A pergunta nove versava sobre tecnologias específicas aplicadas em roupas íntimas (9. Qual peça você considera mais importante possuir tecnologia na roupa íntima?). As roupas íntimas femininas ocuparam o primeiro lugar no grau de importância de possuir alguma tecnologia (52%) e somaram mais da metade das respostas. Roupas íntimas masculinas obtiveram o segundo lugar (36%).

A última pergunta teve o propósito de avaliar o tipo de tecnologia que as pessoas acreditam ser mais importante em uma roupa íntima (10. Qual tipo de tecnologia você considera mais útil na roupa íntima?). A grande maioria (68%) afirmou ser a ação bactericida a tecnologia mais importante a ser aplicada em roupas íntimas, seguido da ação hidratante (12%) e das ações repelente e combate à celulite (10%).
 

Considerações finais

A ciência dos materiais, as tecnologias de transformação e a integração com a tecnologia da informação possibilitam a criação de roupas tendo em conta características como: funcionalidade, segurança, bem-estar e conforto.

Existe um grande investimento em pesquisa e desenvolvimento de fibras químicas, o que pode ser comprovado com a grande quantidade de novas fibras que são apresentadas atualmente ao mercado, principalmente fibras para tecidos utilizados na indústria para o vestuário intimo e esportivo.

Com a pesquisa realizada nesse trabalho percebemos que apesar das pessoas não possuírem interesse direto por moda, procuram estar bem vestidas e mesmo que não reconheçam quais tecidos são naturais ou químicos, acreditam que a tecnologia em tecidos e fibras aplicadas ao vestuário desperta o interesse no momento da compra.

Nos tecidos inteligentes para roupas esportivas, considera-se a tecnologia mais importante o conforto térmico aplicado em peças como as camisetas. Já na moda íntima, a tecnologia bactericida contida em calçinhas e sutiã.

Novas possibilidades para têxteis com alta tecnologia aplicados ao vestuário estão previsto para os próximos anos, acomodando variadas funções para as roupas. Os avanços recentes em pesquisas com os tecidos inteligentes garantem aplicações inovadoras que prezam sempre pelo bem estar do usuário. Porém, essas tecnologias ainda possuem obstáculos a serem superados, como os aspectos de processabilidade, engenharia de fabricação, qualidade e preços.