OS BENEFÍCIOS DA INTERAÇÃO HOMEM-ANIMAL
Dog Walker
1 Introdução aos Benefícios da Interação do Homem com o Animal:
O animal, que antes servia apenas de suporte, evoluiu também para animal de estimação. Sua relação com o ser humano tornou-se tão complexa que, ao entrar para uma família, ele é capaz de provocar alterações no comportamento de todos os seus membros.
O ritmo frenético atual tem causado grandes problemas não somente aos adultos, mas também às crianças, que têm sido grandes vítimas deste processo. Por esta razão, e em decorrência dos resultados de pesquisas científicas que mostram que o convívio com animais é altamente benéfico, alguns profissionais estão pensando em desenvolver, a partir daí, uma terapia alternativa para auxiliar no tratamento de pessoas que necessitam de auxílio psicológico com o fim de proporcionar-lhes uma melhor qualidade de vida.
Ter um bicho de estimação pode não ser apenas uma questão de lazer ou de companhia. A medicina está descobrindo que eles também podem ser benéficos para a saúde humana. Estudos do American Journal of Cardiology mostram que pessoas, ao interagirem com animais, constantemente tendem a apresentar níveis controlados de estresse e de pressão arterial, além de estarem menos propensas a desenvolver problemas cardíacos (VICÁRIA, 2003). Em termos psicológicos, os cães, através de sua pureza e espontaneidade instintiva, resgatam a criança interior da pessoa e aumentam a capacidade de amar da mesma, conforme aponta Kassis (2002).
Atualmente, os princípios dessa terapia mediada por animais são utilizados em todo o mundo. O trabalho é realizado através da utilização de cães, gatos, cavalos, peixes, tartarugas, coelhos, em hospitais e escolas especializadas no tratamento de pessoas que apresentam problemas psicológicos e na reabilitação de portadores de deficiências múltiplas. O vínculo afetivo que o paciente logo estabelece com o animal é o primeiro passo para o sucesso da terapia, pois abre caminho para a comunicação com o terapeuta.
A prática da Terapia Assistida por Animais (TAA) tem se tornado mais conhecida e aceita por profissionais da área da saúde e por leigos. A importância da relação homem animal e o bem-estar extraído desta convivência se estendem hoje para práticas terapêuticas. Sabe-se que este tipo de terapia traz inúmeros benefícios tanto a nível físico, como psicológico e educacional. A base da construção da relação terapêutica está no relacionamento entre homens e animais. Esta interação se dá de modo informal com animais de companhia e seus proprietários. O diferencial que caracteriza a relação sob ponto de vista terapêutico é que esta se constrói intermediada por uma equipe multidisciplinar formada por profissionais da área da saúde humana, animal e educação, dentro de um planejamento direcionado para cada situação e objetivos.
Cada programa é realizado por grupos de voluntários que, junto aos animais visitam instituições como asilos, centros de saúde mental, orfanatos, prisões, casas de apoio e hospitais, inclusive sendo reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina como modalidade terapêutica (MARTINS, 2006).
Berzins (2000) observa que estudos efetuados nos Estados Unidos e na Europa apontam para uma redução do tempo de recuperação das doenças e uma maior sobrevida aos indivíduos que possuem animais de estimação e que foram acometidos por cardiopatia isquêmica. Percebe-se que, nessas situações, a presença do animal resultou na redução da ansiedade, diminuição de depressão, uma vez que os animais incentivam a atividade física, tanto para levá-los aos passeios como para a realização dos cuidados diários.
Ressalta-se, contudo, que a relação homem-animal não deve substituir a relação homem-homem. O cão não pode substituir um filho ou marido, mas pode ensinar como agir em nossos relacionamentos (Kassis, 2002).
Os seres humanos e os animais convivem há milhares de anos e aprenderam a obter vantagens dessa parceria. De uma mera funcionalidade, os homens passaram a sentir afeto por esses outros seres e perceberam que além de uma função, eles poderiam dar lhes algo muito mais valioso, promoção de saúde.
As investigações sobre os efeitos positivos que os animais podem ter no ser humano é um trabalho que ainda merece muita pesquisa e deve ser desenvolvida com todas as implicações científicas. Por mais que tenhamos convicção dos efeitos positivos do relacionamento com os animais, devemos ter uma avaliação científica para validar o processo perante a comunidade médica e descobrir que essas emoções positivas não acontecem acidentalmente e sim, são os resultados de uma transmutação química em nosso organismo e geram processos psicológicos.
As modalidades de intervenção com o uso de animais abrem, para os profissionais de saúde e educação, novas perspectivas em termos de recursos auxiliares. Precisamos de comprovação científica publicado para validar esta prática como modalidade terapêutica eficaz. O professor da Universidade de Zurique e cientista comportamental americano Denis Turner, declara que “A terapia assistida por animais representa uma tremenda economia para a saúde pública e obtém sucesso até nos casos em que métodos tradicionais de tratamento falharam.“ (SANTOS apud DOTTI, 2005)
A mesma habilidade que permite que um bicho de estimação perceba o movimento de um esquilo distante, o cheiro de um frango escondido ou o som do entregador de pizza antes mesmo que a campainha toque, proporciona-lhe também a capacidade de sentir mudanças sutis nos ânimos, necessidades e emoções de uma pessoa.
Dado o exposto, não há dúvidas de que muito se temos a acrescentar no que se refere ao estudo sobre o tema que desencadeou a pesquisa, visto que existem poucas pesquisas científicas divulgadas, principalmente na área veterinária. É imperativo ao médico veterinário que participa ou coordena um projeto de terapia com animais, saber quais as obrigações que tem para com o grupo, e quais os critérios e exames deve solicitar do animal co-terapeuta.
As atividades podem ser realizadas com qualquer espécie de animal, porém, neste trabalho especificamente, será descrito uso do cão como co-terapeuta e/ou facilitador de um projeto.
O objetivo deste trabalho foi compilar informações e comprovações existentes nos mais diversos meios de comunicação como livros, revistas, sites, periódicos, dissertações e monografias, sobre os benefícios de se utilizar animais (cães) como facilitadores de terapias em programas específicos; descrever o papel do médico veterinário em um projeto antes e durante o seu andamento; listar os critérios para avaliação e seleção de um animal co-terapeuta; estimular e divulgar esta prática como modalidade terapêutica diferenciada, eficaz e com baixo custo.
2 Interação Homem-Animal:
O registro histórico mais antigo até hoje encontrado sobre a relação homem- cão é a descoberta de um túmulo em Israel datado de 12 mil anos atrás; encontrou-se o corpo de uma mulher idosa com sua mão segurando um filhote de cachorro (DAVIS E VALLA, 1978, apud LANTZMAN, 2004).
O registro histórico mais antigo até hoje encontrado sobre a relação homem- cão é a descoberta de um túmulo em Israel datado de 12 mil anos atrás; encontrou-se o corpo de uma mulher idosa com sua mão segurando um filhote de cachorro (DAVIS E VALLA, 1978, apud LANTZMAN, 2004).
Havia uma distinção social entre os cães imposta pelos homens e, no século XVIII, o cão já era conhecido como “o mais inteligente de todos os quadrúpedes conhecidos” e louvados como “o servo mais fidedigno e a companhia mais humilde do homem” (BERZINS, 2000).
No Brasil, Dra. Nise da Silveira, em meados dos anos 50, levantou a possibilidade de se permitir cães em hospital psiquiátrico no Rio de Janeiro. A experiência começa a tomar corpo quando uma cadela de rua aparece no hospital. O cachorro não seria adotado pela instituição se Dra. Nise não perguntasse a um dos pacientes: “Você aceita tomar conta dessa cadelinha, com muito cuidado? Ele respondeu que sim”. Assim, a cadela é prontamente adotada por um paciente, até então, apático. A médica percebe, na verdade apenas comprova o que ela já suspeitava, que os animais podem ser potentes agentes curativos para pessoas em sofrimento (SILVEIRA, 2001).
Uma das precursoras em TAA no Brasil é a Dra. Hannelore Fuchs, psicóloga e médica veterinária, coordenadora do Programa Pet Smile. O programa tem como objetivo desenvolver habilidades motoras e autoconfiança nas crianças bem como diminuir a ansiedade das mesmas. Para Fuchs, o contato com os pequenos animais do programa acaba reduzindo o estresse provocado pelo problema enfrentado (DELARISSA, 2003).
A partir da década de 60 o psicólogo norte-americano Boris M. Levinson publica uma série de artigos sobre as possibilidades de intervenções terapêuticas com o uso de animais. Apresentando situações clínicas nas quais considerou a presença do animal fundamental no processo terapêutico. Levinson (1962) considera que quando o ambiente falha em fornecer condições suficientes para o desenvolvimento da criança, a presença do animal poderia suprir tais necessidades emocionais.
Nas décadas de 70 e 80, as pesquisas se intensificam, sendo criada a Pet Terapia, termo este abandonado nos anos 90 por não traduzir de forma eficaz as possibilidades de trabalho com animais. Finalmente chegamos às terminologias implantadas e aplicadas no mundo inteiro, “Atividade e Terapia assistida por animais- A/ TAA”, seguindo o padrão americano (DOTTI, 2005).
A Delta Society, entidade dos EUA que regulamenta os programas com uso de animais, assim define: A Atividade Assistida por Animais (AAA) promove oportunidades para benefícios motivacionais, educacionais, recreacionais e/ ou terapêuticos para melhorar a qualidade de vida. A AAA é realizada numa variedade de ambientes profissionais, para profissionais e/ou voluntários especialmente treinados, em associação com animais que obedecem a critérios específicos (www.deltasociety.org/aboutaaat.htm).A Terapia Assistida por Animais (TAA) é uma intervenção com objetivos definidos na qual um animal que obedece a critério específico é parte integral do processo de tratamento. A TAA é dirigida ou realizada por profissionais de saúde/serviços humanos com experiência especializada e no âmbito de sua prática profissional. Tem o propósito de melhorar o funcionamento físico, emocional e/ou cognitivo humano (habilidades de pensamento e intelectual). A TAA é promovida numa variedade de ambientes e pode ser de natureza grupal ou individual. Este processo é documentado e avaliado.
De acordo com David Niven (2001), autor do livro “Os 100 segredos das pessoas felizes”, um dos fatores que contribui para a felicidade do ser humano é conviver com um animal:
Os animais têm muito a nos ensinar sobre o amor. Quanto mais nos aproximamos deles, mais alegria nos dão. (...). O amor que os cães oferecem incondicionalmente enche de alegria e revitaliza aquelas pessoas muitas vezes isoladas e abandonadas pelos familiares. (...) A relação com os animais nos proporciona uma alegria imediata e provoca sentimentos positivos que contribuem fortemente para nossa felicidade. Ter um animal de estimação aumenta as probabilidades de felicidade em vinte e dois por cento. (NIVEN, 2001)
Os relatos clínicos e as reflexões trazidas por Levinson e Nise da Silveira dentre tantos outros autores renomados, inauguram um novo campo de investigação: as intervenções com participação de animais. Campo este que abraça os saberes da Psicologia, Medicina Veterinária, Etologia, Antropologia e outros. Nas décadas de 80 houve um crescente interesse por este campo de estudo, mas foi na década de 90 e na atual que as pesquisas cresceram significativamente, principalmente nas instituições de pesquisa dos Estados Unidos e da Grã Bretanha. Em Setembro de 2000, aconteceu no Rio de Janeiro, a 9ª. Conferencia Internacional sobre Interação Homem-Animal, despertando o interesse de diferentes profissionais da área da saúde para atuação e pesquisa científica em TAA.
3 Benefícios da Interação Homem-Animal:
Já na década de 80, Fuchs (1987) em sua tese de doutorado constatou que existem inúmeras vantagens resultantes do convívio com animal de estimação como; alívio para situação tensa; disponibilidade ininterrupta de afeto, companhia constante; amizade. Proteção; Segurança
Berzins (2000) também cita algumas vantagens resultantes do convívio com animal de estimação, elencados por Dotti (2005), como:
- Exercícios e estímulos variados relativos à mobilidade;
- Estabilização da pressão arterial e reações químicas ( estudos divulgados por programas americanos, ingleses e canadenses);
- Bem-estar;
- Afastamento da dor;
- Estímulo da memória, mesmo depois que acabam as sessões;
- Diminuição da ansiedade;
- Senso de responsabilidade;
- Redução do estresse.
A explicação das mudanças físicas e comportamentais referentes à aplicação da TAA é devido à ativação do sistema límbico situado no sistema nervoso central, que é responsável pelo emocional, no qual o contato com a natureza e animais libera endorfinas gerando uma sensação de tranquilidade alegria e otimismo facilitando assim, a recuperação orgânica de qualquer injúria; auxiliam também na produção de células de defesa, como os linfócitos T. Esta interação ajuda o doente a esquecer a dor, se sentir menos solitário e mais otimista, reduzindo a necessidade da administração de medicamentos. (VELDE et al, 2005 ).
Os idealizadores do projeto Companheiro Animal de Marília- SP, relataram que um dos principais benefícios do programa foi impor limites e tolerância nas crianças ansiosas, refletindo positivamente no trabalho pedagógico desenvolvido nas próprias intuições envolvidas (ALVES, et al. 2009)
Crianças do mundo inteiro recorrem a seus bichos de estimação em momentos de tensão emocional. Quando se sentiam tristes, crianças alemãs da quarta série, pesquisadas, recorriam a seus animais, dizendo-lhes que os preferiam à companhia de qualquer outra criança. Uma pesquisa de 1985, com crianças de Michigan entre 10 e 14 anos, constatou que 75 por cento voltavam-se para seus bichos de estimação quando estavam perturbadas. As crianças destacavam a capacidade do animal de escutar, tranqüilizar, demonstrar aprovação e proporcionar companheirismo. As pessoas que não amam os animais acham hilariante a alegação de que os animais compreendem nossas emoções. (BECKER & MORTON, 2003)
Para os idosos, sabe-se que o animal proporciona a melhora da autoestima devido ao contato físico e ao despertar do senso de responsabilidade. Há um aumento visível nos canais de percepção do idoso. Pelo fato de terem que cuidar do bicho, as pessoas mais velhas passam a se sentirem úteis. A introdução de animais em asilos é uma boa forma de recreação e socialização (LIMA, 2005).
Nos autistas, a pet terapia proporciona melhora na capacidade de comunicação e na sensibilidade, embora muitos desses pacientes não falem e tenham aversão ao toque(DOTTI, 2005).
4 PROJETOS E COMPROVAÇÕES CIENTÍFICAS:
Como a interação com o animal pode resultar numa melhora na saúde mental e física? Estudos mais complexos têm indicado efeitos fisiológicos positivo nas pessoas que interagem com os animais. O Journal of the American Association of human- Animal Bond veterinárias – AAHABV, de 2001, menciona alguns resultados já alcançados pelas pesquisas de dois médicos da África do sul: O PRof. Johannes Odendaal e a Dra. Susan Lehmann contataram que tanto nos humanos como nos cães há uma mudança benéfica que ocorre nas endorfinas beta, phenilatalamina, prolactina, dopamina e ocitocina dentro de uma interação positiva de quinze minutos. A liberação estes hormônios além de dar a sensação de felicidade, diminui o hormônio do estresse, o cortisol (ODENDAAL, LEHMANN, 2001).
Um dos últimos estudos do Dr. Odendaal envolveu seis participantes clinicamente depressivos, os quais tiveram visita de cães por trinta minutos diariamente. O sangue das pessoas do grupo, antes de receberem a visita dos cães, foi medido e apresentou baixo nível de serotonina, phenylethylamine e dopamina. Depois que os cães foram introduzidos, estes índices aumentaram no sangue dos pacientes (ODENDAAL, 2003).
Para comprovar esta relação, foram realizadas diversas pesquisas científicas, obtendo várias informações relevantes para a Psicologia. Por exemplo, em 1999, Karen Allen (apud FARIA, et al 2004), cardiologista da Universidade de Nova York, agrupou 48 corretores do mercado financeiro (homens e mulheres) que apresentavam altos níveis de pressão arterial e stress. Metade deles, escolhidos ao acaso, receberam um cão ou gato e passaram a morar juntos. Após um semestre o grupo "tratado" com animais de estimação tinha pressão arterial normal e o stress reduzido à metade. Outros autores pesquisaram a sobrevivência de enfartados coronários possuidores ou não de animais de estimação. Nessa pesquisa, eles analisaram 92 pessoas. Destas 53 possuíam animais de estimação incluindo cães; neste grupo foi alcançado o índice de sobrevivência de 94%, após o infarto. No restante do grupo, que não possuía animais, o índice obtido caiu para 71%. Em 1997, houve o acompanhamento de 2805 pessoas por 89 meses. As mulheres observadas que tomavam antidepressivos e possuíam animais de estimação, precisavam de doses menores do que as que não os possuíam. Tendo em vista os benefícios obtidos com a interação homem-animal, acredita-se que, uma terapia onde predomine esta interação seja uma alternativa positiva de reabilitação física e mental em seres humanos, pois a ação de cuidar de outro ser vivo tende a ser auto curativa (FARIA, et al, 2004).
O Prof. Warwim Anderson apud (DOTTI, 2005) descobriu, num estudo com a amostra de mais de 6.000 pessoas, que os proprietários de cães e gatos tinham significativamente menos taxas de trigliceres e colesterol do que os não proprietários.
A psicóloga brasileira Sabine Althausen, em sua dissertação de mestrado em 2006, considera que a realização das terapias e atividades assistidas por animais é necessariamente interdisciplinar pois, além da função da equipe terapêutica- ou do terapeuta que trabalha individualmente em consultório- o veterinário e o adestrador são fundamentais: o primeiro pelos cuidados com a saúde do animal, o segundo por seu papel na seleção e treinamento do cachorro.
Segundo Fuchs (1987) o significado atribuído ao animal depende das características individuais das pessoas em interação: “O animal vivido é diferente para cada um dos sujeitos, depende das necessidades psicológicas de cada um” (p.164).
A psicóloga Glaucielle Nunes de Oliveira acredita que a contribuição de sua monografia de graduação em 2005, foi a de demonstrar que, apesar de pouco explorada, a TAA surge como uma eficiente ferramenta no tratamento de pessoas, especialmente de crianças, que necessitam de auxílio psicológico. A pratica pode proporcionar-lhes uma melhor qualidade de vida, visto que o convívio com animais, em especial com cães, é altamente benéfico.
No seu trabalho, Oliveira (2005) afim de verificar a importância da Cinesioterapia (terapia assistida por cães) realizou entrevistas via email com duas psicólogas que fazem uso de tal terapia. As entrevistadas foram Alessandra Comin Martins e Manuella Baliana Macial.
Na sua entrevista, Manuela Baliana relatou que: Inúmeras melhoras são observadas. No asilo observamos que as idosas riem mais, se comunicam melhor, sentem menos dor, trabalham a memória (com relação aos nomes dos cães e às lembranças de quando tinham um animal) e até melhoras no caso de depressão. Nas escolas especiais (para autistas e psicóticos), as crianças e adolescentes interagem mais com as pessoas, ficam mais calmos, aumenta a autoestima, mostram melhoras quanto à agressividade e até fazem vínculo com os cães. Temos relato de uma professora que quando uma criança se apresenta ansiosa é só mencionar no nome de um dos animais que visitam a escola que ela se acalma e conversa sobre a última visita que foi feita pelos animais. Na clínica, em primeiro lugar, a relação transferencial com o terapeuta é bem mais rápida com a presença de um cão. Crianças com dificuldades de falar sobre assuntos delicados, acabam se sentindo mais dispostas à falar na presença de um animal. Na reabilitação, cães com deficiência motivam as pessoas a reagir e lutar por sua melhora.
Quando foi solicitado o relato de um caso marcante. A psicóloga Alessandra Comin relatou: Existem vários, mas os mais interessantes são aqueles onde os cães espontaneamente fazem o seu trabalho. Houve um caso de uma criança com paralisia cerebral e uma deficiência mental moderada, extremamente deprimido, com uma significativa atrofia de membros superiores, que nem conseguia pegar uma colher p/ comer. Com algumas sessões, já estava abraçando um cão samoieda que sozinho descobriu que focinhando os bracinhos da criança e colocando a sua cabeça por baixo deles ele conseguia fazer o contato...A criança gostou da experiência, sorriu e isso foi reforçado. Aos poucos a criança se esforçava mais e mais p/ esticar os braços assim que via o cão. O humor começou melhorar e a motricidade também. Em pouco tempo conseguia tocar o cão sem que o mesmo precisasse lhe cutucar . A relação familiar também melhorou muito, pois os pais participavam da sessão e viam a evolução lenta, porém gradual. Essa criança ficou uns 6 meses na terapia com ótima evolução motora, supressão do quadro depressivo, e também melhora no desenvolvimento da interação do paciente com a família, dentro das limitações impostas pela paralisia cerebral.
Uma equipe de voluntários leva cães ao visitar o abrigo de crianças e adolescentes deficientes físicos - O Lar Maria de Lourdes em Jacarepaguá. Lá são deixadas crianças com os mais variados problemas de deficiência, mas a grande maioria é portadora de hidrocefalia e Síndrome de Down: Nossa equipe leva filhotes da raça Pit Bull para passar uma tarde inteira brincando com essas crianças. O mais incrível é que mesmo as crianças que quase não conseguem falar ou se mexer, ao ver os cachorrinhos, elas fazem um esforço fenomenal para chegarem mais perto deles e ter mais atenção. Uns gritam au au, outros fazem sinais com as mãozinhas chamando por nós e outras que não tem a mínima condição de se levantarem da cama, apenas sorriem quando colocamos os filhotes perto delas. Fazemos este trabalho uma vez por mês e não só ajudamos a levar um pouco de alegria para estas crianças, como também fazemos o possível para levarmos o material necessário para o sustento do Abrigo que vive de doações (BITENCOURT, 2008).
Abordado sobre por que não utilizar animais de abrigos para o uso da A/TAA, Dotti (2005) diz que só seria favorável se uma estrutura muito rígida fosse seguida, com uma avaliação criteriosa dos animais e responsabilidade de uma pessoa constantemente.
Desafiando o que afirmou Dotti, foi criado o projeto “Viraterapia” em Porto AlegreRS. Este projeto de Terapia Assistida por animais se destaca pela utilização de cães SRD, abandonados, proveniente do CCZ (centro de controle de zoonoses) ou de abrigos para cães abandonados. Os animais passam por uma avaliação veterinária criteriosa (em anexo) e comportamental rigorosa antes de participarem do projeto. Os animais foram adotados pelos coordenadores do projeto.
Todos estes estudos recentes indicam que a interação homem–animal implica, favoravelmente, manutenção ou alteração dos níveis de lipídeos , glicose, bem como influenciam positivamente o sistema imune da pessoa e do animal.
Essas pesquisas revalidadas, replicadas a provadas por Centros de pesquisa, Universidades s conceituados profissionais, nos dão a base para levarmos às nossas autoridades de saúde, e também iniciar a validação desses processos no Brasil.
5 Papel do Médico Veterinário:
O médico veterinário é responsável pela avaliação dos animais sendo o único profissional capacitado para verificar a saúde de um animal terapeuta.
Exerce função de orientador, informando e ensinando os cuidados básicos de saúde e higiene de cada espécie, bem como suas particularidades. Ele também deve participar do andamento do projeto para que reavaliações sejam feitas com freqüência e o esquema de vacinação e vermifugação respeitado.
Santos (2005) acredita que é de fundamental importância que programas de A/TAA possuam médicos veterinários para zelar pela saúde dos animais terapeutas, devido à sua proximidade com os pacientes. Para a autora, além de evitar as chamadas zoonoses, cabe ao veterinário orientar o proprietário sobre suas responsabilidades para como animal terapeuta, e conscientizá-lo da importância de adotar certos cuidados.
Neste contexto, o Médico veterinário desempenha papel essencial no sentido de acompanhar as manifestações comportamentais do animal, bem como de zelar pela sua saúde. A Organização Mundial de Saúde reconhece a importância dos animais como zooterapeutas. Por isso se preocupa com a plena saúde física do animal, que é um aspecto essencial e visa não somente o bom desempenho e o bem- estar do animal, mas também a garantia de que não haverá risco de transmissão de zoonoses e contaminação do local de realização da terapia (ANDERLINE, ANDERLINE, 2007). Deve-se lembrar que independente da classe de paciente beneficiada, ou da espécie animal envolvida, o risco de um indivíduo ter sua saúde comprometida por doenças, ou lesões causadas pelo animal existe. Cabe ao médico veterinário, ao proprietário e a todas as pessoas envolvidas minimizar estes riscos.
Ainda existe muito preconceito com relação a interação de cães e gatos com pessoas doentes, e é necessário, neste momento a intervenção do médico veterinário para desmistificar crenças pré-existentes (MORAIS; BAHR, 2001).
Apesar das limitações, Santos (2005) acredita que os benefícios que este trabalho proporciona são muito superiores aos riscos que ele pode causar. Além disso, a chance de uma pessoa adquirir uma zoonose existe mantendo contato com animais ou não.
6 Sugestão de Manejo Sanitário:
- Vacinação anual com vacina polivalente (V8 ou V10);
- Vacinação anual contra Raiva;
- Vacinação com Giardíase canina;
- Vacinação contra Traqueobronquite Infecciosa Canina;
- Vermifugação a cada quatro meses com vermicidas de amplo espectro;
- Exame parasitológico semestral; sempre com resultado negativo;
- Banho no mínimo 48 horas antes das visitas;
- Controle de ectoparasitas;
- Limpeza dos dentes: A presença de placa bacteriana pode ser fonte de infecção;
- Ouvidos íntegros. Animais com otite não aceitam carinho na região;
- Unhas cortadas e lixadas;
- Castração .Não é obrigatório mas recomendado. As fêmeas no cio não podem participar das atividades (acabam distraindo os machos e podem causar brigas).
7 Seleção e Avaliação dos Animais:
Cães de todas as raças, de todos os tamanhos podem participar, desde que tenha um temperamento adequado e façam todos os testes e exames necessários. Não é aconselhável a participação de filhotes, nem de cães com idade avançada. Os filhotes, por terem dentes afiados, unhas afiadas e necessidade de morderem. Também por normalmente serem mais frágeis. Os senis normalmente não têm tanta paciência. A faixa de idade recomendável está entre um e nove anos. Fêmeas no cio, mesmo seco, não poderão participar.
O número de cães participantes deve ser razoável com a quantidade de pacientes e atividade requerida e objetiva do tratamento. Uma sugestão prática é o revezamento de cinco cães para um setor de 20 pessoas (DOTTI, 2005).
A duração de uma sessão não deve ultrapassar uma hora e meia. Se o animal demonstrar qualquer sinal de cansaço ou estresse antes disso, deverá ser substituído. Alguns programas especiais de fisioterapia e outros, o tempo indicado com intervalos é de 20 a 40 minutos (DOTTI, 2005)
Deve-se evitar contato com o rosto dos pacientes, principalmente daqueles que possuem deficiências no seu sistema imunológico.
Temos que ter em mente que os animais devem ser protegidos e respeitados nesses programas, não só porque são utilizados de forma a exercer um precioso trabalho ao homem, mas porque não são só uma ferramenta neste sistema. São uma das peças principais. Jamais devem ser tratados com imposição e força.
Devemos tomar cuidado com as informações prestadas pelos proprietários sobre os seus cães. Para eles, o seu animalzinho pode ser muito comportado e dócil, e geralmente é com o seu dono. Porém, isso não significa que ele terá o mesmo comportamento ao seu submetido a conviver com outros animais ou pessoas. Todo cão deve, portanto, passar por avaliação comportamental criteriosa.
Conforme Aiello ( 2005), um cão com perfil adequado para trabalhar com TAA deve:
- obedecer aos comandos básicos do dono (Senta- deita- fica- junto- não);
- ser receptivo à estranhos;
- permitir ser tocado;
- não se incomodar com a presença de outros cães;
- reagir com segurança à situações inesperadas;
- andar tranquilo com a guia.
Estes critérios devem ser testados na avaliação comportamental do cão
Segundo Gonçalves, (2008), o referido teste deverá seguir alguns critérios de avaliação, conforme segue:
- Chamar (Atração por pessoas);
- Acompanhas (Seguir a liderança humana);
- Restrição (Facilidade de controle sob domínio físico);
- Acariciar (Facilidade de controle pelo carinho);
- Elevação (Facilidade de controle em situação de risco);
- Buscar (Vontade de fazer algo pelo dono);
- Pressão na pata (Resistência à dor);
- Barulho forte (Reação a sons);
- Perseguir (Reação a algo que se move);
- Pegar de surpresa (Reação a situação inesperada).
Depois da seleção do animal conforme espécie, raça, sexo, idade, tamanho, aptidão, temperamento, deve haver uma combinação com a classe de pessoas que irão interagir:
- crianças não debilitadas: animais mais ativos e maiores;
- idosos: animais mais calmos e menores;
- Adultos doentes: animais calmos e de pelo liso, que possam ter acesso à cama das pessoas.
8 Teste de Avaliação Comportamental:
Devem ser feitos por um especialista em comportamento animal, podendo ser um médico veterinário, um adestrador, ou ambos. O animal já deve ter passado na avaliação sanitária feita pelo médico veterinário.
O teste para avaliar as aptidões do cão (Anexo B) é baseado no CGC Test Procedures (Canine Good Citizen Program – USA) e no Canadian Canine Good Citizen Test. Foi adaptado ao padrão Brasileiro de relação homem- animal pela Psicóloga Kátia Aiello apud (DOTTI, 2005).
O teste é feito individualmente com a presença do dono. Os materiais que auxiliam no teste são: uma escova, um apito, uma bexiga vazia.
- O cão é tocado pelo avaliador, ora perto do dono, ora distante;
- É exposto a vários barulhos diferentes perto do dono e distante dele;
- O dono é abraçado pelo avaliador perto do cão;
- O avaliador chama o cão para longe do dono;
- Um cão estranho passa perto do cão em avaliação várias vezes, e este tem que ficar sentado sob o comando do dono;
- O dono pede os principais comandos de obediência ao cão.
Resultado:
Existem três possibilidades diferentes:
1ª) o cão não atinge a pontuação necessária e está inapto para a TAA. Seu comportamento não vai mudar;
2ª) o cão tem habilidade para a tarefa, mas não foi socializado adequadamente ou adestrado. Nesse caso é necessário passar por aulas de adestramento e socialização e depois ser reavaliado;
3ª) o cão é sociável, adestrado e possui os requisitos necessários.
É importante salientar que o profissional comportamentalista que trabalhe em uma instituição deve ficar atento às mudanças comportamentais que podem ocorrer em determinado dia ou período (DOTTI, 2005).