A Psicossomática e o Reiki
Reiki
1 Psicossomática:
O termo “psicossomática” foi introduzido por Johann Heinroth, em 1818, quando realizou estudos sobre a insônia e objetivava definir sintomas, sinais clínicos ou doenças tidas como de origem mental (Barbosa & Cordeiro; Haynal, Pasini & Archinard; Mello; Vicente). Atualmente, a psicossomática procura abarcar uma visão da integralidade do homem, considerando-o com um complexo mente-corpo em interação com um contexto social. Aborda, assim, a inseparabilidade e a interdependência dos aspectos psicológicos e biológicos da humanidade (Silva & Muller).
Mello Filho refere que atualmente a visão psicossomática já conquistou um espaço importante entre as práticas médicas, tendo como prova disso a atual definição de saúde da Organização Mundial da Saúde (WHO). Apesar de ser alvo de críticas, esse conceito aproxima-se de uma visão de homem integral, pois considera as influências biopsicossociais (Silva & Muller). Essa visão holística está intimamente ligada à compreensão da ação das terapias alternativas/complementares (Gerber), também consideradas como medicina alternativas pela Organização Mundial de Saúde (Nogueira), como é o caso do Reiki.
O Reiki é considerada uma forma de terapia baseada na manipulação da energia vital (ki) através da imposição das mãos com o objetivo de restabelecer o equilíbrio vital e, assim eliminar doenças e promover a saúde. O Reiki ajuda no tratamento físico, mental e emocional, proporcionando um crescimento espiritual que leva o indivíduo a entrar em contacto com seu próprio eu. Apesar de existirem algumas evidências da sua veracidade, esta forma de tratamento não se encontra ainda reconhecida pela medicina devido à ausência de certezas científica da sua eficácia (VanderVaart, Gijsen, DeWildr, & Koren).
O presente artigo explora a tríade entre o corpo-mente-saúde-doença, a psicossomática e a terapia alternativa, especificamente o Reiki. Pretende, também, refletir acerca do adoecer psicossomático e do modo como as terapias alternativas se repercutem no contexto europeu, com particular enfoque para o contexto português.
2 AS MEDICINAS OU TERAPIAS ALTERNATIVAS:
Segundo Hill (s/d) terapias alternativas são técnicas que visam a assistência à saúde do indivíduo, seja na prevenção, tratamento ou cura, considerando-o como mente/corpo/espírito e não como um conjunto de partes isoladas. O seu objectivo, portanto, é diferente daqueles da medicina dita alopática, também conhecida como medicina ocidental, em que a cura da doença deve ocorrer através da intervenção direta no órgão ou parte doente. Essas terapias podem ser agrupadas da seguinte forma:
- As terapias físicas - acupunctura, moxabustão, shiatsu (e outras massagens), do-in, argilo-terapia, cristais;
- A hidroterapia - banhos, vaporização e sauna;
- A fitoterapia – ervas medicinais, florais;
- A nutrição - nutrição alternativa (não especificada), terapêutica nutricional ortomolecular;
- As ondas, radiações e vibrações - radiestesia, radiónica;
- As terapias mentais e espirituais - meditação, relaxamento psico-muscular, cromoterapia, toque terapêutico, visualização, Reiki;
- Terapia de exercícios individuais - biodança, vitalização (Barbosa).
Nas últimas décadas ocorreram mudanças marcantes que culminaram no reaparecimento das medicinas alternativas e na utilização destas em detrimento da medicina tradicional. A distinção entre estas duas alternativas de tratamento não tem, no entanto, sido pacífica. E no centro do fogo cruzado entre os profissionais das respectivas áreas estão os pacientes, que pretendendo ver esclarecidas as suas dúvidas neste campo, ficam cada vez mais confusos.
De um lado temos os médicos (medicina tradicional, ocidental ou alopática), que defendem que a medicina é aquela que assenta em teorias e práticas que estão indissociavelmente associadas ao rigor do método científico. Do outro lado, temos os terapeutas das medicinas alternativas, que acreditam não haver motivos para discórdias, pois garantem não querem ocupar o lugar da medicina tradicional, assumem-se, antes, como alternativas legítimas e comprovadas pelos resultados que têm obtido ao longo dos milênios (como é o caso da acupunctura, utilizada desde cerca de 1000 a.C. pelos chineses).
Não pretendem servir como opção substituta da medicina tradicional, mas como uma possibilidade de escolha ou mesmo como uma forma de tratamento complementar com a medicina de Hipócrates (Hoirisch). Nos últimos anos tem-se observado uma grande disseminação das medicinas ou terapias alternativas, acabando por serem reportadas por alguns como excêntricas e infundadas. A maioria dos tratamentos ortodoxos alopáticos não está cientificamente comprovada.
A revisão sistemática da literatura realizada por VanderVaart et al., realça que embora os estudos sobre esta temática sejam escassos, estes apresentam resultados pouco consistentes e por vezes contraditórios. Atualmente, ainda existe uma “cegueira pragmática” por parte da Medicina no que toca ao reconhecimento destes tipos de práticas alternativas, embora tenham sido legisladas e aprovadas pelo Ministério da Saúde. No que diz respeito aos Decretos-Lei patentes na legislação portuguesa, que regem a atividade das terapias não convencionais, destacam-se os seguintes:
O Decreto-Lei n.º 45/2003, de 22 de Agosto, define-se no Artigo 1.º e no Artigo 2.º, que todos os profissionais holísticos devem dedicar-se às terapias não convencionais que sejam reconhecidas pela Organização Mundial de Saúde. Sendo que no Artigo 6.º, pontos 1 e 2, consideram-se terapêuticas não convencionais aquelas que partem de uma base filosófica diferente da medicina convencional, que aplicam processos específicos de diagnóstico e terapêuticas próprias. São reconhecidas como terapêuticas não convencionais as praticadas pela acupunctura, homeopatia, osteopatia, naturopatia, fitoterapia e quiropraxia.
Face ao acima exposto, facilmente se conclui que uma terapia não convencional como o Reiki ainda não se encontra legislada em Portugal. Curiosamente, a medicina que critica as medicinas alternativas, acaba por nos revelar que 50 a 60% dos pacientes não apresenta uma constatação de causalidade orgânica para a explicação dos sintomas do doente (Birman), o que o leva, muitas vezes, a atribuir um carácter de natureza mágico-religiosa e a ignorar a patologia psicossomática.
Toda esta imprecisão de diagnóstico explica a disseminação das práticas terapêuticas alternativas, uma vez que implica novas concepções sobre o corpo, a doença e formas de terapia. Acabam, assim, por formar um novo campo terapêutico que se desenvolve, paralelamente à medicina dita científica, contudo, mais como uma forma de complementar as possíveis falhas que esta última apresenta. Até porque, as medicinas alternativas surgem como uma procura de resolução de situações que a medicina alopática não consegue resolver, e com a valorização que estas terapias alternativas fazem dos aspectos psicológicos, emocionais e espirituais do indivíduo.
Segundo Ferguson, o paradigma médico procura que haja um tratamento para os sintomas causados por uma determinada doença, ao passo que o paradigma holístico considera que para que haja um tratamento dos sintomas é necessário determinar as suas causas, nomeadamente, os conflitos e as desarmonias que estão nas suas origens. Tendencialmente, o indivíduo é visto como um sistema físico, psicológico e sociocultural e as doenças psicossomáticas estão cada vez mais enfatizadas e a aceitação de assistência à saúde de uma forma multidisciplinar é aceite pela maioria.
Em 2007, a Deco Proteste realizou um inquérito com o intuito de avaliar o grau de satisfação dos doentes com as medicinas alternativas. Para tal, recorreu a uma amostra portuguesa, espanhola, italiana e belga com idades compreendidas entre os 18 e os 74 anos. Esse inquérito, aplicado a 6500 europeus, evidenciou que os cidadãos portugueses (4%) ainda procuram pouco estas terapias alternativas quando comparados com os cidadãos espanhóis (8%), italianos (18%) e belgas (19%).
Cerca de 24% dos inqueridos portugueses vão diretamente ao terapeuta alternativo após terem recebido um segundo parecer de um médico convencional. Os motivos passam pela crença de que, por um lado, variar as terapias pode ser um promotor de um bom prognóstico e/ou sucesso terapêutico, e por outro lado, 53% dos inqueridos portugueses admitem ter recorrido em simultâneo a um tratamento clássico para curar o mesmo distúrbio. Neste âmbito, as estratégias são entendidas como complementares.
Contudo, muitos dos inqueridos tentam primeiramente a medicina convencional antes de se dirigirem às terapias alternativas, tal acontece com 67% desses. Sendo assim, estas terapias alternativas acabam por ser o refúgio de quem está descontente com a medicina convencional. Este estudo evidenciou que em Portugal, Espanha, Itália e Bélgica, o médico de família é claramente desadorado face ao terapeuta alternativo.
Os motivos são muitos: menos disponibilidade para resolver problemas durante o tratamento, poucas explicações sobre as causas da doença e a sua evolução, escassa informação a propósito das possibilidades de tratamento e de tempo para o doente. É por isso, que numa escala de 0 a 10, os inqueridos atribuem 8 ao terapeuta alternativo e 6 ao médico de família, no que toca ao grau de satisfação do tempo que ambos passam com o doente.
Um outro dado interessante presente neste estudo é a satisfação do doente com os resultados do tratamento, no entanto, não deve ser confundido com a sua real eficácia. Por vezes, os doentes que comparam a sua experiência, no âmbito das medicinas alternativas com a medicina clássica, mostram-se mais entusiasmados face à primeira. Contudo, nem sempre tal significa que estejam mais satisfeitos com a medicina alternativa. De facto, o grau de satisfação é mais elevado naqueles que procuram a medicina convencional, possivelmente por estarem desiludidos com os resultados alcançados por parte da medicina alternativa.
3 O REIKI:
Reiki é uma expressão japonesa, composta por dois ideogramas japoneses, conforme representadas na imagem abaixo:
O primeiro (REI) significa Energia Universal, Cósmica, isto é, a energia inesgotável que cria, sustenta, envolve e interpenetra todo o Universo. O segundo (KI), significa Energia Vital, ou seja energia de vida dentro de cada ser. Em algumas culturas ou religiões define-se como “Espírito de Vida”. Sendo assim, Reiki significa “Energia Vital Universal” (Potter). Admitindo que essa “Energia Vital Universal” asseguraria o estado de saúde dos indivíduos, os praticantes do Reiki acreditam ser possível, através da imposição das mãos, ativar, canalizar e equilibrar o “fluxo energético” de determinados pontos localizados ao longo do corpo (designadamente, os chakras).
De acordo com os Reikianos, o Reiki é uma "força vital" e/ou uma energia espiritual inesgotável e universal, que pode ser usado para induzir um efeito curativo (Oschman). Reiki também pode ser descrito como uma terapia holística que possibilita a cura a quatro níveis: físico, mental, emocional e espiritual (Berman & Straus). A crença é que a energia irá fluir através das mãos dos praticantes de Reiki (Mestres Reikianos) para um dado destinatário, com o intuito de ativar ou reforçar os seus processos naturais de cura. Sendo assim, o tratamento consiste em colocar as mãos sobre o beneficiário em diferentes posições. Regra geral, a cura inicia-se na cabeça, passa pelo tronco e finaliza-se nos pés. São utilizadas entre 12 e 20 posições,
sendo que as mãos são normalmente mantidas ainda por 3 a 5 minutos em cada posição, antes de passar para a próxima. O tempo total de todo o tratamento ronda os 45 a 90 minutos (Fortes, s/d). Deve ainda salientar-se que alguns profissionais usam um conjunto fixo de posições, no entanto, outros utilizam a sua intuição para orientá-los quanto ao local onde o tratamento é necessário, uma vez que é muitas vezes relatado, por parte do destinatário, uma sensação de calor ou formigueiro na área a ser tratada.
Existe, ainda, outros praticantes que advogam que a “Energia Vital Universal” é "inteligente", tornando desnecessária qualquer tipo de diagnóstico. Um estado de relaxamento profundo, combinado com um sentimento geral de bem-estar, é geralmente o efeito imediato mais visível do tratamento, embora possa também ocorrer libertações emocionais (Emoto) Para o Reiki o ser humano é confrontado com todo um vasto de contingências, das quais se destaca o stress, a ansiedade e a depressão, que criam bloqueio energéticos nos centros das funções vitais do corpo, reduzindo ou mesmo fechando, nalgumas chakras, o “Fluxo da Energia”.
Essas energias nocivas ficam armazenadas nos órgãos vitais, acabando por se manifestar, muitas vezes, através de doenças psicossomáticas. Por isso, o Reiki procura desbloquear os centros energéticos, de modo a abrir os chakras ou agindo diretamente sobre o órgão visado. O Reiki, como já foi anteriormente mencionado, é uma ciência energética, independente de qualquer sistema religioso. Essa energia não é polarizada, portanto, é sempre segura. Evidencias acerca da eficácia do Reiki são anedóticas e a investigação clínica é ainda muito reduzida (Potter).
A presença deste tipo de energia validada pelo Reiki, nomeadamente “Energia Vital Universal”, não tem nenhum conhecimento teórico ou biofísico de base (Sisken & Walder). No entanto e, segundo Miles e True (2003), os conceitos subjacentes às terapias energéticas, como o Reiki, poderão ser explicados com base em teorias e modelos da física, mais especificamente na física quântica e nos modelos do bio-electromagnetismo (Albert).
Estes modelos sugerem a existência de vibrações muito subtis que podem exercer uma influência sobre a saúde e, consequentemente, sobre a doença. Por exemplo, Walleczek e Liboff no domínio do bio-electromagnetismo, ofereceram um suporte científico acerca da interferência das forças subtis do bio-electromagnetismo sobre os processos fisiológicos. Walleczek, em particular, tem demonstrado convincentemente que os campos magnéticos podem ter interações com os sistemas biológicos na área do potencial de redox e nas reações hidroxilação. Apesar desta área de investigação estar ainda em fase inicial, estes dados apontam para possíveis conexões entre as terapias energéticas e as ciências exatas.
De acordo com Alandydy e Alandydy (1999), o Reiki é capaz de reequilibrar o bio-feedback, reforçar o sistema imunitário do organismo e aumentar a capacidade de resistência ao stress, levando também ao aumento da produção de um neurotransmissor, a endorfina. No presente, o Reiki é cada vez mais utilizado numa variedade de situações, nomeadamente:
- cuidados médicos,
- salas de emergência,
- doentes psiquiátricos
- lares,
- na pediatria,
- cuidados neonatais,
- doentes com HIV,
- unidades de transplantes de órgãos
- reabilitação,
- comunidades, entre outros.
Embora em Portugal o mesmo não se verifique, em países estrangeiros o Reiki tem sido incluído na medicina convencional (Brill & Kashurba), de modo a reduzir os efeitos secundários dos procedimentos médicos, nomeadamente, os efeitos secundários das medicações e das intervenções cirúrgicas.
A medicina integrativa é a combinação de tratamentos pela medicina convencional e pelas terapias holísticas, para as quais haja evidências científicas sobre a sua segurança e eficácia. As terapias complementares são as práticas que não são consideradas atualmente parte da medicina convencional. Nos últimos anos, os pacientes têm manifestado um desagrado com a medicina convencional, muito devido à sua abordagem cada vez mais técnica, aos efeitos colaterais dos ratamentos e à ausência de cura para algumas doenças (Vallbona & Richards).
Neste cenário, as terapias complementares têm-se tornado uma opção atraente para muitos desses pacientes, na medida em que são percebidas por estes últimos como mais “naturais” e menos agressivas. É ainda fundamental destacar o longo percurso que ainda terá que ser percorrido, em termos de investigação, de modo a comprovar os verdadeiros e reais benefícios possibilitados pelo Reiki (VanderVaart, et al.).