Histórico de Libras
Libras Intermediário
1 Visão do Mundo:
O que nós conhecemos da história dos surdos? Segundo Eriksson, existem várias histórias que explicam o surgimento e o desenvolvimento do conceito de surdo no mundo. Na Antiguidade, os surdos eram tidos como “deuses” ou como seres diabólicos, os quais precisavam ser punidos. Além disso, os surdos, devido ao fato de não falarem, não eram considerados “humanos” nem cidadãos, mas sim incapazes. Eram até mesmo proibidos de casar. Há vários educadores, cada qual com diferentes métodos de ensino, que se destacam na história da educação de surdos. Na Idade Média, por exemplo, o médico italiano Girolamo Cardano, que tinha um filho surdo, declarou que surdos poderiam ser ensinados a ler e a escrever sem a utilização da fala.
Segundo Moura, existiram vários educadores de surdos na Europa, dentre eles Frei Pedro Ponce de Leon, monge espanhol que ensinava surdos filhos de famílias nobres a ler os lábios, a falar, a rezar e a conhecer as doutrinas do Cristianismo. Ensinava os surdos primogênitos das famílias nobres a falar para que assim tivessem direito às suas heranças. Além desses dois exemplos, outros educadores também se destacaram no ensino de surdos como:
- Juan Pablo Bonet (1579-1629), espanhol, publicou um livro sobre seu método de ensino aos surdos, o qual se denominava “Reducción de las Letras y Arte para Enseñar a Hablar los mudos”.
- Jacob Rodrigues Pereire (1715-1780), português, tinha fluência na Língua de Sinais, ensinando-a aos surdos, sendo partidário do oralismo.
- Samuel Heinicke (1727- 1790), alemão, era contra a Língua de Sinais e a favor do método do oralismo. Fundou a primeira escola oral de surdos na Alemanha.
- Abbé Sicard (1742-1822), substituindo L’Epée, foi nomeado diretor no Instituto Nacional de Surdos-Mudos.
- Jean Marc Itard (1774-1838), francês, médico-cirurgião, considerava os surdos doentes que precisavam ser curados, porém seu método (o oralismo) não obteve sucesso.
- Thomas Gallaudet (1787-1851) foi para a França aprender o método desenvolvido por L’Epée na educação de surdos, método chamado de Sinais e Sistema de Sinais Metódicos. No Instituto Nacional para Surdos-Mudos, foi instruído pelo professor surdo Laurent Clerc. Posteriormente, os dois foram aos Estados Unidos, onde implantaram a primeira escola pública para surdos em Hartford, Connecticut, escola chamada de “The Connecticut Asylum for the Education and Instruction of the Deaf and Dumb Persons”.
- Roch Ambroise Auguste Bébian (1789-1838), francês, criou uma forma de escrita da Língua de Sinais, mas não obteve sucesso com ela.
- Alexander Graham Bell (1847-1922), escocês, criador do telefone, casou-se com uma surda oralizada. Além disso, sua mãe também era surda e seu pai ensinava o oralismo aos surdos. Bell defendeu o oralismo no Congresso de Milão.
Também existem registros de educadores surdos, como o francês Laurent Clerc (1785-1869), já anteriormente mencionado, que ministrava aula de Língua de Sinais nos Estados Unidos e era interessado pelo método utilizado por L’Epée.
No entanto, dentre esses educadores, o mais importante foi o abade francês Charles-Michel de L’Epée (1712-1789), o qual ensinou e apoiou os surdos, criando uma escola pública, o Instituto Nacional de Jovens Surdos-Mudos, em Paris. Além disso, L’Epée criou também como método de ensino a gramática de LS, método chamado de Sinais Metódicos. Por meio dos Sinais Metódicos, utilizava-se a inicial da palavra em francês para criar o sinal dessa palavra. Por exemplo: o sinal para DIEU (Deus) era feito com a sua inicial, a letra D.
Não foi L’Epée quem inventou os sinais nem o alfabeto manual usados em seu método. Ambos já existiam há muitos anos, porém não há registro exato. O alfabeto manual era utilizado pelos monges, com o objetivo de se comunicarem na Igreja, porque necessitavam ficar em silêncio. Porém, nesta época, os surdos já se comunicavam através de gestos, mímica, etc.
No Brasil, o alfabeto manual foi sendo modificado a cada ano. Existem alguns países que possuem um alfabeto manual diferente do existente no país, o qual foi influenciado pela Langue des Signes Française (LSF) e pela American Sign Language (ASL). Outros sinais utilizados no Estado do Rio Grande do Sul, por exemplo, receberam influência de países da fronteira, como Uruguai e Argentina.
No ano de 1880, foi realizada uma Conferência Internacional em Milão com o objetivo de discutir o futuro da educação para os surdos. Foi questionado se o ensino deveria se dar em Língua de Sinais ou através do Oralismo. O método oralista venceu por vários motivos, dentre eles, devido à ideia de que sem fala não existe pensamento, conceito este decorrente da filosofia de Aristóteles.
Após o Congresso de Milão, os Estados Unidos continuaram preservando a LS, porém os países europeus, bem como outros países do mundo, adotaram o Oralismo puro em suas escolas. Isso causou o afastamento de professores surdos, permanecendo apenas os professores ouvintes nessas escolas. Segundo Moura, durante os cerca de cem anos de predominância do Oralismo (de 1880 a 1980), foram obtidos poucos resultados quanto ao desenvolvimento da fala, do pensamento e da aprendizagem dos surdos. Além disso, a surdez era vista apenas em termos clínicos, tendo-se como preocupação o estudo da perda auditiva, o desenvolvimento da oralidade, a articulação, etc.
A comunicação de surdos, através da Língua de Sinais, dava-se em ambientes escondidos, como no banheiro e no pátio das escolas, nos quartos de internatos, antes de dormir, e nos pontos de encontros de surdos. Devido a esse fato, a Língua de Sinais nunca se extinguiu, permanecendo como língua na vida dos surdos.
Nos anos 60, o linguista americano William Stokoe reconheceu que a LS tinha gramática própria. Atualmente, vários linguistas pesquisam sobre a LS em diferentes países. Antes de Stokoe, a LS era vista como pobre, apenas um apoio de comunicação; havia o pensamento de que esta servia para comunicação de macacos. Nessa época, predominava o oralismo, discriminando-se a LS. Nos anos 80, iniciaram os estudos e a aplicação da Comunicação Total por professores de surdos. Conforme explica Dorziat:
Os adeptos da comunicação total consideravam a língua oral um código imprescindível para que se pudesse incorporar a vida social e cultural, receber informações, intensificar relações sociais e ampliar o conhecimento geral de mundo, mesmo admitindo as dificuldades de aquisição, pelos surdos, dessa língua.
Na Comunicação Total, é necessário falar e sinalizar ao mesmo tempo. Por exemplo: pronuncia-se EU VOU PARA CASA e sinaliza-se EU VOU CASA (o que chamamos de bimodalismo). Nos anos 90, o Bilinguismo teve início na educação de surdos. Caracterizado pelo aprendizado de duas línguas - a Língua Brasileira de Sinais e a Língua Portuguesa - a educação bilíngue consiste, em primeiro lugar, na aquisição da Língua de Sinais pelos surdos, sendo esta sua língua materna. Em seguida, a Língua Portuguesa escrita é ensinada como sua segunda língua.
Segundo Skliar:
Os Estudos Surdos se constituem enquanto um programa de pesquisa em educação, onde as identidades, as línguas, os projetos educacionais, a história, a arte, as comunidades e as culturas surdas, são focalizados e entendidos a partir da diferença, a partir do seu reconhecimento político.
É preciso que o surdo seja reconhecido como um sujeito completo. No entanto, durante muitos anos, houve a tentativa de normalizá-lo. Essa tentativa foi impedida devido à resistência da cultura surda, que lutou pelo reconhecimento de sua língua própria, a Língua de Sinais. Porém, ainda hoje, no ambiente escolar, o surdo sofre pelo fato de a estrutura da sua língua natural escrita diferenciar-se da estrutura da Língua Portuguesa. Em muitos casos, quando o professor não entende sua escrita, o aluno surdo pode sofrer preconceito, recebendo até mesmo rótulos relativos a uma possível falta de interesse e dificuldade de aprendizagem de sua parte.
Quando o professor ouvinte sabe Língua de Sinais, pode comunicar-se de maneira satisfatória com seu aluno surdo. Porém, quando o professor também é surdo, além da mesma comunicação, ambos possuem a mesma identidade, o que contribui para uma harmonia ainda melhor entre professor e aluno. Assim o aluno encontra na figura do professor um modelo de adulto surdo e o professor surdo representa uma perspectiva para o próprio futuro desse aluno. A introdução da Língua de Sinais no currículo de escolas para surdos é um indício de respeito a sua diferença.
É desejo dos surdos que as escolas, dentro de sua cultura, preparem-nos para o mercado de trabalho e o meio social, trabalhando e desenvolvendo em aula fatos culturais próprios dos surdos, tendo por base a Língua de Sinais. Porém, se pensarmos na atual educação de surdos, veremos que, mesmo após seu desenvolvimento, o baixo índice de participação dos surdos no ensino médio, e menor ainda no ensino superior, e até mesmo o baixo nível salarial dos surdos, dentre outras conseqüências, comprovam que a educação de surdos permanece carente de mudanças.
A luta pela inclusão educacional é questionada por muitos surdos devido a estes permanecerem sob o poder de professores ouvintes, dentre os quais muitos não possuem o domínio da Língua de Sinais. Surge então uma exclusão no que se refere à efetiva participação e à autonomia do aluno surdo em aula, mascarada pelo conceito de inclusão. A Escrita de Língua de Sinais (ELS), como também o sistema SignWriting (SW - Escrita de Língua de Sinais), que tem como base a Língua de Sinais, representam para o surdo habilidades que podem servir de instrumento para o desenvolvimento de sua cultura.
Porém, poucas escolas até hoje inseriram em seus currículos a escrita de Língua de Sinais (MOURA). Essa língua se originou no ano de 1974 com a bailarina Valerie Sutton, que criou um sistema para escrever danças (Dancewriting). Isso despertou o interesse de pesquisadores dinamarqueses em formar uma escrita de Língua de Sinais. A partir daí, surgiu na Universidade de Copenhagen um sistema de escrita de Língua de Sinais, sendo pedido a Valerie que registrasse os sinais em vídeo. Assim foi criada a SignWriting, tendo suas primeiras formas inspiradas na Dancewriting.
Na década de 1980, Valerie Sutton apresentou, no Simpósio Nacional em Pesquisa e Ensino da Língua de Sinais, nos Estados Unidos, um trabalho intitulado: “Uma forma de analisar a Língua de Sinais Americana e qualquer outra língua de sinais sem passar pela tradução da língua falada”. E assim a SignWriting foi se desenvolvendo. De um sistema escrito à mão livre, passou a um sistema possível de ser escrito no computador. O primeiro jornal escrito em SignWriting foi feito à mão, nos anos 80, assim como os monges escreviam antes da existência da imprensa.
O sistema de escrita do SignWriting teve uma grande evolução e, devido ao fato de a escrita dos sinais se diferenciar de pessoa para pessoa, a escrita passou a ser padronizada ao longo do tempo com a invenção da imprensa, que foi o meio pelo qual a escrita foi difundida rapidamente.
Atualmente, alguns países usam ELS na educação de surdos. Aqui no Rio Grande do Sul, começou-se a pesquisar a ELS há aproximadamente dez anos, na cidade de Porto Alegre, a partir do trabalho de Antonio Carlos da Rocha Costa, que descobriu o SignWriting enquanto sistema escrito de sinais usado através do computador. A partir disso, a SignWriting começou a tomar forma no Brasil, passando, então, a se difundir também para algumas cidades do interior do Rio Grande do Sul, como Caxias do Sul, Santa Maria, Santa Rosa e Pelotas. Em Santa Maria, por exemplo, existe a escola para surdos Reinaldo Fernando Coser, que trabalha com a ELS em sala de aula, desde a Educação Infantil até o Ensino Médio. No campo da literatura infantil, já existem livros publicados em ELS e em Língua Portuguesa, tais como: Cinderela Surda e Rapunzel Surda, de Silveira, Rosa e Karnopp .
2 Libras No Brasil:
Em 1855, veio para o Rio de Janeiro o surdo francês Eduard Huet, o qual, com o apoio de Dom Pedro II, organizou a abertura do Instituto de Surdos. Assim nasceu o Imperial Instituto de Surdos-Mudos (atual Instituto Nacional de Educação de Surdos) no dia 26 de setembro de 1857. Huet ensinou alunos surdos através da Língua de Sinais Francesa, mesclando-a com a Língua de Sinais usada pelos surdos brasileiros (Moura). Pouco tempo depois, no ano de 1861, Huet deixou a direção do Instituto.
No começo do ano de 1857, os surdos aprenderam LIBRAS. Quando se formavam no Instituto, os alunos regressavam às suas cidades e ensinavam-na. Assim, a LIBRAS foi se espalhando por todo o Brasil. Algumas escolas de surdos foram fundadas no Brasil, como o Instituto Santa Terezinha, em São Paulo, e o Centro de Audição e Linguagem “Ludovico Pavoni” (CEAL/LP), em Brasília/DF.
No Brasil, existem poucas escolas de surdos. No caso das escolas inclusivas, fazem-se necessários ali a existência da LIBRAS em sala de aula, bem como um espaço para os surdos. O documento “A Educação que nós surdos queremos”, elaborado a partir da união da comunidade surda pela luta por uma melhor educação, no ano de 1999, mostrou vários tópicos importantes relativos à educação de surdos, dentre eles: “propor o fim da política de inclusão-integração escolar, pois ela trata o surdo como deficiente e, por outro lado, leva ao fechamento de escolas de surdos e/ou ao abandono do processo educacional pelo aluno surdo”.
Também foi destacado no documento que é preciso “repensar, o destino do patrimônio dos surdos, assim como o patrimônio das escolas de surdos quando deixam de existir”. Segundo Strobel e Fernandes, a escola de surdos é necessária e precisa oferecer uma educação escolar de surdos que promova o desenvolvimento de indivíduos cidadãos, ao mesmo tempo em que é um centro de encontro com o semelhante, o que contribui para a construção da identidade surda. Nesse sentido, o processo educacional de surdos é muito importante para a comunidade surda, pois existem poucos dados históricos sobre a educação de surdos.no Brasil.
No Rio Grande do Sul:
- Embora existam poucos registros, houve, na década de 20, a abertura de várias escolas de surdos em Porto Alegre e em cidades do interior do Rio Grande do Sul. São algumas delas:
- Instituto Frei Pacífico, inaugurado no dia 24 de setembro de 1956, em Porto Alegre. Adotou como método o oralismo; atualmente, porém, utiliza como método de ensino a LS;
- Unidade de Ensino Especial Concórdia, na Universidade Luterana do Brasil – ULBRA – em Porto Alegre, inaugurada no dia 5 de setembro de 1966, adotando como método o oralismo. Atualmente utiliza a LS;
- Escola Lilia Mazeron, em Porto Alegre/RS, utiliza a LS;
- Centro Municipal de Educação dos Trabalhadores (CMET), escola com educação de jovens e adultos, em Porto Alegre/RS, que também usa a LS;
- Instituto Ipiranga, em Porto Alegre, o qual foi inaugurado em 1921, também utilizando o método do oralismo, que foi ensinado pela professora alemã Louise Schmit. Porém, esta escola fecharia em 1931. Em 1952, foi criada a Escola Especial de Surdos, situada na atual Fundação de Articulação e Desenvolvimento de Políticas Públicas para Pessoas Portadoras de Deficiência e de Altas Habilidades no Rio Grande do Sul (FADERS), na Rua Duque de Caxias, em Porto Alegre, escola que também fecharia;
- Escola Padre Réus, em Esteio/RS;
- Escola Municipal de Educação Especial (EMEES), em Gravataí/RS;
- Escola Vitória, em Canoas/RS; · Em Caxias do Sul/RS, surgiu a Escola Municipal de Ensino Fundamental Helen Keller (antigo Centro Educacional para Deficientes da Audição e da Fala Helen Keller) em 1960, que utiliza a LS;
- Em Santa Maria/RS, foi fundada a Escola de Educação Especial Dr. Reinaldo Fernando Coser, em 2001, que utiliza a LS;
- Em Santa Rosa/RS, foi inaugurada, em 1986, a Escola de Ensino Médio Concórdia para Surdos (antiga Escola de 1º Grau Incompleto Concórdia para Educação Especial), escola que também utiliza a LS.
No Rio Grande do Sul, foi criado pelo Professor Dr. Carlos Skliar, em 1996, o Núcleo de Pesquisas em Políticas Educacionais para Surdos (NUPPES), grupo formado por professores surdos e ouvintes e por mestrandos e doutorandos surdos e ouvintes do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Este núcleo teve como objetivo ampliar os horizontes da Educação de Surdos, quebrando a visão clínica e tradicional da surdez, na qual predominavam os currículos próprios da cultura ouvinte, ou apenas adaptados aos surdos.
O NUPPES trouxe grande mudança na Educação de Surdos no Rio Grande do Sul, desenvolvendo, ao longo de sua existência, muitas idéias novas. Contudo, o grupo encerrou seus trabalhos em 2004. Apesar disso, este modelo foi espalhado para outras universidades que têm estudantes e professores surdos e ouvintes.
3 CLASSIFICADOR:
Definição de Classificador em Língua de Sinais:
Classificador é uma representação da LIBRAS que mostra claramente detalhes específicos, permitindo a descrição de pessoas, animais e objetos, bem como sua movimentação ou localização. Por exemplo: vaso. Todos os vasos são iguais? Não, por isso é necessário descrever a sua forma, o seu volume, o seu tamanho e a sua textura. Também podemos descrever o que existe dentro do vaso: se há flor, terra ou plantas, por exemplo.
Durante a aula, a professora da disciplina sinaliza os Classificadores das figuras com os seus respectivos números ou especificações e o cursista preenche as lacunas devidamente.