O papel do intérprete de libras na sala de aula
Intérprete de Libras
1 Resumo:
A Educação Especial de Surdos e a Inclusão destes em Escolas da Rede Regular têm sido temas bastante discutidos. Compreende-se que a surdez é uma diferença cultural que possui sua própria língua gestual-visual e que o surdo aprende e entende o mundo de forma diferente ao ouvinte. Muitos trabalhos demonstram que o desenvolvimento escolar dos surdos só ocorre de forma efetiva se a língua de sinais for aceita. Assim o trabalho buscou evidenciar a importância do uso de LIBRAS em uma sala de aula através do profissional intérprete. Concluiu-se que esse profissional tem grande valor e importância, mas ele não é a solução dos problemas de inclusão do aluno surdo.
2 O papel do intérprete de libras na sala de aula
Introdução:
Segundo o censo demográfico realizado pelo IBGE em 2002, cerca de 14,5% da população brasileira apresenta algum tipo de deficiência, sendo que 3,38% dos brasileiros possuem algum nível de deficiência auditiva.
De acordo com Quadros (1997), no Brasil as crianças surdas geralmente não têm acesso a uma educação especializada, e é comum encontrarmos surdos com muitos anos de vida escolar nas séries iniciais sem uma produção escrita compatível com a série. Além disso, há defasagens nas demais áreas previstas para as séries considerando o currículo escolar (em relação ao conteúdo escolar).
Para Moreira e Tadeu (2011) ainda se tem muito a compreender e aprender sobre as formas pelas quais o conhecimento transmutado em currículo escolar atua para produzir identidades individuais e sociais no interior das instituições educacionais. O currículo deve ser visto como produzindo identidade e subjetividades sociais determinadas. O currículo não apenas representa, ele faz; é preciso reconhecer que a inclusão ou exclusão no currículo tem conexões diretas com a inclusão ou exclusão na sociedade.
Após a promulgação da Lei 9394/96, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), a Educação Especial passa a ser objeto de muitas discussões, especialmente, no que se refere ao seu artigo 58, pelo qual “essa modalidade de educação escolar deve ser oferecida, preferencialmente, na rede regular de ensino para os alunos, portadores de necessidades especiais”.
Deve-se ressaltar que promover a inclusão, não significa, apenas, permitir que o aluno especial adentre em uma escola regular, mas, principalmente, garantir que lhe sejam dadas condições de aprendizagem, desenvolvimento social, cognitivo e afetivo, por ele ser sujeito de direitos e cidadão (CURY, 1999).
Ferreira (2008) relata que o princípio da integração escolar enfrentou algumas críticas, entre elas a que se refere ao fato de que a passagem do aluno de um nível mais segregado para um mais integrado dependia exclusivamente dele e raramente acontecia e acrescenta ainda que a integração produziu uma estrutura de serviços fragmentados.
A inclusão educacional constitui uma nova realidade nas escolas brasileiras, e exige novos posicionamentos, implicando a necessidade de aperfeiçoamento dos professores para que se atendam aos alunos com necessidades especiais, como os surdos, de tal maneira que propiciem condições de conseguir progressos significativos. Alunos surdos têm acesso garantido por lei, para frequentarem a escola regular. Entretanto, a inclusão ainda não atingiu as metas desejadas.
A Resolução CNE/CEB no 2 de 11 de setembro de 2000, aponta para a necessidade de atenção às questões linguísticas dos sujeitos surdos e deixa sugerida a possibilidade de participação de intérpretes educacionais de maneira mais frequente. Em seu Art.12 § 2º destaca que “deve ser assegurada, no processo educativo de alunos que apresentam dificuldades de comunicação e sinalização diferenciadas dos demais educandos, a acessibilidade aos conteúdos curriculares, mediante a utilização de linguagens e códigos aplicáveis, como o sistema Braile e a língua de sinais, sem prejuízo do aprendizado da língua portuguesa, facultando-lhes e às suas famílias a opção pela abordagem pedagógica que julgarem adequada, ouvidos os profissionais especializados em cada caso” (LACERDA, 2007).
No Brasil, com a implantação da política de inclusão, os alunos surdos têm sido inseridos em classes de ouvintes desde o Ensino Fundamental. Essas experiências permitem perceber a dificuldade de acesso à língua portuguesa enfrentada pelos alunos surdos, e as dificuldades sentidas pelos professores para a comunicação com essas crianças. Algumas poucas escolas, atentas a essa problemática, têm permitido ou proposto a inserção de um intérprete de língua de sinais em sala de aula, buscando uma possível solução para os problemas de incomunicabilidade e de desentendimento que enfrentam cotidianamente.
A intensificação da presença desse profissional na Educação tem sido impulsionada pelo Decreto 5.626, de 22 de dezembro de 2005, o qual regulamentou a Lei 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua de Sinais Brasileira (LIBRAS), e o artigo 18 da Lei 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas com deficiência.
Considerando a variedade de leis referentes à educação de crianças surdas, pode-se observar a interpretação educacional tornando-se comum no ensino fundamental e médio. Isso é um avanço profissional e se constitui como uma possibilidade de tornar os programas e os serviços escolares mais acessíveis às crianças surdas. Como parte da equipe profissional, o intérprete precisa ser formado e qualificado profissionalmente (REGISTRY OF INTERPRETERS FOR THE DEAF).
O grande desafio proposto pela inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais nas escolas regulares em nosso país, segundo Beyer (2005), dependerá de um esforço coletivo que envolva os próprios alunos, os professores, as equipes diretivas e pedagógicas, os funcionários e os gestores do projeto político-pedagógico.
A função fundamental de um intérprete, independente de sua especialização ou de seu campo de trabalho, é facilitar a comunicação entre pessoas surdas, pessoas com deficiência auditiva e outras. Intérpretes educacionais facilitam a comunicação entre estudantes surdos e outros, inclusive entre professores, provedores de serviços e colegas do ambiente educacional.
Dessa forma, analisar a mediação do interprete na construção da aprendizagem se faz necessária, uma vez que no Brasil esse profissional não precisa ser graduado, tendo apenas como exigência obter um diploma de pelo menos 120 horas em curso (ou como disciplina em seu histórico escolar) de LIBRAS.
3 Educação de surdos:
A palavra surdez tem sido empregada para designar qualquer tipo de perda de audição, parcial ou total, que pode ser temporária ou definitiva. Vários eventos científicos ocorridos no Brasil apontaram o descontentamento e o repúdio da comunidade surda em relação à expressão deficiente auditivo pela conotação de incapaz velada no termo.
E essa “incapacidade” entendida por tantos gera a exclusão, que foi uma característica das escolas brasileiras e de outros países. Com base na incapacidade intelectual, sensorial, emocional e física, o imaginário social leva a crer que os alunos com alguma dificuldade equivalem à incapacidade como um todo.
Para Lopes, a representação do Surdo como um doente dificulta a organização política desses para reivindicar seus direitos como sujeitos na escola, na mídia e nos lugares públicos.
Discutir sobre as diferenças que são excluídas é um desafio. Desafio sim, pois se utilizam palavras silenciosas para expressar o que nas palavras se esconde e se explicita de forma fragmentada a respeito do homem. Conforme Skliar existe uma diferença crucial entre entender a surdez como uma deficiência e entendê-la como uma diferença. Ser surdo representa uma diferença linguística.
Reconhecer a diferença é reconhecer possibilidades e limites. É reconhecer algo que pode parecer muito óbvio, mas não o é. Os surdos são surdos, e a surdez é uma experiência visual. Os surdos se orientam a partir da visão, ainda que com seus restos auditivos, maiores ou menores, ocasionalmente façam algum uso das pistas acústicas. Isso significa que a organização perceptual fundamental daquele que tem uma perda auditiva se dá a partir da visão, e não da audição.
Movimentos e expressões corporais e faciais que são percebidos pela visão compõem juntamente com outros parâmetros a língua de sinais, sendo uma modalidade gestual-visual.
Os surdos criaram a língua de sinais, e através dela podem comunicar-se tão bem quanto os ouvintes, pois ela permite a melhor integração entre pessoas surdas e/ou ouvintes.
Muitas pessoas acreditam que a língua de sinais é somente um conjunto de gestos que interpretam as línguas orais. No entanto, pesquisas mostram que essas línguas são comparáveis em complexidade e expressividade a quaisquer línguas orais. Estas línguas expressam um pensamento complexo e abstrato, pois os usuários da língua de sinais podem utilizá-la para discutir os mais diversos assuntos, como o que ocorre em um ambiente de aprendizagem.
A educação de surdos no Brasil percorre as vertentes pedagógicas mundiais. Passa pelo oralismo, pela comunicação total e nos dias atuais aproxima-se da proposta bilíngue.
Atualmente, o bilinguismo está ocupando um grande espaço no cenário mundial. Nos EUA, Canadá, Suécia, Venezuela, Israel, entre outros países, existem diversas universidades pesquisando a surdez e a língua de sinais sob a ótica da filosofia bilíngue (GOLDFELD).
Segundo Perlin (2002), não se deve descartar a hipótese da educação bilíngue ser uma proposta de grupos decorrente de movimentos articulados às resistências político-culturais surdas, no entanto, um dos perigos do bilinguismo é ficar apenas no aspecto sociolinguístico. É preciso partir da ideia de que a educação de surdos é mais ampla do que uma abordagem linguística. A comunidade surda não é, e não será nunca, prisioneira de uma dualidade; outras línguas correntes no Brasil, como o espanhol e o inglês, também são necessárias.
O bilinguismo atua como metodologia ideal para a educação do surdo, onde estão incluídas duas línguas neste contexto: a língua de sinais local e a língua escrita paralelamente à língua oral majoritária, facilitando desta forma a autoestima individual e grupal. Para que isso ocorra faz-se necessária a presença de professores bilíngues, que dominem a LIBRAS além da língua portuguesa, ou mesmo a disponibilização de um intérprete para auxilio desse professor.
A educação bilíngue é a melhor para os surdos, pois quando se tem acesso ao que é ensinado oralmente por meio da língua de sinais, estabelece-se consequências positivas no desenvolvimento da criança. O bilinguismo é uma situação linguística em que duas línguas coexistem na mesma comunidade (FERNANDES).
O bilinguismo é a única via através da qual a criança surda poderá ser atendida nas suas necessidades. Quer dizer, comunicar-se com os pais desde a idade precoce, desenvolver as suas capacidades cognitivas, adquirir conhecimentos sobre a realidade externa, comunicar-se plenamente com o mundo circundante e converter-se num membro do mundo surdo e do mundo ouvinte.
4 Políticas de inclusão:
Todo e qualquer aluno pode apresentar, ao longo de seu processo de aprendizagem, alguma necessidade educacional especial, temporária ou permanente.
Pensar em uma política pelas diferenças exige um olhar mais atento às especificidades e suas implicações. Mudanças profundas requerem a participação política das pessoas surdas para nos apontar o que significam as diferenças e como elas precisam ser consideradas no currículo. A experiência visual, muitas vezes, relegada a um segundo ou terceiro plano, deve passar a ser o centro das atenções, pois ela é a base do pensamento e da linguagem dos surdos.
Como apontado por Ramsey, nem surdos, nem ouvintes podem se desenvolver isolados de outros, nem podem eles desenvolver-se de forma neutra. Assim, a política é a que está aí definindo a forma como as crianças incluídas vão ser formadas. Ou seja, nas escolas inclusivas, as crianças surdas são definidas simplesmente como aquelas que estão exercendo seus direitos civis de acesso à educação. Em contraste, na sala de aula, elas são aquelas crianças que necessitam de atendimento específico por serem surdas concretizando, portanto, a exclusão.
Estudar em escolas para ouvintes faz parte das expectativas de muitos surdos e de seus pais. O ensino regular constitui, em algum momento, uma espécie de oásis num deserto árido de chances para os surdos; ou a opção mais integradora que um estudante surdo pode ter (BOTELHO). Muitas vezes é constatada a precariedade do resultado, por não serem os surdos falantes da língua que circula na sala de aula. Alguns familiares e às vezes os próprios surdos insistem na permanência na escola, que se mantém às custas de proteção, acobertamento das dificuldades e outras facilitações.
Uma das razões que explicam porque muitos pais procuram as escolas regulares para seus filhos surdos é que a opção da educação especial oferece um modelo não pedagógico, que subestima os surdos e suas capacidades cognitivas (BOTELHO).
Silva e Pereira destacam em seu trabalho que muitas mães queixam-se de que a inclusão não está acontecendo como desejariam, ou seja, seus filhos enfrentam muitas dificuldades para aprender, principalmente devido à comunicação professor/aluno, e atribuem este fato constantemente à falta de preparo dos professores. O fato de o professor não estar preparado para receber o aluno surdo é realidade, e acontece com a maioria dos professores de escola regular. Assim, quando recebe esse aluno, muitas vezes tem ideias preconcebidas ou concepções equivocadas a respeito do mesmo, o que resulta na atribuição de algumas imagens a ele, na maioria dos casos, depreciativas.
Determinar, por força de lei, que crianças com “necessidades especiais” sejam absorvidas pelo sistema regular de ensino, que não consegue dar conta, atualmente, sequer das crianças ditas “normais”, é pretender uma solução fácil e ilusória para o problema da educação especial. Os professores do ensino regular não têm sido preparados para a tarefa de lidar com crianças com necessidades educativas especiais e, sem este preparo, por melhor que seja o método utilizado, as chances de sucesso são muito limitadas (SCHWARTZMAN).
O olhar dos surdos sobre o fracasso, segundo pesquisas realizadas por Skliar, se refere, sobretudo a uma questão ligada à falta de acesso à língua de sinais e a um processo demorado de identificações com outros surdos. Os professores ouvintes, por sua vez, falam mais acerca da própria formação e da perda significativa de seu papel como educadores. Em outras palavras, as interpretações e representações do fracasso constituem sistemas divergentes.
Para o surdo poder estar efetivamente incluído na classe com os ouvintes, ele necessita dominar a língua oral, o que só pode ocorrer após seu desenvolvimento em língua de sinais. Caso contrário, ele não conseguirá participar das discussões, fazer perguntas, entender o que o professor diz, etc. Sua integração física estará assegurada, mas não seu sucesso escolar.
A existência da língua de sinais e da cultura surda indica sua especificidade e singularidade. Os programas de integração da Itália, da França e da Espanha, mesmo tendo fracassado, aceitaram a ideia de que para a criança surda poder ser integrada é preciso que o professor domine a língua de sinais e que existam surdos adultos colaborando na educação da criança. Qualquer política de integração que desconsidere estes aspectos poderá se tornar, na verdade, uma política de inserção, de assimilação, de agrupamento: será garantido ao surdo a ocupação do mesmo espaço físico, mas não necessariamente a conquista dos mesmos níveis de ensino do ouvinte (THOMA).
Estas questões são muito complexas; necessitam de uma ampla reflexão e de mudanças significativas em nosso sistema educacional para que de fato as dificuldades enfrentadas pelos alunos surdos possam ser minimizadas.
5 O intérprete na mediação do processo de construção da aprendizagem: