Leituras, revisão textual e o revisor

Revisão de Texto

1 Introdução

Pouco se ouve falar sobre os profissionais de revisão textual. Apesar desse ofício ser uma das profissões mais antigas existentes no mundo, muitas pessoas ainda desconhecem os processos que os textos passam antes de chegarem às mãos dos leitores. Mas o fato é que, onde houver textos que irão a público, haverá revisores, dos minúsculos aos maiores, nenhum texto está isento de revisão.

São pouco conhecidos esses profissionais que realizam trabalhos em textos alheios, para torná-los melhores. Não existem cursos superiores com esse título: “Revisores Textuais”. Essas especializações se dão em cursos de pós-graduação Latu Sensu. Na maioria das vezes, quem procura por esses cursos são as pessoas formadas em Jornalismo ou em Letras e, as qualificações são feitas, de modo que os revisores possam atuar em qualquer área do conhecimento humano, ou seja, não existem revisores por área específica.

Portanto, quando os indivíduos portam o título de revisor textual, sua função não se limita em uma única área. Agora, a pergunta é: como vão adquirir conhecimentos linguísticos para compreender e corrigir os variados textos de acordo com as necessidades e exigências de cada leitor? Considerando que existe uma diversidade de gêneros textuais, cabe ao revisor profissional levar em consideração cada um deles, estes trabalhadores para garantir seus progressos profissionais devem familiarizar-se com a diversidade de gêneros textuais. E uma sugestão quanto à linguagem verbal: as mais notáveis experiências de leitura, que os revisores devem ter são os clássicos literários. Estes podem levar os revisores a uma melhor representação do mundo estético e aquisição de bagagem para tratar a linguagem dos textos de outrem.

Do mesmo jeito que a profissão de retrabalhar os textos para corrigi-los é pouco popular, há a escassez de manuais que tratam sobre o desempenho desse ofício. Aqui neste artigo, o manual mais utilizado foi “O Manual do Revisor”, de Malta. Este livro é resultado de 35 anos de carreira, como revisor textual. Como a maior ênfase desta pesquisa é leituras, Malta dá bons exemplos de técnicas de leituras para revisão. Importante ressaltar que a leitura, para os teóricos da revisão textual, é o elo entre o revisor e a compreensão; a crítica; o conhecimento prévio e a agilidade no desenvolvimento de seu trabalho. Nos manuais, os processos são classificados por tipos de leituras. Os revisores se posicionam como primeiros leitores dos textos, com finalidade de encontrar os problemas. Por isso, eles são diferentes dos leitores comuns. O leitor comum exige textos mais perfeitos possíveis e, por essa razão, o ato de revisar sempre foi muito importante.

Assim sendo, a pesquisa com expectativa de explorar os manuais de revisão se faz importante, visto que futuros profissionais da área de revisão textual compreenderão o que os teóricos pensam sobre a importância da leitura. Esta pesquisa será um meio dos futuros revisores se instruírem e demonstrarem que, para uma revisão eficiente, é necessário colocar em prática as teorias presentes nos manuais de correção de textos.

O presente artigo é composto por cinco partes. A primeira é dividida em dois tópicos que buscam algumas definições da aquisição de conhecimento por meio da leitura; e as leituras que os revisores devem desenvolver no processo de revisão. A segunda aborda a revisão textual e algumas ferramentas do “Word 2007” que levaram as pessoas pensarem até que os revisores podiam ser substituídos por elas. Na terceira parte: revisor e interlocutor, as razões que despertam o interesse dos autores pelos trabalhos dos revisores. A quarta discute os limites dos revisores, ou seja, estes podem alterar os textos dos outros quando encontram erros, entretanto devem conhecer os seus limites. E, por fim, a quinta parte que traz as considerações finais.

2 Leituras

AQUISIÇÃO DE CONHECIMENTO POR MEIO DA LEITURA

Os revisores são aqueles profissionais de quem se deve cobrar adequação de linguagem do texto, portanto, é essencial que possuam o conhecimento linguístico. Por conseguinte, é necessário que tenham domínio da língua em que desenvolvem seu trabalho e, nesse sentido, demandarão conhecimentos de vocabulário, gramática, uso adequado da pontuação, entre outros. Lembrando que, saber utilizar uma boa linguagem é importante para todos os profissionais. Isso pode ser a chave de muitas portas em todas as áreas existentes no mercado de trabalho. Câmara Jr. (1986) faz uma apresentação sobre isso:

Cada um de nós tem de saber usar uma boa linguagem para desempenhar o seu papel de indivíduo humano e de membro de uma sociedade humana. Não se pode admitir que um instrumento tão essencial seja mal conhecido e mal manejado; mal utilizá-lo é colocarmo-nos na categoria dos operários que são canhestros e insipientes no exercício de sua profissão. Tal categoria tem, por princípio, de ser eliminada: ninguém tem o direito de conformar-se em ser esse tipo de operário, nem a fábrica social se pode dar ao luxo de aceitá-lo complacentemente em seu seio. (p. 10)

Se para todos os profissionais é de extrema importância saber utilizar a linguagem adequadamente, já imaginou para os revisores? Profissionais estes que têm a função de apontar os erros constantes em um texto? Como quaisquer outros, os revisores podem causar satisfação ou repulsão com os resultados de seu trabalho. Um dos componentes para serem aceitos é a utilização da linguagem. Os profissionais que exercem a função de dar qualidade aos textos, mais do que ninguém, devem saber utilizar a linguagem de modo regular. Principalmente quando se trata de língua padrão. As pessoas podem espelhar-se na utilização da linguagem de um sujeito, ou seja, a linguagem pode dizer seu nível de cultura. Não são os linguistas nem os gramáticos quem dizem que a regra é utilizar a língua normativa para que as portas sejam abertas, mas são as pessoas que têm fascínio por uma boa linguagem.

Cada texto lido é um novo aprendizado. Novas palavras são acrescentadas no vocabulário e novas expectativas são criadas. Se isso não acontecer e acontecer o contrário: os textos apresentarem linguagens rebuscadas e ou incompatíveis com os seus gêneros? Neste caso, não há motivos para que os leitores os aceitem e prossigam com a leitura. Existem muitos fatores que contribuem para que um texto se torne agradável, como por exemplo, estar enquadrado linguisticamente à função, que ele desempenhará. É nesse ponto que entra a procura dos autores pelos revisores. Esses profissionais enxergarão falhas que às vezes foram atropeladas no desenvolver do texto. Desse modo, nenhum texto está isento de revisão. As revisões dos textos são feitas em função das cobranças que os autores sofrem.

Na maioria das vezes, o dever dos revisores é normatizar um texto dentro de uma gramática de uma determinada língua (quando se fala em revisores, geralmente pensa-se assim). Então, por que não ficarem sempre em contato com esta língua? Quanto mais intimidade, mais conhecimento. Isso se dá, obviamente, pela prática da leitura. E os autores dos textos interagem com os leitores. Eles ensinam a ler, escrever, dar sentido e gerar expectativas. Luft (1985) apresenta uma sugestão:

É lendo que se fortalece, apura e sutiliza a gramática introjetada desde as primeiras palavras ouvidas na infância. É lendo que se refina o “ouvido idiomático” ou “sentimento linguístico”, que outra coisa não é senão a mesma gramática interior. Mais: lendo, interioriza-se também a gramática artística ou literária, adquire-se o manejo de uma língua além da cotidiana e rasa. Ficamos então capacitados bem em linguagem culta. (p. 29).

Mesmo os leitores experientes apresentam dificuldades de leitura ao se depararem com determinados textos. Isso porque nem sempre possuem conhecimentos prévios sobre o assunto em questão. É comum isso acontecer, os indivíduos não compreenderem textos de outras áreas específicas, às quais não pertencem. Com o desenvolvimento da leitura não significa que irão ter conhecimentos específicos de todas as áreas do conhecimento humano, mas o contato com um repertório de textos variados facilitará o desenvolvimento da leitura e a compreensão de textos específicos. Sem esquecer que não existem textos homogêneos. Todos os discursos nascem de outros já apontando para outros. Na leitura de um novo texto, pode-se encontrar vestígios de outros lidos anteriormente. Assim, esses vestígios encontrados contribuirão para o conhecimento e a compreensão de uma nova leitura. Logo, leituras são desenvolvimentos que nunca são suficientes. Todos os textos novos fazem referências a outros. Dessa forma, conhecimentos prévios sobre o conteúdo de um texto facilitam a sua compreensão.

Vive-se em um mundo que as informações são muito velozes. Por causa dessa velocidade, os produtores de textos não se preocupam com a organização e escrita dos textos. Eles estão preocupados em acompanhar a velocidade das informações. Alves e Andrada (2010) argumentam sobre esse assunto:

A dificuldade que a maioria das pessoas enfrenta ao redigir um texto, bem como a rapidez com que as informações chegam até nós, faz com que os autores não tenham preocupação nem tempo para verificarem seus erros. Isso sem entrar no mérito da falta de adequação do texto à sua finalidade. Assim, a nosso ver, hoje é ainda maior a necessidade da revisão de todo e qualquer conteúdo de circulação pública, ou seja, todo texto merece uma revisão. (p. 3)

Muitos acreditam que os produtores de textos já possuem o dom da escrita e, por isso, têm a obrigação de já produzi-los com todas as adequações linguísticas exigidas. A maioria dos leitores não conhece a longa história do processo de preparação de livros, revistas, jornais, entre outros. Qualquer material escrito, a responsabilidade de se fazer uma revisão eficaz é grande. Mas se houver imperfeições linguísticas em livros, o prejuízo é maior, porque a maioria dos livros fica armazenada em prateleiras de bibliotecas ou em outros lugares até pela eternidade. Embora pouco se discuta a esse respeito, o ato de revisar é uma profissão muito antiga. Existem notícias desse ofício desde o século III antes de Cristo.

Com a velocidade que as informações se desenvolvem, os revisores nunca foram tão importantes. Os produtores textuais ficam preocupados em competir com a velocidade da informação, isto é, quanto mais rápidos melhores. Por isso, não possuem tempo suficiente para analisar quais mecanismos linguísticos comporão melhor seus textos, e isso passa a ser incumbência dos revisores. É comum quase 100% dos materiais referentes a textos chegarem às editoras inadequados à publicação.

Os autores que se consideram capazes de revisar seus próprios textos correm o risco de não ver bons frutos do seu trabalho e de se lamentar, futuramente, ao ver um trabalho já impresso, cheio de incorreções. Existem pessoas que escrevem porque gostam. Outras escrevem textos específicos de sua área para melhorar seu currículo. No texto sem qualidade pode acontecer o contrário: gerar críticas em torno da carreira de um profissional. Os revisores enxergam imperfeições nos textos melhor do que os próprios autores. Em razão do vínculo com os textos, os escritores se tornam insensíveis aos erros.

Os revisores, assim como os autores, precisam acompanhar a velocidade da informação, uma vez que, seu trabalho está voltado para a leitura. Ambos precisam estar constantemente envolvidos com o objeto de trabalho, em busca de agilidade. Se a leitura for desenvolvida somente quando estiverem manuseando textos em busca de erros para corrigi-los, o desempenho de seu trabalho será mais lento. Em outras palavras, quanto mais leituras, mais preparados estarão para desenvolver essas habilidades. Quaisquer empresas exigem agilidade dos candidatos que vão preencher suas vagas. Não é diferente o que acontece com os revisores, ou seja, quanto mais rápidos e organizados, melhores se sairão.

LEITURAS POR PARTE DO REVISOR

Os revisores devem iniciar seu trabalho sobre um texto, após várias leituras. Esse processo de leitura e releitura pode beneficiar muito esses profissionais que, percorrem os textos à procura de erros, como fiscais. Malta (2000, p. 91) defende: “Ler e reler; sem isso não dá para confiar numa revisão”. Essas técnicas podem apontar aos revisores: incoerências, inadequações gramaticais que são atropeladas ao lerem o texto uma única vez, apressadamente e, além disso, podem esclarecer dúvidas, quanto à clareza do texto. Em suma, revisar textos é operações de linguagem que concentram complexos desenvolvimentos de leitura e releitura.

Os textos deveriam ser lidos, em busca de melhoria, por dois ou mais revisores, mas Malta (2000, p. 34) afirma: “salvo nas editoras de livros didáticos, que têm forçosamente de manter equipes de revisores, já não se faz mais revisão em dupla”. Porém, os atuais e os futuros revisores precisam preparar-se bem e conscientizar-se da dimensão desse ofício. Yamazaki (2007) elabora seu discurso sobre revisão em equipe:

Revisão de texto ou de provas [4 ], dividida em: primeira prova: uma prova impressa é lida por um revisor; segunda prova: outra prova impressa é lida por outro revisor; terceira prova: não há leitura. Um terceiro revisor checa se as emendas pedidas pelo revisor da segunda prova foram incorporadas ao texto. (p. 02)

Segundo Malta (2000, p. 34) “já não se faz mais revisão em dupla, o que aumentou a responsabilidade do revisor”. Revisar é um trabalho muito rigoroso. Apesar de ser comum encontrar erros em qualquer texto, muitos pensam que qualquer um pode errar, menos os revisores. Por isso surge a pergunta: Por que ainda aparecem erros nos livros? Malta (2000) responde:

Eles aparecem, sobretudo, porque muitas vezes, a editora tem muita pressa de receber “de volta” o trabalho, seja em que estágio for, não dando tempo ao revisor de proceder a uma leitura mais lenta ou, principalmente (caso dos originais e das primeiras provas), a uma releitura, imprescindível na 1ª prova. Por quê? Porque erros deixados passar na revisão dos originais [ 5 ] aparecerão na 1ª prova, e ainda poderão ser corrigidos, enquanto que uma 1ª prova não relida pode redundar em erros...( p. 17)

O tempo vai passando, todas as coisas tendem a ficar mais rápidas, mas nem sempre velocidade é sinônimo de perfeição e ou qualidade. As pessoas procuram por agilidade e baixo custo em tudo que almejam. Não é diferente o que ocorreu com as editoras, que trocaram as duplas de revisão por apenas um revisor e, curiosamente, ainda querem trabalhos rápidos. Com isso, tarefas que poderiam ser divididas com a finalidade de não sobrecarregar, passaram à responsabilidade de apenas um profissional. Isso pode causar danos aos textos. Se aumentar mais a velocidade da informação, os textos tendem a chegar aos leitores com mais incorreções. Malta (2000) faz um saudosismo à melhor fase do livro:

Assim, erros só diminuem se pelo menos dois revisores diferentes lerem o livro, nas etapas de originais e provas. Às vezes, até três. Dizem que o falecido Círculo do Livro, em sua melhor fase (décadas de 70 e 80) chegava a submeter um mesmo livro a nada menos de seis (!) revisores diferentes. Tenho em minha biblioteca muitos (mais de 100) livros do Círculo, a maioria sem um único erro, mesmo quando livro de mais de 300 páginas. Índice invejável, claro está. (p. 18)

De acordo com Malta (2000, p. 72), “O círculo do livro foi uma das melhores editoras que o Brasil já teve, em termos de revisão. Infelizmente, o Círculo cessou suas atividades”. Não é difícil compreender quando Malta (2000, p. 83) diz: “Revisar não é um trabalho compensador se o revisor o desempenha esporadicamente, ou irregularmente, ou se tem outro emprego”. Por isso, estudantes que desejam formar-se revisores, devem refletir sobre sua futura profissão. Revisar texto é para quem gosta, tem de ter uma dedicação para exercer esse ofício.

Quando se diz que textos foram revisados, sem sombras de dúvidas foi necessário realizar várias leituras. Pois esse é um mecanismo que os profissionais que trabalham em busca de textos de circulação utilizam para melhorar os textos alheios. A esse respeito, Malta (2000) apresenta tipos de releituras:

Leitura “comparada” significa acompanhar, linha por linha, com uso de réguas, que vão sendo deslocadas de alto a baixo, acompanhar, repito, na prova, o que está no original, detectando não só erros de digitação (ou de composição, termo antigo, ou de scanner), mas saltos — saltos de palavras, de linha(s), às vezes de períodos inteiros. (p. 34)

Leitura “silenciosa” é a expressão usada para a releitura de uma prova uma vez terminada a leitura “comparada”. Antigamente, quando todas as revisões de 1ª prova eram feitas em duplas, um revisor lia em voz alta o original e o outro acompanhava, fazendo na prova as anotações dos erros, saltos etc. Depois de terminada a leitura “comparada”, fazia-se a leitura silenciosa, isto é, relia-se de ponta a ponta a prova, para mais certeza, mais confiabilidade quanto à qualidade do serviço. (p. 35)

É importante a releitura de uma prova ─ 1ª ou 2ª, após a leitura acompanhada (1ª) ou a conferência das emendas (na 2ª). Aparecerão erros que escaparam da primeira verificação. Se até livros que foram revisados por 2 ou 3 revisores diferentes às 9 vezes têm erros, que dizer de uma prova que só teve uma leitura, por um só revisor? Como este “um só revisor” é a norma na maioria dos casos, a releitura impõe-se. São considerações que fazem parte da técnica de revisão e o domínio da técnica de revisão é tão importante para o revisor quanto o domínio da gramática, da ortografia, a boa bagagem de história, geografia, biologia, cultura geral. (p. 91)

Malta (2000, p. 35) define salto como “omissão de uma palavra ou de um grupo de palavras, na digitação de um texto”. Acima, ele também dá exemplos de leituras para textos impressos, a leitura em voz alta. Ele a define como antiga. Na época em que os revisores trabalhavam em equipes. Atualmente, processos de releitura para correção, segundo Malta (2000, p. 91), “na maioria dos casos”, passaram à incumbência de um único revisor. Nem por isso algumas tarefas, que podem tornar o texto melhor, podem ser abandonadas.

As leituras em voz alta feitas pelos revisores de textos podem causar efeitos benéficos aos seus objetos de trabalho, principalmente, se tiverem facilidade de concentrar-se na entonação de suas vozes. Prestarão atenção, assim, na articulação das palavras e ritmo, e se a compreensão for um pouco embaraçosa, ainda há o que consertar nos textos. Rocha (2009), em seu site, argumenta sobre isso:

Leitura em Voz Alta - Desta vez, você irá ler o texto em voz alta. O resultado será ainda melhor se você tiver alguém que possa ler para você. Ao ouvir o que escreveu, você vai perceber que muitos detalhes "escaparam" nas etapas anteriores. Outro ponto interessante nesta técnica é o fato dos diálogos tomarem vida e, com isso, você poderá torná-los ainda mais interessantes. (Consultoria Assessoria Literária Preparação de Originais (Copidesque) Revisão Técnica).

O hábito da leitura para os revisores textuais é de extrema importância, sem ela é impossível obter progresso. Não importa de que maneira, nem o que ou qual é a finalidade da leitura, o importante é que leiam. Não referindo apenas ao ato de ler para corrigir, compreender ou analisar, mas também para adquirir informação e conhecimentos prévios. De acordo com as afirmações de Malta (2000):

Ler muito jornais e revistas. O bom revisor precisa ter cultura geral, mas, sobretudo, precisa estar informado. Quem se propõe a profissionalizar-se como revisor precisa ter conhecimentos sólidos de História do Brasil, História Geral, Anatomia, Biologia, Astronomia, Religião, além de outras áreas. É claro que o revisor sempre terá o apoio de livros especializados, enciclopédias, dicionários tanto em sua casa ou escritório como nas próprias editoras, quer seja funcionário de uma editora quer colabore eventualmente. (p. 28)

A falta de hábito adequado de leituras prejudica os desejosos de expandir o horizonte de seus conhecimentos. Os modos pelos quais as leituras têm sido processadas têm gerado sérios problemas, entre eles, as entregas às atividades das leituras de modo inconsequente e assistemático. Por outro lado, as leituras sistemáticas e dentro de técnicas apropriadas produzem excelentes resultados.

Os baixos índices de rendimento na aprendizagem, por meio das leituras, manifestam-se até mesmo entre estudantes pós-graduados. É necessário que os revisores se atentem para esse fato, procurem nortear-se e se adequar aos melhores métodos de leituras. À formação de bons revisores é viável a leitura de uma variedade considerável de livros, com diversos assuntos que farão parte dos seus arsenais de conhecimentos, tornando-os assim, conhecedores de vários assuntos que, por sua vez, servirão-lhes de suportes para seu trabalho de revisor. O lema dos revisores é manterem-se atualizados e em interação com o mundo da comunicação.

Para se formar bom revisor é necessário, ainda, conhecer boas regras de gramática, teorias referentes à profissão, mas não se limitando somente a isso. Revisores devem ler de tudo, principalmente jornais, de preferência os mais circulados. Isso seria útil até mesmo para desenvolver o poder avaliativo sobre os textos bem ou mal redigidos.

3 Revisão textual

Na década de 1990, houve a popularização da internet e, juntamente com ela, veio a velocidade da informação. Com isso, aumentou ainda mais a necessidade das correções textuais. Todavia, muitos responsáveis por preparações de textos pensaram o contrário. Com a chegada da informática, muitos jornais e editoras reduziram ou eliminaram as equipes de revisores, trocaram-nas por corretores ortográficos automáticos. Isso foi um equívoco, o nome já diz tudo: “Corretores Ortográficos”. Uma revisão vai além disso. Mas nem por isso esses meios eletrônicos deixaram de ser úteis. Eles podem auxiliar os revisores textuais. Rocha (2009), em seu site, diz:

Gramática e Ortografia - A primeira providência é passar um corretor ortográfico eletrônico, caso você disponha de um. Esta funcionalidade está presente no MS Word e é acessível através da tecla F7. É importante ressaltar que o corretor ortográfico vai apenas ajudá-lo a identificar possíveis pontos com problemas. Não confie nele para fazer todo o trabalho sozinho! Sempre que o corretor indicar algum erro, verifique se o erro realmente existe e se as correções sugeridas são plausíveis. Ultimamente, tenho lido muito material nas comunidades do Orkut relacionadas à literatura e tenho encontrado erros básicos imperdoáveis. A maioria deles está na grafia das palavras, principalmente no uso do S e do Ç. É neste ponto que o corretor pode ajudar bastante. De qualquer forma, dedique um tempo para estudar as principais regras gramaticais e tenha sempre um guia de consulta à mão. Leia muito, assim você assimila regras e grafias de forma inconsciente e passa a escrever com mais qualidade. (Consultoria Assessoria Literária Preparação de Originais (Copidesque) Revisão Técnica).

Corrigir textos impressos ou digitais, sem mostrar os erros aos redatores, não é correto. Corrigir textos não é ensinar os autores escreverem textos bons para a circulação. Contudo, os revisores devem mostrar-lhes onde estão errando, para evitar a ocorrência dos mesmos erros. Neste caso, as ferramentas do Word 2007 são úteis para marcar o rastro da revisão por meio digital. Para isso, os revisores devem fazer bom uso da opção “Revisão”. Faz parte da “Revisão”, o grupo “Controle” que Blumer e Paula (2008, p. 179) descrevem a seguir:

● Controlar Alterações: Controla todas as alterações feitas no documento, incluindo inserções, exclusões e alterações de formatação. 

Balões: Escolhe a forma de mostrar as revisões feitas no documento. Você pode mostrar as revisões como balões nas margens do documento ou mostrá-las diretamente no documento.

Exibir para Revisão: Escolhe a forma de exibir as alterações propostas no documento.

Mostrar Marcações: Escolhe o tipo de marcação a ser exibido no documento.

Painel de Revisão: Mostra as revisões em uma janela separada.

As ferramentas do Software Word 2007 são muito úteis, mas com a ação do revisor. Esses recursos permitem aos revisores a interação com os autores, estes, por sua vez, poderão ver as alterações e avaliar a revisão. Assim, é necessário que todos os revisores saibam lidar com essas respectivas ferramentas, para tornar suas práticas transparentes, colaborando para que os autores tenham domínio sobre as alterações realizadas no texto. Na verdade, é interessante que todos os profissionais saibam lidar com todos os tipos de ferramentas que possam auxiliá-los no desempenho de seu trabalho.

Os corretores automáticos dizem aquilo que está armazenado no seu banco de dados, mas mesmo assim é preciso analisar se as sugestões estão corretas. Essas tecnologias não podem resolver todos os problemas encontrados no texto. E se o autor cismar que o rio Araguaia nasce no sudoeste do estado do Amazonas? Quem irá socorrer o autor? Os corretores automáticos não analisarão se os textos estão coerentes ou não, se as informações estão certas. Os conhecimentos que eles têm da língua são os que foram introduzidos ao seu banco de dados e, por isso, existem palavras que eles desconhecem.

No caso dos revisores de textos, suas linguagens não são armazenadas pela escola ou por indivíduos, são adquiridas por meio de interações com outras pessoas, são formadas gradualmente no interior de suas mentes. Por meio de uma frase, o ser humano é capaz de formular várias outras e, quando desconhece alguma coisa, busca suportes em seus manuais de pesquisas. Diferentemente das ferramentas de revisão do Word que só obedecem aos comandos e não têm evolução autônoma. Em contrapartida, se os revisores textuais estiverem diante de textos que seus conhecimentos não são suficientes para corrigi-los, eles devem buscar conhecimentos ou recursos que facilitarão seu trabalho, evoluindo juntamente com os textos.

4 Revisor e interlocutor

Normalmente, os revisores realizam uma primeira leitura do texto em busca de compreensão e familiaridade. Às vezes, isso se torna angustiante, uma vez que, textos sem clareza, chegam a ser desagradáveis por tornar a leitura cansativa. Muitos leitores chegam a ficar irritados quando percebem qualquer tipo de incorreção. Os escritores, antes de escreverem seus textos, devem ter em vista que escrevem para diversos e diferentes leitores, e que é muito fácil entender a si mesmo, agora, fazer ser entendido é complexo. Cabe, então, aos revisores textuais, realizarem várias leituras dos textos, buscando torná-los melhores, de maneira que os leitores não os desprezem. Luft (1985, p. 20) argumenta: “Ninguém escreve para não ser lido”. Todos os escritores que desejam tornar seu texto público querem despertar a atenção do leitor. Neste assunto, Orlandi (1996) nos orienta:

Há um leitor virtual inscrito no texto. Um leitor que é constituído no próprio ato da escrita. Em termos do que denominamos “formações imaginárias” em análise de discurso, trata-se aqui do leitor imaginário, aquele que o autor imagina (destina) para seu texto e para quem ele se dirige. Tanto pode ser seu “cúmplice” quanto um seu “adversário”. (p. 9)

A responsabilidade do autor é cobrada em várias dimensões: quanto à unidade do texto, quanto à clareza, quanto à não-contradição, quanto à correção, etc. Exige-se uma relação institucional com a linguagem. Uma ilustração disso que estamos falando é a situação comum em que o professor considera certos textos de alunos, até compreensíveis, mas inaceitáveis. O que o professor está cobrando, e está faltando, é que o aluno assuma a posição de autor. (p. 80)

Os autores, ao imaginarem esses interlocutores, criam imagens de pessoas muito exigentes, que manusearão seus textos e irão julgá-los como bons ou ruins. Os interlocutores podem ser também publicitários daqueles textos que leram. Eles podem fazer propagandas tanto positivas quanto negativas, quaisquer deslizes podem ser fatais. Todos os autores que desejam obter sucesso querem alcançar o interlocutor, despertar a curiosidade sem difamação. Apesar de quase todos, bons ou ruins, sofrerem críticas negativas. Da mesma forma que os autores interagem com os leitores por meio da imaginação, os leitores também interagem com os autores. Martins (1994) discorre sobre isso:

Tudo o que lemos, à exceção da natureza (isso se não considerarmos a interferência do homem nela), é fruto de uma visão de mundo, de um sistema de ideias e técnicas de produção, caracterizando um comprometimento do autor com o que produz e, por certo, com seus possíveis leitores. Há, portanto, relação entre texto e ideologias, pois estas são inerentes à intenção (consciente ou inconsciente) do autor, a seu modo de ver o mundo, tornando-se também elementos de ligação entre ele e os leitores de seu texto. (p. 60).

Os revisores precisam posicionar-se como consumidores dos textos. Eles analisarão se os textos dizem tudo o que deve ser dito por si só ou se precisarão de explicações por parte dos autores. Ler textos é dialogar com os autores. Seria correto afirmar, então, que os textos são contextos de interações cujos sentidos são construídos pela ação cognitiva dos que neles se encontram envolvidos.

Os leitores conhecerão o conceito de mundo dos autores, suas ideologias e seu estilo, ao entrarem em contato com os textos e, às vezes, estão em busca justamente desses itens e de alguém com capacidade de raciocínio que os fascinem. Assim, surgem as necessidades da revisão. Os autores sentem o desejo de se apresentarem bem, por meio de todos esses elementos, diante dos leitores que, na maioria das vezes, devoram os textos à procura disso. Procurando pessoas com capacidade de pensamentos que os surpreendam. Os revisores textuais podem contribuir para que os leitores tenham fascínios pelos textos, ao invés de repudiá-los

5 Os Limites Dos Revisores

Os revisores, ao desempenharem as tarefas de revisar, devem compreender que, quem manda e está na origem dos textos são os autores. As correções devem ser feitas dentro dos contextos que os redatores desejam.

É sabido que a linguagem mais prestigiada é a normativa, mas é importante ressaltar que não é a única. Os profissionais da revisão não podem desprezar as variações linguísticas. Elas podem ser úteis e, por essa razão, os revisores devem conhecê-las. Às vezes, ao normatizarem textos, perde-se a função que eles pretendem desempenhar. E se o sentido e a razão de alguns textos estiverem neste mecanismo da variação linguística? Nesse caso, perdem-se os objetivos dos autores. Por essas e outras razões, havendo dúvidas, os autores devem ser consultados. Malta (2000) defende esse assunto:

Cuidado, porém: o bom senso e o profissionalismo exigem que o revisor/copidesque seja fiel ao conteúdo do original. Copidesque que reescreve de cabo a rabo um livro de autor brasileiro ou uma tradução está é querendo se evidenciar, mostrar serviço. Este é um dos problemas do revisor: ele tem de se limitar à sua função. (p. 17)

Copidesques  , os profissionais que exercem essas funções, dão orientações mais profundas, buscando textos mais claros possíveis, mas em parceria com os autores, respeitando seus estilos e objetivos. Malta (2000) traz uma definição mais clara acerca dos copidesques:

E copidesque? O que é isso? Aportuguesamento do inglês copy desk, já adotado pelo Aurélio há muitos anos, é um trabalho mais difícil e exigente do que o de revisão propriamente dito. Copidesque é  até certo ponto  reescrever, retrabalhar um original. É cada vez mais comum as editoras aprovarem a edição de um texto nacional rico de ideias, necessário no mercado editorial, mas mal escrito, com repetições, ausências (de colocações mais claras, de parágrafos de ligação entre as partes de um capítulo etc.), uso inadequado de adjetivos em relação a substantivos (e vice-versa), pobreza nas conjunções adversativas (está abusivo o uso de “entretanto”  parece que muitos autores, tanto de ficção como de textos didáticos e outros,

Copidesque, palavra que se originou do inglês “Copy desk” e já foi inserida ao Dicionário Aurélio. De acordo com esse dicionário: “copidesque é correção às normas gramaticais e aperfeiçoamento estilístico de um texto para a publicação”. nunca viram, ou leram, “mas”, “porém”, “todavia”, “contudo”, “no entanto”). Acima de tudo, uma redação lógica, fluente, entendível deve caracterizar qualquer texto, e este é o trabalho do copidesque. (p. 16)

As revisões devem ser desempenhadas de acordo com os interesses dos autores. As leituras críticas e reflexivas são caminhos para as revisões textuais. Os revisores ou pesquisadores de textos devem estabelecer claramente o que os autores afirmam e porque afirmam. É inútil prosseguir sem que os pensamentos dos autores tenham sido apreendidos. Por essa razão, recomenda-se que, nesta fase das leituras críticas ou reflexivas, os revisores nunca devem perder de vista as normas fundamentais de julgar e analisar as ideias dos autores em função dos propósitos deles, e não em função de seus interesses.

Pode haver autores indecisos, que não sabem que caminhos seguir. Nesses casos, exige-se um esforço maior da parte dos revisores. Eles devem utilizar seus conhecimentos para que os textos alcancem bons resultados. Os revisores podem contribuir para que as pessoas ou empresas organizem seus trabalhos textuais: dar sugestões ou simplesmente corrigir os textos respeitando a vontade dos autores.

Os revisores trabalham com os textos para dar suporte para quem os escreve, mas quem decidirá se as revisões serão aceitas, ou não, são os seus autores. Quem revisa os textos pela primeira vez são os próprios escritores, só que, devido à familiaridade com os textos, eles podem passar por cima de muitas incorreções. Pode acontecer de os autores acharem que os textos estão perfeitos e, ao serem submetidos aos revisores, estes assinalarem tudo o que veem pela frente. Enfim, depois da revisão pronta, os autores lerão os textos fazendo a revisão final, para dizer se aceitam, ou não, as correções propostas pelos revisores.

6 Considerações finais

As leituras, para os revisores, são estratégias que encontrarão para adquirir compreensão, conhecimentos culturais, linguísticos e acompanhar a velocidade da informação. No decorrer deste artigo, como foi possível observar, os princípios mais utilizados foram os de Malta. Com base em suas experiências, os formados ou formandos em Letras e Comunicações, que geralmente são os que procuram pela profissão de revisor, podem analisar a importância da leitura e releitura no ato da revisão, bem como analisar os conhecimentos que devem ter. Os bons revisores devem ter bons conhecimentos da língua em que desenvolvem seu trabalho, ter uma cultura abrangente e ser desejosos de aquisição de conhecimento.

Quanto à redução do quadro de revisores, é possível afirmar que, do ponto de vista econômico, é lucrativo, para as editoras, um único revisor desenvolver o trabalho de uma equipe. Porém, isso não significa que com essa tentativa das editoras, de cortar gastos, as tarefas tenham sido simplificadas. Deixaram-nas ainda mais complicadas, com acúmulo de responsabilidades. Como se não bastasse, com a chegada da informática, muitos pensaram que as tecnologias, entre elas, a ferramenta de correção do programa Word, poderiam até substituir o trabalho do revisor. No entanto, isso não ocorreu, pois esta, apesar de importante, é passível de erro, ficando, portanto, dependente da interferência do revisor.

Os trabalhos dos revisores nos dias atuais são bem mais complexos e exigem uma maior qualificação, atenção e dedicação. Um livro, por exemplo, tem de passar pelas revisões das três provas, como Yamazaki as definiu. Mesmo assim, é possível que erros sejam encontrados na grande maioria dos livros. As possibilidades dos autores obterem sucesso por uma publicação bem revisada é maior. Um texto claro e coerente, sem linguagem rebuscada, pode ser atraente aos olhos do leitor.

Para finalizar, faz-se necessário salientar que os revisores têm autoridade de alterar textos alheios, com a expectativa de torná-los melhores, criar maneiras para facilitar que o leitor construa sentidos com os textos ou esclarecer os sentidos que os autores querem dar aos seus textos. Em suma, ambos, revisor e autor, estão envolvidos no processo de escrita, no sentido de colocar os textos mais claros e legíveis possíveis, lembrando, é claro, que o revisor deve ter sempre em vista seus limites.