O Corpo a Roupa e o Espaço que os Habita
Desenho de Moda
1 O DESIGN DE MODA:
A Moda pode ser entendida como um sistema de produção e de comunicação que introduz mudanças de comportamento e de aparência, de acordo com a cultura e os ideais de uma época. Para Lipovetsky, a moda é um fenômeno que abrange: a linguagem e as maneiras, os gostos e as idéias, os artistas e as obras culturais. Rech o complementa afirmando que os avanços da ciência também abrangem o fenômeno da moda e estão presentes nas mudanças sociológicas, psicológicas e estéticas que ocorrem na sociedade. Moda é, também, uma área privilegiada da experiência estética. Segundo Rosa, ao longo da história, pode-se ver em cada época fatos e eventos que assumem determinada forma rítmica nas semelhanças visuais.
A moda é carregada de conceitos, conteúdos e contextos expressivos, que retratam diferentes épocas em que o homem viveu. Trata-se da repetição destes padrões visuais no seu modo de vestir. De início, os profissionais que trabalhavam neste campo criando produtos de vestimenta para a sociedade eram as costureiras e os alfaiates. Posteriormente, este ramo foi se especializando, separando o processo de criação da execução do projeto. Surgem então os profissionais chamados estilistas e que, mais recentemente, vieram a ser chamados de designers de moda. Segundo Pires “Durante anos, o estilismo correspondeu a tal demanda; porém, a realidade atual requer uma abordagem sistêmica, o que consagra a importância do design.”
A primeira escola de moda surgiu na França no séc. XVII. De lá para cá tem sido uma constante observarmos prestigiados designers da moda européia com formação acadêmica. No Brasil, até meados da década de 80, antes da instituição dos cursos superiores de moda pelas escolas, o brasileiro que desejasse aprender sobre o assunto, ou o autodidata que desejasse aperfeiçoamento, era obrigado a viajar ao alémmar, buscando o aprendizado formal as escolas e nos grandes ateliês da Europa. Na década de 60 o curso de design, até então Desenho Industrial foi introduzido nas Faculdades brasileiras. Na década de 80 se ramifica, surgindo então as primeiras graduações em Moda.
Desde meados de 2000, por recomendação do MEC, os cursos na área da moda, estão sendo autorizados e reconhecidos considerando-se as diretrizes educacionais para o ensino de graduação em design, assim como adotando a nomenclatura design no nome do curso. O que assistimos na contemporaneidade é que o perfil do curso amadureceu, deixando de ter um caráter amador. O profissional de design de moda está atento às necessidades de mercado e hoje auxilia o país a vencer décadas de defasagem tanto no ensino quanto nas tecnologias e meios de produção industrial.
Em um recorte dos postulados de dois grandes teóricos do design, Bonsiepe e Löbach, podemos definir aqui que a atividade do designer é de caráter projetual, criativo e inovador. Seu trabalho origina um produto, objeto ou processo. No que concerne à moda, Rech nos ajuda a categorizar o produto de moda como sendo: qualquer elemento ou serviço que combine as propriedades de criação, qualidade (conceitual e física), ergonomia (vestibilidade), aparência e preço a começar pelas aspirações do segmento de mercado ao qual o produto se reserva. Castilho e Vicentini afirmam que o objetivo do designer de moda é recriar o conjunto de traços que caracteriza a roupa por meio dos aspectos formais. Para isso deve estar atento a tendências, pois, como descreve Preciosa e Hagedorn, pauta-se em freqüentes rupturas e continuidades em sua multiplicidade. A antecipação e a construção de tendências de moda é de suma importância no desenvolvimento de projetos de produtos de moda.
2 PARTICULARIDADES HISTÓRICAS E CONTEMPORÂNEAS DA MODA:
As mudanças na moda não são aleatórias, são o reflexo das alterações sociais e culturais da sociedade que se espelham nas opções dos consumidores. Segundo Pereira, estas opções dependem de vários fatores: socioeconômicos, culturais, pessoais e psicológicos. Assim também afirma Nery: “A indumentária sempre foi um reflexo do gosto contemporâneo, retratando de certa forma o desenvolvimento econômico, cultural e político. A roupa diferenciada identificava camadas sociais profissões, idade ou sexos”. A vestimenta sempre modificou, transformou e até mesmo iludiu o corpo humano. Através de proporções, cores e texturas a história da moda brincou, e ainda se diverte, com corpo desde os primórdios.
“No séc. XX, a moda significava, sobretudo uma maneira de ser, e por extensão, de vestir-se”. Estas características permanecem na atualidade. A linguagem da moda tornou-se acessível a todas as classes sociais. Sempre existirão tribos, ídolos e seus seguidores, mas a autonomia de compor sua aparência conforme suas ideologias e estilo de vida é uma conquista do consumidor contemporâneo, que, mesmo sem saber, está fazendo moda.
Outro diferencial do nosso período foi a complexidade que se agregou à tarefa do designer de moda: conhecer a cadeia produtiva, as matérias-primas e os tecidos, compreender a linguagem e simbologia visual, compreender a montagem da roupa e acabamentos, num ciclo que se renova e onde o produto tem tempo de vida préestabelecido pela cadeia de consumo. E talvez, o mais belo de tudo conste no fato de que esta cadeia não faz de nós reféns de um sistema, mas livres para criar, pois o design não tem fronteiras. A criatividade consiste no desafio do novo e do surpreendente.
O CORPO E A ROUPA, A ROUPA E O CORPO:
Diversos enfoques poderiam ser descritos ao se analisar a relação do corpo humano com a veste e vice-versa. Abordaremos aqui as características analisadas pelo design. As roupas, os acessórios, sapatos e outros objetos que vão envolver o corpo configuram o produto de moda em um primeiro plano, ainda sem adentrar ao universo de valores que a moda carrega com suas criações. Segundo Keller, “A moda é um produto intangível, imaterial e cultural, enquanto a roupa é tangível, material e concreta.” O designer de moda percorre livremente entre idas e vindas no universo tangível e intangível da moda, determinando em um produto seus valores materiais e imateriais, culturais e concretos, colocando em suas criações textos de identidade que serão carregados pelos corpos que vestem as roupas.
O corpo é o suporte da vestimenta, habita e ocupa o seu interior. Martins, estabelece uma leitura do mundo por meio de cinco peles, sendo a primeira a epiderme, a segunda a vestimenta, a terceira a casa do homem, a quarta o meio social e a identidade e a quinta a humanidade, a natureza e o meio ambiente. Cinco peles ocupadas pelas formas do corpo, onde pele epiderme e pele vestimenta se misturam no contexto de proteção e construção de uma identidade única, habitando não somente o espaço físico, mas também o território que determina a existência dentro do contexto da contemporaneidade.
A vestimenta funciona como uma segunda pele, como o primeiro espaço de contenção, dentre tantos outros habitados pelo indivíduo ao longo de sua vida. A roupa é um objeto têxtil capaz de fazer o contato físico do corpo com o meio ambiente, devendo, portanto, cumprir suas funções de proteção, oferecendo segurança e conforto ao usuário. Entretanto a roupa no contexto da moda carrega em si um universo de valores que se distanciam das necessidades práticas do vestir. Como afirmam Castilho e Martins, “No caso da moda, seus textos/ objetos-roupas passam pelo crivo de leituras que extrapolam a sua funcionalidade e adentram às questões de sua valoração subjetiva [...].”
Segundo Souza, são infinitas as possibilidades formais, mas a conformação da vestimenta está atrelada à natureza dos materiais utilizados e às soluções estruturais que permitem, definindo o modo como se articulam ao redor do corpo. O material têxtil é projetado para delimitar um espaço em torno do corpo, configurando silhuetas que se apresentam segundo características de forma, definindo linhas e volumes, e mantendo com o corpo/suporte uma relação de proximidade ou de distanciamento. Leva-se em conta aspectos técnicos e estéticos: a exploração dos recursos da modelagem num jogo de mostrar e ocultar o interior, e conformar a estrutura do corpo; as técnicas de confecção utilizadas e os tecidos e aviamentos escolhidos que afetam sensorialmente a pele; o acabamento interno que se projeta para o exterior.
No exterior, tem-se a superfície do tecido e características como cor, brilho, transparência, texturas de relevo e estampas, aspectos visuais por meio dos quais se processa a comunicação do indivíduo com o seu entorno. No interior, configura uma espacialidade, um habitat, cujo volume em torno do corpo seja de distanciamento ou de proximidade, deve ser concebido conforme as necessidades do usuário e as características do material peso, elasticidade, maleabilidade, aderência, texturas diversas, entre outras que em contato com a pele, provoca sensações táteis Na relação corpo/têxtil, tem-se um novo elemento a ser considerado, que é o espaço.
A forma e o espaço são apresentados não como fins em si mesmos, mas como meios para solucionar um problema em resposta a condições de função, propósito e contexto. Segundo Saltzman essas questões incitam a novas concepções morfológicas que convidam a postular o design como um circuito espacial contínuo entre o dentro e o fora, propondo uma dinâmica formal que induz a questionar os limites do pensamento construtivo e a utilidade da vestimenta.
O HABITAR DA ROUPA:
Segundo Souza, o vestuário estabelece um espaço para conter o corpo. Essa espacialidade é determinada pela estrutura anatômica e mobilidade corporal, constituindo-se em volumes que aderem, aproximam-se e se afastam do corpo ou ainda se projetam além de seus limites. Esse espaço pode ser aferido: possui dimensões físicas de comprimento, largura e profundidade, cujas relações de proporção e resultado formal estão atrelados à natureza das atividades a serem ali acomodadas. Outros fatores como: o tipo de materiais utilizados, os elementos construtivos e a estrutura da peça também podem limitar as suas dimensões, interferindo na proporção.
Extrapola-se o limite da vestimenta para além da proteção, a fim de transformála num modo de habitar o território de identidade. Como afirma Castilho e Martins, “Ele, o corpo, constrói assim significados, manifestações textuais que se deixam apreender e significar pelos efeitos de sentido que produzem justamente ao criar processos de identidade para ele mesmo e para a moda, que são postos em circulação”. Hoje, a distorção do corpo pela veste é encorajada pela moda. O inusitado, o diferente, o visual bem trabalhado é vangloriado e dá personalidade individual do ser. A edição do corpo é feita constantemente, tendo a moda como estimulo para compor um novo design, uma nova forma. O corpo sendo corrompido pelos modismos cíclicos e passageiros, para que dessa forma acompanhe um ao outro no mesmo plano de expressividade.
O corpo humano não mais é limitado por suas proporções plásticas. A moda não mais é limitada pelas proporções plásticas do corpo. As proporções são completamente alteradas pela veste, trazendo dessa relação entre corpo e roupa um novo corpo. De acordo com Castilho e Vicentini, as roupas acrescentam a anatomia humana novas configurações, definindo essas novas formas como re-design do corpo. A ilusão tornou-se realidade. Chegou o momento, a moda rompe as barreiras do corpo humano de forma significativa. Em tempos de imagens fortes, acabaram as sutilezas, e as formas da veste tornam-se consagradas.