Dependência Química e Terapia Cognitivo Comportamental
Noções Básicas em Terapia Cognitivo-Comportamental
1 Terapias Cognitiva e Cognitivo-Comportamental em dependência química
RESUMO:
Este artigo descreve o estado atual da Terapia Cognitiva, Comportamental, Prevenção de Recaída e Treinamento de Habilidades no tratamento de usuários de drogas. O objetivo é apresentar uma revisão sobre teorias e técnicas da Terapia Cognitiva e outras abordagens que dela derivam. Terapias Cognitiva e Comportamental, bem como Prevenção da Recaída e Treinamento de Habilidades, são tratamentos limitados no tempo, orientados em uma meta, e que utilizam sessões estruturadas, assumindo, assim, uma postura diretiva e ativa. Nós salientamos algumas diferenças entre Terapia Cognitiva, Prevenção de Recaída e Treinamento de Habilidades. A Terapia Cognitiva tem seu foco prioritariamente nos pensamentos, crenças, sentimentos e circunstâncias, como base do comportamento disfuncional. A Prevenção de Recaída e o Treinamento de Habilidades baseiam-se nas teorias comportamentais, além da teoria Cognitiva. Esperamos apresentar os últimos achados científicos para ajudar o psiquiatra geral a melhorar o tratamento da dependência química.
Introdução:
Nas últimas décadas, houve um grande avanço no uso clínico da Terapia Cognitiva (TC) aplicada a diversos transtornos psiquiátricos - transtorno de ansiedade; transtorno de personalidade; transtornos alimentares; diversas situações de crise1 e transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas.2,3,4,5 Esse interesse sobre TC se deve aos resultados promissores de pesquisas controladas que confirmaram sua eficácia para o tratamento da depressão quando comparada a grupos-controles.6 A partir de então, a Terapia Cognitiva,6,7,8 a Terapia Comportamental (BT)9 e a Terapia Cognitivo Comportamental (TCC)10,11 foram pesquisadas para outros transtornos mentais e mostraram-se eficazes, em vários estudos clínicos, para o tratamento da dependência química e dos outros transtornos psiquiátricos. Este artigo não pretende esgotar o assunto das terapias de linhas comportamentais e cognitivas. Ele se propõe a discutir com mais detalhes: 1) as teorias cognitivas e comportamentais; 2) as principais técnicas da TC; e 3) as técnicas utilizadas pela Prevenção de Recaída (PR)8 e Treinamento de Habilidades (TH).
O elo entre a teoria cognitiva e a teoria comportamental
Pela teoria cognitiva, a dependência química resulta de uma interação complexa entre cognições (pensamentos, crenças, idéias, esquemas, valores, opiniões, expectativas e suposições); comportamentos; emoções; relacionamentos familiares e sociais; influências culturais; e processos biológicos e fisiológicos. A TC, obviamente, focaliza primordialmente os processos cognitivos. Estes, por sua vez, interagem com os sistemas emocionais, ambientais e fisiológicos, determinando se uma pessoa terá maior ou menor probabilidade de ser dependente. A prática clínica da TC prescinde da teoria. Assim, a TC pode ser considerada a aplicação da teoria cognitiva de psicopatologia a um caso individual. Ela relaciona os vários transtornos psiquiátricos a variáveis cognitivas específicas e se fundamenta em diversos princípios formais e abrangentes. Na teoria da TC, a natureza e a função do processamento de informação e de atribuição de significados aos acontecimentos da realidade constituem a chave para entender o comportamento mal adaptado.
A teoria comportamental da dependência química tem seu foco nas teorias do aprendizado social (condicionamento clássico, aprendizagem instrumental e modelagem), que será detalhado mais adiante. Entretanto, cognições e comportamentos têm intima relação. A teoria cognitiva tem como uma de suas premissas básicas o fato de que a cognição tem primazia sobre a emoção e sobre o comportamentos. Em outras palavras, para a teoria cognitiva, mais importante que a situação real são as cognições associadas a elas. São as avaliações atribuídas à situação específica que influenciam as emoções e os comportamentos. Além disso, no processo terapêutico, as mudanças cognitivas precedem as mudanças emocionais e comportamentais. Embora haja significativas diferenças entre a teoria cognitiva e a teoria comportamental, tem sido debatido, ultimamente, que a teoria cognitiva constitui-se como unificadora para a psicoterapia e para a psicopatologia. A TC utiliza um conjunto de técnicas dentro do enquadre do modelo cognitivo da psicopatologia, mas utiliza também técnicas derivadas dos modelos comportamentais. Dada esta complexa relação, recomendamos que a Terapia Cognitiva, a Terapia Comportamental e, principalmente, a combinação delas, sejam aplicadas por profissionais devidamente treinados, com formação e que dominem o conhecimento teórico. Já a Prevenção de Recaída e o Treinamento de Habilidade não consistem formalmente num modelo de terapia. A PR e o TH assentam-se nas teorias cognitivas e comportamentais e sua aplicação clínica baseia-se em técnicas mais aprimoradas para o comportamento de uso de drogas. Portanto, a PR e o TH são ideais para serem utilizados pelos psiquiatras gerais, com treinamento adequado, sem a necessidade da formação nem das supervisões recomendadas por Beck, no caso da TC e TCC.
Teorias e técnicas comportamentais aplicadas à dependência química
Vários estudos controlados, aleatórios, mostraram a eficácia da BT para redução do uso de drogas e problemas associados. Ela pode ser aplicada em diferentes locais (ambientes hospitalares, ambulatoriais e domiciliares) e em diferentes modalidades (individual, grupal e familiar).9 A BT dispõe de diversas técnicas, descritas a seguir, e ainda pode ser combinada com outras modalidades de tratamento, como a Entrevista Motivacional. A B T se concentra em estratégia para modificação e melhora do estado motivacional e explora comportamentos associados ao uso de drogas, com vistas a mudar o estilo de vida e os comportamentos de risco para uso de droga.
Teorias, técnicas e estrutura das sessões
As teorias que sustentam a BT remontam às clássicas experiências laboratoriais do início do século XX, que representaram um marco na história da psicologia.24,25,26 Descrevemos a seguir as principais teorias.
Teoria do Aprendizado Social
De acordo com Heather, o homem não é um ser totalmente racional. Persistem, na espécie homo sapiens, processos instintivos. Este mecanismo instintivo permite que as pessoas ajam pelos meios aos quais estão mais acostumadas a fazê-lo. A teoria do Aprendizado Social estuda, de forma sistemática, como os humanos aprendem a agir, pensar e sentir em determinadas circunstâncias. Esse aprendizado se dá em diversos níveis, mas destacaremos, aqui, os dois principais: condicionamento clássico e aprendizagem instrumental.
Condicionamento clássico
Pavlov, conduziu um experimento em laboratório que demonstrou que um estímulo neutro poderia ser transformado em estímulo condicionado pelo aprendizado. Ao tocar um sino (estímulo neutro) e oferecer carne repetidas vezes a um cão (estímulo não-condicionado), este salivava. Depois de certo tempo, ao tocar o sino, mesmo na ausência da recompensa, o cão ainda salivava. O barulho do sino passou a ser um estímulo condicionado ao alimento e a salivação se tornou uma resposta condicionada ao barulho do sino. Este modelo pode ser aplicado aos comportamentos humanos. Chidress et col., mostrou a relação entre a exposição de pacientes a determinadas situações, lugares, objetos e pessoas, com a reação deles a estes sinais e afirmou que esse conhecimento poderia ser útil para melhorar a habilidade de enfrentamento dos pacientes ao uso de drogas. Observemos que o foco da teoria comportamental está nas situações de alto risco e no comportamento de uso de droga. A teoria cognitiva tem seu foco voltado às cognições que evocam a fissura e aos pensamentos e crenças que facilitam o comportamento de busca e de uso da droga. Baseando-se nesses princípios, o terapeuta comportamental faz um mapeamento, junto com o paciente, sobre as situações, lugares, companhias, etc, que estão condicionados ao uso da droga. Ele ajuda o paciente a reconhecer estes sinalizadores e a traçar novos comportamentos, visando desfazer alguns estímulos que se condicionaram ao uso da droga.
Aprendizagem instrumental
Esta teoria decorre da existência de primórdios biológicos que atraem os humanos para a busca de prazer imediato e evitação das situações que os privem de satisfação ou imponham sofrimento. O maior expoente do condicionamento operante foi Skinner. Ele demonstrou que reforços positivos (satisfatórios) ou negativos (desprazer) influenciavam o comportamento. A BT postula que a vida do dependente químico é desprovida das recompensas cotidianas (contatos sociais, amigos, diversões). Além disso, os pacientes têm dificuldades para lidar com afetos negativos, críticas ou frustrações. Por outro lado, os próprios efeitos bioquímicos da droga provocam sintomas desagradáveis e disfóricos na ausência dela. De acordo com a Teoria da Aprendizagem Instrumental, a droga representa um reforço positivo momentâneo para o paciente que não encontra recompensas em outros comportamentos. O terapeuta comportamental encoraja o paciente a encontrar prazer em outras situações que não ofereçam riscos e ajuda no manejo da síndrome de abstinência, com vistas a encontrar outras recompensas que não sejam pelo uso da droga.
Atualmente, com os avanços das pesquisas neuroquímicas em dependência química, esta técnica pode ser questionada por dois caminhos: 1) Pesquisas recentes postulam a hipótese de que algumas pessoas apresentam uma dificuldade biologicamente determinada para obter prazer em atividade cotidianas e tendem a buscá-lo em atividades de risco como esportes radicais e uso de drogas. Postulou-se que essas pessoas tinham Deficiência do Sistema de Recompensa Cerebral.31 Embora ainda não comprovada, esta teoria invalidaria a técnica de busca por atividades prazerosas em coisas simples. 2) Na busca por outras atividades recompensadoras, o paciente pode manter algumas cognições distorcidas. Ele pode esperar que encontre em alguma atividade livre de riscos o mesmo prazer, intenso e imediato, ocasionado no momento de uso de droga. Entretanto, por questões óbvias, nenhum prazer se equipara àquele ocasionado pela droga e o paciente pode se frustrar e passar a não acreditar na terapia e no terapeuta. O terapeuta comportamental deve estar atento a estas questões, para não gerar expectativas infundadas
Outra técnica, utilizada com base na Teoria da Aprendizagem Instrumental, são as abordagens psicossociais descrita por Budney e Higgins. Eles incorporaram na terapia alguns reforços positivos - os Vouchers. Este programa de tratamento necessita de três amostras semanais de urina para screening de droga. Na ausência de droga ao exame, o paciente recebe um sistema de Vouchers atribuindo pontos que podem ser trocados por objetos consistentes com um estilo de vida sem drogas, como artigos desportivos e bilhetes para espetáculos culturais e cinemas. Em dois estudos clínicos controlados, Higgins e colaboradores, observaram alta taxa de aceitação, retenção e abstinência nos pacientes que seguiram o programa baseado em Vouchers, quando estes foram comparados aos pacientes que receberam o tratamento padrão. Ao substituir os Vouchers por outras formas de incentivos de menor valor, os desfechos não apresentaram diferenças significativas se comparados ao sistema de Vouchers.
Teoria e técnica cognitiva aplicada à dependência química
A TC é uma abordagem estruturada ou semi-estruturada, diretiva, ativa e de prazo limitado. Ela se fundamenta na racionalidade teórica de que o afeto e o comportamento de um indivíduo são, em grande parte, determinados pelo modo como ele estrutura o mundo. Neste sentido, mais importante do que a situação real, é a avaliação que o indivíduo faz a respeito dela. Uma mesma situação pode, portanto, desencadear diferentes emoções (tristeza, raiva, ansiedade, etc). Por exemplo, imaginemos um indivíduo que chega à garagem do seu prédio e percebe que esqueceu as chaves do carro no apartamento. Ele pode avaliar esta situação de várias maneiras. Exemplifiquemos duas: 1) ao perceber que está sem as chaves, ele pode pensar que é uma pessoa azarada e que seu dia começara ruim; a emoção que acompanha essa avaliação é tristeza e desânimo. Com este sentimento, seu desempenho no trabalho tende a ser baixo. 2) ele pode, ao contrário, pensar que, se subir ao apartamento para pegar as chaves, vai se atrasar. A emoção que ocorre neste caso é ansiedade. Ele chega ao trabalho tão ansioso que não consegue seguir a programação do dia: seu desempenho também cai. O objetivo da TC é reestruturar as cognições disfuncionais e dar flexibilidade cognitiva no momento de avaliar situações específicas. como a exemplificada acima. A TC visa à resolução de problemas focais, objetivando, em ultima análise, dotar o paciente de estratégias cognitivas para perceber e responder ao real de forma funcional. A TC contrasta com a BT por dar maior ênfase às experiências internas (pensamentos, sentimentos, desejos). O terapeuta cognitivo formula as idéias e crenças disfuncionais do paciente sobre si, sobre suas experiências e sobre seu futuro em hipóteses e, então, testa a validade dessas hipóteses de uma forma objetiva e sistemática. Os pilares conceituais da prática de TC são os seguintes:
Os Esquemas são estruturas psíquicas que contêm avaliações firmemente estabelecidas. O Esquema, se traduzido em palavras, forma criações hipotéticas chamadas de Crenças Básicas. As Crenças Básicas, quando disfuncionais, caracterizam-se por serem irracionais, super generalizadas e rígidas. Levam a sofrimento psíquico e comportamentos mal adaptados, além de impedirem a realização de metas. O Quadro I mostra alguns exemplos de Esquemas Cognitivos disfuncionais e suas respectivas Crenças Básicas.
- Pensamentos automáticos
As Crenças Centrais Básicas são avaliações genéricas sobre si mesmo, sobre o outro e sobre a relação com o mundo que o cerca. Na maioria das vezes, tais crenças não são conhecidas e claras para o indivíduo (são inconsciente) mas, sob determinadas circunstâncias, influenciam a percepção sobre as coisas e é expressa como pensamento automático, específico a uma situação. Os pensamentos automáticos derivam de um erro cognitivo e têm íntima relação com as crenças. O Quadro III exemplifica alguns erros cognitivos e pensamentos a eles associados.
- Estratégia compensatória
São comportamentos que visam aliviar ou anular os pensamentos automáticos e emoções negativas.15,19 Por exemplo, imaginemos um paciente músico, diante de uma situação na qual vai se apresentar publicamente. Ocorre-lhe um pensamento: Vou errar. Lembrando que o pensamento automático é uma constatação inflexível, o paciente sente-se triste, com medo e ansioso. Ele, então, faz uma suposição: se eu beber, conseguirei ficar menos ansioso e poderei me apresentar. Pede uma bebida alcoólica e bebe. O comportamento de busca e ingestão do álcool é um exemplo de Estratégia Compensatória. Poderíamos nos perguntar: por que esse conjunto de cognições ocorreu? Uma explicação possível seria a seguinte: o fato de ser exposto a essa situação ativou, neste paciente, um Esquema disfuncional que, em palavras, seria: Sou inadequado; Sou incapaz. A partir desta ativação, desencadeou-se todo o processo cognitivo descrito. O terapeuta cognitivo chega a hipóteses semelhantes à descrita acima ao longo do processo terapêutico. Ele vai testando, reconstruindo suas hipóteses e se aproximando da Estrutura Cognitiva do paciente. Essa construção da hipótese cognitiva global é chamada de Conceituação Cognitiva, cujo conceito segue abaixo.
- Conceituação Cognitiva
A Conceituação Cognitiva é uma hipótese sobre pensamentos, suposições, emoções e crenças do paciente. Ela pode ser reformulada no decorrer da terapia, à medida que novas informações e evidências vão se reunindo.
Formulação da hipótese de Conceituação Cognitiva
As experiências de vida precoce podem influenciar o desenvolvimento de uma Crença Básica disfuncional.Imaginemos o seguinte exemplo: um paciente com diagnóstico de Uso Nocivo do Álcool e Episódio Depressivo relata, em sua história infantil, que o pai era extremamente crítico, desvalorizava o que ele fazia e o comparava com o irmão mais velho o tempo todo. O paciente, no plano inconsciente, começa a formular, através destas e outras experiências, uma hipótese sobre si mesmo (sua auto-eficácia, sua condição de ser querido, etc), formando os Esquemas. Essa avaliação sobre si mesmo, em palavras, compõe a Crença Básica.Por exemplo, constroem-se algumas crenças, tais como não sei fazer nada certo, meu pai não gosta de mim, não sou uma pessoa querida. A partir da crença, o paciente faz algumas suposições. Por exemplo: não sou querido porque não faço nada certo, logo, se eu me esforçar muito, eu conseguirei fazer algo bem feito e, se nunca errar, meu pai gostará de mim. Essas suposições influenciarão, inevitavelmente, o seu comportamento.Diante de situações específicas, essas crenças e suposições serão ativadas e ele desenvolverá padrões comportamentais denominados de Estratégias Compensatórias. As Estratégias Compensatórias visam aliviar a aflitiva Crença Básica. Diversas situações de vida podem ativar a mesma Crença Básica. Entretanto, para cada situação, o comportamento pode variar.
- Situação 1:
Após a aula, ele está deitado, sozinho, no seu quarto, refletindo sobre seu desempenho acadêmico. Ocorre-lhe, então, um pensamento automático: sou o pior aluno. A este pensamento ele atribui um significado: Eu sou incapaz. A emoção que decorre dessa cognição é tristeza e uma sensação vívida de fracasso. Então, ele decide parar de estudar. Observemos que, de forma genérica, a situação ativou um Esquema de Incapacidade que fora construído ao longo da vida do paciente, através de sua história infantil e experiências precoces. O Esquema influencia a formulação de pensamentos que sejam compatíveis com o seu conteúdo. Para um conteúdo de Incapacidade, o pensamento é sou o pior. Este, por sua vez, influencia a emoção, que mantém coerência com o pensamento e Esquema. O paciente, então, sente-se triste e seu comportamento é abandonar a escola. Observemos que o comportamento abandonar a escola é uma Estratégia Compensatória de fuga para aliviar o Esquema de Incapacidade.
- Situação 2:
Ao estudar um texto sobre gramática, o paciente acha o conteúdo difícil e percebe que precisa ler o texto outra vez e pensa: vou perder a tarde por culpa deste professor que me exigiu estudar gramática e eu não sou inteligente o suficiente para aprender isso. A emoção evocada é irritação e tristeza. Ele fecha o livro e vai beber. Neste exemplo, a situação ativou Esquemas de Vulnerabilidade e Incapacidade. O comportamento de fechar o livro e beber foi uma Estratégia Compensatória que o auxiliará a lidar com os Esquemas ativados. Observando a Figura II, notamos que, ao ter contato com a droga, o paciente desenvolve um outro grupo de crenças relacionadas à situação usar droga. As crenças relacionadas à droga mantêm uma relação coerente com as Crenças Básicas de caráter mais genérico. Assim, o modelo cognitivo postula que a dependência é resultado da interação entre o contato inicial com a droga e as cognições que se formarão por influência das Crenças Básicas. Não são, portanto, todas as pessoas que, ao ter contato com a droga, desenvolverão dependência.
As crenças relacionadas às drogas são de duas naturezas: 1) facilitadoras e 2) de expectativas positivas. O paciente, ao avaliar sua situação de estudante como muito árdua, começa a pensar que merece descontrair-se no bar durante o período da tarde; que beber melhora o estresse; e que vai ser agradável a conversa com os amigos. Estas crenças são suficientes para eliciar pensamentos automáticos como vou beber e desencadear a fissura. Outras crenças, agora na vigência da fissura, aparecem: são Crenças Facilitadoras. Por exemplo, não consigo suportar a vontade; só há um modo de melhorar essa vontade: usar!. Esse conjunto de cognições impulsiona o paciente ao uso, fechando um ciclo cognitivo para o uso continuado da droga.
2 Técnicas utilizadas pela Terapia Cognitiva
Prevenção da Recaída (PR)
Técnicas da PR Técnica 1: Identificação do estado de motivação
Técnica 2: Identificação das situações de risco
Técnica 3: Mudança do estilo de vida
Técnica 4: Identificação do processo da recaída
Técnica 6: Fatores cognitivos associados à recaída:
Técnica 7: Confluência de situações de risco
3 Diversos transtornos:
Nas últimas décadas, houve um grande avanço no uso clínico da Terapia Cognitiva (TC) aplicada a diversos transtornos psiquiátricos - transtorno de ansiedade; transtorno de personalidade; transtornos alimentares; diversas situações de crise e transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas. Esse interesse sobre TC se deve aos resultados promissores de pesquisas controladas que confirmaram sua eficácia para o tratamento da depressão quando comparada a grupos-controles.
A partir de então, a Terapia Cognitiva, a Terapia Comportamental (BT) e a Terapia Cognitivo- Comportamental (TCC) foram pesquisadas para outros transtornos mentais e mostraram-se eficazes, em vários estudos clínicos, para o tratamento da dependência química e dos outros transtornos psiquiátricos. Este artigo não pretende esgotar o assunto das terapias de linhas comportamentais e cognitivas. Ele se propõe a discutir com mais detalhes: 1) as teorias cognitivas e comportamentais; 2) as principais técnicas da TC; e 3) as técnicas utilizadas pela Prevenção de Recaída (PR)8 e Treinamento de Habilidades (TH).
O elo entre a teoria cognitiva e a teoria comportamental Pela teoria cognitiva, a dependência química resulta de uma interação complexa entre cognições (pensamentos, crenças, idéias, esquemas, valores, opiniões, expectativas e suposições); comportamentos; emoções; relacionamentos familiares e sociais; influências culturais; e processos biológicos e fisiológicos. A TC, obviamente, focaliza primordialmente os processos cognitivos. Estes, por sua vez, interagem com os sistemas emocionais, ambientais e fisiológicos, determinando se uma pessoa terá maior ou menor probabilidade de ser dependente.
A prática clínica da TC prescinde da teoria. Assim, a TC pode ser considerada a aplicação da teoria cognitiva de psicopatologia a um caso individual.Ela relaciona os vários transtornos psiquiátricos a variáveis cognitivas específicas e se fundamenta em diversos princípios formais e abrangentes. Na teoria da TC, a natureza e a função do processamento de informação e de atribuição de significados aos acontecimentos da realidade constituem a chave para entender o comportamento mal adaptado
A teoria comportamental da dependência química tem seu foco nas teorias do aprendizado social (condicionamento clássico, aprendizagem instrumental e modelagem), que será detalhado mais adiante. Entretanto, cognições e comportamentos têm intima relação. A teoria cognitiva tem como uma de suas premissas básicas o fato de que a cognição tem primazia sobre a emoção e sobre o comportamento. Em outras palavras, para a teoria cognitiva, mais importante que a situação real são as cognições associadas a elas. São as avaliações atribuídas à situação específica que influenciam as emoções e os comportamentos. Além disso, no processo terapêutico, as mudanças cognitivas precedem as mudanças emocionais e comportamentais.
Embora haja significativas diferenças entre a teoria cognitiva e a teoria comportamental, tem sido debatido, ultimamente, que a teoria cognitiva constitui-se como unificadora para a psicoterapia e para a psicopatologia. A TC utiliza um conjunto de técnicas dentro do enquadre do modelo cognitivo da psicopatologia, mas utiliza também técnicas derivadas dos modelos comportamentais. Dada esta complexa relação, recomendamos que a Terapia Cognitiva, a Terapia Comportamental e, principalmente, a combinação delas, sejam aplicadas por profissionais devidamente treinados, com formação e que dominem o conhecimento teórico.
Já a Prevenção de Recaída e o Treinamento de Habilidade não consistem formalmente num modelo de terapia. A PR e o TH assentam-se nas teorias cognitivas e comportamentais e sua aplicação clínica baseia-se em técnicas mais aprimoradas para o comportamento de uso de drogas. Portanto, a PR e o TH são ideais para serem utilizados pelos psiquiatras gerais, com treinamento adequado, sem a necessidade da formação nem das supervisões recomendadas por Beck, no caso da TC e TCC.